Diário de África
O Rio depois da Catarata
Ilhas, bordas da catarata, rochedos mesmos, tudo é coberto de uma vegetação esplêndida, mas de um verde-negro triste e monótono, embora um ou outro grupo de palmeiras tente quebrar a melancolia do quadro, fazendo sobressair as suas palmas elegantes ás copas dos arvoredos que as cercam.
Uma chuva eterna molha sem cessar as proximidades do abismo, onde rola como que uma trovoada sem fim.
Mozia-oa-tunia não se pode desenhar, e exceto a sua extremidade oeste, tudo ali é nuvem de vapor, que encobre uma paisagem medonha.
Não é dado visitar esta soberba maravilha sem que um sentimento de terror e de tristeza se aposse de nós.
Que diferença entre a catarata de Gonha e Mozi-oa-tunia!
Em Gonha tudo é risonho e belo; ali tudo é soturno e triste!
Ambas são atraentes, ambas são verdadeiramente grandiosas; mas Gonha é atraente e bela como a virgem formosa coroada das flores da inocência, arrastando o alvo vestido nas ruas do jardim, embalsamadas pelas auras perfumadas da manhã de estio: Mozi-oa-tunia é grandiosa e imponente como o salteador requeimado pelo sol de verão e pelo gelo do inverno, o trabuco na mão, o crime na ideia, entre os fraguedos da serra, por noite escura e triste.
Gonha é bela como a manhã bonançosa da primavera; Mozi-oa-tunia é imponente como a noite tempestuosa do inverno.
Gonha é bela como o primeiro sorrir da criança nos braços da mãe; Mozi-oa-tunia é imponente como o último arquejar do ancião nos braços da morte.
Gonha é o belo na sua mais sublime expressão da formosura; Mozia-oa-tunia é o belo na sua mais expressiva revelação da grandeza e majestade.
Depois da contemplação da mais prodigiosa maravilha natural do continente Africano, voltei ao meu campo fortemente impressionado pelo que acabava de ver. O tempo melhorara, mas conservava-se encoberto. Nessa noite fui assaltado por nuvem de mosquitos, que não me deixaram um momento de repouso.
Logo de manhã, parti para a catarata, que visitei de novo, concluindo os trabalhos começados na véspera, e que me entretiveram o dia todo. De volta ao campo, apareceram ali uns Macalacas com massango, pedindo-me quatro jardas de fazenda por um prato dele, que não continha meio litro de grão.
Ainda que muito necessitado de adquirir víveres, não quis abrir um tal exemplo, e recusei comprar.
Então o Macalaca disse-me, que a fazenda e a missanga não se comia, que eu teria fome, e então lhe daria tudo o que ele quisesse por um prato de comida.
Fui-lhe dando logo dois pontapés. Chegou o dia 22 de Novembro, dia que eu tinha fixado para o regresso, mas a minha posição era crítica. Tínhamos apenas comida para dois dias, e não lograríamos alcançar Deica antes de seis.
Era impossível partir sem ter feito provisões de mantimentos.
Não esperando já obter nada dos Macalacas, fui caçar apesar do mau tempo.
Pouco distante do acampamento, pude atirar a uma malanca, e voltava ás barracas para a mandar esquartejar e trazer ali; quando chegou o chefe das povoações das quedas, que pela primeira vez eu via, e me vinha visitar.
Com ele vinham muitos pretos, que foram ajudar a conduzir a malanca que eu havia morto. Uma tão importante peça de caça fez logo diminuir no mercado o preço dos víveres. O chefe foi à sua povoação donde trouxe quantidade de mantimentos e duas galinhas, pedindo-me por tudo a pele da malanca e o meu cobertor. Necessitado de partir, e não querendo fazer questões, aceitei o contrato, e ele retirou-se satisfeito.
Lá foi o meu cobertor! Socio de tantas noites mal dormidas naqueles sertões Africanos.
Pude enfim deixar Mozi-oa-tunia, e fui pernoitar nas mesmas barracas que tinha construído na tarde do dia 18.
No dia imediato deixei o caminho que seguira até ali quando demandava a catarata, e endireitei ao sul. Não me tinha sido difícil encontrar a grande catarata do Zambeze que de longe se anuncia; mas encontrar um ponto que não existe nas cartas e cuja posição eu tinha calculado por informações vagas, não me era fácil.
