Diário de África
Catarata de Gonha
Mesmo o despenhar da água no abismo, não causa ruido pavoroso, e é decerto amortecido pela vegetação enorme que a rodeia.
Mapa: Alto Zambeze - Cataratas de Gonha
Ali não se elevam vapores, que convertidos em chuva alaguem as vizinhanças; ali o acesso é livre a toda a parte, parecendo que a natureza se comprazeu a tornar fácil a visita à sua bela obra. Gonha é como a casquilha que se mostra, que se deixa contemplar, para que a admirem.
Depois de levantar a planta da grandiosa catarata, demorei-me ali até à noite, não cansando os olhos de ver tão esplêndido quadro, em que a cada momento descobria uma nova beleza.
Voltei ao meu campo, saudoso pela lembrança de que não veria mais na minha vida, o espetáculo sublime que deixava para sempre.
No dia 5, fui ver o caminho por onde deveriam passar os barcos para jusante da catarata, e era ele por floresta espessa, e não inferior em extensão a cinco quilómetros, porque em toda essa extensão o Zambeze, apertado em margens de rocha apenas distanciadas de 40 a 50 metros, conserva uma velocidade de 150 metros por minuto, e é tal o referver das águas, que impossível é navegar nele.
Este espaço estreito a jusante da catarata de Gonha, chama-se o Nanguari, e termina por uma pequena queda do mesmo nome.
O ponto onde recomeça a ser navegável chama-se o Mamungo.
A passagem dos barcos por terra foi feita por gente das povoações da Sioma, povoações de Calacas ou escravos, governados por um chefe Luina, mandados, estabelecer ali pelo governo do Lui expressamente para o serviço de carregarem os barcos por terra; serviço a que são obrigados sem terem direito a retribuição alguma. Foi fatigante aquele trabalho, e eu fiquei verdadeiramente penalizado de não ter nada que desse àqueles desgraçados, que tão humildemente se prestam a trabalho tão rude.
O Zambeze em Mamungo alarga a duzentos metros, mas continua apertado em cinta de rocha, onde estão marcadas as cheias por traços horizontais provenientes dos depósitos das águas lodosas. Por esses traços vi que as águas se elevam ali a 10 metros, nas máximas cheias, acima do nível de então, que deveria ser o mínimo proximamente.
Logo que sobre as rochas basálticas começa a haver terra vegetal, começa uma vegetação frondosa. O aspeto do Zambeze naquele ponto assemelha o do Douro no seu terço medio, com a diferença apenas, de que naquele o granito é substituído por basalto.
Depois de ter navegado por espaço de hora e meia, encontrei a foz do rio Lumbé, onde parei. Este rio vem do N., e tem, próximo da embocadura, 20 metros de largo, por um e meio de fundo. Cem metros antes de entrar no Liambai, é-lhe superior de trinta metros, e por isso despenha-se em cascatas, que seriam talvez lindíssimas se ali perto não ficasse Gonha.
Segui, depois de ter visitado a foz do Lumbé, mas nesse dia apenas naveguei por mais duas horas; porque, tendo visto uns ongris, acampei, e fui caçar. Consegui matar dois antílopes, que nos demorámos a preparar; decidindo não navegar mais naquele dia.
No dia 7, deixei o acampamento, e tendo navegado uma hora, encontrei a catarata Cale.
Passagem dos barcos em Gonha Ali o rio corre a S.E., e toma uma largura de novecentos metros. Três ilhas o dividem em quatro ramos. O segundo, de oeste, é o que contém maior volume de águas, mas é também aquele em que o desnivelamento é mais rápido.
Nos outros braços o desnivelamento, que é de três metros, produz-se em cem de extensão, enquanto neste não se estende a mais de quarenta. Todos os canais são obstruídos com rochedos desencontrados, onde as águas ressaltam com fragor imenso.
Descarregámos os barcos, que foram arrastados por um canalete junto à margem direita, e logo a jusante da queda reembarcámos e seguimos viagem. Meia hora depois, passávamos uns rápidos, onde só pequenos canais são praticáveis, e por onde os remadores governaram as pirogas com prodigiosa destreza.