Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 42 de 80

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Diário de África

Caú-eu-hue (Cidade do Cuchibi)

 

Casas, como tudo o que fazem estes Ambuelas, são pessimamente construídas, e pouco abrigam. Fora das portas, pendem de grandes estacas enormes cabaças, onde eles guardam a cera, e outros objetos.

As próprias casas estão atulhadas de cabaças. Entre os Ambuelas, a cabaça é mala, é cofre, é o seu principal traste de mobília.

Os depósitos de mantimentos, só diferem das casas de habitação em estarem dois metros elevados do solo, sobre estacas, e por isso livres das inundações do rio.

Numa das ilhotas mora o sova Moene-Caú-eu-hue. Há ali a sua casa de habitação, quatro mais, de quatro mulheres, e alguns depósitos de mantimentos.

Junto da casa do régulo estão misturados em troféu rústico, caveiras, cornos e outros despojos de caça.

Moene-Caú-eu-hue recebeu-me tendo ao seu lado dois dos seus favoritos.

Logo que me sentei, o meu intérprete e um dos favoritos começaram um estridente bater de palmas, e apanhando uma pouca de terra, esfregaram com ela o peito, e repetiram muitas vezes apressadamente as palavras Bamba e Calunga, terminando por novo bater de palmas muito rápido mas pouco forte. Estavam os comprimentos feitos.

O régulo quis ver o meu barco, e fez nele uma pequena excursão pelo rio.

O seu espanto, ao ver o poder de flutuação do barco portátil, não tinha limites, e muitas vezes me repetiu, que não vendesse daqueles barcos aos Ambuelas do Cubangui, senão estavam perdidos.

Tranquilizei-o dizendo-lhe, que os brancos não queriam guerra entre eles, e por isso teriam todo o cuidado em não lhes dar os meios de a fazerem.

De volta à ilha, mandou ele vir uma cabaça de Bingundo, e um copo de folha de flandres, lata troncocónica de marmelada de Lisboa, deixada ali por algum sertanejo Biheno, em viagem de comercio.

Cheio o copo, entornou o sova algumas gotas do líquido fermentado no solo, e cobriu de terra húmida o sitio, bebendo em seguida todo o seu conteúdo.

Tendo-lhe dito o intérprete, que eu só bebia água, ele passou a cabaça aos seus favoritos, que a esgotaram num momento. Ao meio dia estava de volta ao meu acampamento.

Estive nesse dia com um indígena, irmão do sova, que me disse, ter descido dali ao Zambeze embarcado pelo Cuchibi e Cuando.

O Irmão do Sova

 

 

Este preto é inteligente, e fala bem o Português, por ter sido soldado em Luanda, para onde fora vendido no tempo da escravatura. É um grande caçador, e muitas vezes percorreu, nas suas excursões cinegéticas, as margens do Guando até Linianti.

Disse-me, ser o Guando completamente navegável, sem rápidos, mas por vezes alargar tanto que adquire pouco fundo, e ser tão poderosa a vegetação aquática, que prende os barcos, tornando em alguns pontos difícil a navegação.

Afirmou-me, e depois tive ocasião de verificar nas localidades, que o rio Cuando se chama sempre Cuando até Linianti, e dali ao Zambe ainda Cuando ou rio de Linianti, e nunca Chobe, ou Tchobe, como vem designado nas cartas.

A raça Ambuela continua no Cuando o mesmo sistema de vida que tem no Cuchibi, e as ilhas são ainda o local onde edificam as suas povoações.

Nas margens do Cuchibi reaparece o luxo dos penteados, que tinha desaparecido com a raça Quimbande. O búzio miúdo, caurim, é de novo muito apreciado ali, não para enfeitar as cabeças, mas para fazer largos cintos adornados com ele.

No fim do canal onde embarquei para ir a casa do sova, notei dois molhos de grossos paus espetados verticalmente e distânciados de alguns metros. Destes paus pendiam bocados de esteiras já meio-apodrecidas do tempo. Indagando o que era aquilo, soube que junto àqueles paus se praticava a circuncisão ás crianças másculas de 6 a 7 anos, e depois as mandavam para o mato completamente despidas, até completa cura, sendo-lhes ministrada a alimentação pelos operados do ano antecedente. Eles no mato teciam esteiras para cobrirem a sua nudez, e ao reentrarem nas povoações, deixavam-nas penduradas nos paus em que tinham sido operados.

