Diário de África
Capítulo 6 · Por Terras Avassaladas
No dia 1º de Janeiro de 1878, deixámos Quilengues, tendo ali feito provisão de víveres, e comprado bastante gado para matar, bois e carneiros. O chefe, Tenente Roza, acompanhou-nos uns 7 quilómetros, e voltou à sua residência, seguindo nós sempre a S.E., até ás faldas da serra de Quilengues, onde acampámos junto à povoação do Secúlo Unguri. Tínhamos um companheiro de viagem, que em Quilengues nos tinha pedido, o deixássemos ir até ao Bihé na nossa companhia. Era ele Veríssimo Gonçalves, filho de um conhecido sertanejo do Bihé, morto havia pouco, que em Quilengues era empregado de um ex-criado do seu pai. Este rapaz, mulato e de mesquinha educação, como era de corpo acanhado, cheio de vícios, dos próprios a tal gente, tinha alguma coisa de bom, e era inteligente.
Tem de figurar no correr desta narrativa, e por isso o menciono mais particularmente.
Era acanhado e tímido, mas não covarde, e debaixo de uma aparência fraca, possuía uma forte organização e músculos de ferro. Sabia apenas ler e escrever, mas era um sofrível atirador de segunda ordem, e manhoso caçador.
Durante a demora em Quilengues, consegui domesticar dois dos jumentos, que nesta nova jornada já me serviram de carruagens.
No seguinte dia, logo à saída, começámos a ascensão da serra de Quilengues, que nesse ponto se chama Serra Quissécua.
A subida foi dificílima, e durante três horas lutámos com as agruras da montanha, elevando-nos a 1740 metros do nível do mar, ou 836 acima do planalto que termina em Quilengues.
Em um desfiladeiro da serra passámos um pequeno ribeiro, que os indígenas chamam Obaba-tenda, o que quer dizer água fria, fomos acampar na margem de outro chamado Cuverai, afluente do Cúe. Estes dois ribeiros são permanentes, e são águas que correm ao Cunene.
O terreno contínua granítico, mas a vegetação muda completamente de aspeto-decerto devido isto à altitude. O baobab desapareceu, e já se encontram fetos à sombra das inúmeras e variadas acácias que povoam as matas. A flora apresenta riqueza maior em plantas herbáceas, e nas gramíneas sobre tudo nota-se uma força de vegetação vigorosíssima.
Notei que atravessámos regiões onde se não encontra uma só ave, e de repente entra-se em zonas onde milhares de passarinhos fazem uma chiada enorme. Caça vi ali pouca, mas os rastos anunciam havê-la.
Na noite do seguinte dia aconteceu-nos uma aventura curiosa. Estávamos acampados junto do ribeiro Quicúe, que corre a S.E., em leito granítico, e vai, provavelmente, engrossar o Cúe; quando sentimos a cadela do Capelo ladrando e arremetendo furiosa, contra alguma coisa que se aproximava da barraca. Ao mesmo tempo sentíamos um forte ruminar perto de nós; o que nos fez supor, que os jumentos se tinham soltado e pastavam dentro do campo, que era cercado de abatises espinhosas. Falámos à cadela e adormecemos. Ao alvorecer ouvimos grande rumor no campo, e saindo logo, soubemos, que os pretos, que ao princípio tinham julgado, como nós, que os burros andavam à solta, perceberam depois que se enganavam, e que um animal estranho se tinha introduzido no campo. Fora efetiva menta um búfalo enorme que nos dera a honra da sua companhia durante a noite.
O caso era notável e de explicação difícil, a não serem os repetidos rugidos dos leões que se tinham ouvido; fazendo com que o búfalo viesse buscar guarida entre nós.
No seguinte dia fomos acampar próximo da povoação de Ngóla, e eu fiz logo anunciar a minha visita ao Sova.
Depois do almoço, fui à libata procura-lo.
Fiz-me acompanhar dos meus moleques, levando uma cadeira para mim, e dois guarda-sóis.
O Sova apareceu-me logo, armado de dois cacetes e uma azagaia.
Trajava tanga comprida de pano da costa, e sobre ela uma pele de leopardo. Tinha o peito nú pendendo-lhe do pescoço um sem-número de amuletos. Recebeu-me fora da sua barraca, por um sol abrasador; e eu ofereci-lhe um guarda-sol, que levava para isso, de paninho encarnado; favor a que ele se mostrou muito grato.
