Diário de África
Magalies-berg
CAPÍTULO 6
NO TRANSVAAL
Estou em Pretoria, a Capital do Transvaal, e antes de continuar a narrativa das minhas aventuras, vou dizer algumas palavras da história deste país e dos seus habitantes. Não se arreceiem os meus leitores do caso. Ainda que um moderno historiador Francês num belo livro escreveu a conceituosa frase, "L’histoire ne comence et ne finit nule part," eu prometo-lhes que o rápido golpe-de-vista que vou lançar sobre a história deste povo será tão curto, como curta é ela.
Não sei quando acabará, se é que não findou já ou está a findar, mas o começo da vida Böer, desde que essa vida tomou a forma de nacionalidade autonómica, é dos nossos tempos, é deste século.
Bartolomeu Dias primeiro, e Vasco da Gama depois, os ousados Portugueses que afrontaram antes de ninguém as tempestades do Cabo, pensando só na India, como na terra da promissão, pouco ou nenhum caso fizeram da extrema África do Sul.
Foi só em 1650 que a Holanda-não o governo Holandês, mas a companhia das Índias-ali fundou uma feitoria, para refrescar os seus galeões em viagem do mar Índico, feitoria estabelecida pelo Doutor Van Riebeck.
Esta feitoria ergueu-se onde hoje assenta a formosa cidade do Cabo.
A companhia das Índias, que pouco se importava com a África, não pensou em fundar ali uma colonia, e antes pôs todos os estorvos à iniciativa particular, que tendia a cultivar a terra e a comerciar com o indígena.
Pelejavam-se então na Europa as guerras de religião, e com a revogação do Edito de Nantes e a perseguição dos Protestantes em França, muitos emigraram, e entre eles alguns foram para a Holanda. A companhia das Índias deu-lhes transporte para a África, e eles aceitando-o pressurosos, foram deixados no Cabo. Não chegava a duzentos o seu número, e se atentarmos a que, segundo diz a história, van Riebeck não levou consigo mais de cem pessoas; e dando-se mesmo o caso de que essa população tivesse duplicado no tempo decorrido de 1650 à chegada dos emigrantes Franceses, estes equilibravam em número com a população Holandesa.
Faço notar esta circunstância, porque, sendo estes dois elementos que deram principio a essa raça hoje chamada os Böers, quero concluir, que nesse povo, a respeito do qual se tem escrito tão pouco e tão errado, o sangue Francês, se não domina, ao menos equilibra com o Holandês.
O governo Holandês, desde o estabelecimento dos emigrados Franceses no Cabo, trabalhou para lhes cortar todas as relações com a mãe pátria, e o primeiro golpe que nelas deu, foi a proibição do uso da língua natal, já na celebração do culto divino, já nas relações especiais com o governo, e nos atos oficiais.
Custa a compreender como o obteve, mas é facto que lhe quebrou aquele laço que nas futuras gerações os podia prender à França; e de tal modo, que quando o General Clarke, em 1795, chegou ao Cabo com o Almirante Elfinstone, e se apossou da colonia em nome da Inglaterra, nem um só Böer falava ou compreendia o Francês.
Muito antes da ocupação Inglesa, que se não tornou efetiva senão em 1806, época em que a Inglaterra se apossou definitivamente do Cabo pela força, desprezando as convenções da paz de Amiens, que restituía aquela colonia aos Holandeses, já muito antes os colonos fugiam aos vexames do governo da Holanda; e internando-se no continente iam longe estabelecer-se onde encontravam bons terrenos para cultura e bons pastos para os gados; preferindo brigar com o gentio e prover à sua própria defesa, a estar em relações e sob a proteção de um governo que os tornava verdadeiros escravos.
Daí data o nome e a vida errante dos Böers, nome bem pouco em harmonia com tal vida, porque Böer quer dizer fazendeiro ou lavrador, o que dá uma ideia de estabilidade, que eles não tinham nem ainda hoje tem; sendo mais pastores e nómadas do que lavradores são.
O primeiro que nos fala dos Böers na sua vida quase primitiva, reduzidos como foram a prover eles mesmos ás necessidades da vida absoluta, é Levailant, que visitou o interior da África do Sul, antes da Revolução Francesa, isto é, 14 ou 15 anos antes da primeira ocupação do Cabo por Clarke e Elfinstone. Levailant diz muito mal deles nas suas relações com as tribos indígenas.