Mostraram-me ali também outra engenhoca muito curiosa.

Sobre duas forquilhas toscas elevadas meio metro da terra, descansa um pau cilíndrico de um metro de comprido com 30 milímetros de diâmetro, envolvido em palha fortemente amarrada, que lhe dá um aspeto fusiforme.

Este aparelho é feito por um cirurgião de fama, que lhe incute um poder extraordinário. Logo que um marido suspeita sua mulher de esterilidade, manda chamar o cirurgião, que a conduz junto ao curativo.

No meio de palavras cabalísticas, é-lhe esfregado o peito e as costas com o precioso pau envolto em palha, e afiançou-me o sova, que o resultado apenas se fazia esperar nove luas.

Apesar da muita fé que os Ambuelas tem neste sistema de terminar a esterilidade, eu não me atrevo a aconselha-lo na Europa.

As minhas relações com os indígenas eram as mais cordiais e afáveis.

As filhas do régulo continuavam a trazer-me presentes, e só elas proviam à minha alimentação e à dos meus moleques de serviço.

Cousa que eu desejava era logo procurada e a minha vontade satisfeita, querendo elas fazer acreditar ás outras, que entre nós existiam relações mais íntimas do que as de uma leal amizade. Eu sabia que era uma vergonha para elas o serem repudiadas pelo forasteiro a quem se dam, e deixava-as aparentar ao meu respeito o que realmente não eram.

Vivíamos assim nos termos da melhor amizade, sendo verdadeiramente importante a coadjuvação que elas me prestavam, para obter os carregadores e mantimentos de que eu precisava, para atravessar uma larga zona despovoada e falta de recursos.

Pude obter larga provisão de milho e algum feijão, sendo a maior parte presente das filhas do régulo.

Os meus haveres tocavam o seu fim, e salvo uma grande porção de pólvora encartuchada, alguma missanga e pouco cobre para manilhas, já nada mais possuía. Dois dos meus carregadores levavam o presente que eu destinava ao régulo do Baroze, no qual figurava um realejo, em cuja tampa dois bonecos automáticos, que dançavam ao som do moinho de música, faziam divertir enormemente o gentio. O meu Augusto aproveitava a curiosidade dos indígenas, explorando-a no meu favor, e fazendo ver o realejo em ação, a troco de ovos de galinha, que ele tinha o cuidado prévio de deitar em água para ver se estavam em bom estado, porque mais de uma vez no principio, foi enganado pelo gentio manhoso, que ávido de satisfazer a curiosidade, não hesitava em ir aos ninheiros tirar ás galinhas os ovos incubados.

Moene-Caú-eu-hue, decerto a instancias das filhas, resolvia todas as dificuldades que se apresentavam, e preparava-me rapidamente a partida.

Elas tinham resolvido acompanhar-me até onde fossem os Ambuelas, devendo ser Opudo quem dirigisse a horda dos seus súbditos.

Antes de seguir os acontecimentos da minha viagem, direi mais algumas palavras do país e dos Ambuelas, que tão hospitaleiros foram para mim.

A língua Ambuela não é mais do que a língua Ganguela, a mesma que se começa a falar a leste do rio Cuqueima.

Como o Hambundo, de que é um dialeto, é pobríssima, muito irregular nos verbos e falta de todos os vocábulos que exprimem um sentimento nobre e generoso.

Serão tão infelizes estes povos que não sintam a necessidade de exprimir esses sentimentos pela palavra, por serem eles estranhos à sua existência?

Impossível me foi averigua-lo, mas não me repugna crê-lo.

Neste ponto, onde fui recebido como amigo, e por isso livre de qualquer influencia que predispusesse o meu espírito contra o gentio Africano, não pude ler ainda nos arcanos da alma do negro, mais do que sórdida cupidez, a material lascívia, a cobardia em presença do forte, a ousadia contra o fraco.

