Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 72 de 80

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Diário de África

Capítulo 4 · No Manguato

 

Com o alvorecer do dia primeiro de Janeiro vi eu começar em África um novo ano.

Havia doze meses que nesse mesmo dia eu tinha deixado Quilengues, e feito uma grande marcha para o interior, ainda convalescente da primeira grave doença que tive em África. Em Xoxom, um ano depois, o Dia de Ano-Bom devia ser para mim um dia de descanso, e a véspera da última perigosa enfermidade que me ameaçou a vida naquela longa e fadigosa jornada.

Passei entre a família Coilard aquele dia festivo, na casa meia arruinada que pertencera ao missionário Mackenzie, e que nós fomos ocupar.

No dia 2, fui à cidade, ao bairro Europeu, e numa das casas Inglesas deram-me um magnífico charuto, um puro Londres. Há quanto tempo eu não via um charuto, e com que prazer aspirei o cheiro delicioso do tabaco Havano!

Nesse dia apareceram-me os sintomas de uma febre perigosa.

A doença tomou um carater assustador, e até ao dia 7 estive entre a vida e a morte. Os carinhos e desvelos que me dispensou Madame Coilard não se podem descrever, e decerto a ela devi outra vez o não ter morrido naquelas inóspitas paragens.

A 7 melhorei bastante, e pude receber a visita de Stanlei. Stanlei é um fazendeiro do Transvaal. E Inglês, mas casou em Marico com uma Böer.

Viera a Xoxom vender batatas e cebolas, eu comprei-lhe um saco de cada coisa, e aluguei-lhe o vagão para continuar a minha viagem.

Naquele dia pude falar largamente com ele e concluímos o contrato.

Por esse contrato o vagão ficava ao meu serviço, bem como ele, que seria apenas o driver (condutor), devendo obedecer-me em tudo e por tudo.

O homem também impôs uma condição que aceitei, e foi, a de passarmos pela sua casa, para que a mulher o não julgasse comido pelos leões.

Stanlei disse-me logo, que não iria além de Pretoria, porque tinha um filho pequenino longe do qual não podia viver. Tive de transigir no contrato com os afetos paternais do fazendeiro Transvaliano.

Stanlei é homem de trinta anos, alto, barba e cabelo muito louro, fisionomia vulgar e nada enérgica, um tipo completamente oposto ao seu homónimo o grande Stanlei. Não era sem um certo acanhamento que eu o tratava por aquele nome.

Depois de longa conferencia, ficou decidido que ele estivesse pronto a partir no dia 13, retirando-se em seguida tão satisfeito comigo como eu ficara com ele.

O Manguato, ou país dos Bamanguatos, ocupa na África Austral uma área que se não pode precisar bem, tão vasta é ela.

Ao Sul do Zambeze e ao Norte do paralelo 24, a África é dividida, de mar a mar, em três grandes raças superiores e distintas.

A leste, os Vatuas ou Landins, cujo chefe é Muzila. Em seguida, os Matebeles ou Zulos, cujo chefe é Lo-Bengula.

A oeste, os Bamanguatos, cujo chefe é Cama.

Muitos, grandes e pequenos grupos, de raças inferiores, estão sujeitos a estas três raças dominantes, e incontestavelmente superiores ás outras.

Tais são entre os Matebeles os Macalacas, entre os Bamanguatos os Massaruas.

Além destas, outras castas formam aqui e além pequenos grupos, e as povoações dos juncais da Botletle, e do Ngami, sujeitas ao rei Cama, e os Baniaes e outros povos de leste sujeitos a Lo-Bengula, são de diferente origem.

Estes três grandes potentados são inimigos, e usam bem diferente política.

Cumpre-me aqui só falar de Cama, e por isso deixarei em silêncio o que poderia dizer dos outros dois poderosos régulos, cujos países não visitei.

O Manguato era, há poucos anos, governado por um velho imbecil e bárbaro.

Era o pai de Cama.

Cama, cristão convicto, educado pelos Ingleses, homem civilizado, de elevada inteligência e superior bom-senso, não podia ter as boas graças do seu pai, e ainda que primogénito, e por isso herdeiro legal do poder, sofria uma guerra sem trégua do velho imbecil, que trabalhava para fazer seu sucessor ao seu filho segundo Camanhane.

Cama, querendo evitar as intrigas que em Shoshong (Xoxom) lhe moviam os inimigos, retirou-se prudentemente para a Botletle; mas em caminho todo o seu gado foi disperso pela sede, e reunido pelos Massaruas foi levado ao seu pai.

Cama reclamou o que era seu e lhe foi negado, tendo por única resposta, que o fosse ele mesmo buscar a Shoshong, que ali lhe cortariam a cabeça.

