Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 16 de 80

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Diário de África

Planta da povoação de Belmonte, no Bihé

 

1. Entrada da povoação.

2. Entrada da casa de Silva Porto 3. Casa.

4. Pátio interior.

5. Cozinha e dispensa.

6. Casas de criados.

7. Armazém.

 

* Sicómoros.

* Forte paliçada de pau.

* Paliçada da horta coberta de roseiras sempre floridas.

* Romeiras.

* Laranjeiras.

* Hortas.

* Cemitério.

* Casas dos pretos.

 

Entrevado e sem forças, não pensar um só momento em voltar face ao desconhecido que se erguia ante mim como um abismo atraente; desfazer uma a uma as dificuldades que surgiriam; reconstruir muitas vezes o trabalho feito, que se esvaia como cai um castelo de cartas; criar recursos onde os não havia; conseguir organizar uma expedição sobre as ruinas de outras que se tinham desmembrado; é, aos meus olhos, a parte mais difícil da minha viagem, e de que mais me orgulheço, se é que me orgulheço de alguma coisa.

Comecei por contratar Verissimo Gonçalves para me acompanhar, e consegui fazer-me obedecer por ele cegamente.

Depois de muito estudar o caminho a seguir, resolvi ir direito ao alto Zambeze, seguindo a cumeada do país onde nascem os rios daquela parte de África.

Chegado ao Zambeze, queria seguir a leste, estudar os afluentes da margem esquerda, e descendo ao Zumbo, ir dali a Quilimane por Tete e Sena.

Os mais práticos sertanejos, sabedores do meu projeto, diziam-me, que eu não chegava a meio caminho do Zambeze, e creio que me tinham por tolo.

Eu deixava-os falar e prossegui sempre na organização do pessoal e confeção do material necessário aos meus planos.

No dia 27 de Março, primeiro em que pude escrever livremente, escrevi ao Governo da Metrópole, e ao Pereira de Melo, e Silva Porto. Dava-lhes parte do ocorrido até então, e pedia-lhes auxílio e conselho, submetendo à sua crítica os meus projetos. Despachei portadores para Benguela com as cartas, e fui trabalhando, mais confiado em mim do que em outrem.

A esse tempo, uma grande parte das cargas deixadas em Benguela, em Novembro havia 5 meses! ainda não tinham chegado.

Apareceram-me na libata o ex-chefe de Caconda, Alferes Castro, e o degradado Domingos, que iam para Caconda. Contaram-me que, chegados ao Bihé, tinham sido encarregados por Capelo e Ivens de ir construir o abarracamento, e de fazer transportar para ali as cargas que estavam em Belmonte.

O Alferes Castro voltava sem nenhum conforto, e eu, das 6 caixas de rancho que me tinha deixado o Ivens, dei-lhe o assucar, chá, café, etc., necessário para a viagem.

Creio que aquele senhor, depois de ter sido a causa de tanto sofrimento que tive, de tantos riscos que corri, não terá motivo de queixar-se do modo porque o recebi no Bihé; se quiser ser justo e verdadeiro.

Quanto ao degradado Domingos, se bem me recordo, dei-lhe uma carta de recomendação para o Governador de Benguela, de quem ia solicitar um favor.

Foi assim que tratei os dois homens que mais me fizeram sofrer em África, porque quando deram causa a isso, eu ainda não estava habituado ao sofrimento.

No princípio de Abril, eu já bastante melhor, tinha prontos 60 carregadores, e esperava apenas a chegada das cargas de Benguela, para receber mais alguma fazenda e partir.

A minha vida era um trabalhar incessante, e ao mesmo tempo compilava um livro de lembranças, para ter à mão as fórmulas que me eram necessárias para os meus cálculos; fazia umas tábuas de raízes quadradas e raízes cúbicas, que calculei para os números de 1 a 1000. Deduzia com trabalho imenso algumas fórmulas trigonométricas, porque na Europa, para tornar mais portáteis as minhas tábuas logarítmicas, as tinha feito encadernar, suprimindo a parte explicativa; e por um engano deplorável, numa remessa de objetos que de Luanda fiz para Portugal, foram incluídos os meus livros matemáticos. Não se riam os sábios, da singeleza com que lhes narro as dificuldades com que lutei no Bihé para poder ter escritas num livrete algumas fórmulas vulgares. Quem não é explicador de matemática, vê-se muitas vezes embaraçado para resolver uma questão muito simples, quando lhe falte um livro que lhe avive a memória preguiçosa. No Bihé faltavam-me todos os livros, e por isso eu fazia um, para o meu uso, e ou se riam ou não, declaro-lhes que não me foi fácil. Toda a minha biblioteca consistia em três almanaques para 1878, 1879, e 1880, as tábuas de logaritmos, como já disse, sem texto, tábuas somente, o Eurico de Herculano, as poesias de Casimiro de Abreu, e um livrinho de Flamarion, As Maravilhas Celestes.