Os povos Ambuelas são, de todos os que encontrei no meu caminho, os que em maior escala cultivam a terra, que lhes paga o trabalho que eles lhe dispensam com prodigalidade admirável.

O feijão, a abóbora, a batata doce, a ginguba, o rícino e o algodão, são cultivados entre as enormes searas de milho de ótima qualidade. Também cultivam estes povos a mandioca, mas pouca pude obter, por terem sido naquele ano destruídas as plantações dela por uma cheia do rio extemporânea.

As galinhas são o único dos animais domésticos que possuem os Ambuelas. O seu viver, sempre em receio dos ataques dos vizinhos, faz com que estes povos não sejam pastores, deixando ao abandono as extensas planícies cobertas de viçoso pasto, onde poderiam apascentar enormes rebanhos.

O gado bovino deixa de aparecer onde desaparecem os Quimbandes.

O caprino aparece, ainda que raro, entre os Luchazes, entre os quais aparece mais raro ainda o porco doméstico, que abunda no Bihé e entre o Bihé e a Costa Oeste.

Em países cobertos de ubérrimas pastagens, livres da terrível mosca ze-ze, em todas as condições desejáveis para largas criações de gados, porque faltarão eles?

Não é talvez difícil encontrar a explicação. O gado é a riqueza maior dos povos Africanos, e excita sempre a cupidez dos vizinhos, sendo como eu já tive ocasião de dizer, a causa permanente das guerras entre os povos que demoram da Costa Oeste ao Bihé.

O receio de ser rico, e por isso de ser atacado e roubado, não é estranho talvez à falta de gados que se encontra do Cuanza ao Zambeze. Entre estas bárbaras gentes os paradoxos são vulgares, e há ali princípios estabelecidos e arraigados que dificilmente podem ser compreendidos na Europa.

O cão, esse fiel e dedicado amigo do homem, não desmente junto do preto o seu mister de companheiro desvelado, e vigia ladino, encontrando-se entre todos os povos das raças Ganguelas. É verdade que uma variedade de gozos e alguns podengos degenerados, são apenas os espécimes que se encontram da raça canina nesta parte de África. Entre os Quimbandes e os Bihenos são os cães desveladamente tratados, porque são destinados a serem comidos, e são apreciado manjar.

Os Ambuelas, como disse, com elementos para serem dos primeiros povos pastores de África Austral, nenhum gado possuem, e apenas fazem criação de uma variedade de galinhas muito pequenas.

Entre os habitantes do rio Cuchibi não há lugares destinados para cemitérios. Os sovas são enterrados no mato em lugar separado, mas o povo é indistintamente sepultado no lodo do rio.

Os Ambuelas tem costumes brandos, e é mais franca a sua hospitalidade.

Sam bastante caçadores, e apanham muita cera nos matos.

Caçador Ambuela

 

 

A mulher tem mais alguma consideração entre eles do que entre os outros povos que até ali visitei, onde é apenas escrava ignóbil.

Estes indígenas são muito pescadores, o que não admira vivendo no meio de um rio cuja fauna aquática é variadíssima.

Efetivamente, de todos os rios que até ali encontrei, nenhum vi tão piscoso.

Pude obter dos indígenas, durante a minha estada ali, 18 variedades de peixes, assegurando-me eles haverem outras ainda.

 

Chinguene

1/4 do natural. Pele mole e desprovida de escamas. Dorso castanho com manchas mais escuras; forma triangular, sendo o ventre um lado e o dorso o vértice; 3 barbatanas ventrais, 2 subdorsais e duas dorsais. Dois fios musculares sobre a boca e dois na maxila inferior. É espécie de um género muito vulgar em África e que conta muitas espécies.

Àqueles que pude ver dão eles os nomes seguintes:

 

Peixes pequenos, menores de 20 centímetros:

1. Mussouzi peixe de pele.

2. Mango idem.

3. Chinguene idem.

4. Chibembe idem.

5. Limbumbo idem.

6. Dipa peixe de escamas.

7. Chitungulo idem.

8. Lincumba idem.

9. Nhele idem.

10. Lingumoeno idem.