Num país como aquele, despovoado e virgem, eu poderia bem passar perto do kraal de Patamatenga sem o ver, nem dar dele conta. Contudo, pelos meus cálculos, Patamatenga devia-me ficar ao Sul verdadeiro, e eu endireitei para la, disposto a não alterar aquele rumo por nenhum motivo que fosse.
Depois de marcha de quatro horas, fui acampar junto de um córrego em sítio medonho. Nem uma árvore, nem uma erva. Só penedias negras formavam a paisagem, escurecida ainda por um céu carregado de pesados nimbus.
Um silêncio profundo reinava naquele pequeno vale da tristeza.
No caminho desse dia encontrei alguns leões, que evitei com cautela.
Vem a propósito falar aqui de certa mania louca que ataca quase sempre o explorador noviço. É tal o seu entusiasmo por afrontar os perigos, que chega a cria-los onde eles não existem.
A África oferece cada dia, a cada passo, tais estorvos ao viajante, tais perigos ao caminheiro, que são eles de sobra para fazer abortar a maior parte das expedições que tentam devassar os seus segredos.
A prudência deve ser o guia de todas as ações do explorador; o que não quer dizer, que ela mesma não aconselhe, em outra dada circunstancia, um excesso de temeridade, quando essa temeridade for precisa à salvação comum.
Uma das maiores loucuras em África é caçar feras. A pólvora vale no sertão tanto como o ouro, e o tiro dado numa fera é um tiro desperdiçado, é o resultado de uma expedição arriscado, é ás vezes a salvação de toda uma caravana, que será perdida sem chefe, posta na balança do acaso, unicamente por satisfação de uma vaidade pessoal.
Em quase toda a minha viagem, obrigado a caçar para viver, tive muitas vezes de afrontar as feras; o que não me teria acontecido se, dispondo de recursos suficientes, me pudesse ter dispensado da caça. Uma fera morta em defensa própria e em encontro fortuito, é um obstáculo destruído; um leão procurado e morto por o explorador geógrafo é um obstáculo criado, é uma imprudência cometida, é e deve ser um remorso na sua existência.
Eu cometi algumas faltas dessas, e sempre depois tive o arrependimento sincero.
Hoje se voltasse à África em viagem de exploração ou encarregado de outra qualquer missão importante, não arriscaria o fim principal, para me dar um prazer que é fumo, porque apenas vem um momento lisonjear o amor-próprio.
Já pensava assim, quando de volta da catarata evitava os leões, que fugiam de mim como eu fugia deles.
Não havia lenha perto do sítio onde decidi ficar, e o meu Augusto foi procura-la longe. Trouxe alguns troncos de árvores secos, que, ao partir, deixavam aparecer nas rachas escorpiões enormes. No caminho mesmo, e ainda ali, tinham inúmeros dos repugnantes articulados.
Nesse dia, uma violenta tempestade vinda do S.S.E. passou sobre nós, e durante duas horas despejou copiosa chuva.
Durante a noite, soprou rijo o vento S.E., que muito nos incomodou, tendo por abrigos, como tínhamos, apenas um céu nebuloso. A 24 de Novembro, segui sempre ao Sul por caminho difícil.
As montanhas corriam a S.E. e por isso nós subíamos e descíamos continuamente, em terreno pedregoso, e árido. Depois de cinco horas de fatigante caminhar, encontrei um pequeno charco, junto ao qual acampei.
Subindo a um outeiro que me ficava próximo, avistei ao sul uma planície enorme, onde não pude divisar os menores sinais de água, por mais que a perscrutei com o meu óculo potente.
Receei muito que me faltasse a água dali em diante. É verdade que naquele país abunda o Mucuri, e onde ele existe não se morre à sede. O Mucuri é um grande auxílio do viajante nas florestas ressequidas da África Austral. É ele um arbusto de 60 a 80 centímetros de altura, que produz na extremidade das suas radículas, uns tubérculos esponjosos, ensopados de um líquido insípido que sacia a sede.
Não é fácil porem encontrar os tubérculos logo que se encontra a planta.
