Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 70 de 80

Páginas do PDF

Diário de África

Capítulo 3 · Trinta Dias no Deserto

 

A 2 de Dezembro, começaram logo de manhã os preparativos de partida.

Um vagão de viagem em África do Sul é uma pesada construção de madeira e ferro, de 6 a 7 metros de comprido por 1,8 a 2 de largo, assente sobre 4 fortes rodas de madeira, e tirado por 24 a 30 bois, jungidos a fortes cangas, presas a uma corrente longa e grossa, fixa à ponta do cabeçalho no carro.

Esta espécie de casa ambulante, é carregada com as bagagens e fazendas do viajante, e disposta de modo a oferecer-lhe todas as comodidades caseiras.

O vagão de Mr. Coilard era uma verdadeira maravilha.

Construído expressamente para aquela viagem sob as suas vistas e com a sua experiencia de viageiro, tinha comodidades que nunca vi em outro.

A minha bagagem foi arrumada com a da família Coilard no fundo do vagão, ficando apenas à mão aquilo de que eu poderia precisar a miúdo.

Eles faziam prodígios para darem lugar a todos os meus volumes de carga, como, durante a viagem, se encolhiam para me dar lugar a mim mesmo.

Uma partida depois de 15 dias de descanso é sempre muito demorada.

Há muita coisa que arrumar, e no momento de partir descobre-se sempre, que há uma canga quebrada, que faltam as pitas aos chicotes, que os cubos das rodas precisam ser untados, mil coisas enfim que fazem retardar de algumas horas o momento prefixo.

Depois de essas precauções tomadas por Mr. Coilard, e ditadas por uma longa experiencia de tal modo de viajar, conseguimos deixar Deica pelas 2 horas da tarde, e endireitámos ao sul.

O nosso comboio compunha-se de quatro vagões, dois pertencentes a Mr. Coilard, e dois outros de Mr. Frederick Filips, de quem falarei mais tarde.

Depois de uma jornada de três horas e meia, encontrámos água numa pequena lagoa, recentemente cheia pela chuva dos dias anteriores, e pernoitámos junto dela.

No dia imediato seguimos a S.S.E., e depois de duas horas de viagem parámos hora e meia, para dar descanso aos bois.

Foi de três horas a segunda parte da jornada, e ainda fizemos uma terceira tirada das 7 ás 9 da noite.

Sendo explorados os arredores do sítio em que acampámos, encontrou-se água um quilómetro a E.N.E.

No dia 4 só podemos partir ás 4 e meia horas da tarde, para darmos tempo aos bois de beberem durante toda a manhã: e nesse dia a nossa jornada foi apenas de duas horas e meia, porque, encontrando uma lagoa de ótima água, acampámos junto dela, ainda que os pretos de Mr. Filips diziam haver ali a terrível mosca ze-ze, o que me parece precisa confirmação.

Contudo, por prudência, no seguinte dia partimos logo de madrugada, e viajámos por sete horas e meia, em três andadas, a última das quais findou ás 9 da noite. Junto do ponto onde pernoitámos não apareceu água. A viagem desse dia foi difícil, por entre emaranhada floresta, onde os vagões correram grande perigo de partir as rodas de encontro aos troncos de árvores colossais.

A 6, de manhã, jornadeámos por duas horas a S.E., encontrando no fim delas uma lagoa de água permanente, a única água que no tempo seco se encontra de Deica até ali. Chama-se Tamazeze.

Descansámos por sete horas, e seguimos ás 3 da tarde; indo acampar, ás 6, junto de outra bela lagoa também permanente, a que os Massaruas chamam Tamafupa.

A jornada daquele dia foi por entre florestas lindíssimas, onde abundam espinheiros brancos. O solo é coberto por uma espessa camada de área. Junto à lagoa um formoso tapete de relva cobre o terreno, levemente acidentado.

Mas no meio daquela relva viçosa cresce uma planta herbácea de que os bois são ávidos, e da qual é preciso desvia-los com cuidado, porque é mortal peçonha para eles.

Estive nessa noite até tarde levantado, para fazer observações astronómicas, e talvez aí tivesse origem o violento acesso de febre que me atacou no dia imediato.

Por algumas horas o delírio tirou-me a consciência, e só ao recuperar a razão pude dar tino dos cuidadosos desvelos que me eram dispensados pela família Coilard.

O dia seguinte foi ainda passado no mais angustioso sofrimento, e só ao terceiro dia nos posemos em viagem, indo eu em deplorável estado. Foi-me arranjada uma cama no vagão de Mr. Coilard, e rodeado da família, que redobrava em afetuosos cuidados, cercando-me de todas as comodidades que a si tiravam, fiz uma jornada que pouca consciência tenho de ter feito. Sei que a 10 de Dezembro estávamos acampados num lugar que uns chamam Muacha e outros Nguja.

Ali, com o caminho seguido pelos negociantes Ingleses, devíamos deixar um deles, que, como já disse, era nosso companheiro de viagem desde Deica.

Mr. Frederick Filips, o companheiro de viagem que íamos deixar, é um Inglês de Inglaterra. Homem de fina educação, afeta uns modos grosseiros e semi-selvagens, que não podem encobrir as suas boas maneiras originais.

É este um dos seus fracos.

O outro ele mesmo o define em algumas palavras que lhe ouvi. "Quisera, me disse ele, que tudo o que existe no mundo, que tudo o que cobre a terra, fosse marfim, e eu só senhor dele."