Trata-os de déspotas e de abuso constante da força. Devemos dar crédito ao que diz Levailant, mas devemos também examinar sem paixão as circunstancias em que viviam aqueles homens, duas vezes emigrantes, e errando sem pátria num país hostil. Acusam-nos nesse tempo de abusar da força, quando a fraqueza estava do lado deles, como sempre esteve.
Tinham armas é verdade, mas os Cafres tinham o número, e eu sei o quanto vale o número sobre as armas, e sabe-o hoje a Europa, e sobre tudo a Inglaterra.
Os Zulos, os Cafres, e os Basutos tem-lho ensinado.
Não devemos lançar à conta de espírito de crueldade, represálias filhas da necessidade de impor o respeito pelo terror a tribos indomáveis e ferozes. O que lançam em rosto aos Böers de roubarem e dividirem entre si os gados e as riquezas dos povos vencidos, é hoje admitido como direito da guerra, e a nação vencedora impõe à vencida um tributo que não é mais do que o que faziam os emigrantes Franco-Holandeses, aos Cafres vencidos; que não era diferente proceder do que tiveram os Ingleses naquelas mesmas paragens no fim das guerras de 1834 e 1846.
Apesar de se terem internado no continente, os Böers só em 1825 passaram o rio Orange, inclinando-se a N.E. para fugirem da esterilidade do deserto que se estende ao Norte e N.O. da confluência do Vaal.
Foram obrigados a isso pela falta de chuvas que então houve no país que eles ocupavam.
A abolição da escravatura depois da guerra de 1834 trazia os Böers descontentes, porque perdiam com ela os braços que os ajudavam.
Sem pátria, sem história, e por isso sem amor a nenhuma terra, eles começaram uma nova emigração em massa, e o número dos fugitivos que passaram o Orange foi avaliado em oito mil.
Elegeram então um chefe, e recaiu a escolha em Pieter Retief, cujo primeiro passo foi, expedir uma nota ao governo do Cabo, na qual lhe dizia, que eram livres e livres iam escolher um país para habitar.
Nessa nota havia exarada intenção em que estavam de viver em paz com o gentio, de não admitirem a escravatura, e de estabelecerem nitidamente quais as relações que deviam existir entre amos e criados.
Receando dos Cafres, os Böers, passado o Orange caminharam ao norte, mas foram, nos Zulos que ocupavam a margem direita do Vaal, encontrar inimigos mais terríveis do que aqueles que evitavam.
O célebre Muzilicatezi, que depois se tornou conhecido como rei do Matebeli, tentou sustar a marcha dos emigrantes, e por isso eles tiveram de pelejar uma sangrenta batalha, em que levaram de vencida o valente chefe Zulo.
Então Pieter Retief dirigiu a caravana a leste, e tendo notícias de um país magnífico que se estendia para além da Cordilheira do Drakensberg até ao mar, guiou para ali a sua horda de aventureiros.
Ao chegar ao país desejado, um novo obstáculo lhe veio tolher o passo.
Uma tribo poderosa e guerreira procurou destruir aquele punhado de valentes. Foram mortíferos os combates travados entre Retief e o chefe Cafre Dingam, e num deles a vitoria dos Böers custou a vida do seu chefe Retief, e a Gert Maritz seu imediato.
Senhores das terras de Natal, os Böers escolheram uma posição magnífica para fundar uma cidade, e elegeram um novo chefe. A cidade teve o nome de Pietermaritzburg, nome que foi um monumento imorredouro levantado à memória dos dois primeiros chefes Böers.
O homem escolhido para novo chefe foi Adriano Pretorius, que tempo depois devia ser o primeiro presidente da república Transvaliana, e cujo nome devia ser perpetuado como os de Retief e Maritz na futura capital dos Böers.
De 1840 a 1842, os emigrantes viveram tranquilos, cultivando a terra e apascentando os gados na sua nova pátria.
Pensavam mesmo já em firmarem a sua autonomia, constituindo-se em república sob o protetorado de uma nação Europeia; quando Sir George Napier, por ordem do governo da Metropoli, mandou ocupar a Natalia por forças Inglesas, fazendo saber aos Böers que a Inglaterra não consentia que os seus súbditos formassem estados independentes sobre as costas marítimas.