Ele replicou, que iria, e marcou o começo da primavera seguinte para isso, avisando que estivessem preparados para o receber. Efetivamente, apresentou-se no Manguato à frente de uma respeitável força reunida na Botletle e no Ngami, e tendo batido em diferentes combates a gente do seu pai, tomou a cidade de Xoxom pouco depois.

Foi aclamado régulo, e o seu pai deposto. Entregou ao seu pai todo o gado e riquezas que lhe pertenciam; deu boa esmola ao seu irmão Camanhane, mandando-os viver para o sul junto de Corumane.

Um ano depois, Cama chamava seu pai e o seu irmão para junto de si, e fazia-lhes os maiores benefícios.

Todavia o pai e o irmão, logo que se acharam vivendo na capital, conspiraram contra o generoso régulo, que, desgostoso por se ver envolvido em novas intrigas, entregou o governo ao seu pai, e retirou-se para o Norte.

Os Bamanguatos porem tinham apreciado o governo sábio de Cama, e não podiam aturar outro régulo; o que deu lugar a que fossem em massa buscar o filho e de novo depusessem o pai. Este quis retirar-se para Corumane e levou Camanhane consigo, mas Cama, sabendo da pobreza em que estavam, ainda os encheu de benefícios.

Esta última CENA da história do Manguato passou-se sete anos antes da minha estada ali, e desde então o poder de Cama consolidou-se completamente.

Cama, nas guerras que sustentou com os seus e com estranhos, adquiriu reputação de grande capitão.

No tempo em que estive em Shoshong, Camanhane já vivia ali, ainda que não tem a menor ingerência nos negócios públicos. Cama perdoou-lhe, chamou-o para junto de si e enriqueceu-o.

Ao contrário de todos os governos indígenas de África, o de Cama não é egoísta. Antes de pensar em si mesmo pensa ele primeiro no seu povo.

Uma grande parte desse povo é cristã, e todos andam vestidos à Europeia.

Nem um só Bamanguato deixa de ter espingarda, mas não se vê nunca um homem armado naquele país, fora das florestas.

Cama nunca traz armas. Vai repetidas vezes ao bairro missionário, que fica a dois quilómetros da cidade, e volta por noite fora, só e desarmado.

Não há outro chefe em África que o faça.

Tem este régulo 40 anos, ainda que parece muito mais novo. É alto e robusto, mas a sua fisionomia inculca pouco.

Tem modos distintos, e o seu trajar à Europeia é apurado e de um asseio esquisito. Como todos os Bamanguatos, é destro cavaleiro, bom atirador e afamado caçador.

Quase todos os dias Cama almoçava comigo em casa de Madame Coilard, e sentava-se à mesa com os modos e distinção de um cavalheiro Europeu.

Cama é muito rico, mas a sua riqueza é partilhada pelo seu povo.

Há anos, veio um flagelo aos campos Bamanguatos, e sobreveio a fome, mas o povo de Shoshong não a sentiu.

Cama comprou cereais em toda a parte, só numa semana gastou cinco mil libras esterlinas, mas a sua gente teve de comer.

É belo ver a respeitosa amizade com que todos o saúdam quando passa nas ruas. Não é o cortejar a um rei, é o saudar a um pai.

Ele visita as casas dos pobres e as dos ricos, e a todos anima ao trabalho.

Os Bamanguatos trabalham muito.

Nos campos ajudam as mulheres no amanho das terras, e já empregam a charrua importada de Inglaterra.

Além de grandes cultivadores, são pastores e tem muitos gados.

Em casa trabalham a curtir peles e a cose-las com nervos de antílopes, fazendo ricas coberturas que usam no inverno.

No tempo da caça são caçadores, e as abestruzes e os elefantes são perseguidos por eles.

Em todos estes misteres são animados pelo seu chefe, que os visita, já nos campos, já no labutar doméstico.

Sam muito amigos dos Europeus, e aquele que chega ao Manguato está tão seguro como na Europa.

Cama anda sempre só, e quando, muito é seguido por dois criados acavalo. Ele anda sempre a cavalo.

Como no meio de tantos povos bárbaros se acha um tão diferente deles?

Deve-se isso aos missionários Ingleses, e não posso deixar no escuro os seus nomes. Três homens trabalharam naquela grande obra.

Com a mesma imparcialidade com que até aqui tenho falado dos pretos, vou agora falar dos brancos, e se não deixo de convir que muitos missionários, e muitas missões Africanas, são estéreis, ou antes contraproducentes, preciso admitir, por factos que vi, que outras dão verdadeiros resultados, pelo menos aparentes.

O homem é falível, e tirado do meio social em que foi criado, privado dos confortos que lhe conchegaram a infância, perdido, por assim dizer, no meio dos povos ignaros da África, habitando um clima inóspito, compreende-se que sofra uma profunda modificação no seu espírito.