Se eu não tivesse a certeza de que Mr. Filips era Inglês, pela fórmula do desejo julgara-o nascido em Tarbes.

Mr. Filips, de elevada estatura e robusto em proporção, tem um rosto enérgico e simpático, que dizem ter feito uma profunda impressão na irmã do terrível Lo-Bengula, o rei do Matabele, que tem feito as mais altas diligencias para o desposar. É no Matabele que ele tem a sua principal residência Africana, e se eu o encontrei no Zambeze, foi porque a ausência ali de Mr. Westbeech seu socio, o obrigou aquela viagem por interesses comerciais.

Mr. Filips, que encontrei em Lexuma, fez-me oferecimentos, pondo à minha disposição um dos seus vagões, para eu continuar a minha viagem para o sul, e se os não devi aceitar, não deixo por isso de lhe tributar muita gratidão.

Depois de nos despedirmos de Mr. Filips em Nguja, partimos ao Sul, e jornadeámos por três horas e meia, indo acampar, ás 7 e meia, em sítio onde não havia água.

No dia seguinte, depois de duas horas e meia de caminho, parámos num lugar chamado em língua Massarua Motlamagjanane, palavra que quer dizer, muitas coisas que se sucedem umas ás outras, e isto por se dar esse caso com uma série de pequenas lagoas que encontrámos estanques.

A floresta toma ali um novo aspeto, e ás árvores meãs sucedem já verdadeiros colossos vegetais, assombrando com as elevadas copas um mato denso de emaranhados arbustos, dificílimo de transpor.

Seguimos ás 4 horas, e duas horas depois, atravessávamos a mais soberba e bela floresta virgem que encontrei em África.

Logo ao anoutecer, tivemos de parar, porque era impossível prosseguir em tão densa floresta sem arriscar os vagões a um acidente sério.

Nessa noite eu começava a achar-me completamente restabelecido, e a febre tinha cedido a doses diárias de quatro gramas de quinino.

Meia hora depois de partir, no dia imediato, atingíamos a orla da floresta, e encontrávamos água num pequeno charco lodoso. Diante de nós estava a planície descoberta, árida e seca; essa planície, que foi pela primeira vez atravessada dois grãos a Oeste por Livingstone, ainda um a oeste do meu ponto por Baines, e um grau e mais leste por Baldwin, Chapman, Ed. Mohr e outros; essa planície arenosa e inóspita, o Saara do sul, o Calaari enfim.

Ainda jornadeámos por espaço de duas horas, indo dar descanso aos bois ás 11 e meia, junto a uns raquíticos e pequenos espinheiros, que com a sua vegetação mesquinha faziam sentir mais a nudez do deserto.

Algumas trovoadas formavam-se pelo Norte, e ás duas horas aproximavam-se de nós, deixando cair de negros nimbos grossas gotas de chuva tépida.

Desde o Zambeze até ali o terreno é arenoso, sendo o subsolo formado por uma camada argilosa muito plástica de cor castanho-escura. A espessura da camada de área branca e fina que forma o solo varia entre 10 e 50 centímetros.

Água apenas aparece aqui e além na estação das chuvas, nas depressões de terreno. Algumas vezes, como naquele dia ao sair da floresta, era ela uma lama espessa e fétida. Todo o país até ao ponto em que o deixámos naquela manhã, é coberto por uma floresta, que vai progressivamente aumentando em espessura e no pomposo da vegetação, ao passo que se afasta do Norte.

O que mais se vê são ainda leguminosas, e uma imensa variedade de acácia cobre o solo. Flores do mais variado e brilhante colorido, das formas mais mimosas e delicadas, ao passo que encantam a vista, embalsamam o ar com os seus suaves perfumes. Viajar ali é dificílimo.

Abrir caminho para o carro, de machado em punho; ás vezes, durante 10 e mais quilómetros, haver um solo de cinquenta centímetros de área, onde as rodas dos vagões se enterram profundamente; fazer uma milha em quarenta minutos, tal é o viajar naquelas brenhas, quando se viaja bem.

A esse enorme terreno, compreendido entre o Zambeze e o Calaari, chamei eu nas minhas cartas o Deserto de Baines.

Foi uma homenagem ao trabalhador infatigável, o primeiro que devassou aquelas paragens inóspitas, e cuja vida foi tão deserta de gozos e de glórias, como aquele país é deserto de gentes.

Do ponto em que parámos de manhã, seguimos ás 4 horas da tarde, logo que a tormenta passou, e jornadeámos até ás 8 da noite, parando num matagal de espinheiros baixos, onde foi difícil acampar no meio das ervas e entre os abrolhos.

Durante a noite, chacais e hienas deram-nos um concerto infernal, vindo vocalizar um coro orfeónico, em torno do sítio onde chegava a claridade dos fogos do campo.

De manhã choveu, e nós seguimos ás 5 horas e meia, saindo logo dos espinheiros, que poderíamos ter evitado sem umas trevas profundas que na véspera nos tinham impossibilitado de escolher outro caminho.

Sustentámos uma caminhada de cinco horas, apenas com um pequeno descanso, encontrando uns charcos produzidos pela chuva da manhã, que de nenhum proveito nos foram a nós, por serem de água salgada, mas que, ainda assim, serviram aos bois sedentos, que os esgotaram em pouco tempo.

Era preciso encontrar água, e seguimos ainda por quatro horas, parando no fim delas sem termos logrado o nosso intento. Pude fazer nessa noite uma boa observação do reaparecimento do primeiro satélite de Júpiter.