Crescem eles nas pontas de pequenas radículas que, irradiando das raízes principais, vão muito longe do caule alimentar e desenvolver aquelas excrescências extraordinárias. O melhor meio de os encontrar é o empregado pelo gentio Africano, de se colocarem junto à planta e ir descrevendo círculos concêntricos a passos lentos, batendo o terreno com um pau. Onde a terra dá um som oco e surdo aí estão os tubérculos, que tem de 10 a 20 centímetros de diâmetro e afetam a forma proximamente esférica. Fiz boa provisão deles no dia imediato antes de deixar o sítio em que passei uma péssima noite.
Sustentei marcha de sete horas, já em planície coberta de arvoredo e altas gramíneas. De água nem sinais.
Pela tarde parámos extenuados de fadiga, e resolvia acampar, quando sobre a minha cabeça, na árvore a que estava encostado, ouvi o arrolar das rolas Africanas.
A água devia estar perto, porque aquela era a hora das avezinhas beberem, e sem bebedouros próximos as rolas não estariam ali. A rola em África é indício de haver água perto do sítio onde se mostra de manhã e à tarde, porque aquela ave não passa sem beber duas vezes ao dia.
Mandei logo Veríssimo e Augusto explorar os arredores, e uma hora depois voltava Veríssimo tendo encontrado uma pequena nascente um quilómetro ao N.O.
Fui acampar ali já por noite escura.
Pelos meus cálculos no dia imediato deveríamos chegar a Patamatenga.
Amanheceu o dia 26 de Novembro, e pus-me em marcha. Logo à saída do ponto em que acampei, encontrei uma espessa mata que me levou 20 minutos a transpor.
Ao sair dela, um ribeiro bastante volumoso corria em leito de pedra, e além dele um kraal magnificamente construído, mostrou-me, por sobre a sua forte paliçada o teto pontiagudo de muitas casas.
Eu tinha dormido junto a Patamatenga sem o saber, e tinha passado uma péssima noite ao relento, quando poderia ter dormido em ótima cama e no conchego de uma bem construída casa.
Um Inglês, cujo nome ignorava, veio buscar-me ao rio e levou-me ao kraal, principiando logo, antes de mais conversa, a dar-me de comer. Ás onze horas já eu tinha comido não sei quantas vezes, e ele veio anunciar-me que se estava fazendo um petisco. Tinha ali um ótimo cozinheiro Europeu. Não consentiu que eu seguisse para Deica, sendo o seu argumento, que deveria passar o dia com ele, porque o devia passar.
Escrevi um bilhete a Mr. Coilard, a participar-lhe que estava de boa saúde, e que chegaria a Deica no dia imediato.
O Inglês, logo que viu a minha resolução em ficar, mandou matar o seu melhor carneiro, e convidou-me a ir ver o seu quintal. Fomos, e ele começou a fazer barbaridades. Destrui um batatal novo, só para tirar umas seis batatas.
Apanhou quantos tomates, cebolas, e pimentos ali tinham.
Não pude impedir aquele furor de destruição para me dar a comer de tudo quanto tinha, e até creio que tudo quanto tinha se eu me demorasse na sua casa. O quintal era magnífico e muito bem tratado, mas naquela época do ano pouco podia oferecer. Ainda assim o meu Inglês voltou triunfante com seis batatas, dezasseis tomates, alguns pimentos e muitas cebolinhas que foi entregar ao cozinheiro para o jantar. Jantar!... Eu não sei que nome deverei dar aquela comida! Pelo número devia ser muito mais do que ceia, pela hora menos do que lunch!
Pude suster o furor do meu hospedeiro em dar-me de comer, e consegui ir com ele dar um passeio nos arredores do kraal.
Encontrámos no caminho cinco montículos de pedras que marcam as sepulturas de cinco Europeus, adormecidos ali para sempre, e deitados ao lado uns dos outros à sombra do arvoredo, nessa mesma terra que lhes infiltrou no organismo, pelo ar que deu a respirar, o veneno que lhes deveria cortar as existências, com prematuro passamento.
Quantos túmulos como aqueles não tem um lugar incerto, no meio desse continente enorme, e não escondem o segredo da sepultura de homens, que deixaram longe afeições e ternuras, que nem podem ter o amargo prazer de derramar uma lágrima sobre a terra que oculta um ente estremecido!
