Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 28 de 80

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Diário de África

Mulher Luchaze carregada

 

O rio Cuito tem no ponto em que o passei 7 metros de largo por 1 de fundo, com uma corrente de 25 metros por minuto.

É afluente do Cubango, e na sua confluência assenta a grande povoação de Darico.

Nasce na planície de Cangaba, onde tem nascente muito próxima o Cuime e o Cuiba, afluentes do Cuanza, e o Lungo-é-ungo, afluente do Zambeze.

 

Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil

 

Não podendo obter víveres, resolvi seguir avante, e quando dava ordens para levantar campo, chegava à margem do rio Cuito uma comitiva de escravos, capitaneada por três pretos.

Apoderei-me dos três pretos, e soltei todas as escravas, pois que na comitiva não iam escravos. Fiz com que entrassem no meu campo, e disse-lhes, que eram livres, e se quisessem acompanhar-me eu as fazia chegar a Benguela.

Disse-lhes, que nada receassem dos seus guardas, e que se convencessem de que eram livres. Declararam-me uma a uma, que não queriam a minha proteção, e que as deixasse ir como tinham vindo.

Donde eram? Não mo sabiam dizer. Que fazer? Repugnou-me leva-las comigo a despeito seu. Depois de algumas instâncias, resolvi deixar aquelas desgraçadas seguirem o triste fado a que não queriam esquivar-se.

Demais, seria ele melhor se me seguissem? Não é fácil, ainda que isso se afigure na Europa, libertar uma leva de escravos, quando essa leva é encontrada longe dos domínios Europeus.

Uma leva de escravos tem gente de naturalidades diferentes, e muitas vezes longínquas.

Se aquele que os pode libertar os quiser restituir ás suas famílias, tem de percorrer uma grande parte de África à busca dos lares dos seus protegidos, o que é praticamente impossível.

Abandona-los e dizer-lhes:-Ide-vos-é faze-los novamente escravos dos primeiros povos que encontrarem.

Muitas vezes, aqueles desgraçados, arrancados das povoações em tenros anos, perderam da memória o sítio onde nasceram, e falando já uma língua diferente da que balbuciaram crianças, e esqueceram longe dos seus, tem pela sua pátria a terra da escravidão, e não conhecem outra.

Hoje, depois que os navios de guerra, Portugueses e Ingleses, cruzam no Atlântico e no Índico, e impedem a exportação do homem, a escravatura é género de permutação apenas no interior, e o seu sistema tem-se modificado.

O escravo aparece em África por dois modos. Ou é o prisioneiro de guerra, ou é o género de pagamento de dívida pelos parentes.

Outrora fazia-se a guerra expressamente para se fazer o prisioneiro, e infelizmente ainda hoje se faz, posto-que em menor escala.

O ente humano dado, pelo parente proletário, em pagamento da dívida contraída, ou da multa decretada, é vulgar.

No caso de guerra, outrora todo prisioneiro servia para escravo, porque lhe não era fácil, adulto que fosse, voltar da América à África. O Atlântico era garantia segura.

Os adultos mesmos, podendo logo produzir um trabalho maior, eram preferidos ao adolescente e à criança.

Hoje não é assim. O homem feito foge, e tem sempre na ideia o voltar ao ninho donde o arrancaram, e essa esperança não o abandona em quanto pisa o continente onde tem seu país.

Disse-me a mim um negreiro:-são muito fugitivos.

A criança, o adolescente e a mulher, oferecem ao comerciante maior garantia, porque, espíritos mais irresolutos, não ousam encarar o pensamento de atravessar países enormes, para voltar ao seu.

Tem por isso mais valor, hoje, na África Austral, a criança e a mulher, e nas levas de desgraçados que infelizmente ainda arrastam os duros grilhões através do solo Africano, é raro vermos um homem feito.

Uma vez que falei na escravatura, direi ainda mais algumas palavras sobre ela.

Portugal, a Inglaterra e a França, tem, nos últimos tempos, empenhado uma verdadeira luta contra o comércio da carne humana, e as modificações feitas nas antigas praxes Americanas, concorreram para que esse comércio diminuísse consideravelmente, e se modificasse essencialmente na África Austral.

Contudo, eu atrevo-me a dizer, que não será ainda a geração que ora começa, aquela que verá desaparecer o escravo do solo Africano.

