Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 17 de 80

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Diário de África

Na carta de Angola, de Pinheiro Furtado,…

Na carta de Angola, de Pinheiro Furtado, já vem, indicado o Bihé, mas a sua origem não deve ir muito além da coordenação daquela carta.

Mulher do Bihé cavando

 

Os Bihenos são pouco agricultores e pouco industriosos, e ali tudo o trabalho é feito pelas mulheres, que só elas cultivam a terra.

Os homens são dados a viajar, talvez de origem, que o seu primeiro régulo de longe veio, e atrevem-se a ir comerciar nos remotos sertões onde vão traficar em marfim e escravos. Aproveitando estas disposições, alguns homens ousados, tais como Silva Porto, Guilherme (o Candimba), Pernambucano, Ladislao Magiar, e outros negociantes sertanejos, começaram a dirigir os Bihenos nas suas excursões, e fizeram nisso um grande serviço ao mundo; porque, abrindo novos mercados ao comércio, abriram novos horizontes à civilização. Não foi só o seu tráfico que veio aumentar o movimento comercial da praça de Benguela, mas, ainda animado por eles, e perdido o receio dos brancos, o gentio dos mais remotos países, desceu a vir permutar diretamente os seus géneros nas casas comerciais de Benguela.

 

Carregador Biheno em marcha

Nas viagens sertanejas, aos brancos seguiram-se os pretos, e obtendo, primeiro alguns, depois muitos, um certo crédito na praça de Benguela, foram ao Bihé organizar expedições, donde partem a procurar a cera e o marfim nos sertões mais distantes.

 

Muitos pretos conheço eu que negoceiam com um crédito de 4 e 5 contos de réis, e alguns com mais, como o preto Chaquingunde, que foi escravo de Silva Porto, que, durante a minha permanência no Bihé, chegou do sertão, onde tinha negociado pela sua conta uma fartura de 14 contos de réis!

Não é difícil no Bihé encontrar um branco Português, escapado dos presídios da costa, secretário de um preto comerciante rico.

Para o Biheno, em questões de viagens de tráfico, nada é impossível, e tudo lhe parece natural. Se eles soubessem dizer onde tem estado e descrever o que tem visto, os geógrafos da Europa não teriam em branco grande parte da carta de África Austral.

O Biheno deixa com o maior desapego o lar, e carregado com trinta quilogramas de fazendas, vai para o sertão, onde se demora 2, 3, e 4 anos, voltando em seguida a casa, onde é recebido com a naturalidade de quem volta de uma viagem de três dias.

Silva Porto, ao passo que se dirigia ao Zambeze, enviava pretos seus em outras direções, e negociava ao mesmo tempo no Mucusso, na Lunda e no Luapula.

A fama dos Bihenos tinha chegado longe, e Graça quando intentou a viagem ao Matianvo, foi ali procurar carregadores.

É muito raro que um Biheno deserte da comitiva, e roube algum fardo; o que acontece frequentemente com os Zanzibares.

Além disso, os Bihenos tem outra grande vantagem sobre os Zanzibares. Ainda que muito dados ao comércio de escravos, não promovem eles mesmos no interior guerras para os haverem; comprando-os a quem os vende, mas nunca tratando de os obter por força. Isto quando em viagem de tráfico sertanejo, que, nas guerras com países circunvizinhos, fazem o que podem, e são dotados de inaudita crueldade.

Os Bihenos, apesar das suas grandes qualidades, coragem e hábito de viajar, possuem grandes defeitos, e não conheço em África povo mais profundamente viciado, mais abertamente depravado, mais duramente cruel, e mais sagazmente hipócrita.

Tem esta gente uma certa emulação entre si como viajantes, e muitos conheço eu que se ufanam de ter ido onde outros não foram, a que eles chamam descobrir terras novas. Eles são educados na vida de caminheiros, e todas as comitivas levam inúmeras crianças, que, com cargas proporcionais ás suas forças, acompanham os pais ou parentes nas mais longínquas correrias; e é por isso que não causa estranheza encontrarmos ali um homem de 25 anos que tenha estado no Matianvo, no Niangué, no Luapula, no Zambeze, e no Mucusso, se ele viajou desde os 9 anos.

Ao homem que chega ao Bihé para seguir em viagem sertaneja, oferecem-se dois meios de obter carregadores. Um é por meio de presentes ao sova e aos potentados, obtê-los, pedindo-os; o outro é anunciar a viagem, e esperar que eles se venham oferecer.