Pretorius recebeu muito mal o enviado de Sir George Napier, e foi junto a Pietermaritzburg que se trocaram as primeiras balas entre Böers e Ingleses. Prevenido da resistência dos Böers, o governador do Cabo reforçou as tropas de Natal e esmagou a insurreição. A pouca simpatia que os Böers votavam aos Ingleses, desde esse dia converteu-se em aversão profunda.
Começou para os emigrantes uma nova época de árdua peregrinação, e abandonando a terra escolhida, foram novamente procurar um país além do Drakensberg, um país onde pudessem ser livres e senhores.
Ao passar a elevada cordilheira espalharam-se ao norte e ao sul do Vaal; estabelecendo as suas residências no terreno compreendido entre o Vaal e o Orange, e mesmo ao norte sobre a margem direita do Vaal, onde fundaram a cidade de Potchefstroom, em 1843.
Sabendo que o Governo Inglês considerava aquele país como seu, e como seus súbditos os habitantes, Pretorius persuadiu a muitos dos Böers o emigrar de novo, e com eles caminhou ao norte. Teve de bater-se com os Zulos, que, vencidos numa última batalha no Pico Botes, foram rechaçados para além do Limpopo, onde o seu chefe Muzilicatezi estabeleceu o reino do Matebeli.
Foi então que foram fundadas mais duas povoações, Lidenburg e Zoutpansberg.
É preciso notar, que a cada nova emigração, muitos dos Böers se recusavam a seguir o entusiasmo pela liberdade que inflamava outros, e conservavam-se nos países abandonados, tendo, por isso, de se sujeitar ao governo Inglês.
Foi assim que muitos não deixaram as suas residências entre o Orange e o Vaal, e cortaram, por assim dizer, relações com aqueles que emigravam sempre. Esse núcleo que ficou, deu origem aos que hoje formam o Estado livre do Orange, e ali fundaram a cidade de Bloemfontein, sua capital.
Lord Grei, sendo Ministro das Colonias em Inglaterra, em 1852, entendeu que eram bastante grandes e ruinosos os domínios Ingleses na África, e resolveu de limita-los.
Querendo, ainda assim, fazer as coisas em grande e talhar por largo, deu ordem ao Governador do Cabo para declarar o Vaal como fronteira norte dos domínios Britânicos, e para conceder os direitos de autonomia aos súbditos Ingleses que se estabelecessem além daquele limite.
É desta data o tratado feito com os Böers, pelo qual a Grã-Bretanha os reconheceu livres e lhes concedeu os direitos de autonomia; é desta data que teve um nome o país compreendido entre o Vaal e o Limpopo; é desta data que o governo do Transvaal se constituiu definitivamente; é nesta data que Adriano Pretorius foi eleito presidente da nova república.
Os Böers insurgentes, os teimosos em fugir ao jugo estranho, acabavam de constituir uma nação, de criar um país, e de estabelecer a sua liberdade; ao passo que os Böers fiéis aos Ingleses só em 1854, mais de um ano depois, foram livres e ponderam constituir-se em nação, formando o Estado Livre do Orange.
É verdadeiramente admirável ver estes grupos, onde não abundavam os recursos de instrução, porque o Böer só lê e só conhece a Bíblia; ver estas gentes ignorantes dos regimes governativos, a que fugiam havia um século, de repente constituírem-se em nações, formarem um sistema governativo, elegerem assembleias nacionais, e legislarem sensatamente!
Adriano Pretorius foi um homem a todos os respeitos notável, e que teria feito um nome mesmo entre povos menos rudes do que os Böers.
Inflamado pelo ardor da liberdade, sabia incutir o seu entusiasmo no ânimo dos que o rodeavam, e pertinaz numa ideia grandiosa, viu coroados de êxito os seus esforços, dando uma pátria aos seus, e fixando num país riquíssimo, todo um povo disperso.
Este grande homem apenas entreviu a sua obra, porque morreu ao conclui-la. O sufrágio geral levou ao poder seu filho, do mesmo nome, criado nos mesmos entusiasmos do seu pai.
O novo Pretorius procurou dar melhor organização aos serviços da nação, mas o mesmo desejo de liberdade que animava os Böers a fugirem ao domínio Inglês, fazia que muitos procurassem escapar ao domínio do governo central da República. Contudo, encontravam-se sempre que era preciso ligar-se contra um inimigo estrangeiro, e as muitas guerras que sustentaram para acalmar os indígenas, sempre hostis, são disso prova.
Em 1859, os Böers do Estado Livre do Orange aclamaram seu presidente a Pretorius, que, diretor supremo dos negócios das duas repúblicas, pensou logo em levar a efeito uma união vantajosa para os interesses comuns.
