Diário de África
fac-símiles de páginas do meu diário
Página de um dos meus livros de cálculos
fac-símile de um mapa feito em caminho
TRIBUTO DE GRATIDÃO
Vou citar nomes. É difícil e perigosa tarefa. Há sempre o receio de ferir modéstias, ou levantar suscetibilidades. Não importa; sigo avante.
Será grande a lista, por serem multiplicados os favores; e posso bem pecar por omissão, filha de memória preguiçosa.
Que me perdoem os que desejariam esconder esses favores na mais velada modéstia, como aqueles a quem um lapso de reminiscência deixasse no olvido.
Seguindo a ordem cronológica dos factos, procurarei no profundo sentimento de gratidão a lembrança dos serviços e favores recebidos.
Cabe à Comissão Central de Geografia o primeiro lugar no meu reconhecimento; por me ter distinguido com a sua escolha para instrumento da exploração que decidiu fazer em África.
Proposto pelo Sr. Conselheiro Andrade Corvo, fui unanimemente aceito, e atendido nas propostas que apresentei para a organização da empresa. Falando da Comissão Central de Geografia, não posso omitir de citar nomes; porque, recebendo obséquios de todos, fui particularmente auxiliado por muitos.
O Dr. Bernardino António Gomes, Marques de Souza-Holstein, António Augusto Teixeira de Vasconcelos, são nomes que as lousas tumulares dos seus jazigos, não podem ocultar à minha gratidão.
O Dr. Júlio Rodriguez, Luciano Cordeiro, o Dr. Bocage, Conde de Ficalho, Carlos Testa, Pereira da Silva, Jorge Figaniere, e Francisco da Costa e Silva, foram os cavalheiros que, no seio da Comissão, mais se esforçaram por me encher de favores.
Outro, que só anos depois conheci pessoalmente (ausente em quanto se organizou a expedição), não deixou de concorrer com o sem conselho abalizado para a parte científica dela. Refiro-me ao Sr. Brito Limpo.
Fora da Comissão, prestaram-me valioso auxilio, os meus particulares amigos Marrecas Ferreira e João Boto.
Vem depois da Comissão Central, a Sociedade de Geografia de Lisboa; e com ela mais em evidencia, os seus Presidentes, Dr. Bocage e Visconde de S. Januário, e os seus Secretários Luciano Cordeiro e Rodrigo Pequito.
Segue-se o jornalismo Português, a quem cordialmente agradeço todos os favores que me dispensou, e a maneira por que acolheu a minha nomeação.
Fora do país prestaram-me valioso auxilio, o Sr. Mendes Leal, António d’Abbadie, e Ferdinand de Lesseps, em Paris; o Visconde de Duprat e o Tenente Pinto da Fonseca Vaz, em Londres; sendo que à cooperação destes cavalheiros, e só a ela, podemos eu e Capelo ter dado conta do encargo que tomámos de organizar em um mês o material da expedição.
Antes de ter deixado Portugal, há que citar ainda dois cavalheiros, que concorreram poderosamente para a realização da nossa empresa.
Sam o Conselheiro José de Melo e Gouveia, que então governava nos negócios do Ultramar, e Francisco Costa, o Diretor Geral do Ministério das Colonias.
Pedro de Almeida Tito, e Avelino Fernandes, dispensaram-me tais favores em viagem, que não posso deixar de escrever aqui os seus nomes.
Vem, em seguida, o do Governador de Cabo Verde, Vasco Guedes, e o do Governador de Angola, Caetano de Albuquerque; que ambos me dispensaram inúmeras finezas.
Em Loanda, José Maria do Prado, Urbano de Castro, o Cônsul Newton, a Associação Comercial, e sobre tudo os oficiais e Comandante da Canhoneira Tâmega, são credores do meu mais profundo reconhecimento.
Aparece agora um nome que nesse tempo ecoava por todas as partes do mundo, e assombrava com as suas façanhas o orbe inteiro:
Henrique Moreland Stanley.
O grande explorador, o ousado viajante, que acabava de fazer a mais prodigiosa viagem dos tempos modernos, foi meu amigo, e meu conselheiro, e dele recebi proveitosas lições. Melhor mestre não poderia ter. Que ele receba nestas curtas linhas o mais sincero tributo da grande admiração que nutro por ele, e a mais franca expressão da minha estima, e da gratidão que lhe consagro.