Logo ao alvorecer, caminhámos por hora e meia no deserto arenoso e árido, onde as rodas dos vagões se enterravam profundamente.

No fim deste tempo de jornada, encontrámos o leito seco de um rio cuja margem direita seguimos por uma hora, passando-o no momento em que ele encurvava a S.O., e por isso nos desviava do rumo a seguir. As escarpas do sulco arenoso eram de três metros e muito inclinadas. Foi medonho o precipitar dos vagões naquele fosso, e compungente o trabalho dos bois para desenterrarem aquelas enormes máquinas de transporte, e fazerem-nas subir nas contra-escarpas.

Acampámos logo.

No leito arenoso do rio algumas lagoas deixavam ver pequenas massas de água límpida e cristalina, que alegrava os olhos cansados da aridez e secura do deserto. Corremos pressurosos a elas, mas aos primeiros tragos bebidos a alegria converteu-se em angústia cruciante. Aquela água era tão salgada como a do mar.

Contudo, alguns poços cavados muito fundo, longe das lagoas, deram uma água quase potável. Era preciso tira-la a baldes para a dar aos pobres bois já sedentos e cansados. Aquele rio, ou antes aquele leito seco, era o do Nata, que no seu curso inferior, quando corre, toma o nome de Xua (Shua).

Foi decidido que ficássemos ali dois dias, por ser o imediato ao da nossa chegada um domingo, e a família Coilard não gostar de fazer viagem em tal dia. Preparou-se para isso um melhor acampamento, podendo obter-se ramos de árvores nas margens do rio, já povoadas da vegetação que o país carece ao Norte.

Pelo meio-dia estava pronto um quiosque, e estabelecido o campo.

As damas Coilard andavam numa labutação ativa. Faziam o pão e preparavam tudo o que os poucos elementos de que dispunham lhes permitiam, para a festa do Domingo.

Depois da minha última febre, e dos mil cuidados e carinhos de que eu tinha sido alvo, o contato íntimo com aquelas damas a que a doença me tinha obrigado, modificou profundamente o meu espírito, e senti em mim uma alteração profunda.

Até ao momento de as encontrar, eu havia esquecido, no meio dos selvagens com quem só vivia, o que fossem carinhos e afagos.

O viver entre aquelas damas veio trazer-me à memória que no mundo há anjos, rosas perfumadas que embalsamam o caminho espinhoso da vida, frescos oásis em que o caminheiro repousa das fadigas do deserto árido.

A lembrança de uma esposa estremecida, e de uma filha adorada, veio estar sempre presente ao meu pensamento, avivada pela vista constante daquelas duas senhoras, instrumentos inocentes e inconscientes de um sofrimento atroz que me causavam.

Quantas vezes, fatigado e doente, eu me sentava ao pé delas, e por um momento era feliz, não pensando que eram para mim dois entes estranhos, lançados no meu caminho por o mais extraordinário dos acasos!

Quantas vezes inconsciente não ia curvando a cabeça aturdida, em busca de um regaço de mulher adorada, e caía em mim, e levantava-me e fugia!

Ah! Como eu as odiava então!

Este sofrimento constante, sempre alimentado pela vista delas, e exacerbado pelos seus carinhos, traduziu-se num mau humor que me não deixava um momento.

Perdi todas as formas sociais de delicadeza, e transformei-me na imagem da mais brutal grosseria.

Bastava Madame Coilard dizer uma palavra, para ser logo grosseiramente contrariada. Um dia em que eu tinha subido para o vagão bastante fatigado, elas privaram-se de quantas almofadas tinham para se encostarem e amortecer os choques violentos de um carro sem molas, para me fazerem um leito comadíssimo.

Achei-me tão bem que adormeci em caminho, velando elas pelo meu sono, e não cessando de arranjarem uma ou outra almofada desaconchegada pelos solavancos do carro.

Madame Coilard estava contente com a sua obra. Tinha decerto tido uma viagem tormentosa, mas eu tinha estado bem, tinha dormido.

Era tal a sua satisfação que não pode deixar de me perguntar se eu havia estado comodamente, certa de que eu só lhe poderia responder com um agradecimento expressivo. Pois não foi assim. Disse-lhe, que o seu vagão era um vagão infernal, que eu nem mesmo havia podido dormir um momento, e que tinha passado o dia incomodadíssimo.

Depois desta brutalidade insólita, encarei com ela, e vi lágrimas a querer marejar-lhe nos olhos. Fiquei tão furioso que fugi para longe. Casos idênticos repetiam-se a miúdo, e no correr da narrativa apareceram ainda.

Hoje custa-me a compreender como no meu espírito se pode fazer uma tal alteração, e como eu cheguei a cometer tais barbaridades.

Os dois dias passados na margem do Nata não foram dos piores para mim.

Tinha observações a fazer, trabalhos atrasados a completar, e um país curioso a estudar; e isso era agradável diversão ao meu viver monótono do deserto.

Creio que nesses dois dias não fui tão grosseiro como de costume.

O Deserto do Calaari, nas partes em que tem água, é frequentado por uma população nómada. Sam os Massaruas, a que os Ingleses dão o nome genérico de Bushmen. Os Massaruas são selvagens, mas muito menos do que os Mucassequeres, que encontrei junto aos confluentes do Cuando, por 15 de latitude Sul e 19 de longitude E. Greenw. Os Massaruas são muito pretos, tem os ossos molares muito salientes, olhos pequenos e vivos, e cabelo pouco.