O governo Inglês andou de tal modo nessa questão, que Pretorius nada pode alcançar, e abandonando Bloemfontein, voltou ao Transvaal, onde tomou de novo a direção dos negócios públicos.
Daí até 1867, aqueles dois povos, que apenas contavam um 15 outro 13 anos de existência autonómica, não foram perturbados no seu viver rude e pacífico, a não ser por pequenas questões com o gentio logo acalmadas; mas, em 1867, os Böers dos dois estados, Transvaal e Orange, foram surpreendidos por uma notícia que veio perturbar por um momento a sua vida tranquila. Nas fronteiras oeste dos dois estados, tinham sido descobertas as suas ricas e prodigiosas minas de diamantes, e aquele pedaço de terreno prometia uma riqueza inesgotável ao seu possuidor.
Naturalmente Böers do Transvaal e Böers do Orange lançaram para ele as vistas cobiçosas.
A terra que de um momento a outro tomou tão grande importância, e que, como o Brasil, a Califórnia e a Austrália, chamou logo a si aventureiros de todas as nações, pertencia a uma tribo, os Grícuas, mestiços de origem Böer, que a esse tempo eram governados por um tal Waterboer, que não perdeu tempo em fazer valer os seus direitos ao terreno cobiçado.
Entre os aventureiros que o fulgor dos diamantes atraía aquela nova Golgonda, abundavam Ingleses, que excediam todos os outros em número.
A vontade de se apossar do terreno diamantífero só foi manifestada claramente pelos Böers do Orange em 1870, ano em que o presidente Brand convidou Waterboer a uma conferência, e procurou convence-lo de que era senhor, por direitos adquiridos, do cobiçado tesouro.
Waterboer não se deixou convencer, e retirou para o seu país, teimoso em querer continuar a ser senhor dele.
O presidente Brand, pela sua parte, não cedeu também, e publicou uma proclamação, em que dizia ser dos estados do Orange a terra dos Grícuas, enviando logo ali um delegado da república para se estabelecer como governador.
Os Böers do Transvaal a esse tempo procuravam de traçar nitidamente as fronteiras do seu país, e acabavam de referendar com Portugal o tratado da demarcação da sua fronteira de Este, negociado, em Julho de 1869, entre o próprio Pretorius e o Visconde de Duprat, comissionado, para isso, pelo Governo Português. O tratado de 1852 definia suficientemente as suas fronteiras sul e sueste, mas as outras fronteiras eram demarcadas, a Norte pela mosca ze-ze junto ao Limpopo, e a oeste, por coisa nenhuma.
Entendeu pois Pretorius, que tanto direito tinha o presidente Brand como ele à posse da terra Grícua, e mandou para ali um delegado oficial da República, como o Orange mandara o seu.
Havia três anos que a primeira pedra desse carvão puro e cintilante, a que a vaidade humana deu um tão extraordinário valor, aparecera nos perdidos sertões da África do sul, e já nos terrenos saibrosos onde as mãos ávidas de centenares de aventureiros escavavam os pequenos seixos, se levantava uma cidade opulenta, onde formigava a vida e a civilização da Europa.
Era Kimberlei. Era uma maravilha edificada com diamantes, como S. Francisco da Califórnia foi edificada com ouro. Era um desses prodígios que brotam da terra, junto à mina que se explora, que crescem rápidos em grandeza e em civilização, que tem um comércio novo e forte, que arroteia terreno virgem, que tem um cérebro novo e inventivo, e que nascido hoje, amanhã desenvolvido pelas forças novas que o avigoram, efeitua agora em meses e semanas, o que antes demandava séculos e anos.
A mina é o mais poderoso princípio do desenvolvimento de uma terra virgem.
A mina é o mais poderoso incentivo da colonização de uma terra agreste.
Cintile o diamante, fulgure a pepita do ouro, negreje o bloco de hulha, lance a mina do seu seio cavernoso, o cobre, o ferro e o chumbo, e ali no deserto julgado árido, em torno do chumbo, ferro, cobre, hulha, ouro e diamante, nasce a vida, cria-se a civilização, e o progresso caminha rápido como os seus modernos elementos, o vapor e a eletricidade.