Disse-lhe o que andava por ali a fazer, coisa que ele não percebeu muito bem; compreendendo contudo perfeitamente, que lhe oferecia um pequeno barril de pólvora, 50 pederneiras e uma dúzia de guizos de latão, sem nada lhe pedir em troca-o que sobre modo o espantou.
Convidei-o a vir ao nosso campo ver os meus companheiros; e ele acedeu a isso acompanhando-me; coisa muito de notar, que os chefes indígenas são desconfiados.
Dizendo-lhe, que mandasse uma vasilha em que eu lhe pudesse dar água-ardente, foi ele buscar uma botija de litro. Mostrei-me admirado de que um chefe quisesse tão pouco, e convidei-o a procurar vasilha maior. Mandou então buscar uma cabaça que levaria o duplo da botija, e eu pedi-lhe que juntasse outra igual.
O Régulo não podia dissimular a sua admiração pela minha generosidade.
Partimos a pé, acompanhados por três das mulheres, as filhas, e muito povo, todos sem armas, para me mostrarem a confiança que eu lhes havia inspirado.
Chegámos ao campo quando Capelo fazia observações meteorológicas, e o Sova ficou admirado diante dos termómetros e dos barómetros.
O Ivens veio logo para junto de nós, e depois de grandes comprimentos, mostrámos ao Régulo as armas de Snider e de Winchester, que lhe causaram verdadeiro assombro.
Este Chimbarandongo, que tal é o nome do sova de Ngóla, é inteligente, e sabe viver com o seu povo.
Ofereceu-nos um boi, e tendo eu pedido licença para o matar, por haver necessidade de provisões, consentiu nisso, pedindo-me para lhe atirar eu.
O boi estava estranho, e fugiu para o mato, a uns oitenta metros de nós. Indiquei ao Sova o sítio em que o ia ferir, e disparei. O boi caiu.
Chimbarandongo foi ver o animal, e atentando na ferida, da qual corria o sangue, aberta entre os olhos, no sítio que eu indicava, ficou tão maravilhado, que me deu repetidos abraços no meio do seu entusiasmo.
Pelas 4 horas, formou-se sobre nós tempestade violenta, que se desfez em raios e copiosa chuva, durando até ás 6 horas.
O Sova e as mulheres recolheram-se à nossa barraca, assim como alguns dos macotas.
Chimbarandongo fez um discurso aos seus macotas, tendente a provar-lhes, que nós tínhamos trazido a chuva, e com ela um grande benefício ao país, ressequido pelos calores do estio.
Tentámos explicar-lhe, que não tínhamos tão grandes poderes, e que só Deus governava nos grandes fenómenos da natureza; levando o Ivens a questão a ponto de lhe explicar como e porque chovia. Ouvindo isto, fez o Sova sair os seus macotas e mais povo que escutava a lição meteorológica.
Depois disso, tendo-se de novo reunido o povo, ele disse, que se deixasse de chover, indagaria qual dos seus súbditos tirara a chuva, e o castigaria de morte. Novo discurso da nossa parte contra a pena capital; e nova ordem de despejo da parte dele, que, apesar do meio embriagado, tinha tino bastante para não compreender que as nossas teorias não quadravam ao seu sistema governativo.
Ao anoitecer retirou-se do modo o mais cómico, indo acavalo num dos seus conselheiros, que levava as mãos nos ombros de outro; e como estivessem todos embriagados, a cada passo perdiam o equilíbrio, ameaçando com a queda partir a cabeça ao seu soberano.
Este régulo é sensato e homem de bom juízo. Não acredita em feitiços; nem acreditava que nós lhe tivéssemos trazido a chuva; mas convém-lhe aparentar que o cré, para não perder o prestigio entre os seus, que só assim querem ser governados.
No seguinte dia, vindo ele despedir-se de nós, me disse, que a sua política era ser amigo dos brancos; pois que das boas relações com eles provinha a roupa com que se cobria, e as armas e a pólvora com que continha em respeito os seus inimigos.
"Sem os brancos," me disse ele, "nós somos mais pobres que os animais; porque a eles temos de tirar as peles para nos cobrirmos; e são bem loucos os pretos que não cultivam a amizade dos filhos do Puto." A libata ou povoação de Ngóla é fortemente defendida por uma dupla paliçada feita com arte, que tem até uma das faces dentada para cruzamento de fogos. É tão vasta que pode conter toda a povoação do país, que ali se recolhe, em caso de guerra, com os seus rebanhos. O ribeiro Cutóta corre dentro dela, fazendo que possa resistir a longo assedio sem recear a sede.