O primeiro é mau, porque, além do grande dispêndio feito com os presentes que é preciso dar ás pessoas a quem se pedem os carregadores, estes são obrigados a ir, e o que os pediu é responsável pela vida deles para com as famílias ou senhores. Além disso, as pessoas a quem se pedem, com o intuito de extorquir mais presentes, vão demorando quanto podem a partida, e quando se está na sua dependência as exigências crescem.

O segundo meio é bom, porque os que se vêm oferecer são pretos livres, vêm pela sua vontade, e se algum morre, segundo a lei do país, como foi ele que se ofereceu, não tem o que o aceitou a menor responsabilidade do facto.

É ocasião de falar em Quissongos e Pombeiros. Os carregadores, não só os Bihenos mas sim todos em geral, formam grupos pequenos debaixo do comando de um deles que é chefe do grupo. Este chefe, desde a costa até a Caquingue chama-se Quissongo, e no Bihé e Bailundo Pombeiro.

Sam estes Pombeiros que se vêm oferecer, trazendo uns 10, outros mais, outros menos carregadores. Estes grupos são de diferentes naturezas. Uns são constituídos por parentes que escolheram um para Pombeiro, e nestes são todos livres. Outros são formados por gente livre, que combinam ir debaixo das ordens de um certo Pombeiro em quem tem confiança. Outros ainda, são grupos de escravos dos Pombeiros que os comandam.

A obrigação do Pombeiro é vigiar pela sua gente, e responder por ela ante o chefe da comitiva. Come e dorme com eles, é enfim o cabo de esquadra da caravana.

O Pombeiro não leva carga, mas, em caso de doença ou morte de algum dos seus, substituí-o como carregador temporariamente. Durante a marcha o seu lugar é no coice da comitiva, e logo que um seu carregador se atrasa, ele fica para o acompanhar.

O pagamento dos carregadores nunca é feito adiantado, e nas viagens de tráfico regulares é diminutíssimo.

Assim, um carregador, para ir do Bihé à Garanganja (Luapula), recebe 12 panos ou valor de 2400 réis, e na volta uma ponta de marfim escravelho, talvez de 4000 réis, ao tudo 6400 reis, comida à parte, porque o chefe da comitiva tem obrigação de sustentar toda a sua gente durante a viagem, exceto nos primeiros três dias de saída do Bihé, para os quais cada um leva de comer.

Esta regra tem ainda uma exceção. Muitos sertanejos, ao saírem do Bihé, destinam um certo número de pombeiros para destacarem em caminho, ou no termo da sua viagem, para diferentes pontos.

A estes Pombeiros dão um certo número de fazendas, pelas quais eles lhes devem trazer um certo produto. Estas fazendas dos Pombeiros que vão traficar livremente, chamam-se banzos, e delas comem o Pombeiro e carregadores desde o começo da jornada. Afora este caso, em todos os mais o chefe sustenta Pombeiros e carregadores.

Os Pombeiros não saem nunca por tempo determinado, e tanto ganham demorando-se pouco como muito. É sabido que os negros em África não dão valor ao tempo.

Os costumes Bihenos são aproximadamente os mesmos de Caquingue, e o contacto com brancos não tem trazido o menor adiantamento a essa gente.

Não tem a menor ideia de uma religião qualquer, não adoram nem sol, nem lua, nem ídolo, e vivem com os seus feitiços e adivinhações.

Todavia, parecem acreditar na imortalidade da alma, ou antes no desassossego dela em quanto não cumprem certos preceitos ou vinganças em favor do morto.

A forma do governo é monárquica absoluta, e tem muito do feudalismo.

Cada um é, muitas vezes, juiz em causa própria, e quando eu falar dos mucanos direi como ali se faz justiça.

Os maiores acontecimentos entre os Bihenos são aqueles que se ligam aos sovas, e sobre tudo à sua morte e à aclamação do novo régulo. Antes porém de descrever estes dois grandes acontecimentos, preciso é falar da sua corte.

O sova é rodeado de um certo número de sujeitos, a que chamam Macotas, que muitos julgam corresponderem aos ministros entre nós, mas que assim não é. Os Macotas formam apenas uma espécie de conselho a que o sova submete sempre as suas deliberações, mas de cuja opinião poucas vezes faz caso. Sam séculos e favoritos do sova, e nada mais. Secúlo é o fidalgo, filho de nobre, ou enobrecido pelo sova.

Muitos séculos que possuem libatas, dentro delas tem o tratamento de sovas, e os seus povos, quando lhe dirigem a palavra, dizem Nácoco, o que quer dizer Vossa Majestade.

