Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 46 de 80

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Diário de África

Ferros de frechas dos Ambuelas

 

Colocado o galo convenientemente disparou-lhe oito frechas que trazia, fazendo péssimos tiros.

Outros indígenas entusiasmaram-se com o divertimento, e começou um chuveiro de frechas em torno do pobre animal, e ainda que alguns se acercaram a quarenta passos, foi de meio metro distante do alvo o tiro mais certeiro. Eu então disse aos Bihenos que dava o galo a quem o mata-se. Vieram os melhores atiradores de frecha da comitiva, e quem melhores tiros fez foi o preto Jamba, de Silva Porto, que chegou a cravar uma seta a cinco centímetros do galo, que ficaria vivo, se eu o não matasse com um tiro da minha carabina Winchester.

No mato em que estava acampado havia uma enorme quantidade de aranhas brancas, com o corpo volumoso como uma ervilha, que mordiam, causando uma dor violenta mas passageira.

O acampamento esteve sempre cheio de mulheres, talvez por estarem ali comigo as filhas do régulo. Usam elas grande número de manilhas de ferro da espessura de dois a três milímetros de seção quadrangular, tendo as duas arestas exteriores picadas.

Quando dançam (e dançam muito as Ambuelas), só o tinir das manilhas é uma música.

Elas cumprimentam-se umas ás outras batendo repetidas vezes com as mãos abertas nos peitos nus.

Um costume que encontrei entre todos os povos Ganguelas, mas mais rigorosamente cumprido no Cuchibi, é o modo de falar aos sovas ou sovetas.

A pessoa que fala, diz o que quer dizer ao sova, a um dos pretos que ele tem ao seu lado; este repete o recado a um segundo preto, que o transmite ao sova. A resposta segue pelas mesmas vias.

A explicação que me deram disto foi a seguinte:-A pessoa que dá o recado, ouvindo repetir depois duas vezes o que disse, pode corrigir alguma interpretação errónea que houvesse da sua ideia, e o mesmo se dá com quem responde.

Eu suponho, porém, que há ali mais alguma coisa, e que os sovas estabeleceram o uso, para durante a repetição tríplice da arenga, terem tempo de preparar a resposta.

De Lionzi fui dar um passeio de caça pelo rio até à sua confluência com o Cuando, cuja posição marquei grosseiramente, por não ter podido fazer observações, mas que, ainda assim, não deve ter grande erro, por haver eu determinado perfeitamente a posição de Lionzi.

Junto à confluência do Cuchibi, encontrei duas grandes povoações Ambuelas, Linhonzi e Maramo, e entre elas e Lionzi, uma grande povoação, Chimbambo.

Na confluência do rio Queimbo está situada a povoação de Catiba, governada por um preto da povoação de Caú-eu-hue, e sujeito ao sova do Cuchibi.

De volta ao meu campo, vim encontrar a minha gente de tal modo entregue ás delicias de Cápua, que não havia força para os arrancar dos braços das formosas filhas desta nova Ninive Africana.

A embriaguez do Bingundo e a embriaguez do amor, tornavam surdos os meus homens a rogos e a ameaças.

O soveta do Lionzi veio ao meu campo, e trouxe consigo um Mucassequer, seu hóspede. Eu entendi-me logo com o Mucassequer, para ele ser guia até ás nascentes do rio Ninda, que eu queria ir demandar; e estando nesse dia de muito bom humor, chamei os pombeiros e disse-lhes, que ia seguir com os Ambuelas e os meus moleques, e que ficassem eles se quisessem, mas que eu lhes levava todos os mantimentos.

Pus-me logo a caminho, guiado pelo Mucassequer e acompanhado das filhas do sova e a sua gente.

Os meus Quimbares, vendo-me partir, deixaram também o campo, e seguiram-me, ficando todos os Quimbundos e os moleques do Veríssimo.

Depois de uma difícil marcha de seis horas através de floresta emaranhada, e onde se não encontra água, alcançámos a margem direita do rio Chicului, abrasados de sede.

Este rio corre num a planície deserta e apaulada, de 1600 a 2000 metros de largo, e a floresta sempre espessa vem terminar onde começa o pântano.

Durante a noite os leões e leopardos rondaram sem cessar o meu acampamento, rugindo em coro infernal.

No dia imediato, decido logo de manhã passar à outra margem.

