Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 67 de 80

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Diário de África

Capítulo 2 · MOZIOATUNIA

 

Logo na manhã do dia 16 fiz os meus preparativos de viagem, e bem pouco trabalho tive, porque Madame Coilard já tinha preparado a parte mais importante deles, a dispensa; tendo eu mesmo de entrevir, para mostrar a impossibilidade de levar tudo o que ela queria que eu levasse, pois que não tinha como carregadores mais do que dois homens, Augusto e Camutombo.

Comigo deveria partir toda a minha gente que eu não quis deixar em Guejuma, receoso de que algum fizesse disparte na minha ausência. Ficaram apenas as minhas bagagens, a minha cabrinha Córa e o meu papagaio Calungo.

Para a África não serve muito o rifão Europeu que diz, "quem tem boca vai a Roma;" mas sim outro se pode inventar para ali, e é ele, que "quem tem bússola vai a toda a parte."

Monsieur e Madame Coilard estavam verdadeiramente aflitos por me verem partir sem guia e a pé Mal sabiam eles quanto me era socia a floresta Africana e como eu sabia andar nela.

Outro motivo de aflição para eles era, a dúvida em que estavam de que me não viesse a faltar água no caminho, por eu não ter meio de conduzir nenhuma, e ser o país em extremo seco. Tranquilizei-os como pude, assegurando-lhes, que não contava morrer de sede.

Como eu devesse demorar-me de 12 a 15 dias naquela excursão, ficou combinado, que eles partiriam para o kraal de Deica, onde eu deveria ir encontra-los.

Finalmente, depois de mil demonstrações da mais afetuosa amizade, parti ás 10 horas, sendo acompanhado durante um quilómetro por Mr. e Madame Coilard, que então se despediram de mim, e voltaram ao kraal.

Segui sempre ao Norte na planície, e uma hora depois encontrei uma emaranhada floresta, em que me embrenhei, para não alterar o meu rumo. Depois de caminhar por quarenta minutos na mata, deparei com uma pequena lagoa de água cristalina, e parei junto dela para deixar passar as horas de maior calor. A esse tempo uma trovoada longínqua fuzilava ao norte, deixando mal ouvir o rebombar dos trovões.

Deixei aquele ponto ás 2 horas, a tempo que se formavam em todas as direções trovoadas ameaçadoras. Ás 4 horas, encontrei um trilho de caça muito seguido de fresco, e indo por ele à descoberta, fui dar a um grande charco lodoso, habitual bebedouro de feras. Acampei ali, e tratámos de construir abrigos contra a chuva que ameaçava cair em abundancia.

Os pedómetros anunciavam a marcha de nove milhas geográficas.

Na manhã seguinte, parti ás 6 horas, e sustentei marcha de 4 horas, interrompida apenas por uma pequena demora, proveniente de um forte chuveiro que caiu pelas sete horas e meia. Parei para comer junto de uma lagoa que dá nascença a um riacho correndo a E.S.E.

Ao meio-dia, segui a N.N.E., mas tive que sustar a marcha ás 3 horas, porque os meus já não podiam dar um passo, tendo os pés despedaçados, pela pedra miúda e solta que encontrávamos desde a 1 hora, no terreno já bastante acidentado.

Eu mesmo, doente e fraco, já não podia suportar as grandes marchas que antes fazia.

Durante a última parte da marcha atravessei três pequenos riachos, que correm a S.E. em leitos basálticos.

As montanhas pedregosas, mas cobertas de vegetação arbórea, correm também a S.E., e não apresentam elevações, acima dos vales, maiores do que 50 metros.

Acampei junto a um pequeno depósito de águas pluviais.

Na manhã seguinte continuei a jornada, sempre em terreno pedregoso e acidentado. Atravessei florestas muito espessas, mas onde se não encontram os gigantes vegetais peculiares à flora intertropical.

Ainda nessa manhã passei dois córregos correndo a S.E.

Desde a véspera caminhava eu em terreno de formação vulcânica. Passou por ali uma revolução enorme, que deixou profundamente assinalada a sua passagem com traços indeléveis, em gigantescas obras de basalto.

No leito dos ribeiros e na escarpa das montanhas, o sol dardejando os seus raios sobre a pedra cor de fogo, faz parecer, que ainda ali correm ondas de lava.

Eu achava-me em boa saúde, mas os meus dificilmente podiam caminhar descalços, por sobre a pedra cortante. Fiz apenas marcha de quatro horas, e fui acampar junto de um ribeiro; tratando logo de construir abrigos para nos acolhermos de uma tempestade iminente.

O sítio do meu acampamento era lindíssimo. Um ribeiro de água cristalina correndo ao N., ficava-me por oeste. Um cômoro coberto de frondoso arvoredo embelezava a leste a paisagem.

No limitado vale, árvores enormes de muito diferentes proporções das que até ali encontrara, cobriam o meu campo formado de quatro pequenas barracas.

Do norte, muito ao longe, o vento trazia um ruido semelhante ao ribombo de mil longínquos trovões. Era Mozioatunia no seu bramir eterno.

Saí a caçar e encontrei profusão de francolins, de que fiz boa provisão.

Matei também uma lebre, muito diferente das da Europa nas cores do pelo, menor em tamanho, mas igual em formas. Tornava-se muito distinta, por ter o dorso e as orelhas quase pretas, e o ventre e cabeça de um amarelo de ocre muito carregado, e pintado de manchas negras.

De volta da caça, observei no meu campo um caso muito singular.

Vi milhares de termites trabalhando ao ar livre, e sem o menor cuidado de cobrirem o seu caminho, já nas árvores já na terra. Passei uma ótima noite, depois de um bom jantar de perdizes.

No dia imediato, logo à saída, passei um pequeno ribeiro que corre a N.O., e depois de se juntar aquele em cuja margem acampei, corre como ele ao N. Segui sempre o curso desse ribeiro num vale pedregoso e árido, e depois de três horas de marcha parei, para descansar e comer o resto das perdizes mortas na véspera. Segui ao meio-dia, mas, uma hora depois, tive de parar.

Muitas trovoadas, que desde manhã fuzilavam perto do horizonte em todas as direções, subiram aos ares e vieram estacionar sobre mim. Uma chuva torrencial caía, ou antes batia, sobre nós, tocada por um vento rijo de N.N.E. Os nimbus espessos e negros, pairavam perto da terra e despediam das suas entranhas carregadas de eletricidade, torrentes de água e torrentes de fogo.