Além dos Macotas, há três pretos que rodeiam o sova, e que, quando ele dá audiência, se sentam no chão junto dele, e apanham da terra os escarros do régulo para os irem deitar fora. Há ainda o que leva a cadeira, e o Bobo, figura indispensável em todas as cortes de sova, e mesmo dos séculos ricos e poderosos. O bobo tem obrigação de limpar a porta da casa do sova e a rua em torno dela.

As libatas são defendidas por uma forte paliçada de madeira, quase sempre coberta de sicómoros enormes, e dentro delas uma segunda paliçada defende e fecha a morada do sova. Este segundo recinto chama-se o lombe. Dados estes esclarecimentos, vamos ver o que se passa pela morte ou aclamação dos régulos.

Logo que morre o sova, o acontecimento é sabido dos Macotas, que guardam o maior segredo. Dam parte ao povo de que o sova está doente e por isso não aparece. O cadáver é deitado na cama, na cubata, e coberto com um pano; isto em Caquingue, porque no Bihé, é dependurado pelo pescoço ao teto da cubata.

O corpo ali jaz até que a putrefação e os insetos deixam a ossada nua, no país de Caquingue; no Bihé, até que a cabeça se separa do corpo.

É então que anunciam a morte do régulo, e que se procede ao enterro. Os ossos são metidos num a pele de boi e enterrados num a cubata que existe no Lombe, sarcófago de todos os sovas. A cubata em que apodreceu o cadáver é demolida, e tudo o material é transportado fora da libata, e abandonado no mato. Será desnecessário dizer, que a morte de um sova é sempre produzida por feitiço, e que um desgraçado paga com a vida, não o feitiço, que não fez, mas a vingança particular de um dos Macotas. Logo que se anuncia a morte do sova, o povo saí furioso, e durante alguns dias, são roubados todos os que passam próximo da capital, sendo que se apossam das pessoas mesmas, que escravizam para venderem depois.

Os Macotas vão buscar o herdeiro, e acompanham-no até à Libata Grande (capital); mas ali ele não entra no Lombe, e fica vivendo na povoação como qualquer do seu povo. Em seguida à entrada do herdeiro na Libata, saem dois bandos de caçadores, um em busca de uma malanca (Catoblepas taurina), e outro em procura de uma criatura humana.

Do grupo que vê o antílope, se adianta um caçador que lhe atira, fugindo logo, e são os outros que lhe vão cortar a cabeça, porque, se for o que lhe atirou, é logo assassinado, e nunca pode dizer que foi ele que o matou.

O bando que procura a criatura humana, apossa-se da primeira que encontra (homem ou mulher), e arrastando-a para o mato, cortam-lhe a cabeça, que trazem com tudo o cuidado, abandonando o corpo. Chegados à libata, esperam pelo bando que foi caçar o antílope; porque mais fácil sempre é encontrar e matar um homem do-que encontrar e matar uma malanca.

Reunidas num a cesta as duas cabeças, a do homem e do antílope, vem o cirurgião, e começa a fazer os curativos precisos para que o novo sova possa tomar as rédeas do governo, e quando acaba a sua magia, declara que ele pode entrar no Lombe. Acompanhado dos Macotas, o sova entra no Lombe, no meio de grande grita e muita fuzilaria.

O primeiro passo que dá o sova no seu governo, é escolher entre as suas amantes uma que apresenta como sua mulher, a qual fica morando com ele, e toma o nome de Inacúlo, e o governo caseiro; as outras ficam vivendo no Lombe, mas fora do recinto do régulo.

No Bihé, como em toda a África Austral, está estabelecida a poligamia.

Os crimes no Bihé são sempre julgados em primeira instância pelo lesado, e só se o culpado se não sujeita ao pagamento da multa, é que, algumas vezes, sobe a causa ao conhecimento do sova, porque em outras a justiça é feita pelo lesado. A palavra terrível no Bihé, o vocábulo Mucano, não exprime simplesmente o crime, mas designa uma ideia que envolve ao mesmo tempo o crime e o pagamento da multa.

Ali todos os crimes são remíveis a dinheiro, isto é, ao pagamento de multas; e não há penalidades intermediárias entre a multa e a pena de morte. Se alguém rico sobre quem pesa um mucano, se recusa a pagar, e o lesado é poderoso, faz presa ao culpado em valor muito superior à multa, ficando a presa em depósito, para ser vendida, ou ficar pertencendo ao que a fez.

Aquele que faz uma presa injusta é obrigado pelo sova à restituição, e a dar um porco ao prejudicado.

Este sistema é azado a roubos, e todos os dias aparecem mucanos os mais estupendos.