Passei o rio numa ponte, decerto construída outrora, por comitivas Bihenas, que eu reconstrui, e que me deu fácil passagem; mas não foi igualmente fácil alcançar a floresta da margem esquerda, porque havia a atravessar a planície lodosa, onde nos enterrávamos até por cima da cintura.

O meu Pépéca por vezes ficou só com a cabeça de fora, e deu trabalho a desenterrar.

Foram 1500 metros de travessia difícil e fatigante.

O rio tem 15 metros de largo por 4 a 5 de fundo, com uma corrente de 40 a 45 metros por minuto. Vi nele muito peixe grande e pequeno, e alguns crocodilos de pequeno talhe.

Depois de passar o rio, vi a um quilómetro jusante, uma grande manada de songue, e indo logo ali encoberto pelo mato, consegui matar três.

A minha cabrinha Córa não se separa um momento de mim, e anda em contínuo sobressalto desde que sentiu os leões.

Os meus pretos apanharam muitas aves, variedade de codornizes, com uma poupa branca, e pernas brancas.

Pela uma hora nesse dia, chegaram os meus Quimbundos, e os pombeiros, de orelha baixa, vieram pedir-me mil perdões de não terem seguido na véspera.

Eu andava então de tal modo satisfeito, que tudo perdoei, indo em seguida pescar com um enorme tresmalho que levava, e com o qual apanhei inúmeros peixes muito semelhantes aos mugens ou tainhas dos nossos rios.

Esta rede, tresmalho ou barbal, como lhe chamam os pescadores do rio Douro, foi um presente que me fez meu pai, e que, em muitas circunstancias, foi o único recurso que tivemos para matar a fome.

A doença grave de um dos meus pretos fez-me demorar dois dias naquele ponto; o que me contrariou em extremo, porque, tendo comigo numerosos Ambuelas, as provisões que eu tinha trazido do Cuchibi desapareciam rapidamente, e eu tinha diante de mim um enorme país a atravessar até ao Zambeze, onde nenhum recurso encontraria, além da caça, sempre problemática em África.

Em um dos dias, os Ambuelas foram à floresta em busca de mel, guiados pelos indicators ("indicadores"), e dele fizeram grande colheita.

Muitos naturalistas notáveis, desde Sparman e Leveilant, os primeiros que estudaram esta curiosa ave, até os mais modernos exploradores que tem descrito os seus hábitos, que me perdoem ainda aqui falar dela, e lhes diga, na minha humildade, o que concluí do muito que observei os seus costumes em África.

Que o indicador seja ou não um cuco é coisa de que não faço questão, deixando isso à autoridade dos Bocages e dos Günthers.

Que ele se deva chamar Cuculus albirostris, como queria Teminck, ou somente indicador, como querem outros, é nova questão, em que não entro. Descreve-lo, sendo profano em ornitologia, seria pedantismo; e por isso limitar-me-ei a contar o que lhe vi fazer, e a tirar uma conclusão minha.

Logo que o homem penetra num a floresta dos sertões de Africa Austral, aparece-lhe o indicador saltitando de ramo em ramo, e chegando a aproximar-se, sempre com o seu chilrear monótono. Logo que lhe damos atenção, levanta ele o seu voo pesado, e vai pousar mais longe, vigiando se o seguimos.

Se o desprezamos, volta ele para junto de nós, e continua a saltar e a chilrar, voando outra vez, e formulando muito pronunciadamente o convite de o seguirmos. Cedemos a final e acompanhamos a avezinha, que de ramo em ramo, com voos curtos para nos não perder de vista, nos vai guiando através da floresta, a maior parte das vezes até junto de um ninho de abelhas.

Este caso é o mais vulgar, e é sempre aproveitado pelos indígenas buscadores de cera.

Alguns exploradores, e entre eles o nosso Gamito, dizem, que ele conduz também o homem junto do antro da fera. Esse caso nunca se deu comigo, que segui dezenas de indicators, e nunca encontrei indígena que mo afirmasse.

Conduzir-me junto do cadáver de caça já em putrefação, a um acampamento abandonado de há pouco, a uma lagoa, junto de outra gente, isso me aconteceu a mim, e acontece a todos os que seguem o buliçoso passarinho. E contudo ele nada lucra em guiar os passos do homem para ali.

O que é facto é, que ele leva o homem quase sempre ao mel, e eu suponho que o quer levar sempre, e que são ocasionais os outros encontros, que tem feito impressão a muitos viajantes; encontros nada de estranhar em florestas Africanas.