Em Benguela, Pereira de Melo e Silva Porto ocupam o primeiro lugar; e nem me detenho a falar deles, que mais alto falam por mim os seus actos narrados neste livro. António Ferreira Marques, o Tenente Serafim, o farmacêutico Monteiro, e Vieira da Silva, são outros tantos cavalheiros que não posso esquecer.
Santos Reis, o meu hospedeiro do Dombe Grande, e o Tenente Roza de Quilengues, são mais dois credores à minha gratidão.
Vou dar um salto enorme, e sem me deter a falar do Dr. Bradshaw e da família Coilard, transporto-me ao Bamanguato, a Shoshong (Xoxon), onde os favores do rei Kama, e sobre tudo os de Mr. e Madame Taylor, me obrigam a não olvidar os seus nomes.
Vai começar para mim um embaraço enorme. Estou em Pretoria; estou na primeira terra do mundo civilizado que encontro depois de Benguela; e ali são tantos os favores que se me prodigalizam, que não sei como sair do embaraço que eles me causam para os agradecer.
Mr. Swart, o tesoureiro do Governo, foi o primeiro a obsequiar-me, e será o primeiro citado.
Vem em seguida os nomes de Fred. Jepe, Secretario Osborne, Dr. Bissik, Mr. Kisch, Major Tylor e Capitão Saunders, e todos os oficiais do Regimento 80.
A Baronesa Van-Levetzow, Madame Imink e Madame Kisch, e enfim o Coronel Lanyan.
Sir Bartle-Frere veio logo em meu auxílio, e não se demorou o nosso Cônsul Português no Cabo, o Sr. Carvalho.
Se devo muita gratidão ao Governador Inglês, não devo menos ao Cônsul Português, que, por telegramas imediatos, veio prestar-me a maior assistência.
Monseigneur Jolivet, o sábio Bispo de Natal, então residindo em Pretoria, não foi dos últimos a encher-me de favores.
Em caminho para Durban, recebi um obséquio grande de Mr. Goodlife, e em Maritzburgo multiplicaram-se os obséquios do Coronel Baker, Capitão Whaley e Madame Saunders, e Mr. Furs.
Em Durban, Mr. Snel, o Cônsul Português, e Mr. e Madame B. H. de Wal, chefe da Handels Company em África Oriental, muito se distinguiram em favores prestados.
Agora é que se torna verdadeiramente embaraçosa a minha missão. Vou regressar à Europa, tendo terminado a minha viagem, e acumulam-se os obséquios que recebo a cada momento.
Em Lourenço Marques, são Castilho, Machado, Maia e Fonseca. Em Moçambique, o Governador Cunha, Torrezão e todos.
Em Zanzibar, o Dr. e Madame Kirk, Widmar, e sobre todos o Capitão Draper do Danubio da Union Steamship Company, que de Durban me transportou ali.
No Cairo, ainda Widmar me presta grandes favores. Em Alexandria, sobressai a todos o Conde e a Condessa de Caprara.
Ainda antes de chegar a Lisboa, recebo um serviço importante do Barão de Mendonça, em Bordeos.
Em Lisboa, o Governo, primeiro, e amigos velhos e conhecidos novos, porfiam em obsequiar-me.
Estou ali apenas dez dias, em que mal tive tempo para receber favores, e em que me não sobejou um minuto para os agradecer. Quiseram que eu fizesse uma conferência, mal repousado ainda das fadigas da viagem; e sem o poderoso concurso que me prestaram Pequito, Sarrea Prado, Batalha Reis e Dr. Bocage, impossível me seria faze-la.
Não querendo, não podendo mesmo, citar nomes, tantos seriam eles, não deixo de agradecer, com o mais sincero reconhecimento, à Sociedade de Geografia de Lisboa tudo o que por mim fez.
Á Associação Comercial e ao seu digno Presidente, o Sr. Chamisso, que sempre tomou o maior interesse pela exploração de que eu fiz parte.
Soube em Lisboa um facto que não posso deixar de consignar aqui com um nome.