Um dos mais vulgares é o do adultério das mulheres, a quem os maridos mandam que se façam seduzir por este ou aquele homem que possui alguma coisa, para lhe fazerem depois pagar o mucano. O chefe de uma comitiva é obrigado a pagar os mucanos dos seus pretos, e responsável pelo comportamento deles.

Quando um branco responsável pelos mucanos dos seus pretos, tem pelo seu lado força bastante e se recusa a pagar, eles esperam, ás vezes, anos até poderem atacar outro branco mais fraco, e fazerem-lhe presas, dizendo-lhe, que é por causa do outro, e que se entenda com ele.

Se o que teve um mucano é falecido, o desgraçado que vem habitar a sua povoação paga por ele.

O modo porque se faz justiça no Bihé, é a causa do grande transtorno que sofre o comércio, e das grandes perdas das casas de Benguela.

Durante a minha estada em casa do Silva Porto, vieram ali uns pretos que traziam uma galinha para fazer uns curativos, e o hortelão vendo-a disse, que tinha uma muito parecida com ela. Foram estas palavras objeto de um mucano, em que o hortelão teve de pagar 16 côvados de algodão ao dono da galinha.

Logo que chega alguém ao Bihé e traz fazendas, procuram arranjar-lhe inúmeros mucanos, e roubam-lhe assim uma grande parte delas.

Os sertanejos, quando chegam ao Bihé, são tão defraudados pelos mucanos, que muitas vezes não lhes fica para ir negociar no interior mais do que a terça-parte das faturas trazidas. Guilherme (o Candimba), pai do Verissimo, a última vez que ali foi em viagem de tráfico, foi obrigado a dar fazendas no valor de 600 mil réis, por um mucano que lhe arranjaram, de um seu preto ter comprado um bocado de carne de carneiro por três cartuxos de pólvora, e não os ter dado no dia aprazado, mas sim no seguinte, em que já não foram aceites. Durante a minha estada no Bihé, Silva Porto teve de pagar um mucano de 700 mil réis por uma bagatela ainda maior.

É o mucano, esse roubo infame, porque é legal e autorizado, a causa principal do estorvo ao comércio, e da decadência do Bihé.

Foi o mucano que expulsou do Bihé a Silva Porto e aos sertanejos honrados.

Suprima-se o mucano, segure-se o caminho de Benguela, organize-se e legisle-se para as comitivas sertanejas, e dentro em pouco triplicará o comércio de Benguela, e novas fontes de riqueza, atrofiadas hoje pela pouca segurança, viram alimentar as indústrias Europeias.

O povo do Bihé é azado a grandes cometimentos. Esmague-se no seu seio a víbora da ignorância que o corrói; levantem-se esses brutos ignaros à altura de homens, dê-se-lhes uma direção, e eles caminharam na via do progresso e chegaram onde dificilmente chegará outro povo Africano.

Os pretos de África são como os cavalos de fina raça, quanto mais fogosos e bravos, mais prontamente se tornam doceis e obedientes.

Aqueles em que predomina a inercia e a cobardia, dificilmente se puderam civilizar; aos outros não será difícil tarefa traze-los ao caminho do bem.

Os Bihenos, como todos os povos desta parte de África, são muito dados à embriaguez.

Ali ainda chega a água-ardente, e na falta dela fabrica-se muita capata.

A Capata, Quimbombo ou Chimbombo, que lhe chamam de qualquer destes modos, é uma espécie de cerveja feita de milho.

Nas terras onde cultivam o lúpulo (Humulus lupulus), servem-se das cónicas sementes desta trepadeira para confecionarem a bebida.

Para isso, reduzem as sementes a pó, e misturado este pó com fuba de milho, num a enorme panela, ferve por espaço de oito ou dez horas em muita água, e logo, retirada do fogo e fria, é a capata, que se bebe imediatamente.

Neste preparado a fermentação acética predomina, e é tão pequena a fermentação alcoólica, que não embriaga senão em grande quantidade. Como a bebida não é filtrada, fica cheia de farinha em suspensão, e é mais massa muito fluida, do que puramente um líquido. É muito substancial, e há pretos que passam um e mais dias sem comer, bebendo só capata.

Nas terras onde não há lúpulo é este substituído por uma farinha feita de milho em estado de germinação, que eles fazem produzir, já enterrando o milho, já deitando-o em água por alguns dias.

No tempo do mel, fazem produzir na capata uma grande fermentação alcoólica, adicionando-lhe mel, que no fim de alguns dias está em parte transformado em álcool.

Esta bebida assim preparada embriaga muito, e tem o nome de Quiassa.

