Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 48 de 80

Páginas do PDF

Diário de África

Termites do Nhengo

 

Pedi tabaco, de que eu trazia ainda boa provisão, e sal, sal que eu não provava havia tantos meses!

Responderam-me, que tinham o maior pesar de não poderem satisfazer ao meu desejo, mas que o tabaco e o sal só se davam ou se vendiam por uma licença especial do régulo.

Eis uma terra Africana onde há dois artigos de contrabando! Felizmente não há alfândegas.

Fui visitar as povoações de Canhete. Cresce ali nos quintais o tabaco e a cana de assucar com um desenvolvimento enorme.

As casas são feitas de caniço revestido de colmo, e tem umas a forma de um semicilindro de 1,5 metro de raio, outras são ogivais, não tendo mais altura do que aquelas.

Os celeiros são como os das povoações Ambuelas, mas de menores dimensões.

Os Luinas vieram ao meu campo, e fizeram ali uma dança guerreira, muito pitoresca, em que havia um mascarado que fazia o papel de truão.

Nessa noite chegou o preto Cainga, que eu tinha mandado, dois dias antes, ao régulo, a participar-lhe a minha chegada.

 

1 e 2. Casas Luinas de 1 m. 5 de altura.

3. Celeiro.

4. Enxada do Lui.

 

Vieram com ele alguns chefes com presentes do rei para mim, e entre eles seis bois.

Carne de vaca! tinha carne de vaca para comer!

Disse-me o Cainga, que ele se mostrou ufano por eu vir falar com ele de mando do Mueneputo, e que me esperava uma receção esplêndida.

Eu estava sempre desconfiado, porque conhecia bem os negros, e sabia quantas traições encerram as suas zumbaias, mas não deixei de ficar satisfeito.

Ele mandou reunir muitos barcos, de modo que pudesse passar a minha comitiva de uma só vez, para mostrar a sua grandeza.

Disse-me o Cainga, que ele era rapaz de 20 anos, e que, sabendo que eu era novo, dissera, que seriamos amigos.

Comi tanta carne e tanta batata, já temperadas com sal, condimento que obtive por contrabando, que me senti muito incomodado, e passei uma péssima noite.

Os chefes Luinas que vieram da parte do régulo, trouxeram ordem ás povoações para me fornecerem o que eu pedisse sem retribuição. Esta ordem foi acertada, porque eu não tinha com que retribuir.

Quando ia a levantar campo, chegaram novos enviados do rei com sal e tabaco para mim, e com o recado, de eu não seguir o caminho direto da embocadura do Nhengo, porque ele queria castigar as povoações privando-as da minha visita.

Mandei dizer-lhe, que eu não seguiria outro caminho, por ser este o que mais me convinha. Que eu não servia para ele castigar comigo os seus povos delinquentes; e que, se ele me não mandasse barcos ao sitio do Zambeze que eu havia designado, eu passaria o rio sem o auxilio dele.

Logo à saída de Canhete, encontrei um pântano horrível, que tendo apenas 500 metros de largo, levou 1 hora a transpor. Caminhei a leste, e três horas depois alcancei as povoações da Tapa, onde aceitei uma casa oferecida pelo chefe, por não ser possível acampar fora da povoação em terreno pantanoso.

As casas ali são formadas por uma pirâmide troncocónica de caniço, coberto interna e externamente de barro. A porta tem 60 centímetros de alto por 50 de largo.

Esta casa é cercada por outra só de granito, concêntrica àquela, e que tem de raio um metro mais. O teto abrange as duas casas e é feito de caniço coberto de colmo.

O chefe levou-me um presente de galinhas e batata doce.

Marquei, duas milhas ao sul, a grande povoação de Aruchico.

 

Corte vertical de uma Casa Luin da aldeia da Tapa.

 

a. Casa interior.

b. Intervalo entre as duas paredes.

c. Porta interior, 50 c. por 40 c. d. Da. exterior 1m. por 50 c. e. Ventilador.

f. Parede, caniço e barro.

g. Da. caniço, 2 m. h. Armação de caniço.

k. Cobertura de colmo.

 

No dia 24 de Agosto, parti ás 8 horas da manhã, e depois de atravessar um pântano como na véspera, alcancei a margem direita do rio Nhengo ás 9 horas, descendo até ao Zambeze que encontrei ás 10 e meia.

Com que entusiasmo eu saudei o grande rio! Alguns hipopótamos vinham resfolgar à tona de água a 30 metros de mim, e dois foram vítimas da sua imprudência.

Um crocodilo enorme foi também infeliz em se conservar ao sol numa ilha próxima.

Tinha saudado devidamente o Liambai! Tinha-o saudado tingindo-o de púrpura com o sangue das feras.

No meio do maior entusiasmo dos meus e dos muitos Luinas que me acompanhavam, alcancei as canoas, e passei, ao meio-dia, para a margem esquerda do rio.

Segui sempre a leste, e ás 2 horas, encontrei outro braço do Liambai, que se separa dele junto a Nariere. Andei por isso num a grande ilha onde há povoações, sendo a principal Liondo.

Aquele braço do rio, ainda que tem 150 metros de largo, é pouco fundo, e foi transposto a vão. Na outra margem havia mais gente mandada pelo régulo.

Segui sempre, e ás 3 horas, encontrei uma grande lagoa junto à povoação de Liara, que passei embarcado. Este lago, formado pelas águas que o Zambeze lhe introduz no tempo das chuvas, chama-se Noroco.

Segui sempre a leste, por entre um labirinto de pequenas lagoas, que era preciso evitar, e ás 5 horas cheguei a Lialui, grande cidade, capital do Baroze, ou reino do Lui.

O rei tinha feito programa.

Tive em poucos dias duas grandes surpresas, para mim já meio selvagem e esquecido dos costumes Europeus. O contrabando de tabaco, de sal, e o programa do rei do Lui.

Uns mil e duzentos guerreiros formaram alas até à casa que eu devia provisoriamente ir ocupar, e um dos grandes da corte, acompanhado de uns trinta figurões, formaram o meu séquito.

Chegado à casa, que tinha um grande pátio cercado de caniçal, estava um estrado, onde eu me devia sentar, para receber os comprimentos da corte.

Logo em seguida, chegaram os quatro conselheiros do rei, dos quais é presidente Gambela. Com eles vinham todos os grandes que formavam a corte do rei Lobossi.

Sentaram-se, e começou, da parte deles e da minha, uma troca de comprimentos e saudações, com mil protestos de amizade.

Por fim retiraram-se gravemente, e foram substituídos por outros maçadores, que só me deixaram à noite fechada.

Retirei-me para a casa que me destinavam, que era um desses semicilindros de que já falei, e tive uma noite de insónia, pensando no futuro da minha empresa.

Estava sem recursos, e se o rei não protegesse energicamente a minha viagem, que poderia fazer?

Sem a generosidade dele, nem mesmo teria que comer ali.

Ele mandara-me dizer, que me falaria no dia imediato. Como nos entenderíamos? Aquele Gambela, o presidente do Conselho, que acabava de estar comigo, o homem que todos me diziam ser o verdadeiro rei, que seria ele para mim?

O capítulo seguinte mostrará, que não era sem razão que um pressentimento mal definido me produziu uma noite de insónia em 24 de Agosto de 1878.