Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 68 de 80

Páginas do PDF

Diário de África

Mapa de Mozioatunia

 

Como eu disse, o sítio em que caminhava era um vale profundo despovoado de árvores. Montículos de rocha terminados por vértices pontiagudos, atraíam o raio que os abrasava com o seu fogo potente. Uma faísca veio esmigalhar um penedo a pouca distância de mim.

Era um espetáculo tremendo e horroroso. Vi ali pela primeira vez o raio dividir-se. Uma faísca separou-se próxima da terra em cinco, que partiram quase horizontalmente a ferir cinco pontos diferentes; algumas vi separarem-se em quatro, em duas, e três, quase todas.

Ziguezagues de fogo cruzavam os ares em todas as direções, e abrasavam a atmosfera. É preciso ter-se assistido a uma trovoada nos sertões da África Austral, para bem se fazer ideia do que seja uma tempestade medonha.

A minha gente prostrada por terra, horrorizada e escorrendo em água, estava transida de frio e medo. Eu gracejava com eles e procurava anima-los, mostrando uma tranquilidade que estava muito longe de ser verdadeira.

Uma hora depois a tormenta, como que fatigada do seu pelejar insano, foi diminuindo de intensidade, e eu pude pôr-me a caminho ás 2 horas e meia.

Ás três horas tive de parar, obrigado por uma forte chuva que não se demorou muito em passar.

Pelas 5 horas passava em frente da grande catarata e acampava a montante dela, aproveitando umas barracas que ali encontrei e reconstruí.

Durante a noite uma nova tormenta caiu sobre o meu campo, e muitas árvores foram derrubadas pelo raio. A chuva torrencial inundou as barracas, apagou os fogos e molhou tudo e a todos. Durou esta tempestade até ás 4 horas da manhã, hora a que cessou quase de repente.

Foi aquela uma noite cruel. Ali já ao estampido dos trovões se juntava o bramir da catarata, e era qual produziria sons mais roucos e medonhos.

O dia amanheceu chuvoso, e até ás 9 horas foi impossível sair das barracas.

A essa hora rasgou-se o céu nublado, e o sol veio iluminar a esplêndida paisagem. Contudo era difícil caminhar num terreno encharcadíssimo e lodoso.

Uma forte apreensão me perturbava o espírito. A chuva da noite estragava o pão e mais provisões dadas por Madame Coilard. Os mantimentos chegariam ainda para dois dias, mas não podiam ir mais além. Eu tinha contado com dois recursos, a caça e os Macalacas da outra margem, que me venderiam massango.

Era porem impossível caçar por tal tempo, e os Macalacas que passaram o rio pediam tais exorbitâncias por pequenos pratos de massango, que me não era dado adquiri-los.

Ao meio-dia cheguei à extremidade oeste da grande catarata. O Zambeze duas milhas a montante da queda corre a E.N.E., e vai encurvando a E., direção que leva no momento de encontrar o abismo em que se precipita.

Mozi-oa-tunia, ou Mezi-oa-tuna? Não sei, e ninguém o sabe. No país uns dizem um nome, outros o outro.

Antes que os Macololos tivessem invadido o país ao norte do Zambeze, os Macalacas chamavam Chongue à grande catarata.

Vieram os Macololos e poeram-lhe um nome da língua Sesuto que eles falavam.

Os Macololos desapareceram e o nome ficou, como ficou aos povos conquistados a língua dos invasores.

Um pouco corrompido, é verdade, mas sempre subsistindo, o Sesuto é a língua oficial do Alto Zambeze.

Mezi-oa-tuna quer dizer em Sesuto "a água enorme," e ainda que a frase pareça um pouco disparatada, esta composição é vulgar entre as línguas bárbaras da África Austral, para exprimir uma ideia, que a pobreza das línguas só poderia exprimir por uma longa frase. Assim pois, pode bem ser que seja Mezi-oa-tuna, o nome posto pelos Macololos à grande catarata.

 

Mozioatunia. A queda de oeste

 

Eu contudo inclino-me à opinião de Madame Coilard, que conhece a fundo a língua Sesuto, de que seja Mozi-oa-tunia, o nome dado outrora pelos guerreiros de Chebitano à maravilha do Zambeze. Efetivamente, Mezi-oa-tuna era uma frase nova, uma composição de palavras feita expressamente, ao passo que Mozi-oa-tunia é uma frase já feita, quotidiana, vulgar na língua dos Basutos. Quando o marido volta a casa e pergunta à mulher se a comida está ao fogo, ela responde-lhe "mozi-oa-tunia," "o fumo se levanta." Assim pois é mais de supor que fosse este último o nome dado pelos estrangeiros à catarata, por ser frase vulgar entre eles, e ser bem apropriada à ideia.