Os cinco túmulos de Patamatenga encerram os despojos de cinco homens cujos nomes vou citar, e se algum amigo ainda se lembrar deles, terá ao menos o conhecimento do canto da terra onde repousam para sempre.
O primeiro túmulo encerra Joli, morto em 1875; o segundo Frank Cowlei, o terceiro Robert Bairn, ambos mortos em 1875; o quarto Baldwin, e o quinto Walter Carre Lowe, mortos em 1876. Em Abril do ano de 1878, morreu também ali perto o Sueco Oswald Bager, que está enterrado em Lexuma.
Os Túmulos em Patamatenga
Depois de visitar aquele cemitério improvisado no meio do sertão longínquo, voltei ao kraal de Patamatenga, onde fui obrigado a comer várias ceias.
Na conversa com Gabriel Maier, o meu hospedeiro, eu fugia de narrar qualquer episódio passado da minha viagem em que figurasse a falta de víveres, porque ao ouvir tais narrativas, o bom Inglês entrava em furor e mandava logo por a mesa, mesa que já me metia tanto medo como por vezes me tinha metido a fome.
No dia seguinte, depois de ter almoçado duas vezes, antes das 7 horas da manhã, parti a essa hora, tendo de levar vários petiscos para o caminho, porque Gabriel Maier não consentiu que eu partisse sem essa condição.
Depois de cinco horas de marcha a leste, alcancei o acampamento de Deica, onde a família Coilard me esperava, e onde fui recebido com as maiores demonstrações de simpatia.
Daquele lado não tinha chovido como em Mozi-oa-tunia, e ficámos em grande embaraço para partir, porque encontraríamos o deserto seco, e impossível nos seria atravessa-lo antes de caírem as chuvas necessárias para encher os charcos onde deveríamos encontrar a água precisa.
Nos dias 28 e 29 de Novembro, percebemos que tinham trovoadas muito ao longe ao Sul e S.S.E., e isso animou-nos a partir, esperando que elas tivessem despejado alguma chuva no deserto.
No dia 28 improvisei, com anzóis que trazia, uns pequenos aparelhos de pesca, e fui com as damas Coilard pescar a uma lagoa que nos ficava uns duzentos metros a oeste do campo. Conseguimos pescar muitos peixes miúdos, e eu tive um verdadeiro prazer por ver o gosto que gozavam aquelas senhoras num divertimento novo para elas, quando sentiam a ligeira cana vergar ao peso de um peixe que se estorcia na ponta da linha, preso ao anzol que a sua imprudente voracidade lhe fizera morder.
No dia 30 resolvemos partir a 2 de Dezembro, ainda que corríamos o risco de não encontrar água logo nos primeiros dias de viagem, mas uma importante consideração nos levava a não diferir a partida. Éramos quinze pessoas, e a provisão de mantimentos pequena. Dali ao Bamanguato não poderíamos obter víveres, e em Deica mesmo nenhuns podíamos haver.
Era pois preciso caminhar sobre Xoxom (Shoshong) o mais depressa possível, para alcançar a cidade do rei Khama antes que viesse a fome.
Ficou por isso resolvido que partíssemos no dia dois, resolução que foi apoiada pela chuva que caiu nos dias 30 do mês e 1 de Dezembro.
Antes de empreender a narrativa dessa aventurosa viagem através do deserto, preciso dizer duas palavras acerca dos meus companheiros.
Que eles me perdoem pelo que vou escrever, se a sua modéstia for ferida pelas minhas palavras; mas é preciso que se saiba o nome e os feitos de alguns desses obscuros trabalhadores Africanos, que deixam a Europa e a vida civilizada, para irem longe da pátria trabalhar tenazmente na grande obra da civilização do Continente Negro.
No país do Basuto, país que confina ao sul e leste com as colonias do Cabo e Natal, e ao norte e oeste com o estado livre de Orange, foram, há cinquenta anos, estabelecer-se alguns missionários protestantes Franceses. Estes homens, cujo número aumentava de ano para ano, conseguiram domar um povo bárbaro de canibais, e eleva-lo a um estado de civilização e de instrução a que ainda não chegou povo algum da África Austral.