Vieram alguns ver-nos, e eu dei-lhes tabaco e pólvora. O seu contentamento foi grande. Voltaram de tarde, a oferecer-me um cabaz de peixe fresco, que tinham ido pescar nas lagoas para mim.

No dia seguinte, numa excursão que fiz, visitei o seu acampamento.

Vi que tinham panelas em que cozinhavam, e outros, ainda que poucos, indícios de uma civilização rudimentar.

Vi uma vasta provisão de tartarugas terrestres, que eles muito apreciam como manjar. As mulheres cobriam a sua nudez com algumas peles, e enfeitavam-se de missangas, bem como os pequenos.

Tem por armas azagaias e pequenos escudos ogivais. Usam ao pescoço um sem-número de amuletos, e trazem nos braços e pernas manilhas de couro.

Rapam o cabelo junto das orelhas, deixando no alto um círculo que vem tangente à testa. Falam uma língua bárbara muito notável pelo modo porque nos fere o ouvido, dividindo as palavras com um estalo dado com a língua, a que chamam cliques.

A 16 de Dezembro partimos, seguindo a margem esquerda do rio, e parámos junto dela, depois de cinco horas de jornada.

Os Massaruas, que chamavam Nata ao rio no ponto em que passámos o Domingo, já lhe chamam Xua (Shua) ali onde acampámos, a cinco horas de caminho.

Andámos sempre na margem dele com os rumos de S.O., S.E., S.S.E., S.S.O. e S., o que deu um rumo medio de sul, e não resta a menor dúvida, que o Nata e o Xua são um e o mesmo rio, que, como quase todos os rios de África, tem diversos nomes em diversos troços do seu curso.

Esta parte do deserto é coberta de uma erva curta e raquítica, e só aqui e além se vê uma ou outra árvore solitária.

Com tudo, nas bordas do rio há alguma vegetação, e de espaço a espaço não deixa de ser amena esta ou aquela paisagem que se nos apresenta à vista.

A água dos poços cavados no leito do rio nem sempre é potável, e a das lagoas é completamente saturada de sais.

O terreno do deserto apresenta pequenas clareiras onde nada vegeta, e onde o solo é coberto por uma espessa camada de sais, depósitos de águas evaporadas.

As informações dos Massaruas a respeito de falta de água eram assustadoras, e nós resolvemos não avançar mais naquele dia, para aproveitarmos o mais tempo possível alguma boa que ali se encontrou em poços cavados profundamente.

Desde que percorríamos aquele bordo do Calaari, notava eu que um fortíssimo vento de leste soprava rijo nas primeiras horas da manhã; sendo que do meio-dia para a tarde uma brisa suave de oeste durava algumas horas.

Eu atribuo aquele fenómeno constante, à influência na atmosfera do enorme deserto arenoso que nos ficava a oeste.

A área refletindo o calor solar, deveria produzir uma dilatação atmosférica, que determinaria durante o calor a corrente branda para leste; ao passo que esse ar lentamente dilatado de dia, seria rapidamente retraído pelo frio intenso da noite, e produziria um desequilíbrio, que originara a fortíssima corrente nas primeiras horas do dia.

Mr. Coilard achou prudente partir só na tarde do dia imediato, para saciar bem os bois, antes de ir procurar águas muito problemáticas; mas eu decidi seguir só com o meu Pépéca, e combinámos encontrar-nos nas margens do Simoane.

O meu fim era sobre tudo visitar os lagos a que os Massaruas chamam os Macaricáris.

Depois de atravessar sete milhas de Macaricáris, entrei numa floresta, que percorri numa extensão de três milhas até encontrar um leito de rio, com alguma água encharcada, que eu supus devia ser o Simoane.

Desci por ele até ao Grande Macaricari. Depois de um longo passeio nas cercanias, fui procurar um sítio onde calculei que os vagões deveriam passar e esperei.

Só ás nove da noite, e noite de trevas profundas, o meu ouvido exercitado pode perceber ao longe a bulha dos vagões, e caminhando para ali fui sair-lhes ao encontro. Madame Coilard estava em cuidados, por me ver ausente todo o dia só com uma criança, e a primeira coisa que fez, ao parar dos vagões, foi preparar-me chá, bebida de que ela sabia eu ser ávido, e nessa noite diz o meu diário que tomei a seguir seis grandes chávenas dele.

Efetivamente, o gasto que eu fazia na provisão de chá de Madame Coilard era enorme.

O ribeiro Simoane, que então era apenas uma serie de pequenas lagoas de três metros de largo, corre a Oeste no tempo das grandes chuvas, e vai entrar diretamente no Grande Macaricari.

Todo aquele país, e sobre tudo a floresta entre a qual corre o Simoane, apresentava indícios de ter chovido muito ali, e por isso as lagoas do Simoane tinham água, e esta era quase boa.

No tempo seco elas secam, e em alguma que conserva pouca água, é esta tão saturada de sais que não se pode aproveitar.

Desde que chegámos ás margens do Nata, em todos os pontos onde parávamos, apareciam os Massaruas sempre a pedir alguma coisa.

O que valia era fugirem se nos zangávamos com eles.

Aqueles Massaruas que são valorosos e combatem o elefante e o leão, são cobardes diante do homem, e sobre tudo do branco.

Só ás 4 horas da tarde deixámos aquele ponto, onde os bois encontravam um viçoso pasto e abundante água; e caminhando a S.O. fomos acampar, ás 8 horas e meia, em sítio seco.