O mesmo principio que imperava outrora na América, fazendo colonizar com os escravos, existe e existirá por muito tempo em África.

Os governos pretos também tem a sua política colonizadora, e entre eles e os lugares de procedência do escravo, falta-nos um Oceano, onde possamos fazer singrar as nossas esquadras, e proteger os mesquinhos com as nossas baterias de aço. Só os princípios civilizadores puderam fazer cessar um dia a escravidão; mas infelizmente esse dia está longe, porque os argumentos de que se servem esses princípios, são menos eloquentes e menos enérgicos do que os projeteis cilindro-cónicos o foram no Atlântico e no Índico.

Eu tenho para mim, que a abolição da escravatura, no interior da África Austral existir de facto, quando deixar de existir a poligamia entre os pretos; porque, ainda que os princípios civilizadores façam desaparecer o escravo, a sensualidade asinina do negro fará subsistir a escrava.

Isto não quer dizer, que eu descreia de que se possam dar alguns rudes golpes de imediato efeito no reprovado comercio; mas sim que penso na dificuldade do seu completo extermínio. Já vai longa a divagação, voltemos ao assunto.

Dizia eu, que as raparigas não quiseram ser livres, e seguiram os seus condutores.

Eu preparei-me também para partir, forçado sobre tudo pelas imperiosas necessidades dos estômagos, que em viagens de exploração governam tanto e mais do que as sociedades de Geografia.

Segui quase a Leste, e depois de marcha de duas horas, avistava uma povoação, e acampava na margem de um ribeiro perto dela. Soube que ribeiro e povoação se chamavam Bembe.

Quando começava a faina de cortar madeira para acampar, vi de repente os meus pretos dispersarem-se em várias direções, fugindo espavoridos. Não atinava eu com a causa de tal terror, e dirigi-me ao sítio onde eles trabalhavam, a investigar o que seria. No lugar onde eu tinha mandado construir o campo, milhões da terrível formiga chamada pelos Bihenos Quissonde, saíam da terra, e dela fugiram os meus homens. A formiga Quissonde é uma das mais temíveis feras do continente Africano. Dizem os naturais, que ataca e mata o elefante, introduzindo-se-lhe na tromba e nos ouvidos. É inimigo que se não pode combater, e atacando aos milhares, só se lhe pode escapar na fuga. O Quissonde tem entre 6 e 8 milímetros de comprido, cor castanho-clara muito luzidia.

As mandíbulas deste feroz himenóptero, são fortíssimas e de grandeza desproporcionada.

Da sua mordedura no homem saí logo um jacto de sangue.

Os chefes conduzem as suas falanges a grandes distâncias, e atacam todo animal que encontram no seu caminho.

Por mais de uma vez, durante a minha viagem, tive de fugir aos ataques deste feroz inseto. Algumas vezes vi nos caminhos centenares delas esfregadas aos pés, levantarem-se, e continuarem a sua marcha, primeiro lentamente, depois com a sua celeridade ordinária, tanta é a sua vitalidade.

Vem a propósito falar aqui de outras formigas mais vulgares do que o Quissonde.

Uma é pequena, de três milímetros a quatro de comprido, negra e como o Quissonde armada de fortes mandíbulas. Chamam-lhe os Bihenos Olunginge. É o maior inimigo das termites, contra as quais dirige terríveis ataques, e que vence apesar da desproporção do seu tamanho.

Estas pequenas formigas são um verdadeiro benefício, pela enorme destruição que causam nas larvas, ninfas e ovas das termites.

Em alguns pontos encontrei nas habitações das termites uma grande quantidade de formigas enormes, atingindo o comprimento de 20 milímetros, que vivem em comunidade com os abundantes nevrópteros da África Austral.

Estas formigas, suponho eu, que, pouco dadas ao trabalho de construir habitações, vão procurar nas construções termíticas, abrigo e morada.

Nenhum destes pequenos insetos ataca o homem além do Quissonde, que o ataca sempre, e ainda nas margens do rio Bembe fez dispersar os meus carregadores.

Tive pois de ir longe escolher outro sítio para acampar.

Voltaram da povoação do Bembe alguns homens que ali tinha enviado, com a triste nova, de que o soveta dera ordem para nada me venderem.

A fome já se fazia sentir muito, caça não aparecia, e apenas tivemos nesse dia um punhado de massango, que tanto coube a cada um de nós na divisão que fiz, do pouco que obtivemos na margem do rio Cuito.

