Diário de África
Capítulo 12 · No Baroze
A 25 de Agosto levantei-me muito incomodado e ardendo em febre. Estava no alto Zambeze, junto do 15º paralelo austral, na cidade de Lialui, nova capital estabelecida pelo rei Lobossi, do reino do Baroze, Lui ou Ungenge, que todos estes nomes pode ter o vasto império da África tropical do sul. Como se sabe pelas descrições de David Livingstone, um homem vindo do Sul à frente de um exército poderoso, o guerreiro Chibitano, Basuto de origem, atravessou o Zambeze junto da sua confluência com o Cuando, e invadiu os territórios do alto Zambeze, sujeitando ao seu domínio todas as tribos que habitavam o vasto país conquistado.
Chibitano, o mais notável capitão que tem existido na África Austral, partira das margens do Gariep com um pequeno exército formado de Basutos e Betjuanas, ao qual foi agregando os mancebos dos povos que vencia, e ao passo que caminhava ao norte, ia organizando essas falanges, que depois se tornaram tão terríveis, já na conquista do alto Zambeze, já na defensa do país conquistado.
A esse exército, formado de elementos diferentes, de povos de muitas raças e origens, deu o seu chefe o nome de Cololos, e daí lhe veio o nome de Macololos que tão conhecido se tornou em África.
No alto Zambeze encontrou Chibitano muitos povos distintos, governados por chefes independentes, que não ponderam, separados como estavam, opor séria resistência ao terrível guerreiro Basuto.
Tão sábio legislador, como prudente administrador, e audaz guerreiro, Chibitano soube dar união aos povos conquistados, e fazer com que eles se considerassem irmãos no interesse comum.
Estes podiam agrupar-se em três divisões, marcando três raças distintas.
Ao sul, abaixo da região das cataratas, os Macalacas; no centro, os Cangenjes ou Barozes; e ao norte, os Luinas, raça mais vigorosa e inteligente, que devia substituir um dia os Macololos na governação do país.
É propriamente no país do Baroze ou Ungenge, que se tem conservado as sedes do governo desde o tempo de Chicreto, o filho e sucessor de Chibitano; e todos os povos de Oeste chamam ao vasto império Lui ou Ungenge, ao passo que os povos do sul lhe dão o nome de Baroze. Mais tarde, neste capítulo, terei ocasião de falar na história deste povo desde a última visita de Livingstone até à minha passagem ali; prosseguindo agora a narrativa das minhas aventuras sob o reinado de Lobossi, e do seu conselheiro íntimo Gambela.
A organização política do reino do Lui é muito diferente da dos outros povos que eu tinha visitado em África. Ali há dois ministérios perfeitamente definidos, o da guerra, e dos negócios estrangeiros; sendo este último dividido em duas secções, cada uma com o seu ministro. Uma delas trata dos negócios de Oeste, outra dos do Sul. Isto é, uma trata com Portugueses de Benguela, outra com os Ingleses do Cabo.
Na ocasião da minha chegada, os conselheiros do rei eram quatro, dois dos quais não tinham pasta; sendo ministro dos negócios estrangeiros de Oeste um tal Matagja, e acumulando duas pastas, a da guerra e a dos negócios estrangeiros do sul, Gambela, o presidente do conselho do rei. Aprendi bem estes detalhes, para regular a minha conduta nas graves questões que tinha a tratar.
Logo de manhã, fui avisado, de que o rei Lobossi me esperava.
Larguei os meus andrajos, e vesti o único vestuário que já possuía, dirigindo-me em seguida à grande praça onde devia ter lugar a audiência.
Ele estava sentado numa cadeira de espaldar, no meio da grande praça, e por de trás dele um negro fazia-lhe sombra com um guarda-sol.
Era um rapaz de 20 anos, de estatura elevada, e proporcionalmente grosso.
Vestia um casaco de casimira preta sobre uma camisa de cor, e em lugar de gravata, trazia ao pescoço um sem-número de amuletos.
As calças eram de casimira de cor, e deixavam ver as meias de fio de Escócia, muito alvas, e o sapato baixo bem lustrado.
Um grande cobertor de listas multicolores em guisa de capote, e na cabeça um chapéu cinzento, ornado de duas grandes e belas penas de avestruz, completavam o traje do grande potentado.
Na mão um pedaço de madeira lavrada, ao qual estavam presas muitas clinas de cavalo, servia-lhe para enxotar as moscas, ação que ele fazia com toda a gravidade.
Á sua direita, em cadeira mais baixa, estava sentado o Gambela, e na frente os três conselheiros. Umas mil pessoas, sentadas no chão em semicírculo, deixavam perceber a sua hierarquia pelas distâncias a que estavam do soberano.