Em tudo isto não tinha muito onde refazer a memória para as questões de x e y.

Depois havia ainda outra dificuldade. Eu tinha de fazer e de pensar em muitas coisas ao mesmo tempo, e coisas um pouco incompatíveis entre si. Ás vezes tinha conseguido quase reconstruir uma das fórmulas de Neper para resolver triângulos esféricos, quando entrava o moleque, e me exigia que dissesse, se a galinha para o jantar devia ser cozida ou assada (durante a minha estada no Bihé, comi cento e sessenta e nove galinhas). Logo, entrava outro pedindo sabão para lavar a roupa; depois, eram carregadores que me vinham falar; em seguida, enviados do sova, que me queriam extorquir mais algumas jardas de fazenda. Um inferno, um verdadeiro inferno.

Eu tinha feito e fazia um grande número de observações meteorológicas.

Os meus cronómetros estavam perfeitamente regulados, e a minha posição determinada. Algumas excursões que fiz no país com a bússola na mão, permitiram-me fazer uma carta, decerto grosseira, mas tão aproximada quanto se pode exigir de um trabalho destes em viagem de exploração. Apesar dos meus trabalhos, ou talvez por causa deles, eu estava satisfeito, e mal pensava nas tribulações porque tinha de passar ainda nas terras do Bihé.

Antes porém de continuar a narrativa das minhas aventuras, abro um parêntesis para falar um pouco deste país, tão importante e rico quanto pouco conhecido entre nós, a quem interessa mais o seu conhecimento do que a ninguém.

O Bihé limita ao Norte com o sertão do Andulo, a N.O. com o Bailundo, a Oeste com o país de Moma, a S.O. com os Gonzelos de Caquingue, ao S. e L. com os povos Ganguelas livres. O rio Cuqueima é quase um limite natural do Bihé por Oeste, Sul e Leste, mas, na realidade, a autoridade do sova do Bihé ainda se exerce para além daquele rio em alguns pontos. O país é pequeno, mas muito povoado.

Eu avalio grosseiramente a sua área em 2500 milhas quadradas, e um cálculo ainda mais grosseiro fez-me estimar a sua população em 95 mil habitantes; o que nos dá apenas 38 habitantes por milha quadrada; e ainda que este número nos pareça muito pequeno, por ser menos de um terço do que se dá entre nós, é considerável para a África Austral, onde a população está muito pouco acumulada.

Em tempo, como se verá, pouco distante, estas terras do Bihé eram povoadas de matas densas, onde abundavam elefantes, e onde assentavam raras povoações de raça Ganguela.

O rio Cuanza, depois da sua confluência com o Cuqueima, divide o país do Andulo do país de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um tal Bomba, que possuía uma filha de grande formosura, chamada Cahanda.

Este sova Bomba vivia na margem esquerda do rio Loando, afluente do Cuanza.

A formosa e negra princesa Cahanda, pediu ao pai para ir visitar umas parentas que eram senhoras da povoação de Ungundo, única de alguma importância no Bihé de outrora.

Estando a filha do sova Bomba nesta povoação de Ungundo a visitar as parentas, aconteceu chegar ao país um ousado caçador de elefantes chamado Bihé, filho do sova do Humbe, que com grande comitiva tinha passado o Cunene e estendido as suas excursões venatórias até àquelas remotas terras. Um dia o selvagem discípulo de Santo Huberto teve fome, e estando perto da povoação de Ungundo, dirigiu-se ali a pedir de comer. Foi então que viu a formosa Cahanda, e é preciso dize-lo, que vê-la e ama-la foi obra de um momento. Estas questões de amor em África são muito semelhantes ás questões de amor na Europa, e pouco depois do encontro dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bihé plantava a estacada da grande povoação que ainda hoje é a capital do país, país a que deu o seu nome, fazendo-se aclamar sova. As dispersas tribos Ganguelas foram por ele submetidas, e o pai da primeira soberana do Bihé reconciliando-se com a filha, permitiu uma grande imigração do seu povo para ali. Ao casamento do sova sucederam-se muitos outros entre as mulheres do norte e os caçadores do seu séquito, e esta é a origem do povo Biheno.