Deixando Ngóla, caminhámos por duas horas a N.E., e encontrámos o Cúe, o maior dos rios, que corre entre Quilengues e Caconda. No sítio em que tentámos a passagem tinha ele 15 metros de largo por 3 a 4 de fundo, não dando por isso vão. A chuva torrencial da véspera, aumentando-lhe o volume de água, tinha tornado impetuosa a corrente.
Uma ponte de finos troncos de arbustos, oferecia uma perigosa difícil passagem aos homens carregados; mas os bois e os jumentos só a nado podiam passar. Depois de grande trabalho, os bois nadaram para a outra margem; os burros porém recusaram segui-los.
Só a grande custo conseguiu o preto Barros, ajudado de mais dois, faze-los nadar, nadando ao seu lado, e obrigando-os a tomar pé na outra margem; o que era perigoso, que ali abundam crocodilos.
Depois de uma hora de trabalho, avançámos para E.N.E., encontrando o ribeiro Usserem, dali marquei, a N.N.O., o monte Uba, onde assentam as povoações de Caluqueime. Passámos depois o rio Cacurocáe, que corre a S.S.E. ao Cúe; e meia hora depois o rio Quissengo, que corre a S.E., e vai afluir ao Cúe; acampando na margem deste último, pelas 4 horas da tarde, junto da povoação de Catonga, onde tem a sua libata um tal Roque Teixeira.
A marcha foi de 30 quilómetros, o que muito nos fatigou.
O caminho foi sempre por planície, onde a altitude varia apenas entre 1450 e 1500 metros.
A vegetação arbórea apresenta um certo raquitismo; mas a herbácea continua a ser variada e rica.
No dia 6, seguimos sempre a N.E., passando logo o Cúe, em ponte feita pelo gentio. Este ribeiro tem 5 metros de largo, por 1 de fundo, e corre a S.E. ao Catápi. Alcançámos o Coúngi ou Catápi, ás 11 e meia, e acampámos na sua margem esquerda. O Coúnge, que a montante toma o nome de Catápi, tinha ali 10 metros de largo por um de fundo, com violenta corrente, e dirigindo-se a S.E. vai lançar-se no Cunene próximo do Lucéque.
Nesse dia matei uma grande gazela (Cervicapra bohor), a maior do género que vi em toda a minha viagem, tão grande que foram precisos 4 homens para a transportar ao campo.
Ao fechar da noite, a cadela ladrou muito, arremetendo com o mato; verificando nós ser contra as hienas que nos rondavam as barracas, e por noite fora tivemos música, num dueto de baixo e contra-baixo, pela voz clara de um leão, na mata, e pela ronquenha de um hipopótamo, no rio.
O aspeto do país continua o mesmo. Nas lombadas matas raquíticas, de uma vegetação que mais se pode chamar arborescente do que arbórea, pela maior parte. Leguminosas, nas depressões; vastas clareiras, verdadeiros prados de gramíneas diversas, por entre as quais serpeia um ribeiro ou um rio. O terreno continua granítico, apresentando as rochas aspetos variados; mas sendo pouco abundantes em mica.
Continuámos caminho ao N.E., passando junto da libata de Cuassequera, fortificada entre enormes rochedos graníticos, e rodeada de gigantescos sicómoros, produzindo um aspeto muito pitoresco. Depois de passar o ribeiro Lossóla, que corre ao S. para o Catapi, fomos acampar na margem do Nondumba, riacho que, como o antecedente, aflui ao Catápi, mas correndo ao N.
O planalto já é mais elevado, e caminhávamos então numa altitude de 1600 metros.
Desse ponto seguimos a Caconda, tendo atravessado três ribeiros, que correm a N.N.O. ao Catapi, e são, pela sua ordem, o Chitequi, o Jamba, e o Upanga; encontrando em seguida o Catapi, que corre a O.S.O., e que já no dia 6 tínhamos atravessado com o nome de Coúnge.
No ponto em que o passámos tem 10 metros de largo por 1 de fundo, e pequena corrente.
Algumas das clareiras que nesse dia atravessámos eram cobertas de junco, pantanosas e de difícil acesso.
A passagem do rio levou tempo, e os meus companheiros precederam-me na chegada a Caconda.
Alcancei depois deles a fortaleza, e fui recebido à porta pelo chefe interino, mulato e rico proprietário do conselho, sargento da guerra preta; o qual me disse, que o chefe tinha ido para Benguela, deixando-lhe a espiga de nos receber (textuais palavras).
