Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 56 de 80

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Diário de África

Ataque contra o acampamento no Lui

 

Ao amortecer do incendio, eu vi que o perigo era real e enorme. Eram cem contra um.

Parecia a imagem do inferno ver aqueles vultos negros, que com estridente grita pulavam ao clarão das chamas, avançando para nós cobertos com o alto escudo e brandindo as puídas azagaias. Foi um combater encarniçado em que as carabinas de carregar pela culatra, pelo seu fogo sustentado, continham em respeito aquela horda selvagem.

Contudo eu calculava que o termo do combate não estava longe, porque as munições desapareciam rapidamente; eu só tinha no começo quatro mil tiros para as carabinas Snider, e vinte mil para as armas de carregar pela boca, mas não seriam essas as que me defenderiam; e logo que o fogo abrandasse, por faltarem as armas de carregamento rápido, seríamos esmagados pelo gentio desvairado. O meu Augusto, que parecia um leão raivoso, chegou-se a mim com suprema angústia, mostrando-me a carabina, que acabava de rebentar. Disse ao meu moleque Pépéca, que lhe entregasse a minha carabina de elefante e a cartucheira. Augusto correu para a frente, e fez fogo para onde o grupo do gentio era mais compacto. Um momento depois, a grita infernal dos assaltantes tomou um tom diferente, e virando costas, tomaram eles precipitada fuga.

Só no dia seguinte, pelo rei Lobossi, eu devia saber o que produzira um tal reviramento. Foram os tiros do meu Augusto.

Na cartucheira de que ele lançou mão havia balas carregadas de nitroglicerina.

O efeito destas, fazendo desaparecer em bocados, pela explosão, as cabeças e os peitos em que acertavam, produziu o pânico no meio daquele gentio ignaro, que viu numa coisa nova para ele, um feitiço irresistível.

Foi a Providencia que me quis valer.

Conheci que estava salvo. Meia hora depois, apareceu-me o Veríssimo, com uma grande força capitaneada por Machauana, que vinha no meu socorro, por ordem do rei Lobossi. Lobossi mandava dizer-me, que era estranho a tudo, e que, provavelmente, o seu povo, sabendo que eu fora ali para os atacar de combinação com os Muzungos de leste, que estavam com Manuanino, fizeram aquilo pela sua conta; mas que ele ia tomar as mais vigorosas providencias para eu não sofrer mais agressões. Tudo aquilo, se não foi ordenado por ele, foi por Gambela.

Veríssimo, vendo os desastres do combate, perguntou-me o que tínhamos de fazer? E eu respondi-lhe com as palavras de um dos maiores homens Portugueses dos últimos séculos:-"Enterrar os mortos, e tratar dos vivos."

No incendio sofremos perdas graves, mas mais graves eram as perdas de vidas por tão insólito ataque. A bandeira Portuguesa estava furada das azagaias selvagens, e salpicada do sangue dos bravos; mas as manchas que tinha, só serviam para fazer realçar a sua pureza imaculada; e mais uma vez, longe da pátria, e por terras ignotas, tinha-se sabido fazer respeitar, como sempre o soube, e como sempre o saberá.

Depus as armas de soldado, para me improvisar em cirurgião cuidadoso, e o resto da noite foi passado a curar os feridos e a alentar os sãos, sempre apercebido e vigilante, apesar dos novos protestos do rei Lobossi.

Logo que amanheceu, fui procurar o rei, e falei-lhe asperamente sobre o acontecimento da noite. Tornei-o, diante do seu povo, responsável pelas desgraças daquela noite; e disse bem alto, que aqueles que tivessem a chorar a perda de parentes, só a ele deviam lançar culpas.

Disse-lhe, que queria seguir sem perda de tempo, e anunciei-lhe, que ia estabelecer o meu campo nas montanhas, onde pudesse com vantagem resistir a um novo ataque.

Ele teimou muito comigo, para lhe dar ou ensinar o feitiço que eu tinha empregado na véspera, fazendo com que os pretos rebentassem por si. Era assim que eles explicavam o caso funesto das balas explosivas inconscientemente empregadas por o meu Augusto.

Apesar da muita vontade que eu tinha de deixar a planície e ir para as montanhas, não pude realizar esse desejo senão a 9, por causa do estado dos feridos; e no dia 7 e 8, lutámos com a fome; porque ninguém nos quis vender de comer, e o rei dizia, que nada tinha para me dar. Foram as lagoas que forneceram abundante pesca e alguns patos muito magros. Machauana mandou-me leite, e continuou a mostrar-me a maior dedicação. Foi, como disse, a 9 que deixei a planície e alcancei as montanhas perto de Catongo, chegando todos, feridos e sãos, no maior estado de fraqueza.

O novo sistema adotado, de nos matarem pela fome, preocupou-me, e dava-me sérios cuidados num país sem caça.

Tinha-mos, é verdade, a pesca das lagoas.