Diário de África
Os Desfiladeiros de Letlotze
Mandou-se à descoberta, e foi o meu Catraio quem, depois de longas e demoradas pesquizas, encontrou alguma água muito longe do acampamento.
O sítio em que estávamos era lindíssimo, e passámos ali um agradável dia.
A 30 de Dezembro, posemo-nos a caminho ao alvorecer.
Eu, que acordei nesse dia de péssimo humor, estava possuído de uma verdadeira raiva, e nunca cheguei a sentir tanto ódio a alguém como então senti por aquelas damas, pelo missionário, por todos que me rodeavam.
Aquele estado do meu espírito atribulado exacerbou-se ao ouvir, que Mr. Coilard desejava fazer uma grande jornada naquele dia.
Efetivamente, entestámos com os desfiladeiros de Letlotze, e caminhámos 25 quilómetros sem parar.
Parámos enfim, e procurei logo afastar-me do acampamento, para não fazer alguma loucura. Depois de um passeio nos arredores, voltei, e ao aproximar-me do campo por entre os arbustos, vi Madame Coilard, que falava com Mademoiselle Elise com modo contristado.
Não podia ouvir o que diziam, mas o que vi foi bastante para perceber do que se tratava.
Mademoiselle Elise tinha na mão a lata do chá, Madame Coilard um pires. Foi despejado no pires todo o contendo da lata, e divido em duas partes, uma das quais volveu para a lata, outra entrou no bule. Era o último chá de Madame Coilard. Compungiu-me tanto o ver o sentimento que se lia no rosto de uma dama Escocesa ao servir o seu último chá, que o meu mau humor caiu por terra, e caiu para sempre, porque não mais volveu.
Ainda nesse dia jornadeámos por três horas, indo acampar ás 7 e meia em sítio seco.
A nossa viajem foi sempre pelos desfiladeiros de Letlotze, onde um sulco profundo serpeia em apertadas curvas, mostrando o leito seco de um rio do mesmo nome. Sete vezes atravessámos aquele sulco, com grande risco dos vagões que se precipitavam das suas escarpas profundas e inclinadas.
As montanhas que coroam aquele desfiladeiro são belas, e a serra apresenta um dentado original.
A 31 de Dezembro, depois de uma jornada de duas horas, entrávamos em Xoxom (Shoshong); a grande capital do Manguato.
Ás 8 horas eu comprava um saco de batatas e outro de cebolas; encontrava um Stanlei (que não é H. M. Stanlei, mas de quem terei que falar muito); e ás 11 horas comia um ótimo almoço de batatas com presunto, um magnífico beef-steak, e apertava a mão do régulo Cáma, o indígena mais notável da África Austral.
Madame Coilard já tinha nova provisão de chá.