Preparam ali ainda outra bebida que apenas pode considerar-se refresco, mas que é agradável e muito nutriente.

É ela feita com a raiz de uma planta herbácea, que os meus poucos conhecimentos botânicos não me permitiram classificar, a que os pretos chamam imbunde. Uma forte decocção da raiz do imbunde, depois de fria e de uma ligeira fermentação num a grande cabaça, e adicionada, a frio, à fuba fervida como para a capata.

A raiz do imbunde contem grande quantidade de matéria sacarina.

Esta bebida chama-se Quissangua.

A alimentação do povo do Bihé é quase toda vegetal, e tendo eles poucos gados, que nunca matam para comer, apenas uma ou outra vez comem carne de porco, animais estes que abundam ali no estado doméstico. Creio que foram introduzidos por Silva Porto. No país, muito povoado, escasseia a caça, e a pouca que há são pequenos antílopes (Cefalofus mergens), difíceis de matar por muito esquivos.

Os Bihenos comem toda carne que encontram, e a preferem no estado de putrefação.

O leão, o chacal, a hiena, o crocodilo, e todos os carnívoros, são para eles finos manjares, mas sobre tudo o que mais amam são os cães, que engordam para comerem. Isto talvez provenha da falta de alimentação animal que tem no seu país. Eles não são positivamente canibais, mas comem de tempos a tempos um bocado de homem cozido. Preferem os velhos, e um ancião de cabeleira branca é ótimo presente que recebe o sova, ou algum rico século, para um banquete.

Os sovas do Bihé fazem repetidas vezes uma festa, na sua libata, a que chamam a festa do Quissunge, em que são imoladas e devoradas 5 pessoas, sendo 1 homem e 4 mulheres, desta sorte:-1 mulher que faça panelas, 1 do primeiro parto, 1 que tenha papeira (é vulgar ali), 1 cesteira, e 1 caçador de corças.

Presas as vítimas, são degoladas, e as cabeças lançadas no mato. Os corpos entram de noite para o Lombe da libata grande, onde são esquartejados, e morto um boi, a sua carne é cozida com a carne humana, parte da qual é também fervida na capata; sendo que tudo o que aparecer no banquete deve levar sangue humano. Logo que está pronta a sinistra e repugnante ceia, o sova manda participar que vai começar o Quissunge, e todos os habitantes da povoação correm pressurosos ao festim.

Os Bihenos gostam muito das termites, e destroem as suas habitações para as comerem cruas.

O Biheno é altamente ladrão, e furta sempre que pode algum objeto, logo que está no seu país; fora dele, não só se abstêm de roubar, mas, como carregador, respeita a carga que lhe confiaram.

Quando uma comitiva acampa no mato, no Bihé, é preciso logo dar parte disso ao século dono da terra, mandando-lhe um pequeno presente; sem o que, ficam autorizados os pretos da povoação vizinha a roubarem quanto possam. Logo que se dá o presente ao dono da terra, é ele o responsável por qualquer roubo que haja.

É também necessário mandar um presente, ou antes um tributo, ao sova; ao que se chama dar a Quibanda. Eles nunca ficam satisfeitos, e exigem sempre mais do que se lhes manda.

As libatas ou povoações fortificadas (que todas o são, desde a costa ao Bihé) tem as mesmas condições, salvo pequenas modificações, devidas à disposição do terreno. Sam grupos de cubatas feitas de madeiras e cobertas de colmo, cercadas por uma paliçada, que varia entre 2 a 3,5 metros de altura. Esta paliçada é formada por estacas de pau-ferro de vinte centímetros de diâmetro, umas apenas cravadas no terreno, outras amarradas com travessas e cascas de leguminosas, e outras amparadas por travessas encaixadas em forquilhas enormes.

 

Outra paliçada igual à exterior, senão mais forte, rodeia o Lombe, ou morada do chefe da povoação. Em muitas vi grupos de casas rodeadas de paliçada.

As libatas, e sobre tudo as antigas, são cobertas de frondosas árvores, e estão junto de rio ou ribeiro, sendo que em algumas lhes fazem passar a água por dentro.

Sam quase todas retangulares, mas muitas há elípticas ou circulares, e outras formando polígonos irregularíssimos. Não há a menor ordem nas construções, e em geral é a disposição do terreno que as determina.

Planta de uma Libata de gentio no Bihé

 

A. Entrada.

B. Cubata onde se enterram os sovas.

C. Troféu de cornos.

 

c c c. Casas das amantes do sova.

O O. Casa do sova.

a a a. Lombe ou morada do sova.

d d d. Casas dos pretos.