Diário de África
Uma Casquilha do Bihé
Na tarde desse dia, ouvi grande batuque para um canto da povoação, e cantos e festas que anunciavam um acontecimento desusado.
Tive curiosidade de saber o que era, e mandei alguém a ver. Qual não é o meu espanto, sabendo que o Augusto festejava o seu novo casamento com uma rapariga da libata de Jamba!
Vi que o furor de casar-se era superior ás suas forças, e decidi não mais me importar com os seus negócios galantes, mesmo porque ele não comprometia ninguém, e casava sempre legalmente.
Estávamos a dois de Maio, e ainda não tinha podido reunir os carregadores, e ainda não tinham chegado do Bailundo, nem a pólvora nem o sal vindos de Benguela.
O Verissimo andava por lá reunindo a gente; mas ainda nem um só se tinha apresentado.
Na manhã do dia três, estando eu em casa, ouvi fora da porta os acordes de uma rabeca, onde se tocavam arias muito melodiosas, coisa muito diferente da música monótona dos pretos.
Mandei chamar o menestrel, e apareceu-me um preto alto e magro, quase nu, de fisionomia triste e expressiva.
Tocava num a rabeca fabricada por ele, que dava sons tão melodiosos e fortes como o melhor Stradivarius. Este instrumento, muito semelhante em forma ás nossas rabecas, era cavado num a só peça de pau, que formava a caixa e o braço, sendo o tampo de uma tabua fina da mesma madeira.
Tinha três cordas de tripa, fabricadas pelo músico, e o arco era guarnecido de duas cordas iguais, em lugar de clina.
Era decerto uma imitação das rabecas da Europa, e não um instrumento primitivo.
A madeira de que era feita chama-se no país Bóle, e abunda nas matas da África de Oeste. Não seria talvez para desprezar o ensaio desta madeira na fabricação de instrumentos de corda.
O bárbaro músico cantou uma aria no meu louvor, a mezzo peto, com voz muito agradável, acompanhando-se na tosca mas harmoniosa rabeca. Foi muito aplaudido pelos pretos que tinha atraído em volta de si, e eu mesmo gostei daquela música original.
Chegaram à libata uns pretos do sertão do Andulo, que vinham vender tabaco muito bom, que naquele país cultivam em quantidade. É este tabaco do Andulo que os Bihenos compram e mandam para Benguela, vendendo-o ali com o nome de tabaco do Bihé.
Eu comprei grande provisão, e calculei que me ficou por 500 réis o quilograma.
Os preços dos diferentes géneros no Bihé não são aqueles que me tem forçado a pagar, e são os seguintes:
Uma galinha, uma jarda de fazenda de algodão; seis ovos, uma jarda; um cabrito de dois anos, oito jardas; um porco de 5 a 6 arrobas (75 a 90 quilogramas), uma peça de algodão branco e outra de zuarte; o alqueire de farinha de milho, duas jardas; o de farinha de mandioca ou de feijão, três jardas. Isto são jardas de fazendas das mais ordinárias, cujo preço no Bihé não se deve calcular superior a 200 réis.
Uma jarda de fazenda chama-se no Bihé um Pano, 2 jardas uma Béca, 4 jardas um Lençol, 8 jardas uma Quirana.
As fazendas de negócio próprias para o Bihé e sertões explorados pelos Bihenos, são, algodão branco, zuarte, zuarte pintado, lenços de zuarte pintado, lenços finos, lenços cangengos, fazendas de lei e riscados, tudo da mais inferior qualidade.
As peças de algodão branco tem 28 jardas umas, e outras de melhor qualidade 30. Os zuartes e riscados 18 jardas, os lenços pintados 8 jardas, os lenços cangengos 6, e a fazenda de lei 12 jardas.
As fazendas boas são muito inconvenientes ao viajante que percorre esta parte de África, porque, não tendo muito mais importância para o gentio, são consideravelmente mais pesadas.
Eu tinha dois fardos de fazenda que tinha preparado ali, cada um dos quais continha 624 jardas, e os outros, de algodão fino, tem apenas 180 jardas, e são mais pesados.(*)
[(*) Eu chamo fardo a carga de um homem, proximamente trinta quilogramas.]
Já se deduz daqui a inconveniência das fazendas de boa qualidade, que além de ser grande o seu custo, é grande também a dificuldade do seu transporte, pois que três homens carregam delas tanto quanto um carrega de fazenda ordinária.
E sobre tudo para o viajante explorador, como o seu despender de fazenda é em troco de alimento, tantas jardas de fazenda boa tem de dar por um objeto, como de jardas de má fazenda dará pelo mesmo objeto.
O algodão branco de inferior qualidade e o zuarte são o melhor dinheiro que pode levar o viajante naquelas paragens.
Nas missangas já se não dá o mesmo caso, e a que é moda aqui, não é recebida além, ás vezes em pontos pouco distantes, por ex.: no Bailundo querem muito a missanga preta, que já no Bihé não tem curso.
Há contudo uma missanga que é quase geralmente bem recebida em toda a África Austral. É ela uma missanga miúda encarnada, de olho branco, a que no comercio em Benguela dão o nome de Maria II.