Esta deve ser a regra geral que tem exceções. As exceções são os homens verdadeiramente fortes, aqueles que apoiam a sua moral naquelas flores de alma que tão bem descritas foram pelo grande poeta da Beira, aquelas flores de alma que dão o olvido ao mesquinho pelo amor traído, que dão conforto ao náufrago quando a esperança de alcançar a terra se perde, ás quais se encomenda o monge ao sofrer o martírio dado pelos bárbaros onde foi levar a civilização.

Os homens que as possuem, podem, entregues a si mesmos, caminhar avante e atingir um fim sublime; mas estes homens são verdadeiras exceções. A matéria é fraca, e mais fraco ainda é o espírito humano.

Se assim não fora, dispensavam-se as leis e os governos, e a sociedade estaria constituída em outras bases.

Bastavam as flores de alma para governarem o mundo.

As paixões a que está sujeito o homem levam muitas vezes o missionário, que é homem e fraco por ser homem, a seguir um caminho errado.

A luta entre católicos e protestantes nas missões Africanas são um exemplo disso, são a demonstração incontestável de que as paixões más podem atuar no missionário como em qualquer outro mortal.

Os missionários protestantes (os maus já se entende) dizem ao preto, que "o missionário católico é tão pobre que nem tem com que comprar uma mulher!" aviltando assim o homem; que tão aviltado é o pobre entre os povos Africanos como entre os Europeus.

Por outro lado, os católicos empregam toda a sorte de traça para desvirtuar os protestantes. Dessa luta nasce a revolta, e produz-se a esterilidade de muitas missões, onde concorrem missionários de crenças diversas. Falei nisto incidentalmente para mostrar, que os missionários tem paixões e erram. Essa é até a regra geral.

Ao sul do trópico o país está coberto de missionários, e ao sul do trópico a Inglaterra sustenta uma guerra constante com as populações indígenas.

É porque o mau trabalho de muitos desfaz o que alguns construem de bom.

Deixemos porem em paz os maus, e falemos dos bons.

Dizia eu, que três homens trabalharam na obra da civilização relativa (e para mim aparente) do Manguato.

Digo aparente, porque estou convencido de que o régulo que substituir Cama, se não quiser admitir o missionário, levará consigo a população inteira, que não hesitará entre a doutrina de cristo, que não entende, e o serralho que lhe delicia a lascívia; que não hesitará entre o padre e o régulo.

Mas essa civilização do Manguato é hoje notável a todos os respeitos, e o primeiro homem que trabalhou nela foi o Rev. Price, creio que o mesmo que ultimamente foi encarregado da missão de Udjidji no Tanganika, e que tão infeliz foi na primeira viagem. O segundo foi o Rev. Mackenzie, o atual missionário de Corumane; e o terceiro aquele que ainda hoje prega o Evangelho aos Bamanguatos, o Rev. Eburn; que eu não tive a honra de conhecer, por estar ausente em viagem de missão, mas cujas qualidades pude apreciar pelas suas obras que vi, como pelo respeito que lhe tributam indígenas e Europeus.

É com o maior prazer que cito estes nomes dignos, e merecedores de serem apontados como exemplos aos trabalhadores da civilização Africana; é tanto maior a minha satisfação fazendo-o, que não conheço pessoalmente nenhum destes distintos cavalheiros.

Shoshong (Xoxom) é a capital do Manguato.

O vale de Letlotze alarga para o sul, tomando uma largura de três milhas, e continuando a ser enquadrado por altas montanhas. É no vale encostada ás montanhas do Norte que assenta a cidade dos Bamanguatos, cidade populosa de 15 mil almas, e que em tempos do pai de Cama chegou a contar trinta mil.

As montanhas rasgam-se ali para deixar passar uma torrente que se forma nos tempos chuvosos, e que divide um bairro da cidade. É no fundo dessa garganta, mesmo, por baixo das altas montanhas de rochas áridas cortadas a pique, que os missionários estabeleceram as suas vivendas.

O sítio foi pessimamente escolhido, porque é húmido e insalubre.

Provavelmente, a falta de água (falta de água, que se faz cruelmente sentir em Shoshong) determinou aquela escolha, fazendo aproximar os missionários ao leito do ribeiro, onde na estação estiva alguns poços fornecem água à população sedenta da cidade de Cama.

As casas em Shoshong são construídas de caniço e colmo, são cilíndricas com tetos cónicos. Estão divididas por bairros, e um labirinto de ruas estreitas e tortuosas lhes dá acesso.

No bairro missionário existem as ruinas da casa do Rev. Price, a casa do Rev. Mackenzie muito deteriorada, onde eu habitei, e a igreja abandonada, por ser pequena para conter a multidão que concorre aos ofícios divinos.

Isto a oeste, ou na margem direita do córrego. A leste, ou na margem esquerda, uma edificação nova, melhor situada do que as outras, é a residência do atual missionário. Todas estas edificações são de tijolos com teto de ferro estanhado.