Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 44 de 80

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Diário de África

Chipulo ou Nhele

Tamanho natural. Escama dura e miúda; dorso cinzento avermelhado; ventre branco avermelhado; 3 barbatanas ventrais, duas sobre ventrais, e 1 lombar percorrendo todo e dorso, armada de espinhos.

 

Seis diferentes grandes Mamíferos habitam o rio Cuchibi:

1. O Hipopótamo.

2. O Quichobo ou Buzi (antílope).

3. O Nhundo (Lontra comum).

4. Libao (Grande Lontra malhada de branco).

5. Chitoto (pequena Lontra completamente preta).

6. Dima (herbívoro do tamanho de uma cabra pequena, desarmado de cornos, vivendo nas mesmas condições do Quichobo ou Buzi).

 

Ainda os reptis que habitam as águas do rio são numerosos, sendo que os crocodilos são pequenos e pouco vorazes, e as cobras umas são, outras não venenosas.

Tem uma grande variedade de batráquios, que os Ambuelas não distinguem, dando a todos indistintamente o nome de Manjunda.

Nos canais e sítios onde a água é estagnada, vivem milhares de sanguessugas, como em todos os rios desta parte de África.

Tinha feito larga provisão de milho, e para ele muitos carregadores, sob o comando das filhas do sova; decidi-me pois a partir, e depois das mais cordiais despedidas, segui, a 4 de Agosto, continuando a descer o rio na margem direita.

Duas horas depois de ter deixado Caú-eu-hue foi-me indicado pelos guias um vão onde seria possível a passagem. Passaram eles para me mostrarem o caminho, e eu vi, que a um homem de estatura regular, dava a água pelo pescoço durante uns 20 metros.

O rio tem ali de 70 a 80 metros de largo. Despi-me e fui estudar o vão. Vi que era estreito, e logo a montante e a jusante profundava de 3 a 4 metros, mas o fundo era de areia muito resistente. A corrente do rio era sobre o vão de 60 metros por minuto. Nestas condições a passagem é sempre difícil a uma comitiva carregada.

Dei ordem de começar a passagem, que levou duas horas, conservando-me eu sempre dentro de água, com o Verissimo e Augusto, os únicos que sabíamos nadar, prontos a acudir a algum que perdesse o pé. Não houve porém o menor incidente, e nem uma carga se molhou, tal cuidado tivemos todos.

Passado o rio, como estivéssemos bastante fatigados, apenas ganhámos a povoação de Lionzi, onde acampámos.

Houve grande afluência de gentio no meu campo, e choveram presentes e ofertas de venda de mantimentos. Nunca vi em África tantas galinhas como nesse dia trouxeram os Ambuelas ao meu campo. Não houve carregador ou moleque que não comesse galinha assada.

Notei entre aquele gentio uma moderação e brandura verdadeiramente admiráveis em povo Africano.

Todos os homens vinham armados de arco e frechas; alguns traziam azagaias, e muitos, além das armas gentílicas, compridas carabinas de sílex, de fábrica Belga.

 

O vão do cuchibi

 

Entre os Ambuelas, homens e mulheres cortam um triângulo nos dois dentes incisivos da frente, mas em angulo muito mais aberto do que entre os Quimbandes.

As suas armas são fabricadas por eles, sendo muito imperfeito o trabalho do ferro, que extraem em minas a jusante da confluência do Cuchibi e Cuando.

Os Ambuelas que usam espingardas só querem, como eu já disse, as armas lazarinas hoje fabricadas na Bélgica, e a cada peça de caça que matam, enrolam em torno do cano um bocado de pele do animal, o que dá lugar, pela simples inspeção da arma, a saber quantas vítimas ela tem feito.

Isto deforma a arma, e impede de apontar; mas, como eles só arriscam um tiro a dez passos, acontece matarem.

O caçador que vi ali tendo morto mais caça tinha dez bocados de pele em torno do cano da espingarda.

Aquela pobre gente, sem as armadilhas do mato, não teria peles para cobrir a sua nudez.

Pólvora é rara ali, onde apenas de anos a anos aparece um sertanejo Biheno, que lhe vende pouca, e por isso tem subido valor.