Assim os Bihenos são Mohumbes, nome que na África Austral de oeste dão aos descendentes da raça do Humbe, os quais não se encontram só no Bihé, mas estão também espalhados em outros pontos, sobre tudo frente da costa entre Mossámedes e Benguela, misturados com os Mundombes, que são a verdadeira raça daquele país. Hoje a verdadeira raça Mohumbe no Bihé é representada pela nobreza e gente rica do país, os descendentes dos caçadores do primeiro sova, e ainda assim, fora da família reinante, está ela misturada com sangue de raças muito diferentes; porque, sendo o Bihé desde o seu começo um grande empório de escravatura, e tendo sido colonizado em grande parte por escravos de raças diversas, o baixo povo provem de uma mistura inexplicável, e a nobreza mesmo, nas suas bastardias numerosas, tem trazido ás suas descendências sangue dos países mais remotos da África Austral.

Da união de Bihé e da formosa Cahanda nasceu um único filho varão, que teve o nome de Jambi, e sucedeu no governo ao seu pai. Este Jambi teve dois filhos, dos quais o primogénito se chamou Giraúl, e o segundo Cangombi. Giraúl herdou o poder por morte do seu pai, e receando do seu irmão, que tinha grande influência no povo, o fez prender secretamente de noite, e o vendeu como escravo, a um preto que ia levar uma leva de escravos a Luanda.

Cangombi, por acaso, em Luanda foi comprado pelo Governador Geral, de quem foi escravo. Tempos depois, os despotismos e as arbitrariedades de Giraúl fizeram-no detestado do seu povo; houve conspiração, e alguns nobres partiram secretamente para Luanda, com muito marfim, para resgatar seu irmão, e aclama-lo, depois de deporem aquele. O governador de Angola de então, vendo o partido que podia tirar desta questão, para a coroa Portuguesa, não só entregou Cangombi sem resgate, mas ainda o encheu de presentes, e lhe deu auxílio contra seu irmão; e por isso Cangombi se apresentou no Bihé com grande comitiva, que veio por Pungo-andongo e subiu o Cuanza, entre a qual se contavam muitos Portugueses. Declarada a guerra, Giraúl foi vencido, sendo traído pelos seus, e entregou as rédeas do governo ao seu irmão mais novo, que lhe deu uma povoação e um pequeno domínio para viver.

Quatro anos depois, Giraúl revoltava-se e vinha por cerco à capital. Novamente vencido e prisioneiro, foi entregue pelo seu irmão aos Ganguelas de além Cuanza para o comerem; não que estes Ganguelas sejam positivamente canibais, mas, de vez em quando, não desgostam de comer um bocado de homem assado.

Eu não pude saber o nome do governador que prestou mão-forte ao filho segundo do Jambi para lhe dar o poder, mas estou certo que a esse respeito alguma coisa deve existir no Ministério da Marinha e Ultramar, porque um passo daqueles não podia deixar de ser comunicado ao governo da Metrópole.

Cangombi foi grande sova, e teve oito filhos, dos quais seis foram sovas do Bihé; o que não é para admirar, porque ali herda o poder o mais próximo da ascendência. Assim, em quanto existem filhos de um sova, os netos não vão ao poder, e o neto primogénito do filho primogénito só toma as rédeas do governo quando não existe nenhum dos seus tios, irmãos mais novos do seu pai.

Por esta lei herdou o poder Cahueue, filho mais velho de Cangombi, e por mortes sucessivas, seus irmãos Moma, Bandúa, Ungulo, Leamúla e Caiangúla. Os dois filhos de Cangombi que não foram sovas, foram Calali e Óchi, por terem morrido cedo. Este Óchi era imediato ao mais velho Cahueue, e deixou um filho que foi sova por morte do seu tio Caiangúla, por não ter deixado filhos o irmão mais velho do seu pai.

Este sova chamava-se Muquinda, e pela sua morte foi o governo ao seu primo Gubengui, filho mais velho do sova Moma imediato ao seu pai. A este Muquinda seguia-se outro irmão chamado Quitungo, que morreu quando ia ser aclamado, já dentro da capital.

De todos os oito filhos de Cangombi, só existia um descendente legítimo, filho do sova Bandúa, que foi aclamado. É ele Quilemo, o atual sova do Bihé.

Há contudo um filho bastardo de Moma, chamado Canhamangole, que está indigitado para suceder a Quilemo; em seguida passaram ao poder, os filhos deste último, que são muitos.

Por este breve resumo da história do Bihé se vê, que aquele país é de fundação recente, e que desde o seu começo quase, existiram relações íntimas entre os Portugueses e Bihenos, pela intervenção tomada pelo Governador Geral de Angola, na aclamação do sova Cangombi, avo do atual sova Quilemo, e neto do fundador da monarquia Bihena.

Assim, pois, o Bihé, desde a sua fundação tem sido governado por treze sovas em cinco gerações, que vão representadas no seguinte quadro: