Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 51 de 80

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Diário de África

Gambela

 

Ele respondeu-me, que sabia e compreendia isso, e que a receção que me mandara fazer na véspera e a que ele mesmo me fazia ali, me mostravam que eu não era confundido com um negociante qualquer; que eu era seu hóspede, e teríamos tempo de falar em negócios, porque ele esperava ter a felicidade de me possuir algum tempo na sua corte. Depois de me dizer esta amabilidade, despediu-se de mim, que voltei a casa abrasado em febre.

No meu pátio encontrei trinta bois, que o rei me mandava de presente.

Disse-me o escravo favorito de Lobossi, que seria delicado da minha parte, mandar matar os bois, e oferecer a melhor perna de boi ao rei, e dar carne à gente da corte.

Dei ordem a Augusto para fazer isso, e houve logo uma carnificina enorme, sendo todos os bois mortos, e a sua carne distribuída entre os meus carregadores e a gente da corte; tendo o cuidado de mandar ao rei e aos quatro conselheiros a melhor parte, cabendo ainda assim o melhor quinhão a Gambela, a quem fiz notar que fazia.

 

Matagja As peles, que ali são muito estimadas, ofereci eu a Matagja e Gambela.

Pela 1 hora, fui recebido pelo rei em audiência particular, numa casa também semicilíndrica, mas de grandes dimensões, que não contava menos de 20 metros de comprido por 8 de largo.

Lobossi estava sentado numa esteira, e em frente dele os quatro conselheiros ocupavam outra, de companhia com alguns fidalgos, entre os quais estava um velho vigoroso, cuja fisionomia simpática e expressiva me impressionou. Era Machauana, o antigo companheiro de Livingstone, na viagem que o célebre explorador fez do Zambeze a Loanda, e de quem ele fala, no seu roteiro com tanto elogio.

Uma enorme panela de quimbombo foi colocada no meio da casa, e depois de o rei ter bebido, beberam todos com profusão, e nem me ofereceram, sabendo que eu só água bebia.

Conversámos sobre coisas indiferentes, e eu entendi não dever falar-lhe ainda dos meus negócios. Entre outras coisas, falámos a respeito de línguas diferentes, e Lobossi pediu-me que falasse um bocado em Português, para ele ouvir. Recitei-lhe as Flores d’alma do poema "D. Jaime," e os pretos ficaram encantados ao escutar a harmonia da nossa língua, que o mimoso e grande poeta, tomas Ribeiro, soube imprimir e fazer ressaltar naquelas estrofes singelas.

Quando eu ia retirar-me, o rei disse-me baixo, de modo que ninguém percebeu, que lhe fosse falar depois de ser noite fechada.

Pouco depois de eu chegar a casa, apareceu-me ali Machauana, com quem conversei sobre Livingstone, e que me fez os maiores protestos de amizade.

Á noite, pelas 9 horas, fui à morada do rei. Ele estava num dos pátios interiores, sentado numa esteira, junto a um grande fogo, que ardia numa bacia de barro de dois metros de diâmetro. Na sua frente, em semicírculo, uns 20 homens, armados de azagaias e escudos, conservavam a maior imobilidade e silencio.

Pouco depois de eu chegar, chegou o Gambela, e começou a nossa conferência.

Eu comecei por lhe dizer, que tinha sido obrigado a deixar no caminho os ricos presentes que lhe trazia, mas que, ainda assim, tinha podido salvar algumas pequenas coisas que lhe daria, e entre elas uma farda e um chapéu, que lhe apresentei logo.

Era uma dessas fardas ricamente agaloadas, que toda Lisboa viu aos lacaios postados nas antecâmaras do Marques de Penafiel, e que foram vendidas quando o opulento fidalgo trocou a sua residência luxuosa de Lisboa, pelo viver mais buliçoso da capital da França.

Lobossi ficou encantado com a farda e com o chapéu armado, e fez-me mil agradecimentos. Depois de uma pequena conversa sem importância, entrámos em assunto.

No Baroze falam-se três línguas. O Ganguela, a língua Luina, e o Sezuto, idioma deixado ali pelos Macololos, que modificaram os costumes daqueles povos a ponto tal, que até lhes implantaram a sua língua, que é a língua oficial e elegante da corte.

Era neste idioma que falavam Lobossi e Gambela, servindo-me de intérpretes Veríssimo e Caiumbuca. Eu disse ao régulo, que vinha da parte do rei de Portugal (o Mueneputo), nome pelo qual sua Majestade

Fidelíssima é conhecido entre todos os povos da África Austral, e que é formado por duas palavras-Muene, que quer dizer Rei, e Puto, nome dado em África a Portugal. Disse-lhe, que o meu fim principal era abrir caminhos ao comércio, e que estando o Lui no centro de África, e já em comunicação com Benguela, desejava abrir o caminho do Zumbo, e assim um mercado muito mais perto, onde eles poderiam ir abastecer-se dos géneros Europeus de que precisassem.

Ele queixou-se muito da falta que nos últimos tempos lhe tinha feito o não virem ali negociantes de Benguela, não me ocultando que, entre outras coisas, estava sem pólvora. Eu respondi-lhe, que eles viriam, se com eles fizessem bons negócios, e que eu lhe podia afirmar, que o Mueneputo estava disposto a proteger o comércio com ele, se ele se comprometesse a não consentir nos seus estados a compra e a venda de escravos.

Não lhe ocultei a falta de meios com que eu lutava, e mostrando-lhe o desejo e empenho que tinha em abrir o caminho do Zumbo, prometi-lhe, se ele me coadjuvasse na empresa, fazer-lhe chegar de Tete, no menor tempo possível, a pólvora e mais artigos de que ele carecia.

O Gambela, homem inteligente e fino diplomata (Também os há pretos), quis por vezes enredar-me, mas eu não saía da verdade e da lógica, e ele foi vencido.

No fim de muito discutir, ficou decidido, que o rei Lobossi mandaria uma comitiva a Benguela, para guiar a qual eu lhe daria um homem de confiança, com cartas para o governador e para Silva Porto, e que ele me daria a gente de que eu precisasse para ir comigo ao Zumbo.

Era uma hora da noite quando eu me retirei, e ainda que sempre desconfiado de pretos, não posso deixar de confessar que me retirei satisfeito.

O dia foi todo muito ocupado, e depois de à uma hora me recolher, sobreveio-me um enorme acesso de febre.

Levantei-me muito doente no dia seguinte, e mandei logo Quimbundos e Quimbares construírem um acampamento meio quilómetro ao sul de Lialui, para o que obtive autorização do rei.

Pelas 10 horas, fui visitar Lobossi, que encontrei numa grande casa circular, cercado de gente, e tendo diante de si seis enormes panelas de capata. O meu Augusto, Veríssimo, Caiumbuca e a gente do régulo, dentro em pouco estavam bêbados a cair, e ninguém se entendia ali. Eu voltei a casa, e tive de deitar-me, de tal modo me recresceu a febre.

Foi imensa gente visitar-me, e como eu não tinha remedio senão ouvir uns e outros, porque aqueles negros não tem a menor consideração por um doente, piorei muito.

Lobossi mandou-me seis bois, cuja carne foi toda furtada pela gente dele, porque a minha estava longe construindo o acampamento, e Augusto, Veríssimo e Camutombo completamente bêbados, não quiseram saber disso.

No dia imediato, Lobossi veio visitar-me logo de manhã; eu estava um pouco melhor, mas a febre era constante e não queria ceder aos medicamentos.

Ás 10 horas, Lobossi mandou-me pedir para comparecer diante do seu grande conselho, que fizera convocar expressamente para eu expor os meus projetos.

Outra vez Gambela, que presidia à assembleia, me quis embaraçar, e outra vez se saiu mal. Tive de explicar Geografia a Gambela e aos conselheiros da coroa.

Tracei-lhes no chão o curso do Zambeze, e a leste paralelo a ele o curso do Loengue, que, com o nome de Cafúcué, vai entrar no Zambeze a jusante dos rápidos de Cariba.

Mostrei-lhes que em 15 dias alcançaria a povoação de Cainco, situada numa ilha do Loengue, e que desceríamos o rio embarcados até ao Zambeze, e por este ao Zumbo.

Afirmei-lhes, que o Loengue não tinha cataratas, e que o Zambeze de Cariba ao Zumbo era perfeitamente navegável.

 

Insisti pois neste ponto, demonstrando-lhes, que apenas com uma travessia por terra de 15 dias, que se podia reduzir mesmo a 10 (citando-lhes para isso um facto de uma expedição Luina que, partindo de Narieze, tinha alcançado Cainco em 8 dias), com uma pequena travessia por terra, eles estariam em rápida, comunicação com os estabelecimentos Portugueses de Leste, por vias fluviais completamente navegáveis.

O público estava admirado da minha erudição, e Gambela, que sabia mais geografia Africana do que muitos ministros de estado Europeus, e que conhecia ser verdade o que eu expunha, cedeu ás razões.

Depois de longa e acalorada discussão, foi resolvido, que se enviasse a comitiva a Benguela, e que me fosse dada a gente suficiente para atravessar o Chuculumbe até Cainco, deixando três ou quatro fortes postos no caminho, para segurar a passagem àqueles que, indo comigo até ao Zumbo, tivessem de regressar. No fim da sessão, houve grande entusiasmo, e foram logo nomeados os chefes que deviam ir a Benguela, e os que me deviam acompanhar.

Voltei a casa com um tal acesso de febre que perdi a razão, melhorando ás 6 horas da tarde.

Á noite, anunciaram-me a visita de Munutumueno, filho do rei Chipopa, o primeiro rei da dinastia Luina.

Mandei-o entrar, e vi um rapaz de 16 a 17 anos, muito elegante e simpático.

Trazia uma calça preta e uma farda de alferes de cavalaria ligeira, em muito bom estado. Fez-me profunda impressão ver aquela farda! A quem teria pertencido? Como teria ido parar ao centro de África?

Talvez alguma viúva necessitada encontrasse na venda daquele objeto, que pertencera a um esposo estremecido, algumas migalhas de pão para matar a fome.

Perguntei a Munutumueno como tinha obtido aquela farda? E ele respondeu-me, que tinha sido presente de um sertanejo Biheno, havia já muito tempo.

Indaguei, se não lhe havia encontrado nada nos bolsos, e ele respondeu-me, que não tinha bolsos. Uma farda de oficial sem bolsos, era impossível.

Pedi-lhe para ma deixar examinar, e tendo ele desabotoado o peito, efetivamente vi que não tinha bolso ali.

Roguei-lhe, que se voltasse, e comecei a explorar-lhe os bolsos das abas. Ele estava admirado, porque não sabia que tinha bolsos ali. Num deles os meus dedos encontraram um pequenino bilhete.

Iria saber a quem tinha pertencido aquela farda?

O que conteria aquele papelinho dobrado que eu tinha diante dos olhos e não me atrevia a abrir?

Cheio de comoção, desdobrei o papel, e vi nele algumas linhas escritas a lápis, que li avidamente.

Não pude conter uma gargalhada.

O papel dizia assim:-

"Se lhe não sou indiferente, rogo-lhe o obséquio de me indicar o modo de nos correspondermos."

Por baixo um nome e uma morada.

Sabia de quem fora a farda.