No dia 19, depois de quatro horas de jornada a S.S.E., costeando sempre o terreno que se eleva para o Este, deparámos com o leito seco de um rio cujas margens alimentam uma vegetação luxuriante. Os Massaruas que apareceram logo, disseram chamarem-lhe Lilutela, e ser o mesmo que outros chamam Xuani (Shuani) ou pequeno Xua. Este nome de Xuani deve ter sido dado aquele rio por gentes do sul, que falassem a língua Sesuto ou algum dos seus dialetos, porque naquela língua os substantivos formam o diminuitivo com a terminação ani.

O Lilutela, nome que eu lhe conservo, por ser o empregado pelos povos nómadas do deserto, tem o seu leito cavado entre uma floresta formada de árvores gigantes, mas limpa de arbustos. Esta floresta, que começou umas nove milhas ao N. do Simoane, parece ser a orla de uma densa mata que em terreno mais elevado corre Norte-Sul poucas milhas a leste do nosso caminho.

O terreno desde a margem esquerda do rio Nata é consistente, e não arenoso como até ali. O solo é formado por uma funda camada de argila muito plástica, e no tempo das grandes chuvas deve ser um atoleiro enorme.

Um dos Massaruas que apareceu ali foi mostrar uma lagoa um quilómetro a oeste, onde os bois ponderam matar a sede e nós fazer provisão de água.

As margens do Lilutela são cobertas por uma espessa camada de guano, e na estação em que o rio leva água devem ser habitadas por milhões de aves.

Seguimos no mesmo dia ás 5 da tarde, debaixo da má impressão de que não encontraríamos água no dia imediato, facto que nos foi afirmado pelos Massaruas. Jornadeámos até ás 11 e meia da noite, sempre por entre a floresta pomposa.

Partimos no dia 20 ás 8 da manhã, e meia hora depois, passávamos o leito seco do rio Cualiba, que vai ao Grande Macaricari, correndo a Oeste.

A floresta ali é cheia de calhaus roliços trabalhados pela água, e povoada de caracóis enormes, e búzios de grandes dimensões.

Fomos acampar além do leito do Cualiba, para procurarmos água.

Apareceram alguns Massaruas, mas não nos quiseram indicar onde faziam provisão dela, coisa que eles usam com os forasteiros. Depois de várias tentativas feitas no leito do rio, pudemos obter água num poço que cavámos um quilómetro a jusante do nosso campo.

Partimos ás 4.25 minutos, parando logo ás 5. e 10, para dar de beber aos bois num charco que encontrámos, formado pela chuva, que caía torrencial desde as duas horas.

Ainda nesse dia jornadeámos por duas horas, indo acampar ás 8, depois de termos atravessado uma parte do grande Macaricari.

 

O Grande Macaricari.

 

Naquele deserto do Calaari, país tão notável, onde a natureza se comprazeu a juntar os mais disparatados elementos, onde a floresta pomposa toca a planície árida e seca, onde a área solta é continuação do terreno argiloso ao mesmo nível, onde a secura está, muitas vezes, perto da água; naquele deserto, que por vezes quer imitar o Saara, outras a Pampa da América, outras os Stepes da Rússia; naquele deserto elevado três mil pês ao mar, uma das coisas mais notáveis é o Grande Macaricari.

O Grande Macaricari é uma bacia enorme, bacia onde o terreno se deprime de 3 a 5 metros, e que deve ter no seu maior eixo de 120 a 150 milhas, e no menor de 80 a 100.

Como todos os Macaricaris, afeta a forma proximamente elítica, e tem como todos o seu maior eixo no sentido leste-oeste.

Macaricaris são, em língua Massarua, bacias cobertas de sais, onde a água das chuvas se conserva por algum tempo; desaparecendo na estação estiva, por a evaporação, e deixando ali outra vez depositados os sais que dissolvera. Sam abundantíssimos os Macaricaris naquela parte do deserto, e eu visitei muitos, cujos eixos maiores, sempre no sentido leste-oeste, tinham três milhas, e mais.

As bacias são de areia grossa, coberta por uma camada cristalina de sais, que atinge a espessura de um a dois centímetros.

Creio que não é só clorureto de sódio o sal que forma aquela camada, ainda que é aquele que predomina.

Os depósitos calcários que aquelas águas deixam pela ebulição, evidenciam que os sais de cal também se contem na camada cristalina dissolvida nelas, em proporção notável.

Fiz coleção de muitos pedaços daquela camada que reveste o interior das bacias dos Macaricaris, mas, infelizmente, numa caixa que caiu ao mar ao embarcar no vapor Danúbio, em Durban, se perderam eles, com outros exemplares preciosos que trazia para a Europa.

O grande lago recebe na estação chuvosa um volume enorme de águas pelos rios Nata, Simoane, Cualiba e outros; sendo que todas as águas que naquelas latitudes caem desde a fronteira do país dos Matebeles, vem a ele, porque o terreno eleva-se progressivamente a leste até ao meridiano 28° ou 28° e 30 de Greenwich.

Estas águas, que formam torrentes enormes, devem encher o Grande Macaricari em pouco tempo.

Este enorme charco comunica com o Lago Ngami pela Botletle, e o seu nível é o mesmo daquele Lago; dando esta circunstancia lugar a um fenómeno muito notável. Estando os dois lagos distanciados de alguns grãos, muitas vezes as grandes chuvas caem a leste, e o Macaricari transborda, sem que as fontes que alimentam o Ngami tenham aumentado de volume. Então a Botletle corre a oeste do Macaricari para o Ngami. Outras vezes dá-se o caso inverso, e o Ngami envia as suas águas ao Macaricari. Este é o seu curso natural, sendo o Ngami alimentado por um rio permanente e volumoso.