É mesmo possível, que no caminho para o enxame encontremos o leão, sem que a intenção do pássaro seja a de nos fazer devorar pela fera.

Se porém a regra geral, de ir indicar as abelhas, tem exceções, são elas tantas e tão variadas, que eu atrevo-me a dizer, que o indicador é o verdadeiro apodador da humanidade.

Encontrei junto ao rio Chicului uma pele de cobra de sete metros de comprido por 40 centímetros de largo, afirmando-me os indígenas que as há ali maiores.

Pude finalmente seguir a 9 de Agosto, já desejoso que as filhas do sova do Cuchibi voltassem com a sua gente, porque os mantimentos que trazíamos desapareciam a olhos vistos, e já não era pequeno o meu cuidado pensando no futuro.

Depois de marcha de três horas, encontrei um ribeiro, correndo a S.S.E., e depois de atravessarmos a vão, encontrámos uma lagoa de duzentos metros, que tivemos de vadear com água pela cintura.

Este ribeiro, que entra no Chicului perto da sua foz, é o Chalongo, provavelmente o que nas cartas aparece com o nome de Longo, e que, por uma errada informação, os cartógrafos tem feito correr ao Zambeze.

Durante a passagem da lagoa, vimos alguns abutres descendo com persistência num mesmo lugar, a meio quilómetro de nós. Fui ver o que atraía ali os repugnantes rapaces, e ao longe vi uma nuvem deles esvoaçando sobre um corpo volumoso cercado de hienas, que fugiram sem que eu lhes pudesse atirar. Aproximei-me, e encontrei uma enorme Malanca (Hipotragus equinus) recentemente morta pelo leão.

 

Malanca

A pele do soberbo antílope estava rasgada em tiras pelas garras da fera, e, coisa notável, que eu não pude explicar, as unhas das patas estavam completamente roídas.

 

Os olhos tinham sido arrancados das órbitas, decerto pelas aves rapaces.

Os meus Quimbundos, logo que viram a Malanca, correram sobre ela, e com unhas e dentes disputaram uns aos outros os restos daquela carne bafejada pelas hienas, em mais repugnante espetáculo do que, minutos antes, me tinham oferecido as próprias hienas e abutres. Mais pareciam feras do que homens.

E note-se, que então não havia necessidade, porque eu tinha morto caça, e as provisões feitas no Cuchibi nos tinham em abundancia.

Os meus próprios Quimbares não resistiram à tentação, e juntaram-se aos Quimbundos no repugnante espetáculo.

Meti em ordem a caravana, e fiz seguir avante. Pelo caminho fui pensando no poder que tem a vida selvagem sobre o preto.

1. Cornos vistos de frente.

 

2. Rasto da Malanca

 

Os meus Quimbares, gente meio-civilizada de Benguela, já igualam os Quimbundos em selvageria e embrutecimento.

Eu ás vezes penso, que isto, que se afigura possível a muita gente na Europa, de civilizar o preto em África, é simplesmente absurdo.

O elemento civilizador será por agora tão pequeno junto do elemento selvagem, que este predominará em quanto aquele não tomar proporções enormes.

É preciso que em África haja por cada preto um branco para se realizar esse sonho de muitos espíritos elevados do velho mundo; porque só então o elemento civilizador equilibrará com o selvagem, e poderá vence-lo.

Temos até um exemplo disto com os Böers do Transval, que, Europeus de origem, num século apenas, perderam tudo que de civilização trouxeram da Europa, foram vencidos pelo elemento selvagem do meio em que viviam, e hoje, se são Europeus pela cor e pela religião de Cristo que professam, são bárbaros pelos costumes que tiraram do país.

O notável era, ter eu atravessado tantos povos bárbaros, onde nunca chegou o menor elemento civilizador, e não ter encontrado povo algum pior do que o Biheno, que está em contacto com a civilização da Costa de Oeste.

Ao caminhar pensava eu nisso, e repetia a frase que tantas vezes me tinha repetido o meu amigo Silva Porto: "Olhe que os melhores Bihenos são incorrigiveis, firme-se neste principio e marche com eles." Depois que eu entendia o Hambundo é que bem podia avaliar o que eles eram.

Ás vezes, à noite, na minha barraca, eu escutava as conversas que se falavam em torno de mim, e não se calcula o que eu ouvia.