Ali o país já era completamente desconhecido a todos, e nenhumas informações podíamos colher do gentio esquivo.

Reuni os meus pombeiros, e fiz-lhes ver a grande necessidade de alargarmos a marcha no dia seguinte, até encontrarmos povoações mais hospitaleiras.

Eles convieram na imperiosa necessidade, e apesar de muito carregada a comitiva, e enfraquecida pela falta de alimento, decidiram animar a sua gente para os fazer ir avante. Havia dois dias que encontrava vestígios de ter sido outrora povoadíssimo este país, pelas ruinas, já antigas, de muitas povoações que encontrei.

O que determinaria este abandono?

Seria a devastação pela escravatura? Seria a insalubridade do clima? Seria a falta de caça? Seria a má qualidade do terreno?

Não o pude saber; mas a primeira hipótese parece-me a mais admissível.

O facto era, que essa falta de população inesperada, nos criou o maior embaraço, e eu nessa noite sofri horrivelmente das torturas da fome.

No dia imediato, tive logo de manhã o transtorno de um carregador doente; mas o meu Doutor Chacaiombe houve-se com toda a bizarria e ofereceu-se para levar a carga.

Na ocasião de partir, apareceram uns enviados do soveta do Bembe, pedindo-me alguma coisa para ele; fiz-lhes ver o mau procedimento do soveta para comigo, e mandei-os por fora do campo.

Segui ás 8 horas e 40 minutos. O rio Bembe, que tinha a vadear, tem dois metros largo por um de fundo e corre a S.O. para o Cuito.

A sua margem direita é montanha íngreme; mas a esquerda, depois de uma trincheira quase vertical, de 10 metros, estende-se, plana e paludosa, por um quilómetro.

A marcha através do pântano levou uma hora, e fatigou muito a faminta caravana.

O terreno em seguida é levemente inclinado e coberto de uma vegetação arborescente difícil de transpor. Depois de outra hora de fatigante caminhar, comecei a descer uma encosta, a cujo sopé se desenrolava uma planície, oculta por densa floresta. Desci uns 50 metros para alcançar a orla da mata; mas tive logo de alterar o meu rumo. A floresta era impassável.

Aproveitei um difícil trilho de caça, que ora me levava a Leste, ora a Noroeste, e depois a Sueste, até que o terreno me faltou de repente.

Um sulco profundo de cem metros, cavado pelas águas de um ribeiro, tolhia-me a passagem.

A dificuldade do caminho, o peso das cargas, e a fraqueza dos meus carregadores, obrigaram-me a acampar ali.

A fome já se fazia sentir em todos os seus horrores. Uma esperança todavia me animava; eu tinha visto vestígios de caça.

Pouco depois de chegarmos, matou-se no campo uma cobra, que me disse o meu doutor ser muito venenosa; mas haver contraveneno à sua mordedura. Tinha um metro de comprido, e era cor de telha no dorso, tendo o ventre um pouco mais claro. Os olhos eram verdes muito brilhantes e a língua bipartida.

A boca era armada de quatro dentes dispostos como as presas de um cão. Aí ficam os sinais dela para aqueles que pisarem um dia aquelas paragens.

Era preciso caçar, e eu, logo que fiz as minhas observações, parti para um lado, e mandei em outras direções os meus pretos Augusto e Miguel, os únicos que tem algumas manhas de caçadores na minha comitiva.

Encontrei perto do campo um grande rasto de búfalos e segui-o.

Não se faz ideia na Europa do que seja caçar para comer. É um prazer horrível.

Deve ser assim o apontar à banca, do jogador que precisa ganhar uma certa quantia para pagar uma dívida de honra, e que mistura o febril prazer do jogo, com a cruciante angústia da incerteza. Os olhos com que ele devora as cartas que lentamente vão escorregando por entre os dedos do banqueiro; os olhos que queriam penetrar através da carta opaca para antecipar o desfecho da agonia da dúvida, no fim da qual está a salvação ou a morte suicida; devem ter a mesma expressão dos olhos do caçador faminto, que perscruta a floresta em busca da caça que é para ele questão de vida ou morte.

Há contudo uma diferença.

É que o caçador faminto pode invocar no seu auxílio a Divindade, pode balbuciar uma súplica a Deus.