Ontem as enxadas rudimentares dos indígenas esgravatavam uma polegada de terra, e hoje as locomóbiles poderosas, lançando aos ares o grito da civilização no sibilar do apito, vão movendo arados que revolvem fundo a terra, virgem desde a sua formação geológica, e vem trazer à superfície em glebas recurvadas o pedaço de solo que nunca cuidou ter outro movimento além do que as leis do criador lhe marcaram no espaço infinito.
Ali, onde ontem um rio caudaloso apresentava barreira insuperável aos passos do raro caminhante, hoje uma ponte construída de bocados de ferro ligados em harmónica arquitetura pelas leis sublimes da ciência, dá fácil passagem a uma população condensada, que nem sequer pensa nas águas revoltas que lhe correm aos pês.
O pântano que ontem exalava o miasma pestilento, está hoje convertido em parque ameno, cujas árvores modificam a atmosfera e o clima.
O ferro que, ontem elementarmente tirado da terra, apenas servia para a imperfeita ponta da azagaia bárbara, corre hoje nas formas gigantescas, e resfriando em forma de rails, vai estender-se nessas artérias enormes onde pulsa o sangue das nações modernas.
Do trabalho e da criação material nascem novas ideias, o cérebro reforça-se, as faculdades criadoras do engenho humano desprendem-se mais e mais, e voam longe, trazendo cada dia novos e poderosos elementos ao progresso e riqueza das nações.
Foi assim que a América num século passou além da Europa, é assim que a África um dia irá além da América.
Na terra Grícua, onde, em 1867, apenas cabanas abrigavam uma população bárbara; em 1870 eleva-se uma cidade Europeia, ainda envolta no caos das populações nascentes, mas sentindo em si todos os elementos de progresso rápido. Nestas condições, não podia admitir sequer a dominação de povos tão atrasados como Böers e Grícuas.
Muito ocupada de si mesmo para se poder ocupar de vizinhos importunos, apelou para a Inglaterra.
O diamante e o ouro tem o poder sobrenatural de fascinar o rei como fascina o proletário, e se Böers e Grícuas estavam ofuscados pelo brilho dos diamantes Africanos, a Inglaterra não deixou de se comover ás cintilações dos seixos preciosos, e decidiu logo no seu cérebro inteligente e cúpido, que a terra Grícua era sua e não podia ser doutrem.
Á proclamação do presidente Brand seguiu-se uma proclamação do Governador do Cabo, em que se dizia, pouco mais ou menos, que a terra pertencia aos Grícuas, e que os Grícuas pertenciam à Inglaterra.
Esta proclamação precedia o próprio Governador, que entendeu dever ir ao lugar do litígio.
A receção que lhe foi feita pelos mineiros, foi entusiástica e esplêndida.
Os Grícuas, que se sentiam fracos em presença dos Böers, uniram-se naturalmente à Inglaterra.
Então o Governador, forte com o apoio de mineiros e Grícuas, entrou abertamente em negociações com os Böers dos dois Estados, e facilmente chegou a convencer Pretorius à desistência dos seus direitos mais do que problemáticos. Não aconteceu porem o mesmo com o presidente Brand, que não só recusou a proposta de ser a questão decidida por uma arbitragem do Governador da Natalia, pedindo que essa arbitragem fosse de um dos soberanos da Europa, e ainda mais, fazendo reunir uma força considerável de Böers para empregar as armas como argumento supremo. O Governador procurou e conseguiu prudentemente suster esta manifestação guerreira do Estado Livre, que teria sérias consequências naqueles países.
Ao mesmo tempo, o governo Inglês anexava ao Cabo o país diamantífero, sem se importar muito com o que ali se passava.
Brand todavia não desistia dos seus direitos, como Pretorius.
Este, Böer, e tendo apenas a educação rudimentar dos Böers, aprendida nas páginas da Bíblia, vivia e sustentava-se mais pelo nome herdado do seu pai, do que pelas suas qualidades pessoais. Fora mais fácil à Inglaterra tratar com ele do que com o presidente Brand, filho da Colonia, mas possuindo uma bela inteligência, uma vasta erudição, e todas as tricas e chicanas de advogado que é.
Brand foi educado na Europa, é doutor pela Universidade de Leide, tem carta de jurisconsulto nos tribunais de Inglaterra, e foi professor na escola do Cabo. Um homem nestas condições, e dotado de um carater enérgico e forte, não se calava em presença das anexações da Inglaterra, e continuou a gritar e a provar que a terra Grícua era sua propriedade.
