Diário de África
Capeu
"Porque nos desprezas?" perguntou-me ela com modo altivo.
"Por ventura na tua terra tens mulheres mais bonitas do que a minha irmã?" "Nós dormiremos aqui; porque eu não quero que se diga, que as filhas do chefe dos Ambuelas foram expulsas por um branco." Imagine-se a ridícula situação em que eu estava colocado! Era tal a atribulação do meu espírito, que não sabia que responder.
É verdade que a única resposta a dar, era aquela que eu não queria dar.
Na minha barraca estavam sentadas duas mulheres, sobre peles de leopardo; entre mim e elas a vasta fogueira deitava uma luz pálida, que era ainda amortecida pelo verde escuro da folhagem que forrava o interior da cabana.
Os lampejos da fogueira iluminavam a cabeça cândida, e colo nú de uma mulher de dezasseis anos, que me fitava com um olhar lânguido, túmido de desejos, inebriante de lascivas promessas.
Eu via o arfar daquele peito nu, de beleza escultural, e não podia desviar os meus olhos dele.
Lá fora, ao ruidoso som dos batuques, havia um cantar mais brando, e o dançar mais compassado indicava a lassidão dos membros.
Os meus bravos carregadores escolhiam as companheiras da noite.
Eu estava só com as duas raparigas, mais só do que se estivesse muito longe de gente.
"Nós ficaremos aqui, me disse a orgulhosa Ambuela; não quero expor minha irmã aos chascos das mulheres velhas das povoações, e só te digo, branco, que se tu és século do Muene-Puto, eu sou filha do sova." O ridículo da minha posição aumentava; eu sustentava uma luta comigo mesmo para não ceder aos atrativos da jovem selvagem, e não tinha uma palavra a dizer, porque não sabia o que fazer.
Aquela situação picaresca não podia continuar, e eu não sabia como termina-la.
Preferia mil vezes estar em luta com o guerreiro pai, que em tal coloquio com a amante filha.
De repente levantou-se a pele que fechava a porta da barraca, e alguém entrou.
Era a pequena Mariana, que tinha escutado tudo o que se disse na tenda.
Entrou e foi acocorar-se junto à fogueira que atiçou. Depois cumprimentou as Ambuelas batendo repetidas vesses as palmas, como é uso no país, e repetindo a palavra Co-qúé-tú-co-qúé-tú, e disse-lhes: "O branco não as despreza; se as não deixa dormir aqui, é porque aqui só eu durmo, o branco é meu. Junto desta está a minha barraca, podem ir dormir ali." As filhas do sova Caú-eu-hue levantaram-se e saíram com a pequena, a quem eu daria tudo para pagar tal serviço; mas, momentos depois, voltava Opudo, e dizia-me baixo, "Hoje dormimos fora, mas tu hás de ser amante da minha irmã." Confesso que me meteu medo aquela mulher, a mim que nunca temi as feras!
Deitei-me pensando na estranha aventura, e vindo-me vivamente à lembrança a bíblica historia da capa de José no Egipto.
No dia imediato, as filhas do régulo vieram como as outras trazer-me presentes; eu dei-lhes alguma missanga, e elas retiraram, sem fazer a menor alusão à cena da noite.
Pouco depois, um portador do sova veio prevenir-me, de que ele me esperava essa tarde, e me mandaria um barco para eu ir à sua povoação. No acampamento apareceram algumas cobras que os pretos diziam serem venenosas, e muitos escorpiões negros de 10 a 12 centímetros de comprido. Alguns dos meus pretos foram picados por estes repugnantes aracnídeos, cujo veneno não produziu outro acidente além de violenta dor e tumefação dos tecidos próximos.
Os Ambuelas são os primeiros povos que se encontram no meu caminho, que não vão ocultar nas florestas as suas plantações.
É na grande planície por onde corre o rio que a cultura é feita; por isso a abundancia de produção que tem afamado estes povos como cultivadores.
As cheias alagam a campina; e o nateiro que ali deixam as águas é ubérrimo adubo que lhe avigora a cultura.
Se não regam o terreno, como não vi fazer a povo algum Africano, fazem irrigações, e observei em volta das plantações fundos sulcos, por onde se produz a secagem dos terrenos que cercam.
Estive trabalhando, e só tarde me lembrei de ir procurar a canoa que o sova me preveniu estaria à minha disposição junto ao rio, para ir à sua povoação.
Ao chegar ao ponto designado, qual não foi a minha surpresa ao ver a ligeira barca tripulada por Opudo e Capeu, as duas filhas do régulo! Eu, que me julgo pouco medroso, confesso que sempre tive muito medo de mulheres.
Todavia não quis deixar perceber receios, e saltei para a estreita piroga, que equilibrei, dizendo-lhes: "Vamos." Elas com imensa destreza, com extrema elegância, manobraram a canoa, correndo por um canalete que conduz ao rio.
O sol estava no ocaso. O ligeiro barco deslisava por entre uma vegetação aquática riquíssima, que vinha expor as suas belezas à superfície de água do canal. As vitória-regias e muitas espécies de Nenufar, prendiam ás vezes o andar da canoa.