Ao passo que o caçador por prazer segue descuidoso uma pista, cheio de felizes emoções ao avistar o gamo que procura; caminha desassombradamente, sabendo que no sítio ajustado, um cozinheiro prepara ótimos manjares; que pára aqui e além para contemplar uma flor mimosa, uma paisagem agradável. O caçador por necessidade só pensa na caça que, matando-a, lhe matará a fome.

Ao passo que um caminha curvado para chegar ao alcance do tiro, o outro deita-se de rastos, não sente os espinhos que lhe rasgam as carnes, e por umas palhas que faz tremer, treme também de dar um alarme, e caminha devagar, devagar, reduzindo a distância para que o tiro não falhe, com o coração a palpitar, e com o estomago a bradar em contorções pungentes.

Deve ser assim o caçar do tigre e do leão. O rasto que eu segui levou-me ao fundo do precipício onde corre o pequeno córrego, e por muito tempo segui a sua margem direita, passando depois à esquerda, onde vi os búfalos, que caminhavam pastando na orla de uma densa floresta virgem.

Estavam a 500 metros de mim.

Começou então esse fatigante caminhar de rojo, a carabina a tiracolo como que nadando num mar de palha curta. De vez em quando levantava a cabeça descoberta para espreitar a minha presa, e prosseguia naquele caminhar difícil cheio de comoções. Os búfalos pastando, ora caminhavam ora paravam, sempre na orla da mata. Se paravam que alegria, se andavam que desespero o meu!

Na mente fantasiava eu chegar ao acampamento e dizer, "vão à margem do córrego, e lá encontraram caça para matar a fome." Era uma mistura de prazer e de angústia que me causava a incerteza horrível.

De repente os animais desapareceram na floresta em apressado trotar.

O que seria? Ter-me-iam pressentido?

Levantei-me e segui o rasto com a maior presteza; mas entrando na floresta, o meu desespero subiu de ponto.

Na mata virgem o solo coberto de musgo espesso não deixa perceber um rasto ao olho mais experimentado.

Parei desanimado. Tudo o que tinha fantasiado caiu como sonho fagueiro ao impertinente despertar.

Ainda fui longe sem nada perceber de caça, e perto das 6 horas da tarde recolhi ao campo, prostrado de fadiga e fome, tendo andado inutilmente 20 quilómetros!

Ao entrar no acampamento, achegou-se a mim o meu Augusto, mostrando-me radiante de alegria um soberbo antílope que tinha morto! Era uma enorme Malanca (Hipotragus equinus) da corpulência de um boi.

Fiz imediatamente a partilha pelos meus carregadores e por mim mesmo, e depois de um longo jejum, que nem Deus me leva em conta por ser involuntário, tive um opíparo jantar, adubado pela fome, que faria inveja aos mais pechosos gastrónomos.

Miguel, o meu bravo caçador de elefantes, também veio cumprimentar-me; mas revelava-se-lhe no rosto a mais profunda tristeza.

Logo que soube a causa do desespero do meu valente, não pude deixar de me consternar muito.

Durante a ausência de Miguel, a minha cabrinha Córa entrou na sua tenda, e comera-lhe o grande feitiço que ele possuía para matar os elefantes.

Consistia o valioso talismã num dente humano caído do teto de uma casa velha, embrulhado em palha e trapos por um cirurgião de grande fama, que lhe tinha incutido as maiores virtudes; sendo facílimo ao portador de tão extraordinário objeto, o encontrar e matar elefantes sem o menor perigo. Miguel estava inconsolável; mas eu consegui tranquiliza-lo, prometendo-lhe maior feitiço do que o perdido, para o mesmo fim.

E não o enganava, pois que a boa carabina que tencionava dar-lhe, logo que chegássemos a país de elefantes, valia bem por todos os dentes humanos embrulhados em palha e trapos.

Depois de comer, reuniram-se em torno da minha fogueira os meus pombeiros, e contaram-me, que durante a minha ausência, toda a gente tinha ido ao mato, seguindo uns os indicators, tinham colhido bastante mel, sendo que outros tinham feito larga colheita de uma fruta chamada pelos Bienos atundo, semelhante à goiaba, mas produzida por uma planta herbácea de pequeno talhe. Os pedúnculos desta fruta partem do caule junto à terra, e o fruto cresce semi-enterrado. O seu sabor é agradável, não julgando eu que seja muito nutriente.