Hoje as escolas cristãs do Basuto contam os discípulos por milhares, e uma grande parte da população sendo cristã, abandonou a poligamia e os costumes bárbaros dos seus antepassados.
Os missionários acharam o campo já pequeno para o seu número, sentiram a necessidade de expansão, e foram estabelecer os seus catequistas para o norte do Transvaal junto ao Limpopo.
Quiseram ir mais longe, e uma expedição foi organizada, tendo por chefe um jovem missionário, com destino ao país do Baniais ou Machonas, situado entre o Matabele e as terras Natuas. Esta expedição foi infeliz. Entrando no Transvaal, sofreu insultos dos Boers, que a impossibilitaram de seguir avante, chegando até a serem presos em Pretoria o missionário e os seus homens de catequese.
Foi então que Mr. François Coilard, diretor da Missão de Leribé, foi encarregado de dirigir a expedição que falhara. Partiu de Leribé, ponto situado perto do rio Caledon, afluente do Orange e a oeste do Mont-aux-sources, e com a sua esposa e a sua sobrinha e os seus catequistas, caminhou ao Norte, e por entre inúmeras dificuldades, que só uma vontade tenaz pode vencer, conseguiu alcançar o país a que se destinava.
Muito bem recebido pelos Machonas, deu começo aos seus trabalhos, quando foi atacado por uma força de Matebeles, que o fizeram prisioneiro e o conduziram com toda a expedição perante o seu chefe, Lo-Bengula.
O que o missionário e aquelas pobres damas sofreram durante o tempo que estiveram em poder do terrível chefe dos Matebeles é uma história triste e compungente.
O chefe, que pretende ter direitos sobre o país dos Machonas, exprobou-lhes o terem ido ali sem a sua prévia licença, e não lhes permitiu voltar lá.
Retrogradou pois até Xoxon, capital do Manguato, e não querendo deixar sem resultado tão dispendiosa e fadigosa jornada, deliberou fazer uma tentativa sobre o Baroze. Tinha a vantagem de falar a língua do país, bem como os seus catequistas, que, Basutos de origem, podiam trabalhar facilmente num país onde se falava a sua própria língua.
Não foi feliz no Baroze, e ainda que bem recebido e cheio de promessas do astuto Gambela, não lhe consentiram o acesso além de Quisseque.
Foram estes, que exponho muito resumidamente, os motivos que levaram a família Coilard ao Alto Zambeze, e que ocasionaram o nosso encontro naquelas remotas paragens.
Mr. Coilard e a sua esposa, à época do nosso encontro, estavam em África havia já vinte anos!
Mr. Coilard é homem de quarenta anos, sua esposa tem a idade que tem todas as damas casadas logo que passam dos vinte e cinco, não tem idade.
O missionário nutre uma grande paixão pelos indígenas, à civilização dos quais votou a sua vida.
Sempre tranquilo em gesto e palavra, não se altera nunca, e só tem na boca o perdão para todas as faltas que vê cometer.
François Coilard é o melhor e o mais bondoso dos homens que eu tenho conhecido.
A uma inteligência superior reúne uma vontade inquebrantável, e a teimosia precisa para levar a cabo qualquer empreendimento difícil.
Muito instruído, o missionário Francês tem uma alma moldada para compreender os mais sublimes sentimentos, e é mesmo poeta.
Procurando e glorificando-se de encontrar qualidades boas nos indígenas Africanos, não vê ou não quer ver as más.
É um grande defeito esse, mas tem ele ampla escusa na sublimidade dos sentimentos que o ditam.
Madame Coilard, como seu marido, é de uma bondade extrema.
Não se chega a ela o necessitado sem ir satisfeito, o triste sem ir consolado.
Para eles tudo são irmãos, e tanto estendem a mão ao indígena como ao Europeu, ao pobre como ao rico, logo que indígena, Europeu, pobre e rico precisam deles.
Eu, por mim, não lhes poderei nunca agradecer os serviços que me fizeram, serviços que me obrigaram tanto mais, quanto maior foi a delicadeza com que foram feitos.
O correr da narrativa mostrará quem são estas gentes de quem falo agora muito laconicamente, e que deviam ser meus sócios na longa viagem que íamos empreender a traves de um deserto desconhecido, porque, deixando o caminho das caravanas, íamos traçar uma nova estrada.