Mas o que sucede a toda essa água que de todos os lados corre ao grande charco? Desaparecerá só pela evaporação?

Não haverá também ali uma grande infiltração que por condutos misteriosos e subterrâneos vá dar nascença a esses inúmeros riachos, que em plano inferior correm ao mar de uma e outra costa?

O que é feito das águas do Cubango, rio volumoso e permanente, que desaparece nesse deserto insondável?

As águas do Cubango, na minha opinião, chegam ao Grande Macaricari e desaparecem ali.

A Botletle não é mais do que o Cubango, que tem um alargamento a que chamaram o Ngami.

Sem o Grande Macaricari, a parte da África Austral compreendida entre o paralelo 18 e o rio Orange, seria um país fertilíssimo, e nas condições climatológicas e meteorológicas que a protegem, seria um país de grande futuro.

Bastava o Cubango para a fertilizar. Mas o Cubango, bem como todos os rios que quiseram entrar no Calaari, encontrou no seu caminho um país arenoso e perfeitamente horizontal, que lhe dispersou as águas, como que dizendo: "Não passareis daqui;" e a pouca que encontrou um esgoto, e pensou salvar-se, foi cair no Grande Macaricari, que a bebeu ávido, sem que ainda assim pudesse matar a sua sede insaciável.

Os rios que tem as suas nascentes ao sul do paralelo 18, e a oeste do meridiano 27, ao norte do Orange, e a oeste do Limpopo, não são permanentes; e, caudalosas torrentes na estação das chuvas, não são mais do que sulcos arenosos na estação estiva.

As águas de quase todos vão a essa linha que une o Ngami ao Grande Macaricari onde se perdem, talvez para volverem de novo numa nova estação das chuvas.

Algumas vezes, como naquele ano, até a Botletle mostrou aos habitantes dos juncais das suas margens o seu fundo arenoso e branco.

É bem digna de estudo esta parte de África, ainda hoje envolvida em misterioso véu, mas tão inóspita é ela, que por muito tempo saberá ocultar os seus segredos aos olhos dos investigadores científicos.

No dia 21 seguimos ao Sul, deixando o Macaricari ás 5 horas da manhã, e fomos parar, quatro horas depois, junto de uma pequena lagoa de boa água, produzida pela chuva que caiu copiosa na véspera.

O país que atravessámos era coberto de vegetação arborescente, sendo o mato formado de espinheiros que dificultavam o viajar.

Partimos ao meio-dia, alcançando pelas duas horas o ribeiro Tlapam, que, ao contrário do que esperávamos, não nos ofereceu uma gota de água potável; e por isso continuámos jornada até ás 9 horas da noite, hora em que encontrámos uma pequena lagoa permanente, a que os Massaruas chamam Linocanim (o pequeno ribeiro), porque esta lagoa dá nascença a um pequeno ribeiro que corre a leste, provavelmente ao rio Tati.

Das 6 ás 8 horas caiu sobre nós uma horrorosa tempestade, com copiosa chuva, que encharcou o terreno, tornando dificílimo o rodar dos carros.

Algumas cabras de Mr. Coilard e a minha Córa, querendo refugiar-se da tormenta, procuraram abrigar-se debaixo dos vagões, que rodavam, e uma foi logo esmagada pelas rodas.

A minha Córa foi a segunda vítima. A roda passou-lhe sobre os ilíacos, e eu, ainda que ela chegou viva a Lino Canin, supus logo que não podia viver muitas horas.

Naquela noite foi morta no nosso campo uma cobra venenosíssima.

Desde o rio Nata até ali, vi mais cobras venenosas do que em todo o resto da viagem. Na véspera um asqueroso e enorme sapo veio meter-se nas peles da minha cama, e ao acordar achei-me cara a cara com tão amável companheiro. Escorpiões, centopeias e os mais repugnantes insetos, eram meus sócios de cama, vindo procurar junto ao meu corpo o calor que tão apreciado é pelos animais de sangue frio.

É preciso um hábito constante do deserto para se poder dormir sobre umas peles na terra dura em companhia de tais animalejos.

Deve compreender-se, que estas insignificantes bagatelas, reunidas a todas as outras causas, mantivessem o meu mau humor a uma altura constante. O tempo chuvoso continuava persistente, e o céu sempre encoberto não me permitia fazer observações astronómicas, o que contribuía para acirrar o meu espírito já muito iracundo.

Naquele dia todos os meus cuidados, todos os meus momentos, foram dedicados a tratar da minha pobre Córa, que morreu pela tarde.

Pobre animal! Perdi em ti a única grande afeição que encontrei nas terras Africanas, antes de conhecer a família Europeia que me recebeu no seu seio. Perdi em ti a companheira constante dos meus dias de tristeza, a amiga dileta dos meus poucos momentos de alegria!

Pobre Córa! A sepultura que te cavei junto a Linocanim será sempre um pensamento triste na minha lembrança, e as poucas linhas que aqui te consagro, ditadas por a saudade que me deixaste, são a expressão sincera do muito que eu te queria, pelo muito que me eras dedicada.

Agora, leitor endurecido e crítico severo, trata-me de frívolo pelo pouco que acabo de escrever de assunto que taxarás de fútil, trata-me como quiseres de mal, que só me darás o direito a lastimar-te. Há bagatelas na vida que são verdadeiros acontecimentos para o homem que sente, meras puerilidades para aquele a quem as paixões já mirraram o coração.