 

Atundo, Planta e Fruto

 

No dia seguinte era preciso seguir avante, e por isso, apesar do frio, levantámos campo muito mais cedo que do costume.

Seguimos a S.E., encontrando, depois de duas horas de marcha, um rio difícil de transpor. Tinha 4 metros de largo, por 4 de fundo, e violenta corrente.

Mandei cortar grandes árvores na floresta, e pouco depois estava lançada uma ponte e a comitiva passava. Pouco a jusante do sítio em que passei o rio, afluía a ele um riacho vindo de Leste. Segui a margem direita deste riacho, e uma hora depois, acampava perto de duas povoações que avistava.

Logo que chegámos, vieram espreitar-nos alguns gentios, com quem pudemos falar a pedir provisões. Pouco depois, já aparecia no nosso campo algum massango que pretas quase nuas vinham vender. Comprando a missanga sem regatear, em breve tivemos alimentação suficiente para aquele dia.

Em breve se estabeleceram relações cordiais entre aquele gentio e nós. Por eles soubemos, que o ribeiro onde acampámos na véspera se chamava Licócótoa, o rio onde naquele dia havíamos lançado a ponte Nhongoaviranda, e o córrego em cujas nascentes estávamos acampados Cambimbia.

As duas povoações que ficam na margem esquerda do ribeiro são Luchazes, aquela que ficava a N.O. do meu campo era de Quiocos ou Quibocos. Foram estes últimos que vieram ao meu campo e com quem estava em relações.

Comi mais de um litro de massango cozido em água, não me foi desagradável tal alimento.

Depois de ter saciado o apetite, calculei a posição em que estaria naquela noite o planeta Júpiter, no momento do eclipse do 1º satélite que eu precisava observar.

Eu estava acampado numa floresta copada, que não me deixava ver os astros.

Logo que achei pelo cálculo a posição do planeta no momento desejado, escolhi o lugar onde assentaria o meu telescópio, e mandei rasgar na floresta um claro suficiente para poder fazer a observação.

Houve grande faina; e os meus bravos Bihenos, machado em punho, conseguiram em duas horas rasgar uma abertura por onde eu pudesse dirigir o meu óculo.

As mulheres dos Quiocos ou Quibocos que vieram ao meu campo traziam os filhos ao lado como as Luchazes, suspensos do ombro oposto por uma faixa de casca de árvore.

Além de massango, trouxeram elas para vender umas raízes tuberculosas chamadas Genamba, de que os meus pretos gostavam muito e eu nada. Não cultivam o milho, e alimentam-se de massango.

O luxo dos penteados não se encontra entre os Quibocos ou Quiocos, e o seu vestir é mais miserável do que entre os Quimbandes. As mulheres andam nuas!

Causará decerto estranheza ao leitor, que eu, estando em pleno país dos Luchazes, lhe esteja falando em Quiocos. Se isso o admira, não me surpreendeu menos a mim o caso de os encontrar ali.

A emigração constante dos Quiocos e a colonização das terras Luchazes por eles, é um facto.

O país dos Quiocos ou Quibocos (que lhes chamam indiferentemente) é colocado ao norte de Lobar, nas vertentes leste da serra da Mozamba. Livingstone fá-lo cortar pelo paralelo 11 sul, e pelo meridiano 20 leste de Greenwich.

Os Quiocos são viajantes, caçadores, e ousados. Alguns, descontentes com o seu país, emigraram para o sul, atravessaram o Lobar, e vieram estabelecer-se na margem direita do Lungo-é-ungo, em país Luchaze.

Não foram hostilizados, e atrás destes seguiram-se outros, sendo constante hoje a emigração. Não pararam ali, e seguiram muitos emigrantes mais ao sul, indo até ao Cubango. A maior parte da povoação de Darico é de Quiocos.

Perguntando-lhes eu, qual o motivo de abandonarem o seu país? disseram-me, que a doença e a falta de caça os afugentava de lá.

Estes Quiocos com quem entrei em relações, estavam estabelecidos ali havia pouco, e não lhes sobravam as provisões para venderem; mas disseram-me eles, que no alto da serra há um esplêndido panorama de N.E. a N.O. Vê-se todo o curso do rio Cuango, afluente do Lungo-é-ungo pelo sul.