Agradeço ao Sr. Tomas Ribeiro as ordens que deu como Ministro da Marinha, para que me fossem enviados socorros de Moçambique para o interior de África.
Ao Corpo Diplomático residente em Lisboa expresso os meus sentimentos de gratidão, e sobre todos aos Srs. Morier, Barão de P. Hegeurt, Laboulay, Marques de Oldoini, e Ruata.
Á Associação Comercial do Porto, aos bombeiros voluntários daquela cidade, à Sociedade Euterpe e à Sociedade de Instrução, aos municípios e mais instituições do país que me obsequiaram, consigno aqui um testemunho de agradecimento.
Ás Associações Portuguesas no Brasil, aos meus conterrâneos que longe da pátria me saudaram, a eles que nada pouparam para mim em honras e distinções, envio um fraternal protesto de imensa gratidão.
Sobre todos àqueles que formaram uma sociedade com o meu nome, e que de Pernambuco me ofereceram um mimoso presente, de tal distinção, que nunca os poderei esquecer.
Cabe agora, pela ordem dos factos, agradecer aos Soberanos estrangeiros as altas honras com que me distinguiram, sobre todos ao Monarca Belga, ao Ilustrado e sábio Rei Leopoldo, ao grande impulsor do movimento geográfico Africano moderno, que, a par da mais alta honra com que me podia enobrecer, me dispensou a mais cordial estima, e me mostrou o mais afetuoso interesse.
Ás Sociedades de Geografia da França, principalmente ás de Paris, onde o Almirante La Ronciére le Noury, Ferdinand de Lesseps, M. Daubré, Maunoir, d’Abbadie, de Quatrefages e Duveyrier, me encheram de favores; de Marselha, que me conferiu uma subida distinção, e cujo Presidente, Mr. Babaut, muito me obsequiou; e à Comercial de Paris, onde distingo o seu digno Secretario Geral, Mr. Gauthiot.
Ainda em Paris, tenho a nomear a Colonia Portuguesa, e nela os Srs. Mendes Leal, Conde de S. Miguel, Camilo de Moraes, Pereira Leite, Garrido, e Dr. Aguiar, de quem nunca poderei olvidar os favores recebidos.
Ás Sociedades de Geografia Belga, e à de Anvers, nomeadamente aos seus Presidentes, o General Liagne e Coronel Wauvermans; e além destes cavalheiros, não posso deixar de falar, em um país onde todos me obsequiaram, nos nomes dos Srs. du Fief, Bamps, e Coronel Strauch, e ainda mais alto no Conde de Thomar, cujos favores repetidos e cordialidade de trato converteram em verdadeira amizade a sincera estima das primeiras relações.
Cabe, pela ordem dos factos, o último lugar à Inglaterra, que seria talvez a primeira pelo número de favores dispensados.
Principiou nas colonias Inglesas da África do Sul a ter jus à minha gratidão este país, onde depois se me tinham de multiplicar os obséquios.
Á Sociedade de Geografia de Londres, ao seu Presidente o Conde de Northbrook, aos seus Secretários Clements Markham e Bates, aos seus Membros Sir Rutherford Alcock, Lord Arthur Russel, Visconde de Duprat, e muitos outros que impossível seria nomear, deixo aqui escritos os meus sentimentos de reconhecimento.
Ao Sr. Frederico Youle, ao Dr. Peacock, aos Srs. M. de Antas, Sampaio, Fonseca Vaz, Quilinan, Duprat, e Ribeiro Saraiva, a estes que alem de subidos favores me dispensaram grandes serviços durante a minha grave doença, não posso deixar de lavrar um bem público testemunho de gratidão.
Ainda me falta citar o nome de Mr. David Ward, o Mayor de Shefield, e do meu particular amigo, o grande e eminente explorador Verney Lovet Cameron, para fechar a lista, que seria interminável a não tomar a resolução de a fechar aqui.
Ás Sociedades científicas dos outros países, e a todos aqueles que não posso citar, e que me cobriram de favores, agradeço tudo quanto por mim fizeram, e agradeço tanto mais sinceramente, quanto me custa não os poder personalizar.
Major Alexandre de Serpa Pinto.
Londres, 5 de Dezembro de 1880.
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Alexandre de Serpa Pinto
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