Depois de me ter dito esta amabilidade, o Sr. Matheus convidou-me a entrar na fortaleza. Logo que passei o recinto das fortificações, vi entre os meus companheiros um homem de estatura mais que mediana, aspeto macilento, testa ampla e elevada, olhar pouco fixo, trajando casaca e gravata branca, que o Capelo me apresentou, dizendo-me, "Aqui tem José de Anchieta." Estava diante de mim o primeiro explorador zoologista de África, esse homem que tinha passado 11 anos nos sertões de Angola, Benguela, e Mossámedes, enchendo as vitrinas do museu de Lisboa com valiosíssimos exemplares. Tive depois ocasião de presenciar o seu viver, que é digno de ser descrito.
Anchieta estava estabelecido nas ruinas de uma igreja, a 200 metros da fortaleza.
A casa no interior era em forma de T, e toda cercada de estantes, onde tinham, de mistura, livros, instrumentos matemáticos, máquinas fotográficas, telescópios, microscópios, retortas, pássaros de mil cores, vidros variados, louça, pão, frascos cheios de líquidos multicolores, estojos de cirurgia, montes de plantas, medicamentos, cartucheiras, roupa, etc. A um canto, um feixe de espingardas e carabinas de diferentes sistemas. Junto à casa, um cercado, aprisionando umas vacas e uns porcos. Á porta algumas pretas e pretos esfolando pássaros e preparando mamíferos; e dentro, a uma grande mesa, Anchieta, sentado em velha poltrona, que atesta longos serviços.
Sobre a mesa é impossível dizer o que há.
Pinças, escalpelos e microscópios há muitos.
De um lado, um monte de bocados de pássaros mostra que ele acabou de se entregar ao estudo da anatomia comparada. Em frente dele, uma flor cuidadosamente dissecada, atesta que ele acaba de ler na disposição das suas pétalas, no número dos seus estames, na forma do seu recetáculo, no arranjo das sementes, no pistilo, os nomes da família, do género e da espécie em que a deve colocar.
De escalpelo na mão e microscópio no olho, passa ele as horas que pode tirar ao trabalho de colecionador, e é já a planta, já a ave, o ponto de mira do seu estudo.
A momentos, é interrompido por um doente que chega, a quem ele dispensa os cuidados de médico, e ao mesmo tempo os remédios da cura, quando lhe não dá também a galinha da dieta.
Anchieta professa um respeito sem limites ao Doutor Bocage, diretor do Museu Zoológico de Lisboa, e fala dele com essa respeitosa amizade que é difícil encontrar onde não existem estreitos laços do mesmo sangue.
Isso compreende-se. Anchieta, que tem a consciência dos serviços que tem prestado ás ciências zoológicas, conhece que tem no Dr. Bocage o homem que lhe faz justiça, e sabe aquilatar esses serviços; o homem que completa na Europa o trabalho que ele começa em África; o homem, enfim, que sabe quantas fadigas, quantas febres, quantos incómodos custaram cada um desses exemplares, que descreve, descrevendo com eles novas espécies.
José de Anchieta é um desses nomes que merece o respeito dos homens de ciência, e o respeito dos Portugueses seus compatriotas; porque, trabalhador infatigável, tem sabido honrar o seu país, conservando-se ele mesmo honrado e pobre, no meio do vício e da desmoralização que lavra nas terras em que vive, e de que poderia tirar proveito se fosse menos escrupuloso.
Basta de falar dele, que não há elogios que lhe não caibam; falando mais alto do que eu as suas obras, e o seu nome, ligado para sempre aos seus trabalhos, que não morrem.
Soubemos que o Chefe Castro tinha sido exonerado do comando, e fora nomeado outro oficial do exército de África para o substituir.
Dois dias depois da nossa chegada, chegaram também a Caconda o novo chefe e o Alferes Castro, e por eles a nossa correspondência da Europa, que lemos com avidez.
Falei logo em carregadores, e o Alferes Castro prontificou-se a acompanhar-me a casa de José Duarte Bandeira, o primeiro potentado de Caconda, onde me disse que se arranjariam, pela grande influência de que dispunha o tal Bandeira.
Partimos para Vicéte no dia 13 de manhã, e nesse mesmo dia o Ivens seguiu para casa de Matheus, a fazer um reconhecimento ao Cunene, no lugar da sua confluência com o Quando. Eu também devia ir fazer uma visita ao mesmo rio para o sul.