Mozi-oa-tunia não é mais do que uma longa cova, um sulco gigantesco, aquilo para que se inventou a palavra abismo, mas abismo profundo e imenso, onde Zambeze se precipita numa extensão de mil e oitocentos metros.

O corte das rochas basálticas que formam o paredão norte do abismo, é perfeitamente traçado na direção E.O., e tem uma extensão de mil e oitocentos metros.

Paralelo a ele, outro enorme paredão basáltico distanciado na parte superior, ao mesmo nível, de cem metros, forma o outro muro do abismo. Os pês destas moles enormes de basalto negro, formam um canal por onde o rio corre depois de se despenhar, canal que é decerto muito mais estreito do que a abertura superior, mas cuja largura é impossível medir.

No paredão do sul, proximamente a três quintas-partes dele, a África foi rasgada por outra fenda gigantesca perpendicular à primeira; fenda que primeiro se encurva a oeste, e vergando depois pelo sul a leste, vai conduzindo em caprichoso ziguezague o rio, que ela la no fundo aperta em estreito abraço de rochedos.

Na catarata o grande paredão do norte onde o rio se despenha é em partes perfeitamente vertical, apresentando apenas as saliências e escabrosidades das rochas.

Uma enorme convulsão vulcânica fendeu ali a terra, e produziu aquele abismo enorme, em que se veio precipitar um dos maiores rios do mundo. Decerto o trabalho potente da água já modificou muito a superfície das rochas, mas não é difícil ao olho observador, o perceber bem, que aquelas escarpas profundas, distanciadas hoje, foram despegadas umas das outras.

O Zambeze, encontrando no seu caminho aquela voragem, abisma-se nela em três cataratas grandiosas, porque duas ilhas, que ocupam dois grandes espaços no paredão do norte, o dividem em três ramos.

A primeira catarata é formada por um braço que passa ao sul da primeira ilha, ilha que ocupa no retângulo que desenha a forma superior da fenda, o extremo oeste.

Este braço precipita-se por isso no pequeno lado oeste do retângulo.

Tem sessenta metros de largo e oitenta de queda vertical, caindo numa bacia donde a água vai procurar o fundo do abismo e unir-se ás outras em rápidos e cascatas quase invisíveis pela espessa nuvem de vapor que envolve tudo lá em baixo.

A ilha que separa aquele braço do rio é coberta de vegetação frondosa, vegetação que se estende até ao ponto onde a água se despenha, produzindo uma paisagem surpreendente.

É esta a menor das quedas, mas é a mais bela, ou antes a única que é bela, porque tudo mais em Mozi-oa-tunia é horrível. Aquela voragem enorme, negra como é negro o basalto que a forma, escura como é escura a nuvem que a envolve, teria sido escolhida se fosse conhecida nos tempos bíblicos, para imagem do inferno, inferno de água e trevas, mais terrível talvez que o inferno de fogo e luz.

Para aumentar o sentimento de horror que se experimenta diante daquele prodígio, até é preciso arriscar a vida para a poder ver. Vê-la! Impossível; Mozi-oa-tunia nem se deixa ver.

Ás vezes, lá no fundo, por entre a bruma eterna, percebem-se formas confusas, semelhando ruinas medonhas.

Sam pontas de rochedos de enorme altura, onde a água, que os açouta, partindo-se em glóbulos se torna nuvem, nuvem eterna, que constantemente alimentada tem de pairar sobre o rochedo em que se formou, em quanto a água cair e o rochedo se erguer ali.

Em frente da ilha do jardim, no meio de um arco-íris, concêntrico a outro mais desvanecido, vi eu por vezes, ao ondular da bruma, desenharem-se confusamente, uma serie de picos, semelhantes aos miranetes de uma catedral fantástica, que a um lado lançava aos ares uma frecha de enorme altura.