Se és dos últimos, ri-te de mim e deixa-me que te lastime.

Não contesto que me leves grande superioridade, mas eu sou de outro feitio, e estou bem assim.

Córa morrendo deixou-me uma recordação viva num filho que tinha, a que os Basutos de Mr. Coilard deram o nome Coranhana.

A tarde do dia 22 foi tormentosa, e das 3 horas ás 6 e meia a chuva caía torrencial.

No dia imediato partimos ás 6 horas, indo parar ás 9 num lugar onde os Massaruas cavaram um grande poço, lugar a que eles chamam Tlala Mabeli (fome de mabeli). No fundo do poço apenas encontrámos uma lama fétida inaproveitável.

Ainda nesse dia fizemos uma jornada de cinco horas e meia, sempre debaixo de chuva copiosa.

A 24 seguimos viagem, e depois de quatro horas e meia de caminho, encontrámos um posto de Massaruas, sujeitos ao rei Cama do Manguato. Chamam aquele posto a Morralana, do nome de uma árvore que abunda ali.

Disseram-nos os Massaruas que podíamos seguir em linha reta, porque a muita chuva caída nos dias anteriores nos faria encontrar água no caminho, sem o que teríamos de fazer um grande desvio por leste para não morrermos à sede.

Ás 11 horas começou uma chuva forte que só moderou ás 2; seguimos então, mas logo ás 4 parámos, por termos encontrado uma lagoa cheia de água magnífica, e sabermos pelos Massaruas, que só três dias depois poderíamos encontrar de novo água aproveitável.

Triste véspera de Natal! Eu estava nesse dia de um mau humor atroz. Sentado dentro do vagão para me abrigar da chuva, estavam junto a mim Mr. Coilard e as damas.

Eles conversavam, eu estava calado; furioso. Não sei a que propósito Madame Coilard falou de George Eliot.

Foi como o fogo chegado à pólvora aquele nome que ouvi.

Voltando-me para Madame Coilard, disse-lhe, que George Eliot não escrevia senão disparates, porque era uma mulher o seu George Eliot, e que uma mulher só podia escrever disparates.

Madame Coilard, ferida por esta minha brutal agressão, quis discutir, mas eu só lhe respondia, que as mulheres não nasceram para escritoras, que logo que se metiam a isso não podiam deixar de escrever tolices; que o seu dever era governar casas, e não fazer livros.

Chegou a discussão ao ponto de eu ver a boa dama comovida, e de fugir dali.

Momentos depois caía em mim, e avaliava toda a extensão do meu arrebatamento, sem poder explicar como se produziam no meu espírito tais alterações, logo que eu me dirigia a ela.

Eu, o maior admirador de George Eliot; eu, que reli Romola e Adam Bede, ficando ainda com desejo de ler aquelas obras-primas da célebre romancista Inglesa; eu que presto um verdadeiro tributo ao mérito de Staël e Sand; eu que me ufano de ter entre os primeiros literatos do meu país Maria Amália Vaz de Carvalho, a mulher que escreveu um dos melhores livros que modernamente se tem escrito ali; eu fazendo violência ao que pensava e ao que sentia, sustentava, contra a minha convicção, uma ideia estúpida, só e só para contrariar aquela boa dama, que me pagava as agressões insólitas com mais cuidados e com mais desvelos!

Amanheceu 25 de Dezembro, dia de Natal, que, sendo dia festivo e de descanso em todo o mundo cristão, para nós foi dia de trabalho rude, porque jornadeámos por treze horas, em três caminhadas, e só à uma hora da noite acampámos.

Era a secura do país que nos forçava a alargar as jornadas, e mesmo assim, só contávamos ter água três dias depois. Nesse dia encontrámos um bando de Bamanguatos, que o rei Cama mandava a Mr. Coilard com bois frescos para os vagões. Por eles soubemos a nova das mortes do Capitão Paterson, Mr. Sergeant e Mr. Thomas, e alguns serviçais, que tinham ido ao Matebeli em serviço do governo Inglês, e que se dizia terem sido assassinados por Lo Bengula.

A chuva tinha cessado, mas o céu continuava sempre completamente coberto. Eu fui nesse dia atacado de um ligeiro acesso de febre, que me quebrou as forças. Havia um ano que, em Quilengues, eu lutava com a morte naquele mesmo dia. Estavam então junto a mim Capelo e Ivens.

Quanto me lembrei deles!

Onde estariam? Qual teria sido o seu destino no meio daqueles países inóspitos? Nesse triste dia de Natal, fatigado da jornada, abatido da febre, quanto me lembrei também dos meus! Da minha filha, que fazia anos, e da festa de família, que se fazia sem mim!

Quantas famílias no mundo, nesse dia, sentadas ás mesas que vergavam ao peso das iguarias, desperdiçando vinhos e desprezando a água, estavam longe de pensar, que no seco deserto quatro Europeus fatigados seriam felizes com alguma dessa água, que por toda a parte era desprezada!

A não ser alguns desses entes que de perto nos tocam e que nos não podem esquecer, quem se lembraria de nós em tal dia?

Há momentos bem tristes entre todos os momentos sempre tristes da vida do explorador!

No dia 26, logo de madrugada, fizemos uma primeira marcha de quatro horas, andando numa planície que se eleva um pouco para o sul, coberta de erva e apresentando aqui e além algumas pequenas matas. O terreno de areia amarelo-avermelhada deixava enterrar as rodas dos vagões quase até aos eixos, e tornava dificílima a tração deles.

Ainda nesse dia fizemos duas jornadas, uma de cinco outra de quatro horas, sem percebermos o menor sinal de água. Acampámos ás onze e meia da noite, à entrada de um vale, onde o terreno nos pareceu difícil e perigoso de transpor no meio das trevas.

Ao despertar, uma formosa paisagem, formosa para olhos cansados da monotonia e aridez do deserto, nos veio alegrar a vista.

O pequeno vale à entrada do qual passámos a noite era verdejante e belo. As colinas que o formavam não tinham mais elevação de 20 metros, mas eram pintorescas.

Até meia altura deixavam ver a nu um aglomerado de pedras basálticas cheias de furos, e cujas arestas puídas mostram que houve ali um persistente trabalho da água.

Apesar da viçosa erva que cobria o fundo do vale água nenhuma encontrámos, ainda que ela deve correr ali em profusão no tempo das grandes chuvas.

Disseram-nos as gentes Bamanguatas que se chamava aquele sítio Setlequane.

Os bois dos vagões fugiram durante a noite, e sequiosos foram ao longe procurar água, que não encontraram, sendo reconduzidos ao campo por gente que despachámos na sua busca, só ás 11 do dia.

Partimos a essa hora, e três horas depois encontrávamos o leito seco do rio Luale. Este rio, como quase todos os daquele país, só tem água corrente na estação das grandes chuvas, mas em todo o tempo pode encontrar-se alguma estagnada em alguns poços mais profundos. Todavia, ali há água permanente, e sendo a primeira permanente que lhe fica ao N. em Linocanim, há entre estes dois pontos uma distância de 128 quilómetros, distância impossível de transpor na estação estiva.

Homens e bois mataram ali a sede, e nós decidimos seguir logo avante.

Quando íamos a partir percebemos que faltavam cinco cabras de Mr. Coilard.

Fizemos seguir os vagões e as damas, ficando eu e Mr. Coilard com alguns pretos para procurar as cabras.

Eu pude por muito tempo seguir o rasto, mas perdi-o depois; e ás 6 e meia da tarde, já noite, decidimos ir encontrar os vagões, deixando ali alguns pretos para continuar as buscas no dia imediato. Partimos sozinhos por noite de trevas profundas. Mr. Coilard, sempre descuidoso, e crente na proteção de Deus, ia desarmado, levando na mão uma ligeira badine; eu, que creio em Deus, mas que também creio em feras no continente Africano, levava a minha melhor carabina.

Uma hora depois de deixarmos o Luale, ouvimos próximo de nós à nossa esquerda, um desagradável coro de hienas e chacais, que não podemos enxergar.

Este Mr. Coilard produzia ás vezes em mim uma impressão estranha.

Há coisas naquele homem que me não é dado compreender.

Um dia, narrando-me com todo o calor que o seu espírito de poeta lhe dava, um dos mais comoventes episódios da sua viagem, me disse ele: "Estivemos quase perdidos!" "Mas," retorqui eu, "o senhor tinha armas, tinha dez homens dedicados e armados consigo, podia, nas circunstâncias que me pinta, sair da dificuldade facilmente."

"Não podia," me disse ele; "não podia sem matar um homem; e eu não mato um homem, nem mesmo para me salvar e aos meus."

Fiquei pasmado a olhar para aquele homem, tipo novo para mim, sem poder compreender que naquela organização meridional e ardente pudesse existir uma coragem de gelo, uma coragem que não acha explicação no meu espírito.

Era a coragem filha daquelas flores de alma que um dos maiores poetas Portugueses soube definir e descrever em frase expressiva e bela. Era a coragem dos mártires, que a poucos é dado entender e sentir. Eu, por mim, declaro que a não entendo, e posso quando muito admira-la.

Por vezes, na minha viagem, me encontrei no meio da floresta desarmado, ou melhor falando, sem carabina, que alguma outra arma sempre trazia; e todas as vezes que isso aconteceu, uma inquietação vaga, uma perturbação ligeira me atribulava o espírito.

Não posso, por isso, compreender o homem que passeia nos sertões Africanos de badine na mão, vergastando as ervas do caminho. Deve ser sublime aquela coragem, e pena tenho de a não possuir.

O caminho que eu e Mr. Coilard seguíamos é povoado de feras, e o valoroso Francês dispunha-se a passa-lo sozinho e desarmado, se eu não teimasse em o acompanhar.

Madame Coilard, em cuidados por nos ter deixado atrás, fez parar os vagões e esperou por nós, que a encontrámos depois de três horas de marcha.

Seguimos logo, indo acampar, à uma hora da noite, junto do ribeiro Cane.

Logo de manhã, apareceu o meu Augusto com as cabras perdidas, que ele encontrara de noite. Seguimos ás 7 horas, através de um país montanhoso e coberto de luxuriante vegetação, oferecendo a cada passo panoramas lindos.

As montanhas correm a S.O., e todas as águas, se as tivesse, deviam correr a leste.

Depois de duas grandes jornadas, fomos acampar junto do leito seco de um ribeiro chamado Letlotze, onde podemos encontrar água num pequeno poço. Foi decidido que passaríamos ali o dia imediato, que era Domingo, dia em que a família Coilard não viajava.

Logo na madrugada seguinte, fomos sobressaltados por uma desagradável notícia.

Os bois tinham ido de noite ao charco encontrado na véspera, e tinham esgotado completamente a provisão de água com que contávamos.