O nome era o de um dos meus amigos e antigo condiscípulo, que hoje ocupa uma distintíssima posição numa das armas científicas do exército Português.

Um dia em público cometi a indiscrição de pronunciar o nome do signatário do bilhete, que eu possuo, e ainda que indiscreto fui, não creio ter de modo algum ofendido aquele nobre oficial e distinto cavalheiro.

Uma farda que o talento e a aplicação ao estudo fizeram trocar por outra, mais distinta; que, abandonada ou dada a algum criado, pela instabilidade das coisas, foi parar ao centro de África, creio é coisa que não desdoura ninguém. Em quanto ao bilhete de amores, creio bem que ainda menos o deve vexar.

Infelizes daqueles que, aos dezoito anos, não escreveram bilhetes assim, e mais infelizes os que depois dos trinta já os não podem escrever.

"Aquilo, meu amigo, foi coisa que um papá, ou uma mamã, sempre impertinentes em tais casos, te não deixou entregar, ao sair do teatro ou de um baile, à tua Dulcinea daquela noite, ou que a tua timidez dos dezoito anos fez recolher ao bolso. Imagino, meu amigo, que te deves ter rido, sabendo que aquele bilhete esquecido, depois de atravessar os mares, atravessou aqueles inóspitos países, e andou em companhia de um preto no alto Zambeze. É verdade, que, para te consolares, sabes que esse preto era filho de rei."

Nesta aventura, eu fui o único tolo, em ter tido pensamentos tristes, à vista do bilhete encontrado no bolso da farda de um alferes de cavalaria, porque logo devia supor, que tal bilhete só podia ser um bilhete de amores.

Um alferes de cavalaria, em Portugal, como em todos os países, é sempre um fogacho onde as mariposas vem queimar as azas douradas.

Pensando na proposição que acabo de formular, deitei-me cheio de tristeza, lembrando-me que já era major.

No dia imediato, recresceu a febre a ponto de eu não poder andar. Lobossi foi visitar-me, e levou consigo o seu médico de confiança.

Era um velho, pequeno e magro, de barba e cabelo branco.

Principiou ele por tirar do pescoço um cordão onde tinha enfiado oito metades de caroços de uma fruta qualquer que eu não conhecia. Começou, com grande recolhimento, a pronunciar umas palavras mágicas, e atirou com os caroços ao chão. Destes, uns ficaram com a parte interna voltada para a terra, outros com a externa. Ele leu naquela disposição, concluindo da leitura, que os meus parentes mortos se tinham apossado de mim, e que era preciso dar-lhes alguma coisa para eles me deixarem. Eu aturei tudo com a maior paciência, fingindo acreditar o que ele me dizia, e dei-lhe um pequeno presente de pólvora.

Naquele dia o Gambela deu-me um presente de dez cargas de milho e massambala.

Estando concluído o meu acampamento, mudei para ele.

No dia 29 de Agosto, a febre cedeu um pouco ás fortes doses de quinino que tomei, e senti bastantes melhoras. O meu estado moral é que piorava de instante a instante.

Tinha alguns momentos de desalento inexplicáveis. A minha energia cedia ante a fraqueza moral que se apossava de mim.

Estava sob o peso esmagador de um terrível ataque de nostalgia.

O rei mostrava muitos cuidados pelo meu estado, mas cada portador que vinha encarregado de saber da minha saúde, era emissário de um pedido cada vez mais impertinente.

Naquele dia mandou ele os seus músicos tocarem e cantarem para me entreter, mas mandou em seguida pedir-me dois cartuxos de pólvora por cada músico.

Nessa tarde ouvi grandes toques de tambores na cidade, e o rei mandou-me pedir, que mandasse dar alguns tiros na grande praça, desejo que eu satisfiz mandando doze homens dar fogo.

Soube depois que aquilo era uma convocação à guerra, e antes de falar nos motivos dela, direi em poucas palavras a história do Lui, desde o ponto em que ficou narrada pelo Dr. Livingstone, isto é, desde a morte de Chicreto.

O império, poderosamente sustentado pela mão de ferro, sabia prudência e fina política de Chibitano, marcou-se com uma profunda pegada de decadência no reinado do seu filho Chicreto. David Livingstone, muito grato aos favores de Chicreto, que lhe deu os meios de ir a Loanda e a Moçambique, é talvez bastante suspeito nos elogios que dispensa a este rei; e mesmo na narrativa da viagem que ali fez depois com o seu irmão Carlos e o Doutor Kirk, não pode deixar de narrar a desordem e profunda decadência em que encontrou o império Macololo.

Das gentes vindas do sul com Chibitano, isto é Macololos, poucos existiam já, tendo sido decimados pelas febres do país, que nem os naturais poupam. A embriaguez e o uso do bangue, de mistura com os desregramentos dos chefes, tinham feito perder toda a autoridade aos invasores. Morto Chicreto, sucedeu-lhe seu sobrinho Omborolo, que devia reinar durante a menoridade de Pepe, irmão muito mais novo de Chicreto, e filho ainda do Grande Chibitano.

Os Luinas conspiravam, e um dia Pepe foi assassinado. Omborolo não tardou a ter a mesma sorte, e tendo sido ordenada uma Saint Bartélemi por os Luinas, os restos desse forte exército invasor foi assassinado, escapando apenas poucos, sob o comando de Siroque, irmão da mãe de Chicreto, que fugiu para Oeste, passando o Zambeze em Nariere.

Os Luinas, depois dessa carnificina traiçoeira, aclamaram seu chefe Chipópa, homem de tino, que não deixou desmembrar o país, e procurou conservar o império, poderoso como em tempo de Chibitano.

Chipópa reinou muitos anos, mas as ambições apareceram e, em 1876, um tal Gambela fê-lo assassinar, e aclamar seu sobrinho Manuanino, criança de 17 anos.

O primeiro ato do poder de Manuanino foi mandar cortar a cabeça a Gambela, que o tinha feito rei, e desprezando todos os parentes e amigos do pai que o elevaram ao poder, chamou para junto de si só os parentes maternos. Aqueles conspiraram, fizeram uma revolução, e tentaram assassina-lo, em Março de 1878; mas Manuanino, tendo alguns fiéis, pode escapar-se, e fugiu para o Cuando, onde assaltou e devastou a povoação de Mutambanja.

Lobossi, aclamado rei, enviou contra ele um exército, e Manuanino teve de retirar dali, e repassando o Zambeze em Quisséque, internou-se no país do Choculumbe, atravessou este país, e foi juntar-se a uns brancos, caçadores de elefantes, que estavam na margem do Cafuqúe. Lobossi entendeu, que a sua segurança dependia da morte de Manuanino, e mandou contra ele um novo exército. Foi do resultado daquela expedição que nesse dia chegaram notícias.

Chegados perto do lugar onde estava o ex-soberano com os brancos, que eles chamam Mozungos, intimaram estes a que lhes entregassem Manuanino para o matarem, e como tivesse recusa, eles os atacaram, mas, com tanta infelicidade, que foram completamente batidos pelos brancos; escapando muito poucos, que nessa tarde chegaram a Lialui a narrar o seu desastre.

Eis aqui o motivo porque os tambores tocavam convocando à guerra; e porque o rei Lobossi me pediu que mandasse dar tiros na grande praça da cidade.

Já que falei na história do Lui, não devo prosseguir sem narrar um dos seus episódios mais interessantes, porque se refere a um tipo verdadeiramente simpático.

É Siroque, aquele Macololo, que, na ocasião da Saint Bartélemi dos Macololos, conseguiu escapar com um grupo de gente, passando o Zambeze.

Siroque, intrépido e audaz, caminhou a oeste até encontrar o Cubango, onde se estabeleceu, vivendo da caça dos elefantes.

Depois subiu o rio até ao Bihé, e fixou-se ali por muito tempo, chegando por vezes a ir a Benguela em comitivas sertanejas. Um dia porem, tendo umas questões em que bateu os que o atacaram, retirou por prudência para o interior; indo acampar no rio Cuando abaixo do Cuchibi, onde continuou a vida de caçador.

Siroque era inteligente e bravo, e de uma família que tinha reinado, não podia deixar de ser ambicioso.

Sonhou com o restabelecimento da monarquia Macolola no Lui, e foi-se aproximando dali pelo Cuando.

Um pombeiro do Bihé, seu amigo e que lhe tinha fornecido pólvora, denunciou-o, e Manuanino, então aclamado de pouco, fê-lo assassinar junto da povoação de Mutambanja, pela mais cobarde traição.

Todos os seus foram vítimas, e a azagaia do assassino de Siroque abriu o túmulo ao último dos Macololos.

Aquele dia amanhecido tão bonançoso para o adolescente monarca, que só via sorrir-lhe a vida, tornara-se de repente sombrio e carregado, envolvido em nuvens de tempestade.

As notícias más sucedem-se, e corria o boato, de que Lo Bengula, o poderoso rei do Matebeli, projetava um ataque contra o Lui.

Andavam todos desorientados, todos emitiam alvitres, todos pensavam loucuras; só dois homens se conservavam serenos no meio daquele povo semi-louco. Eram Machauana e Gambela-Gambela o ministro da Guerra, Machauana o General em chefe.

Ordens acertadas e rápidas eram dadas por eles a emissários fiéis, que partiam para povoações distantes.

O que seria de mim no meio dos novos acontecimentos que agitavam o país?

Diziam e repetiam, que foram os Muzungos que mataram os sicários de Lobossi, enviados contra Manuanino, e se ali se soubesse que eu era Muzungo, estava irremediavelmente perdido. Estes povos felizmente ignoram isso, e pensam que os Portugueses de leste são de outra raça diferente dos Portugueses de oeste.

No Lui, os Portugueses das colonias de oeste são chamados Chiudéres, nome que lhes dão os Bihenos; os das colonias de leste, Muzungos; e os Ingleses do sul, Macúas. A todo e qualquer preto que vem das colonias Portuguesas chamam Mambares, decerto corrução da palavra Quimbares, com que são designados os pretos semi-civilizados de Benguela. Daí proveio o erro do Doutor Livingstone, arranjando a oeste das serras de Tala Mugongo uma raça de Mambares.

Os Quimbares são pretos de qualquer procedência, geralmente escravos ou libertos, que já são meio-civilizados. Sam, finalmente, a gente das senzalas de Benguela e as escravaturas dos brancos da costa.

Em Benguela chamam Quimbundos ao gentio selvagem do interior, designando com esse nome mais particularmente os Bihenos.

No dia 30, logo de manhã, Lobossi mandou dar-me parte de que se ia fazer a guerra, e dos motivos que a isso o obrigavam.

O emissário foi o próprio Gambela, que me disse logo, que, sendo o Chuculumbe o teatro da guerra, era impossível a minha viagem por ali; e por isso, que tudo o que havíamos combinado estava prejudicado.

Aqueles acontecimentos tornavam muito crítica a minha posição.

Nessa tarde, estando eu com um novo e violento acesso de febre, vieram prevenir-me, de que os pombeiros Bihenos me queriam falar.

Levantei-me a custo e fui ouvi-los.

Depois de variados preâmbulos, disseram-me, que me iam deixar, porque viam o mau caminho que as coisas tomavam no Lui, e só desejavam voltar ao Bihé.

Cobardes! Abandonavam-me no momento em que eu mais precisava deles!

Miguel, o caçador de elefantes, o pombeiro Chaquiçongo, e dois carregadores, Catiba e um carregador, e o Doutor Chacaiombe, vieram protestar-me a sua amizade, e declarar-me que ficavam comigo. Todos os Quimbares me vieram fazer igual declaração.

Aquela resolução inesperada dos Bihenos fez-me recobrar o sangue frio que já não tinha há dias. Aumentavam as dificuldades, era preciso lutar, e eu sacudi o entorpecimento moral que se ia apossando de mim.

Imediatamente despedi os Bihenos, que pus fora do acampamento, entregando-os ao preto António, o velho António que eu tinha designado a Lobossi para ser chefe e guia da comitiva que ele ia mandar a Benguela.

Fiz em seguida a conta à minha gente, e achei-me com 58 homens.

No dia imediato, Lobossi veio a minha casa, e fez-me repetidas exigências de coisas que eu não possuía, e ele queria por força que eu tivesse e lhe desse. Estava cada vez mais importuno. Era uma criança, mas criança impertinentíssima. Precisava de uma paciência sem limites para o aturar.

Lobossi mandou-me chamar nessa noite. Fui la, e ele disse-me, que a minha viagem pelo Chuculumbe era impossível, mas que me daria guias e alguma gente para eu tornear pelo sul e ir ao Zumbo. Disse-me, que o boato a respeito dos Matebeles não tinha fundamento, que daquele lado havia paz e ele terminaria facilmente com Manuanino. Queixou-se muito amargamente de eu lhe dar poucas coisas, dizendo, que se eu nada mais tinha, lhe desse todas as armas e a pólvora que possuía, porque, seguindo para o Zumbo com gente dele, seria defendido por ela, e não precisava levar tanta gente armada.

Ofereci-lhe as armas dos Bihenos que me tinham deixado nesse dia, e que tive o cuidado de lhes tirar, e sete barris de pólvora, mas neguei-me formalmente a dar-lhe uma só que fosse das outras, dos homens que me ficaram, ou das minhas particulares.

Retirei-me pouco satisfeito daquela entrevista.

No primeiro de Setembro, levantei-me muito doente, e depois de ter feito as observações da manhã, tornei a deitar-me; quando o Veríssimo entrou espavorido na barraca, e me diz, que Lobossi mandara chamar toda a minha gente, e lhe expusera, que eu tinha vindo ali de propósito para me ir juntar aos Muzungos que estavam no Cafuque com o Manuanino, e fazer-lhe guerra a ele. Isso estava demonstrado pela minha insistência em querer ir ao Chuculumbe. Nessa noite fora ele prevenido dos projetos que eu meditava, e por tanto, me ia obrigar a sair dos seus estados, e só me deixaria livre o caminho do Bihé.

Encarregara ele o Veríssimo de me vir fazer a intimação; coisa que em nada me desconcertou o espírito, porque, desde a véspera à noite, eu esperava novidade grande.

Mandei chamar o Gambela, mas ele teve o cuidado de fazer com que o não encontrassem em todo o dia.

Um recado que fiz chegar a Lobossi, mostrando-lhe a inconveniência do passo que dava, porque eu lhe podia fazer muito mal impedindo os sertanejos do Bihé de virem ali, teve por única resposta novo mandado de despejo, e só livre o caminho do Bihé.

Á tarde, nova prevenção, de que as forças que estavam reunidas para a guerra, não sairiam sem eu ter deixado o país do Lui em caminho de Benguela.

Respondi ao enviado, que dissesse ao rei Lobossi, que dormisse sobre o caso, porque a noite era boa conselheira, e que esperava ainda a sua última decisão no dia imediato.

A 2 de Setembro, logo de manhã, recebi a visita de Gambela, que vinha da parte do rei, ordenar-me que saísse do seu reino imediatamente, e que o único caminho livre era o do Bihé. Não pode passar nem por ali, nem por ali, nem por ali, me disse ele, apontando para o N., E. e S.

Contra todos os usos do país, o Gambela, em quanto esteve na minha casa, conservou as armas na mão, e eu entretive-me brincando com um magnífico revólver Adams-Colt.

Fingi que meditei a minha resposta, e disse-lhe, "Amigo Gambela, vá dizer a Lobossi, ou tome o recado para si, que eu não arredo um passo daqui para seguir o caminho de Benguela. Tem aí um numeroso exército, que me venha atacar; eu saberei defender-me, e se morrer, o Mueneputo lhe tomará contas disso. Vocês estão indispostos com os Matebeles, ameaçados pela guerra civil levantada por Manuanino, indisponham-se também com o Mueneputo, e estão perdidos. Outra vez lhe repito, que não sairei daqui senão para seguir o meu caminho."

Gambela saiu da minha barraca furioso.

Nessa noite Machauana veio furtivamente visitar-me. Preveniu-me ele de que Gambela aconselhara ao rei para me mandar matar, e que Lobossi se negara a isso terminantemente. O caso foi passado em conselho, a que assistia Machauana, que me fez mil prevenções para estar de sobreaviso.

A larga conversa que tive com o antigo companheiro de Livingstone, mostrou-me que entre ele e Gambela havia reixa velha. O antigo guerreiro de Chibitano, depois muito afeiçoado ao rei Chipopa, só pensava em ver ocupar o trono do Lui ao filho deste, seu pupilo e o seu protegido, o jovem Munutumueno, o meu alferes de cavalaria ligeira.

Tendo podido ler no coração do velho aquele odio e aquela afeição, considerei-me salvo. O seu poder era grande, porque ele tinha influência numa enorme parte das tribos do Lui; e por isso as azagaias, que tanto ferem ali nas revoluções, o tinham poupado. Fiz-lhe muitos protestos de gratidão, e pedi-lhe, que me prevenisse logo que o rei Lobossi determinasse matar-me. Ele prometeu, e retirou-se.

Eu fui deitar-me, levando a referver na mente, um plano singelo, que me abstive de comunicar a Machauana, para lhe evitar ideias cobiçosas, que ele não tinha naquele momento.

Resolvi, se acaso Lobossi decretasse a minha morte, chamar cinco dos meus homens mais decididos, uma espécie de cães que eu tinha comigo, como eram Augusto, Camutombo e outros, e ir com eles logo à audiência do rei, onde todos estão desarmados, faze-los, a um sinal meu, saltarem sobre Lobossi, Gambela, Matagja e os outros dois conselheiros íntimos, e eu de um pulo acercar-me de Machauana o general em chefe, o homem que tinha ali acampados dez mil guerreiros, e gritar-lhe bem alto "Viva Munutumueno, rei do Lui, viva o filho de Chipopa!"

Uma revolução feita nestes termos não podia deixar de dar bom resultado num país que ama as revoluções, e onde se faria a primeira em que não tivesse uma gota de sangue derramado.

Acalentando este pensamento salvador, adormeci profundamente, para acordar, no dia 3, ao chamamento do meu moleque Catraio, que me vinha prevenir, de que Lobossi estava ali, e me queria falar.

Levantei-me e fui receber o rei. Ele vinha participar-me, que tinha mudado de parecer, e que todos os caminhos estavam livres para mim.

Que me daria guias até ao Quisséque, mas que, em vista das coisas que se estavam passando nos seus estados, não podia dar-me força para me seguir, nem se responsabilizava por qualquer desastre que me pudesse acontecer, indo eu com 58 homens apenas.

Agradeci-lhe aquela decisão, e declarei-lhe, que tinha por costume, só eu mesmo me responsabilizar pela minha vida, e não tornar ninguém responsável dela.

Antes de se retirar, fez-me muitos pedidos, que ficaram sem satisfação, por não ter nada do que ele queria. Um dos pedidos que me fazia todos os dias, era o de seis cavalos. Tendo-me visto chegar a pé, e sabendo que eu não tinha cavalos, era impertinencia tal desejo.

Soube depois, que a nova decisão tomada por Lobossi fora filha de reiteradas instâncias do Machauana, que lhe mostrou a inconveniência do passo que dava, fazendo-me sair dos seus estados a pesar meu.

No dia 4, de manhã, estando um pouco melhor da febre, fui assistir a uma audiência do rei, que se mostrou em extremo amável para comigo. Logo ao nascer do sol, Lobossi saí dos seus aposentos, e ao som de marimbas e tambores, dirige-se à grande praça, onde vai sentar-se junto a uma alta sebe semicircular, cujo centro é ocupado pela cadeira real.

Por de traz dele senta-se a gente que compõe a corte, e à sua direita Gambela e os outros conselheiros, se estão presentes.

Na frente do régulo, a 20 passos, a música em linha, e aos lados, em muitas fileiras, o povo.

Ali tratam-se um certo número de negócios, que não precisam ser tratados em conselho privado. Aquela audiência é também judicial. Naquele dia tratava-se de um crime de furto. O queixoso chamou o acusado, que veio sentar-se em frente dele, e fez a acusação. O acusado negou o crime, e logo de entre o povo saiu um homem que veio advogar em favor do réu. Ali qualquer amigo ou parente pode defender o amigo ou parente.

Gambela tomou a palavra, e o acusado veio ajoelhar em frente dele; fez-lhe varias perguntasse mandou-o embora.

Continuou o debate, comparecendo testemunhas de acusação e defesa. O crime foi provado, e o acusador pediu, que lhe entregassem a mulher do ladrão; ficando indenizado da perda de uns fios de missanga, objeto do roubo, pela posse da mulher.

Terminado este debate, apareceu outro homem acusando a mulher de lhe não obedecer. Esta acusação foi seguida de muitas outras semelhantes, e mais de vinte súbditos de Lobossi fizeram amargas queixas contra as esposas; demonstrando-me, que as mulheres em Lialui estavam em completa revolta doméstica. Depois de alguma discussão, foi resolvido, que toda a mulher que não obedecesse cega e absolutamente ao marido, fosse amarrada e metida na lagoa, onde passaria uma noite só com a cabeça de fora.

Aprovada esta nova lei, Gambela ordenou a alguns chefes, que a promulgassem nas povoações.

Uma coisa muito curiosa naquelas audiências é o modo porque Gambela conferência com o rei em segredo, diante de todos. A um sinal de Gambela, começa a música a tocar, e os oito batuques fazem uma bulha de tal modo infernal, que é impossível perceber uma palavra das que trocam o rei e o ministro.

Em seguida à audiência, o rei vai para um aposento próprio para se embebedarem.

Vem panelas e panelas de capata, e ele e os seus prestam um verdadeiro culto ao deus Baco. Dali vai para a cama, e à tarde, depois de novas libações, dá nova audiência. Logo que, ao anoutecer, termina a audiência, vai comer, e segue para o serralho, donde raramente saí antes da uma hora, e recolhendo a casa para dormir, vai deitar-se ao som ruidoso dos tambores.

O cessar dos batuques anuncia que o régulo está recolhido, e então a guarda, composta de uns quarenta homens, começa a tocar uma música, que, apesar de monótona, é agradável; e toda a noite cantam um coro suave e harmonioso a meia voz. Esta música que no Baroze acalenta o sono do soberano, serve para mostrar que a guarda vela em torno do seu aposento. Nestes poucos traços dou uma ideia resumida do viver monótono do autocrata Africano, viver repartido entre a lascívia torpe e a embriaguez brutal.

Naquele dia, 4 de Setembro, soube, que devia a vida a Machauana, que, em conselho privado, se opôs formalmente a que me mandassem assassinar; dizendo, que ele tinha estado em Loanda com Livingstone, e ali tinha sido muito bem tratado pelos brancos, assim como os Luinas que o acompanhavam; e por isso não podia consentir que fizessem mal a um branco da mesma raça.

Chegou mesmo a ameaçar os poderes constituídos, o que era caso grave para eles; porque no Lui os ministros morrem sempre na queda dos ministérios; precaução tomada pelos novos conselheiros, que com alguns golpes de azagaia cortam pela raiz as oposições.

Cá na Europa, algumas vezes, procura-se denegrir a reputação dos antecessores, buscando desdoura-los aos olhos do povo, para lhes diminuir a força moral como oposição. Eu acho mais nobre, mais digno e mais seguro o sistema político dos Luinas, o que não quer dizer que o recomende.

O conselho, em vista da atitude e das razões de Machauana, decidiu, que eu não morresse; mas, parece que algum dos conselheiros por conta própria decidiu o contrário; porque, nessa noite, estando afastado do acampamento, preparando-me para tomar alturas da lua, uma azagaia de arremesso passou tão perto de mim que a haste vergastou-me o braço esquerdo. Olhei para o lado donde partira a arma, e vi um preto a vinte passos, empunhando outra. Tirar o revólver e fazer fogo sobre ele, foi ato mais instintivo do que pensado. Ao estampido do tiro, o assassino virou costas e correu em direção a Lialui. Corri sobre ele. Sentindo-me no encalço, o preto deitou-se por terra. Receei uma cilada, e foi a passos medidos que me aproximei dele, pronto a fazer fogo.

Vi que o membrudo indígena estava de bruços com as azagaias caídas ao lado.

Peguei-lhe num braço, e ao tempo que senti as carnes estremecerem ao contato da minha mão, senti um líquido quente correr-me por entre os dedos. O homem estava ferido. Fi-lo erguer, e ele disse-me, trazido de medo, umas palavras que eu não entendi. Apontando-lhe o revólver, obriguei-o a acompanhar-me ao acampamento.

Ali não fizera sensação o tiro de revólver, porque todas as noites se ouvem mais ou menos tiros. Chamei dois moleques de confiança, e entreguei-lhe o meu prisioneiro, cuja ferida examinei. A bala entrara junto à cabeça superior do húmero direito, perto da clavícula, e não tendo saído, supus estar fixa na omoplata. Não lhe aparecendo sangue nas vias respiratórias, calculei que o pulmão não tinha sido ofendido, assim como o fio de sangue que corria da ferida, pela sua tenuidade me mostrava que nenhum dos vasos importantes da circulação tinha sido cortado. Nestas condições a ferida não apresentava gravidade, pelo menos de momento.

Depois de lhe fazer um ligeiro curativo, mandei chamar o Caiumbuca, e ordenei-lhe que me acompanhasse a casa do rei, fazendo com que os moleques conduzissem para ali o ferido.

Lobossi tinha voltado de casa das amantes, e conversava com Gambela antes de se deitar. Apresentei-lhe o ferido e perguntei-lhe o que era aquilo. O rei mostrou um grande terror, vendo-me coberto de sangue do assassino, que eu nem tinha lavado; e um olhar trocado entre Gambela e o ferido, mostrou-me quem tinha sido a cabeça que enviara aquele braço. Lobossi mandou logo retirar dali o preto, e disse-me, que aquilo era um grande agouro, e que já não dormiria aquela noite sossegado.

Narrei o acontecido, e Gambela apoiou muito o que eu tinha feito, lastimando que eu não tivesse morto o preto, e dizendo-me, que ia matar meio mundo.

O preto era desconhecido em Lialui, e os da guarda de Lobosi disseram nunca o terem visto. Lobossi pediu-me, que guardasse sobre o facto o maior segredo, assegurando-me, que não me acontecia outra em quanto estivesse nos seus estados.

Eu voltei ao campo mais desconfiado que nunca das amabilidades de Gambela.

Por noite fora, senti que alguém tentava penetrar na minha barraca, e pus-me a pé sem ruido, pronto a surpreender aquele que julgava fazer-me surpresa.

A pessoa era decerto conhecida, porque a minha cadela Traviata não ladrava, e fazia festas com a cauda para o ponto por onde alguém se introduzia de rastos.

Esperei um momento, e ao clarão da fogueira conheci a preta Mariana, que, com meio corpo dentro da barraca, me fazia sinal para que estivesse calado.

Entrou, achegou-se a mim e disse-me: "Toma cautela. O Caiumbuca atraiçoa-te. Depois que voltou contigo de casa do rei, tornou a Lialui a falar com Gambela; e logo que chegou aqui, reuniu com muito sossego a gente de Silva Porto, e esteve a falar com eles na barraca dele. Eu fui escutar, e ouvi falar em te matarem. O Veríssimo também la estava. Eles disseram, que como tu não entendias a língua do Lui, quando tu lhes dissesses uma coisa para dizer ao rei, eles diriam outra, e te dariam também a resposta trocada, que assim tinham de fazer com que o rei te matasse.

"Toma cautela, olha que eles são muito maus."

Agradeci muito à pequena o aviso e dei-lhe o único colar de missanga que me restava, e que eu reservava para uma das favoritas de Machauana.

A declaração da Mariana, veio ferir-me profundamente. Os homens em que eu confiava eram os primeiros a atraiçoar-me.

Mil pensamentos tristes, que não conseguiram alquebrar-me o espírito, produziram uma noite de insónia. É verdade, que a prevenção de Mariana veio dar-me uma vantagem enorme sobre eles, que ignoravam que eu lhes conhecia a traição nos seus detalhes; e de manhã ao levantar-me, eu repetia a mim mesmo o rifão Português, de que "um homem avisado vale por quatro."

Gambela foi visitar-me, e repetiu-me mil protestos de amizade; mas eu pressentia que o perigo pairava em torno de mim, e que a espada de Dâmocles estava suspensa sobre a minha cabeça.

Nesse dia entreguei a Gambela as cartas para o governador de Benguela, e a comitiva do rei do Lui, comandada por três chefes Luinas e guiada pelo velho António de Pungo Andongo, seguiu caminho da costa.

Com ela foram os Bihenos que me tinham abandonado. Estava satisfeito com aquele primeiro resultado obtido; e se os meus trabalhos se perdessem e mais nada fizesse, o ter posto um povo tão poderoso em relações com a civilização Europeia da costa, era já um resultado importante da minha viagem.

A revelação feita nessa noite por Mariana trazia-me preocupado, e eu só pensava no meio de parar o golpe que me feria, com a traição daqueles em que eu mais confiava.

Formei um plano que decidi por em prática nesse mesmo dia.

A narrativa dos repetidos e graves acontecimentos que se deram comigo depois da minha chegada ao Lui, não me tem deixado falar dos povos Luinas e os seus costumes.

Em lugar de encontrar ali essa raça forte e vigorosa, criada por Chibitano, e que existiu com o império Macololo, fui deparar com uma raça abastardada, misto de Calabares, Luinas, Ganguelas e Macalacas, que tem unido o seu sangue marcando cada cruzamento uma pegada de decadência. O uso imoderado do bangue ou cangonha (Canabis Indica), a embriaguez e a sífilis, tem lançado aquele povo no mais abjeto embrutecimento moral, e enfraquecimento físico.

 

Cachimbos de fumar o Bangue

O primeiro daqueles três grandes inimigos da raça preta chegou-lhe do sul e leste pelo Zambeze; os dois outros foram ali importados pelos Bihenos, que lhe trouxeram ainda outro inimigo não menos terrível, o tráfico da escravatura.

 

Poucos países Africanos levaram tão longe como os Luinas a prática da poligamia. Gambela, à época da minha estada no Baroze, tinha mais de setenta mulheres!

O Lui, ou Baroze propriamente dito, isto é, o país que fica ao norte da primeira região das cataratas, compõe-se, da enorme planície onde corre o Zambeze, que tem de 180 a 200 milhas do N. a S., e por vezes, de 30 a 35 O. a E., planície elevada 1,012 metros ao mar; do país mais elevado a leste, onde assentam inúmeras povoações, que vem estabelecer as suas culturas na grande planície; e ainda na enorme planura do Nhengo, onde corre o Ninda. A planura do Nhengo é separada do leito do Zambeze por uma nervura de terreno elevado de 20 metros, que corre paralela ao rio, e onde estão muitas povoações, livres das maiores cheias.

Durante o tempo das grandes chuvas, a planície do Zambeze é inundada, e eu medi em algumas árvores onde tinham ficado sinais do maior nível das águas três metros.

No paralelo 15º tem ela uma largura de trinta milhas, e por isso, na época das cheias, calculando uma corrente mínima de 20 metros por minuto, devem passar ali 240 milhões de metros cúbicos de água por hora. Isto dá uma medida do que são as chuvas na África tropical, acrescentando-se, que regularmente a inundação atinge o seu máximo em oito dias.

O povo Luina, que em grande parte vive na planície, retira para o país montanhoso durante as inundações.

Ao retirar das águas, volvem a ocupar as povoações abandonadas na invernia, e cobrem o campo com os seus rebanhos enormes, que, diga-se a verdade, não encontra ali um pasto viçoso em época alguma do ano; porque os prados são formados, pela maior parte, de caniçal, onde abunda uma espécie do Calamagrostis arenaria.

As culturas são feitas mais na margem direita do que na esquerda do Zambeze, e sempre junto das encostas.

A inundação deixa na planície um sem-número de pequenas lagoas, que se atulham de vegetação aquática, e que são outros tantos focos miasmáticos de infeção palustre. Há épocas no ano em que os próprios indígenas são fortemente atacados pelas febres endémicas. Nas lagoas abunda peixe e há muitos batráquios.

É destas lagoas que se fornecem de água potável os indígenas, mas é preciso confessar, que eles só a bebem depois de transformada em Capata.

Os Luinas são pouco agricultores, e muito pastores. Os seus rebanhos constituem a sua principal riqueza, e no leite das vacas encontram o seu principal alimento.

O haver do Luina consiste em algumas vacas e algumas mulheres.

O leite fresco e o leite azedo (coalhado) são, com a batata-doce, a base da sua alimentação. A farinha de milho é empregada para fazer a Capata, de mistura com a de massambala, principal cultura do país.

Os Luinas fabricam o ferro, e todas as suas armas e todos os seus utensílios, são feitos no país. Não usam facas, e não podemos deixar de nos admirar das esculturas que fazem em madeira, sabendo que não empregam facas, e mais ainda, logo que conheçamos o instrumento com que trabalham. No Lui, onde o machado termina a obra grossa de desbaste, começa a obra da azagaia. O ferro desta é instrumento para tudo. Os bancos onde se assentam, as escudelas em que comem as vasilhas do leite, e todos os seus utensílios de madeira, são cortados com ela.

 

Vasilha para leite feita de Madeira

 

Entre eles há um primorosamente trabalhado, em geral, e é a colher. Vivendo de leite, o Luina não pode prescindir da colher, e dispensa a faca. O seu sistema de alimentação explica a falta desta e o muito uso daquela.

Objeto de Ferro forjado que serve de Lenço de assoar aos Luinas.

Espécie de Espátula.

 

Pratos e Escudelas para a comida

 

Colher