O buzio miúdo (caurim) serve além Cuanza até ao Zambeze, mas o graúdo não é recebido.
O arame de latão ou de cobre vermelho é estimado para manilhas; mas, nestas paragens, não deve ter mais de 3 a 5 milímetros de espessura.
Os barretes vermelhos, sapatos de liga, fardas de soldados, etc., são frandulagens, que, sendo muito estimados presentes para sovas e séculos, são péssima moeda.
Os cobertores, e sobre tudo aqueles vistosos que na Europa usamos para embrulhar as pernas em viagem, são muito cobiçados do gentio; estando porém no caso das fardas e barretes, que, sendo ótimo presente, não são boa moeda.
Os realejos, caixas de música, e outros objetos deste género, estão no mesmo caso.
Prestigiações, sortes de física e química, produzem certa impressão no gentio, mas não tanta como se julga na Europa. Não compreendendo as causas que determinam certos fenómenos, lançam a coisa à conta de feitiçaria, com que explicam tudo que não sabem explicar de outro modo.
Ás vezes até podem ser contraproducentes, e prejudicarem aquele que as fizer.
De tudo o que eu vi fazer impressão em pretos, aquilo que mais os admira é verem um bom atirador.
Meta qualquer, diante de um juntamento de pretos, 6 balas em alvo pequeno e distante, corte o pequeno fruto de uma árvore, mate um passarinho, e fique certo de que ganha logo a maior consideração, e será objeto das conversas por muito tempo.
A este respeito vou narrar um facto que se deu na libata, comigo. Um dia, um cirurgião Biheno apareceu ali trazendo um remedio que era preservativo contra as balas, àquele que o tomasse.
Isto é crença geral entre Bihenos, e muitos há que gastam tudo o que tem para adquirirem aquele abençoado remedio, que os torna mais invulneráveis do que Aquiles, porque nem mesmo lhes deixa a possibilidade de receberem a morte por um calcanhar.
Um mestiço civilizado, e educado em Benguela, encontrei eu, que se ria de mim quando eu lhe dizia que se lhe desse um tiro furava-o de lado a lado, apesar do remedio contra as balas de que ele fazia uso.
Mas vamos ao conto. O cirurgião Biheno trazia uma panelinha de meio litro cheia do precioso preservativo, e apregoava que aquele que o tomasse seria depois tão invulnerável como o era a panela que continha o líquido, panela a que todo o mundo, no seu dizer, tinha atirado sem que as balas lhe fizessem o menor dano. Quis ele dar ao público uma prova irrefutável, e desafiou-me de atirar à panela; tendo previamente o cuidado de me marcar a distância (uns 80 passos) a que ele julgava ser impossível acertar em tão pequeno alvo.
Tomei a carabina, atirei, e fiz a panela em cacos, derramando-se o precioso licor.
Nunca vi aplaudir mais freneticamente alguém, do que eu fui aplaudido então pelo gentio entusiasmado.
O pobre cirurgião foi completamente corrido no meio de geral assuada.
Este pobre homem foi ali buscar o seu descrédito.
Os melhores atiradores do sertão são grandes mediocridades, e são bem mais para temer pretos de frecha e azagaia, do que de arma carregada.
O Verissimo partiu a reunir os carregadores, voltando a 5 de Maio com alguns, e dizendo que outros chegariam no dia seguinte.
Nesse dia recebi cartas e cargas de Benguela, enviadas para mim por Pereira de Melo e Silva Porto.
Fizeram-me uma tal impressão aquelas cartas, que no meu diário escrevi então, na cabeça do capítulo em que falo do Bihé, aqueles dois nomes, e hoje ainda os conservo, como preito e homenagem àqueles dois cavalheiros.
Enviava-me Pereira de Melo 16 espingardas, 30 quilogramas de sabão, um relógio e uma carga de sal, tudo objetos de subido valor para mim.
Não é todavia esta valiosa remessa que me ditou a imensa gratidão para com o governador de Benguela; foi a sua carta e foram as expressões dos seus sentimentos ao meu respeito.
Dizia-me o Governador, que não hesitasse em seguir a minha viagem, que contasse com todo o apoio que ele me podia dar como autoridade, e se acaso ordens superiores coarctassem o Governador, que podia contar com o homem, com Pereira de Melo.
Dizia-me ele, que não tinha recebido de superior autoridade ordem alguma para não me fornecer os meios de que eu carecesse; mas que, se tal ordem viesse a receber, ele e os negociantes de Benguela estavam prontos a enviar-me tudo o que eu pedisse.
Vinha depois a carta de Silva Porto, que não menos valiosa era.
Dizia-me o velho sertanejo, que não partisse sem recursos. Que requisitasse para Benguela o que eu julgasse necessário, e que ele se encarregaria de me fazer chegar ao Bihé aquilo que eu pedisse.
