Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 74 de 80

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Diário de África

Capítulo 5 · De Shoshong a Pretoria

 

Mal se adivinhava o alvorecer da manhã, e já eu estava a pé e vestido.

Os cronómetros não se me tiravam da ideia, e a preocupação era grande e motivada.

Mr. Coilard participava do meu sobressalto, e não me quis deixar partir sozinho. Mandou pedir um cavalo ao rei Cama, e seguiu comigo no rasto do vagão.

Tive de fazer novas despedidas ás damas Coilard, e novamente senti os desgostos daquela separação.

Em breve eu e Mr. Coilard deixávamos Shoshong, e nos internávamos no esteval que cobre os campos ao sul da cidade.

Seguíamos o rasto do pesado carro, quando muito próximo divisámos um negro sentado junto ao caminho. Ao acercar-nos dele eu conheci-o. Era o meu moleque Catraio. Caminhou para mim, trazendo nas mãos um objeto volumoso, e ao abeirar-me, disse-me, "Sinho, de cá as chaves para tirar os relógios da mala, que são horas de dar corda."

Exultei ao ver a mala dos instrumentos onde estavam os cronómetros, e sem pedir ao moleque explicações do desaparecimento do vagão, saltei do cavalo, e entreguei-me ás minhas observações matinais quotidianas. Estava escrito que durante a minha longa jornada os meus cronómetros não teriam nunca de parar!

Catraio, sempre vigilante por aquela obrigação, velava por eles.

O missionário ficou surpreendido com o cuidado do preto.

Ali, como em Embarira, Catraio tinha impedido os cronómetros de pararem, como durante as minhas mais graves doenças o tinha feito.

Catraio fora educado por um Português, que desde pequeno lhe conheceu a bossa da velhacaria, e que teve o cuidado de lha desenvolver à pancada.

O moleque, perdida a vergonha, que talvez nunca teve, em breve perdeu o medo ao castigo, e fez-se bêbado e ladrão.

Seu amo, a quem ele chegou a fazer um roubo importante com arrombamento de um cofre, isto aos doze anos, decidiu desfazer-se dele para sempre, e mandou-o deitar à margem em Novo-Redondo.

Quando em Benguela eu procurava um moleque inteligente e ladino para o meu serviço particular, mais de uma pessoa me falou em Catraio, que a fama das tratantadas tornara conhecido.

Dirigi-me ao que fora seu amo, e consegui que ele o mandasse buscar a Novo-Redondo. Ao ver a fisionomia expressiva e inteligente do preto, fiquei satisfeito com o passo que dera chamando-o a mim. Catraio até ali tinha sido levado à pancada, eu resolvi trata-lo por bons modos, nunca lhe falei na sua vida passada, nunca lhe fiz uma recriminação.

Sendo ele o preto mais inteligente de todos aqueles que me cercavam, eu incumbi-o de me ajudar nos meus trabalhos científicos. Catraio, que não sabia ler ou escrever, conheceu em poucos tempos todos os meus instrumentos e todos os meus livros. Quando, separado dos meus companheiros, me vi sozinho em África, tive uma grande apreensão, lembrando-me que, durante uma doença, os meus cronómetros poderiam parar. Chamei o Catraio e fiz-lhe o seguinte discurso edificante:

"Fica sabendo que de hoje em diante, todos os dias, logo de madrugada, tu tens de te apresentar diante de mim com os cronómetros, termómetros, barómetro e caderno diário, isto esteja eu são ou muito doente, longe ou perto, ficando tu na inteligência, de que não tens desculpa nas circunstâncias mais extraordinárias, se o não fizeres. Agora escuta-me bem. Nunca te bati como nunca te ralhei, mas, se os cronómetros pararem por falta de corda, eu espeto-te num enorme espeto de pau, e asso-te vivo nas brasas de uma enorme fogueira."

Catraio, que não acreditava muito que um branco fosse bom, e que desconfiava mais da brandura do meu trato do que das pancadas habituais, julgou ter descoberto a minha maneira de castigar uma falta, e o espeto de pau e a fogueira aterraram-no.

Começou a trazer todas as manhãs os instrumentos, a coisa foi passando a hábito, e eis a razão porque, ainda nas minhas mais graves doenças, os cronómetros tiveram corda e foram comparados; eis a razão porque em Embarira Catraio, com risco de vida, os foi empalmar aos Macalacas; eis a razão porque ainda naquele dia foram salvos de parar, porque ele, vendo que eu não chegara na véspera, mesmo de noite se pôs a caminho e me veio encontrar à hora própria.

Livre da apreensão que me torturava, tratei de interrogar o moleque sobre o facto do desaparecimento do vagão, e soube que o Inglês se tinha enganado, e tinha tomado um caminho transversal pelo bom caminho, mas que, logo ao alvorecer, partiria, e iria esperar-me no lugar ajustado para o encontro na véspera.

Eu e Mr. Coilard seguimos no bom caminho, e ás 9 horas encontrámos o vagão.

Mandei fazer o almoço, e ao meio-dia separei-me desse homem a quem devia tanta gratidão, e cujos favores são daqueles que não se podem retribuir nunca, porque tudo que por ele eu fizesse pesaria, numa balança justa, muito menos do que tudo o que recebi dele.

Parti imediatamente, e fui acampar ás quatro horas, em sítio sem água.

Nessa noite, quando ia a deitar-me, senti o galope de um cavalo, que me chamou a atenção. O meu Fli rinchava, e os cães ladravam e arremetiam para o lado de Shoshong.

Pouco depois, chegava ao meu campo um cavaleiro Bamanguato, e entregava-me uma carta e um embrulho.

A carta dizia, que fora encontrada em casa a minha espingarda Devisme, e Mr. Coilard apressava-se em mandar-ma.

Escrevi-lhe algumas palavras de agradecimento, e remunerei o portador, que voltou logo a toda a brida.

No dia imediato, 16 de Janeiro, parti à uma hora da madrugada, alcançando ás três horas uma lagoa, única água permanente que existe entre o Limpopo e Shoshong.

Nesse dia ainda fiz duas jornadas, uma de três outra de quatro horas, acampando pelas cinco da tarde. Das quatro ás dez da noite a chuva caiu torrencial, inundou-me o vagão, cuja cobertura velha e esburacada nada abrigava, e causou-me perdas sensíveis, sendo a maior, todo o pão e biscoutos preparados por Madame Coilard, que ensopados na água se tornaram em massa não aproveitável.

Na marcha última desse dia tive de alterar o meu rumo que era Sul, e meti a S.E., para evitar os acidentes do terreno, que tornavam dificílimo o rodar do vagão, e ameaçavam despedaça-lo a cada momento. O vagão de Stanlei era uma velha carriola, meio apodrecida e desconjuntada, e que a cada passo parecia querer desfazer-se.