Em seis anos fez seiscentos protestos, até que um dia Lord Carnarvon, o estadista Inglês, que melhor tem sabido compreender os interesses coloniais da Grã-Bretanha, o convidou a ir a Londres tratar diretamente com ele a interminável demanda.
Brand em Londres continuou a pugnar pelos interesses do seu país, e cedeu os direitos à terra Grícua mediante uma indenização pecuniária de 105 mil libras.
Foi assim que Lord Carnarvon cortou de uma vez para sempre as complicações entre os Böers do Estado Livre e as Colonias Inglesas do Sul de África.
Brand aproveitando a soma recebida em favor do seu país, tratou de lhe dar todo o desenvolvimento que uma pequena nação pode ter, com uma pequena quantia como aquela.
Mas deixemos os Böers do Orange, dos quais falei apenas por se ligar a sua curta história com a do Transvaal, e voltemos a este país.
Como disse, Pretorius transigiu logo com o Governador do Cabo na questão da posse da terra Grícua, e isso foi motivo para se desacreditar entre o seu povo.
A assembleia nacional (Volksraad) apresentou um voto de censura ao seu presidente, e preciso foi depô-lo, e escolher quem o substituísse.
Foi então eleito um Holandês, Francisco Burgers, o terceiro presidente da república Transvaliana.
Francisco Burgers, homem inteligente e ilustrado, ministro protestante da Igreja reformada, pensou, logo que assumiu o poder, levantar o Transvaal ao nível das nações adiantadas da Europa. Todas as ideias do último presidente eram nobres e elevadas, mas não podemos deixar de admitir que ele cometeu erros manifestos de administração. Burgers não era homem prático, e não conhecia suficientemente o elemento que governava, para saber como lhe dar o feitio que ele lhe queria dar.
É sempre melindroso falar de um alto personagem que vive, quando a crítica tem de analisar os seus atos, e se eu não me posso eximir a falar do Dr. Burgers, porque à sua administração se ligam factos da maior importância, não quero de modo algum impor a minha opinião a respeito do governo do último presidente do Transvaal. Direi abertamente o que penso, e que formem os outros os juízos que quiserem.
Durante a minha estada no Transvaal, não deixei de indagar, por todos os modos ao meu alcance, os factos da última administração Böer, e sobre eles edifiquei a opinião que vou expor.
O presidente Burgers, tomando conta do Governo, quis caminhar mais depressa do que devia num terreno tão pouco nivelado. As questões financeiras foram as que primeiro chamaram a sua atenção, e bem preciso era isso, porque no Transvaal não tinham finanças.
As despesas de administração eram pequenas, é verdade, mas as receitas gerais eram pequeníssimas e muito irregularmente cobradas. Havia algum papel moeda e pouco dinheiro Inglês.
Burgers cunhou moeda de ouro extraído das minas de Lidenburg, e conseguiu em pouco tempo restabelecer o crédito, muito abalado, do seu país adotivo. Para isso teve lutas ingentes e ignoradas, com um povo pouco subordinado, e disseminado num território enorme, onde as comunicações eram e são ainda hoje difíceis, e onde ainda não foi possível fazer um censo aproximado. Outro assunto importante que preocupava o presidente, era a questão da força pública. Ele percebia bem que o sistema de defesa empregado até então pelos Böers, a que chamavam o comando, isto é uma convocação geral para a guerra, era muito deficiente, e não podia continuar, num estado que ele queria elevar à altura dos países Europeus.
A questão de regularizar um exército entre os Böers apresentava grandes dificuldades, e encontrou uma séria oposição.
Um terceiro ponto de não menos importância a tratar, e do qual se ocupou logo o presidente, foi o da viação pública.
Burgers instituiu os primeiros juízes, e abriu as primeiras escolas públicas no Transvaal.
Isto era muito para um povo na infância, e foi feito de repente.
Nisso e só nisso cometeu um erro o presidente da república.
Uma espécie de febre de progresso se apossou do Dr. Burgers, que fez uma viagem à Europa, em 1875, com o duplo fim de arranjar dinheiro e um porto de mar ao seu país.
Para o dinheiro foi bater à porta dos Banqueiros de Amsterdão, para obter um porto foi pedi-lo ao governo de Lisboa.
Em Amsterdão como em Lisboa foi escutado, e ao passo que obtinha um crédito na Holanda, fazia um tratado em Portugal para uma ferrovia que ligasse Pretoria ao soberbo porto de Lourenço Marques.