Uma noite, escutava eu episódios de uma guerra que um ano antes tinha havido no Bihé, contra gente Bihena que não reconhecia a autoridade do sova Quilemo, e entre outros ouvi o seguinte, no meio das gargalhadas e dos sinais de aprovação que os ouvintes dispensavam ao narrador: Contava ele, que uma noite fizera dois prisioneiros, um moleque e uma rapariga pequena, e que, como a pequena chorasse e gritasse por ele lhe ter amarrado fortemente os braços, ele cortou-lhe uma orelha com o machado, e depois deu-lhe com o mesmo machado no pescoço, mas de vagar para a não matar logo. Ele descrevia ao auditório as contorções e gritos da vítima, com grande aplauso dos companheiros, até que narrou o modo porque a tinha morto; coisa de que depois se arrependera muito, porque a família dela, que não sabia do ocorrido, veio oferecer-lhe em resgate três escravos, com que ele poderia ter começado um pequeno negocio.

Não quero narrar mais destas cenas repugnantes, e direi apenas, que se deve avaliar bem, como o chefe de bandidos na Europa não precisa, para sustentar a disciplina na sua horda de réprobos, ter mais energia do que o Europeu que em África tem de comandar tal gente.

Fui acampar à nascente de um córrego chamado Combule, que, a uma milha da sua fonte, vai lançar, para o Oeste, no rio Chicului, as suas águas, que ainda ali não seriam suficientes para mover uma azenha.

Convenci as filhas do sova a voltarem aos seus lares, e fizemos as mais cordiais despedidas. Ainda Opudo arriscou com timidez o pedido, de eu voltar para o Cuchibi, e ir viver entre eles, e Capeu fez-me, mais eloquente ainda, a súplica, com um olhar de mulher, um desses olhares que são a verdadeira força delas, porque são espontâneos, e não aprendidos na escola da garridice.

Não foi sem pesar que vi partir aquelas duas boas raparigas, as duas únicas amizades que percebi em indígenas Africanos.

Ao separarmo-nos, chegou-se a mim o meu guia Mucassequer, e disse-me:- "Eu tenho passado a minha vida no caminho que vais seguir daqui ao Limbai, e por isso conheço bem o país. Leva sempre pronta a tua melhor espingarda, e desconfia de tudo no mato, porque vais viver muitos dias entre feras. Toma cautela sobre tudo com os búfalos do Ninda, no caminho hás de ver sepulturas de gente morta por eles, e mesmo de brancos. Eu sou teu amigo, porque não me fizeste mal, e deste-me pólvora e missangas, por isso te previno." Depois da partida dos Ambuelas, fiquei só com a minha gente, e verifiquei, não sem algum sobressalto, que tinha havido uma redução enorme nos víveres.

No dia imediato, embrenhei-me num a enorme floresta espinhosa, e onde era a miúdo preciso abrir caminho para seguir avante.

Depois de uma fatigante marcha de 5 horas, a mais difícil e atroz que fiz em África, acampei à nascente do rio Ninda, tendo deixado uma grande parte do fato nos espinhos da floresta. Meia hora depois de chegar, estava convertido em verdadeira caricatura, porque estava coberto de bocados de tafetá inglês, onde os espinhos me tinham rasgado as carnes.

Estava pois à nascente do rio Ninda, afamado pela ferocidade dos habitantes das suas margens. Os leões ainda me não tinham devorado; mas cheguei a pensar, que se o quisessem fazer tinham de se apressar, para encontrarem alguns restos do que deixassem milhares de insetos que dirigiam um ataque encarniçado contra mim.

Ao cair da tarde, uma nuvem de moscas, tão pequenas que não tinham mais de um milímetro, caiu sobre o acampamento, e num louco esvoaçar, entravam pelo nariz, pela boca, pelos ouvidos, e enchiam-nos os olhos, dando-nos um verdadeiro suplicio, verdadeira praga.

O acampamento foi rodeado de fortes paliçadas e enormes abatises, tomando-se todas as precauções para que ficássemos ao abrigo de um ataque das feras.

Eu fui acometido por um violento acesso de febre, o que não impediu que, durante a noite, por mais de uma vez saísse da minha tenda a investigar porque ladravam os cães.

Os leões rugiram toda a noite em volta do campo, e sobre a madrugada, um coro de hienas veio completar aquela música infernal.

Não posso deixar de declarar aqui, àqueles que no entusiasmo de uma coragem temeraria se fazem ilusões sobre as belezas da vida das selvas, que a vida entre feras é positivamente desagradável.