O Capelo ficou em Caconda atacado por uma ligeira febre, e entregue aos cuidados de Anchieta. Segui a S.S.E., passando logo os rios Secula-Binza, Catapi, e Ussongue, que aflui a leste, correndo a O.N.O., com 3 metros de largo por 1 de fundo, dando-lhe por isso grande contribuição de água.
Depois de caminhar a S.E. umas 26 milhas, cheguei pela noite a Vicéte, libata fortificada entre rochas, no cume de um outeiro que domina vasta planície.
Fui recebido por José Duarte Bandeira, que, depois de boa ceia, me proporcionou ótima cama, de que bem precisava.
Logo na manhã seguinte, o Alferes Castro falou nos carregadores, e Bandeira prontamente se ofereceu para obter 120, que tantos nos eram precisos para seguirmos ao Bihé.
Mostrei o desejo de ir ao Cunene, e ficou decidido que partíssemos no seguinte dia.
Caminhámos nove milhas a Leste, e encontrámos o rio no Porto do Fende.
Logo à chegada, matei um grande hipopótamo, que teve a imprudência de vir resfolgar a meio rio ao alcance da minha carabina. Passei ali dois dias. O rio tem aí 100 metros de largo por 6 a 7 de fundo, com uma corrente de 1 milha por hora. O seu eixo no Fende é N.O. a S.E. por espaço de 2 milhas, sendo a montante de N.E. a S.O., e ainda acima E.O. a jusante inclina-se para S.S.O. por 26 milhas, até ao Luceque. Por vezes toma uma largura de 200 metros e mais.
Abundam nele hipopótamos e crocodilos.
1 milha a jusante do Porto do Fende, há uns rápidos a que chamam Da Libata Grande; meia milha abaixo, outros, as Mupas de Canhacuto; e 10 milhas mais a jusante, as cataratas de Quiverequete, últimas que tem no seu curso superior; sendo depois navegável até ao Humbe.
A margem direita é, nos pontos em que a visitei, montanhosa e coberta de mato virgem; à esquerda, vasta planície, de 4 a 5 quilómetros de largo, que encosta ao sopé dos montes, que formam um pouco elevado sistema, correndo N.S.; em cujas vertentes oeste assentam as povoações do Fende.
Pelas 11 horas da noite do dia 15, formou-se sobre nós uma tormenta, que despediu inúmeras faíscas e copiosa chuva, deixando-nos completamente molhados.
A 17 voltámos para Caconda, com a promessa de termos os carregadores dentro de 8 dias; tendo de mandar, logo no dia seguinte, um barril de água-ardente para a convocação. Nesta parte de África, a água-ardente desempenha para com os homens o mesmo papel, que na Europa o azeite para com as máquinas. Sem ela não se movem.
O nosso hospedeiro, que bem nos regalou na sua casa, esqueceu-se de que tínhamos a gastar o dia em jornada; e saindo nós ao alvorecer, só à noite alcançaríamos Caconda. Partimos com o alforje vazio, e pelo meio-dia já o apetite degenerava em fome.
Parámos numa clareira, e eu disse ao Alferes Castro, que ia ver se matava caça para comer; mas apenas avistei uma codorniz, que nos serviu a ambos de almoço e jantar, cozinhada numa marmita de soldado. Confesso que já tenho almoçado e jantado melhor do que nesse dia.
Os meus pretos, vendo a minha avidez em roer os ossos da codorniz, que a cadela de balde devorou com os olhos, fazendo-me mil negaças com a cauda, deram-me uma raiz de mandioca, que partilhei com o Alferes.
Cheguei, à noite, a Caconda, e depois de uma boa ceia, dei fé que Ivens ainda não tinha chegado, e que Capelo já estava bom.
O Ivens chegou a 19, e nesse dia mandámos o tal barril de água-ardente ao Bandeira, pedindo-lhe a maior urgência na convocação dos carregadores.
No dia 23, chegaram de Benguela uns artigos que tinham sido requisitados; e para mim um presente de 6 latas de biscoito, que me oferecia António Ferreira Marques.
Nesse dia despachei outro portador a Vicéte, pedindo ao Bandeira os carregadores, que já se demoravam.
Não apareciam os homens prometidos, e eu pedi ao chefe para que fosse a Vicéte, e usando da sua influência como autoridade, visse se dava pressa ao Bandeira em nos mandar a gente precisa.
O chefe partiu, e escreveu-me logo, dizendo já estarem prontos 61 homens, e em breve haver os mais. Levara ele logo fazenda para os pagamentos, que ali só querem algodão branco, mas disse serem precisas mais 50 peças, que nós não tínhamos, mas que o Bandeira ficou de emprestar.