Terminava o honrado ancião por estas palavras: "Estou velho, mas rijo e forte; se o meu amigo se vir num desses trances, vulgares no sertão, em que a esperança se perde, sustente-se no ponto em que estiver, e de tudo ao gentio para me fazer chegar ás mãos uma carta sua. Não hesite em o fazer, e tenha esperança; porque no mais curto espaço possível eu serei consigo, e comigo irão todos os recursos, todos os socorros. Sabe que eu não uso fazer oferecimentos vãos, quando precisar escreva, e eu irei logo."
A estas palavras não preciso eu de fazer comentários, e nem mesmo aqui lhe juntarei uma palavra de agradecimento, que seria ridícula.
Aquela remessa que recebi de Benguela foi-me trazida por um irmão do Verissimo, Joaquim Guilherme, que me disse deverem chegar no dia seguinte o resto das cargas da expedição, e com elas a pólvora porque eu almejava.
Como sempre que chegava um portador de Benguela, Joaquim Gonçalves trazia-me uma lembrança de António Ferreira Marques.
Eram sempre alguns regalos para a pobre mesa do sertanejo.
Chegou finalmente o 6 de Maio, e começou logo grande tarefa de encher cartuxos, porque de manhã recebi a pólvora.
Durante 4 dias empreguei entre 36 e 40 homens no encher dos cartuxos, que estavam prontos, e só era deitar-lhes pólvora e dobra-los.
Ficou tudo pronto a 10 de Maio, e no dia 11 tinha eu reunidos todos os carregadores pronto a seguir no dia imediato. Fiz a distribuição das cargas, e dei as ordens para a partida.
Na manhã de 12, quando esperava pôr-me a caminho, vejo que só tinha uns trinta homens, tendo fugido todos os outros.
Soube então, que na tarde da véspera, tinha andado o preto Muene-hombo de Silva Porto, com uns pretos desconhecidos, dizendo aos Bihenos, que eu os queria levar para o mar, e que aqueles que fossem comigo não voltariam mais, porque eu os venderia.
O preto Muene-hombo fugira com os Bihenos, e dele não havia mais notícia.
Esta nova deu-me um profundo golpe de desânimo.
Os carregadores, que eu a tanto custo tinha reunido, que eu com trabalho imenso tinha contratado, a quem fora preciso desfazer uma a uma todas as apreensões que tinham contra a minha empresa, fugiam-me, convictos de que eu os ia encaminhar à perdição.
Era um golpe terrível.
Breve se espalharia no Bihé a notícia do facto; breve se arreigaria entre os pretos aquela convicção, mal destruída pelos meus reiterados argumentos, e então seria impossível obter um só carregador mais.
Quase desanimei.
Pela primeira vez, depois que em Lisboa tinha pensado em ser explorador, entrou no meu ânimo o desalento.
Eu sabia que lutar com uma convicção de pretos era baldado esforço.
Quem seria aquele que levou o preto Muene-hombo a trair-me?
Quem seriam os pretos que com ele estiveram na libata no dia anterior?
Qual seria a mão oculta que moveu aquela intriga?
Fazia a mim mesmo estas perguntas, ás quais, nem então nem depois, encontrei resposta que fosse além de suspeita muito vaga.
Perdi a esperança, e fiquei possuído de um verdadeiro desalento.
Meditei todo o dia, e veio o pensamento de voltar a Benguela, mas de repente lembrou-me a carta de Silva Porto recebida dias antes, e lembrou-me a carta de Pereira de Melo em que me dizia "Avante!" Porque não aceitaria eu o oferecimento de Silva Porto? Se ele viesse ao Bihé ele me obteria carregadores.
Decidi escrever-lhe no dia seguinte, e esta ideia tranquilizou um pouco o meu ânimo alquebrado.
Com a noite veio a reflexão, e eu escudado no último recurso, o pedir o auxílio do velho sertanejo, resolvi já forte com aquele apoio, trabalhar, lutar ainda, antes de recorrer a ele.
Na madrugada de 13, fiz marchar o Verissimo e alguns pretos de confiança do Silva Porto a procurarem contratar nova gente.
Voltaram eles dando-me algumas esperanças, e então começou de novo o trabalho de organizar nova comitiva, trabalho mais difícil então do que antes.
Aconselharam-me sair de Belmonte e ir acampar no mato a alguma distância; porque me diziam, que uma comitiva em marcha, despertava nos Bihenos vontade de se alistar nela.
A 22 de Maio já eu tinha podido obter alguns carregadores, ainda que poucos, e resolvi com os meus Quimbares, aqueles carregadores e gente de ganho, seguir no dia 23 para um acampamento, ideia que levei a efeito indo estabelecer o campo nas matas do Cabir.
Nesse dia ao escurecer, apareceram uns 11 carregadores trazidos por um preto António, homem já velho, natural de Pungo Andongo, que estivera ao serviço de dois sertanejos de nomeada, Luiz Albino, e Guilherme Gonçalves.
Durante a noite houve muito frio, forçando-nos a passar a maior parte dela despertos junto ás fogueiras.
O soveta de Cabir veio visitar-me no dia imediato, trazendo-me um porco de presente, que eu retribui, ficando nós nos melhores termos.
Emprestou-me ele alguns pilões, e mandou mulheres para fazerem farinha de milho.