Continuando a examinar a catarata, vemos o começo do paredão N. logo em seguida à queda de oeste, ser ocupado numa extensão de duzentos metros por uma ilha, aquela de que já falei, que separa o braço do rio que vai formar a primeira queda. Ali é o único ponto em que se vê todo o paredão, porque naquela extensão de duzentos metros o vapor não chega completamente a encobrir o fundo.

Foi nesse ponto onde eu fiz as primeiras medições, e por meio de dois triângulos, achei para largura superior do corte 100 metros, e 120 para altura vertical do paredão.

Esta altura vertical é superior mais a leste, porque o fundo do sulco desce até ao corte que encana o rio ao sul. Nesse ponto também obtive elementos para medir a altura.

Nas primeiras medições eu tinha por base o lado 100 metros, achado para largura superior do sulco, mas era preciso ver o pé do paredão, e tive de arriscar a vida para isso.

Tirei os panos ao meu Augusto e ao meu moleque Catraio e amarrei-os. Estes panos de zuarte pintado e já muito usados, não me ofereciam uma grande segurança, mas não tinha outro meio de me suspender no abismo. Passei o frágil amparo em volta do peito, para me ficarem as mãos livres, e tomando o sextante debrucei-me na voragem. Seguravam as extremidades o meu Augusto e um Macalaca da povoação das quedas. Eles tremiam com medo e faziam-me tremer, levando eu por isso muito tempo a medir o ângulo. Quando lhes disse que me puxassem, e me pude equilibrar sobre as rochas, foi como se tivesse acordado de um pesadelo horrível.

Li no nónio 50° 10, e logo que registei a medida, comecei a horrorizar-me do que tinha feito. Um excesso de vaidade mal-cabida, o querer apresentar com a maior aproximação a altura da catarata, acabava de me fazer cometer a maior imprudência que cometi em toda a viagem.

Medir e triangular ali é dificílimo, e começa por faltar terreno onde se possa medir uma base com algum rigor.

Eu apenas pude medir 75 metros, e isso com trabalho enorme.

Só posso supor que os triângulos feitos pelo Dr. Livingstone da ilha do Jardim, foram resolvidos só com os ângulos; porque lados não podia daquele ponto medir nenhum. Pena é que não ficasse a fórmula. A medição da altura com um cordel e uma pedra atada na ponta, acho-a também extraordinária; porque as escabrosidades da rocha deveriam suster o prumo, e além disso, da ilha do Jardim apenas se vê, na voragem profunda, uma espessa nuvem que tudo encobre, sendo impossível divisar nada lá em baixo, ainda que o Doutor atasse à pedra toda uma peça de algodão branco, em lugar de um farrapo de 60 centímetros, como ele diz que fez. Fosse como fosse, ele foi mais feliz e mais esperto do que eu, que pouco fiz, dispondo para isso de melhores instrumentos e mais recursos.

Mozioatunia. Maneira pouco cómoda de medir ângulos

 

 

Em seguida à primeira ilha onde fiz as medições, vem a parte principal da catarata, e é ela compreendida entre essa ilha e a do Jardim. Ali é que a maior porção de água se despenha numa compacta massa de quatrocentos metros de extensão, e ali é que o abismo atinge toda a sua profundidade. Vem, em seguida, a ilha do Jardim, de quarenta metros de face sobre a fenda; e depois a terceira queda, formada por dezenas de quedas, que ocupam todo o espaço entre a ilha do Jardim e a extremidade leste do paredão. Esta terceira queda deve ser a mais importante no tempo das cheias, logo que as pedras que na estiagem lhe dividem as águas forem cobertas, e não existir mais do que uma única e enorme catarata.

A água que cai das duas primeiras quedas e parte da terceira junto da ilha do Jardim, correm a leste, o resto da terceira a oeste, e encontrando-se, unem-se em choque imenso, e voltam ao sul num referver medonho, correndo rápidas no fundo do abismo, em canal pedregoso, que as entala nos seus caprichosos ziguezagues.

No ponto onde as águas, já num canal único, se dirigem ao sul, fiz uma experiencia que narrarei em capítulo separado deste, e que me permitiu obter uma altura muito aproximada da maior profundidade do abismo. Não me foi possível fazer mais, e duvido mesmo que mais se possa fazer, a menos de se ir expressamente preparado para estudar a catarata; e creio que para isso será possível inventar alguns meios apropriados para trabalhar ali, debaixo de uma chuva eterna, e no meio de um vapor denso que nada deixa ver.