No dia seguinte, nova carta do chefe, dizendo, que os carregadores iam ser pagos e viriam logo; dois dias depois, terceira carta, dizendo, já lá ter 94 homens; e finalmente, no dia 5 de Fevereiro, outra carta, dizendo, que não havia nem um carregador, e que nenhum se arranjaria.
Imagine-se o nosso desapontamento.
Eu a esse tempo ainda não tinha formulado e arraigado no meu espírito um principio, que mais tarde me sugeriu a experiencia, e que entrou depois, de parelhas com a carabina d’el-rei, no feliz resultado da minha viagem.
O princípio formulado e depois profundamente arraigado no meu espírito, traduziu-se nesta sentença:- "Desconfiar, no sertão de África, de tudo e de todos, até que provas repetidas e irrefutáveis nos permitam confiar um pouco em alguma coisa ou alguém." Ora, para mim, essas provas são tão difíceis de se apreciarem, como o são as de um amor eterno, ou as da sólida fortuna do comerciante, embrulhado em transações de vulto.
Creio que, ao tomarmos conhecimento da carta do chefe, cada um de nós propôs alvitre qual deles mais disparatado.
O desapontamento era grande. Sossegados os espíritos, decidimos ir eu procurar os carregadores fosse onde fosse, e se longe ou perto os não pudesse encontrar, seguirmos para o Bihé, e mandarmos dali buscar as cargas. Julgávamos isso possível.
O chefe voltou de Vicéte, e não me deu explicação plausível do facto.
Acordámos em ir eu ao Huambo, a ver se do Soba dali obtinha carregadores; porque, não só o Alferes Castro, como o chefe, e Anchieta mesmo, nos mostravam a impossibilidade de os ajustar mais perto.
Pouco antes, Anchieta tinha encontrado grandes embaraços para fazer uma remessa de produtos zoológicos para Benguela, o que era relativamente mais fácil.
O que nos estava acontecendo é digno de notar-se.
Não só Bandeira, mas um tal Mathias, o sargento Matheus e outros, enviam grandes caravanas a sertões longínquos; e todos eles não puderam obter um só carregador para nós!
Eu começava de antever um propósito firme de nos embaraçarem o passo, e mal cuidava então que esse propósito fosse tão longe como infelizmente tive ocasião de experimentar depois.
O correr desta narrativa mostrará, quão habilmente me foram levantados obstáculos, que só uma decidida proteção de Deus me fez vencer.
Deixemos este assunto por enquanto, e antes que continue com a narração das minhas aventuras, que começam aqui a tomar um caracter mais extraordinário, cabe-me dizer duas palavras a respeito de Caconda.
A fortaleza de Caconda, o ponto mais interior onde hoje no distrito de Benguela tremula a bandeira Portuguesa, é um quadrado de 100 metros, cercado de um profundo fosso e de um parapeito, onde aqui e além se podem ver as linhas distintas de uma fortificação passageira, construída outrora com arte. Uma paliçada forma segunda fortificação no interior, resguardando umas casas arruinadas, que foram habitação do chefe, quartéis e paiol.
Algumas boas peças de bronze, montadas a barbete, deixam ver por sobre o plano de tiro, deformado pelo tempo, as suas bocas verde-negras e oxidadas.
A 200 metros ao Sul da fortaleza, as ruinas de uma igreja.
Ao norte, uma reunião de pequenas cubatas, morada dos soldados.
O país é agradável, e sem ser, como se pretende, isento de febres, é certo que elas ali são mais benignas do que em outros pontos. A povoação é pouquíssima, e tem-se retirado muito da fortaleza.
O solo é ubérrimo, e muitas plantas Europeias facilmente se aclimam ali, produzindo espantosamente. No trigo, feijão e batata vi eu isso, em pequeníssimas plantações.
O ribeiro Secula-Binza é uma fonte de água cristalina correndo em leito de granito.
Junto da fortaleza há poucas árvores; que as necessidades dos habitantes tem despovoado as matas que devem ter existido outrora, como ainda hoje existem mais longe.
O comércio é pouco, e esse mesmo é feito muito longe no interior.
A mesma pegada de decadência que se nos revela em Quilengues, é ainda mais patente aqui.
A importância de Caconda é igual, senão superior, à de Quilengues; mas tem menos segurança ainda para o comércio; que o caminho de Benguela é infestado de salteadores.