Burgers voltava triunfante ao Transvaal, onde o esperavam as maiores deceções.
Durante a sua ausência, havia-se renovado uma antiga pendencia com um régulo indígena, Secúcúni, ao qual era preciso fazer a guerra.
Burgers não hesitou, e fez convocar um comando ao qual aderiram uns dois mil Böers e outros tantos indígenas. Ele mesmo se pôs à frente do pequeno exército e foi atacar o régulo sublevado.
Ou fosse que Burgers não nascera para general, ou fosse por uma dessas outras causas difíceis de apreciar, que tantos desastres tem causado ás tropas regulares Inglesas em África, o pequeno exército, depois de uma curta guerra em que poucas vantagens alcançou, teve de retirar.
A esse tempo chegava ao Natal Sir teofilus Shepstone, que ia de Londres, onde Lord Carnarvon sempre na ideia de fazer uma confederação dos estados da África do Sul, tinha feito reunir delegados das diversas províncias para discutir tal projeto.
Parece que Sir teofilus Shepstone levava instruções do governo Inglês a respeito do Transvaal, porque, logo que chegou a Durban, seguiu para Pretoria.
Não quero de modo algum entrar, numa obra do carater desta, em apreciações sobre o facto da anexação; e por isso limitar-me-ei a narrar os factos com a verdade que até hoje não tem sido dita. Para bem se compreenderem esses factos, é preciso mostrar o que era o Transvaal à época da chegada de Sir teofilus a Pretoria.
A população Böer, difícil de avaliar, mas que os cálculos mais aproximados faziam montar a vinte-e-uma mil almas, estava espalhada num território imenso, igual em superfície à Inglaterra e Escócia reunidas.
Nesse grande país três cidades apenas eram núcleos de uma população mais condensada, e algumas aldeias separadas por distâncias enormes, aumentadas ainda pela dificuldade das comunicações, reuniam pequenos grupos de habitantes.
As três cidades, Potchefstroom, Pretoria e Lidenburg continham populações, que eram tudo menos Böers. As minas do ouro tinham atraído a Lidenburg aventureiros de todas as nacionalidades, predominando o elemento Inglês importado da Austrália.
Pretória era uma cidade nascente em que predominava o elemento Holandês, mas não Böer.
Potchefstroom era de todas aquela que era habitada por maior número de Böers, mas ainda assim, eles estavam em minoria em presença dos Holandeses e Ingleses.
As aldeias, das quais as mais importantes eram Rustenburg, Marico, e Heidelberg, já tinham a população Böer misturada com Ingleses e Holandeses. A grande população Böer estava disseminada em casais, e fugia naturalmente das cidades onde não podia fazer pastar os seus gados.
Se era difícil fazer um recenseamento da população branca do Transvaal, mais difícil era ainda avaliar a população indígena. Tenho visto cálculos que a estimam de duzentas a novecentas mil almas.
O país estava coberto de missões de três ou quatro diferentes sociedades de Inglaterra, de algumas Alemãs, e outras Holandesas. Estes missionários exerciam a sua ação sobre o indígena, porque Holandeses tinham os seus pastores nas paróquias, e Böers que sabem tanto de Bíblia como os párocos, até deles prescindiam.
A sede do governo estava em Pretoria, a mais pequena das três cidades do Transvaal, mas aquela que melhor se acha colocada.
Os homens que tinham a direção principal dos negócios públicos eram Holandeses.
Esta era a posição da população heterogénea do Transvaal em princípios de Abril de 1876.
Vejamos agora rapidamente, qual era a posição moral, verdadeira ou aparente, dos Böers.
Primeiro examinemos qual o juízo que fora de África se fazia dos Franco-Holandeses da república Africana. Era ele decerto péssimo.
O Böer era um selvagem branco, possuindo todos os maus instintos do selvagem, ávido de rapina, devastando e incendiando as aldeias do indígena, pobre mártir da brutalidade e rapacidade de tão extraordinário malvado.
Foi assim que ele nos foi apresentado por alguns missionários, os únicos que na Europa nos davam notícias dos antigos emigrantes do Cabo.
Forte contra o fraco, o Böer era cobarde e fraco em presença do forte.
O que havia de verdade neste juízo eu o direi ao diante.
Então estavam eles moralmente desconceituados para com aqueles que apenas os conheciam por informações; e tinham perdido um pouco o prestígio entre o gentio pelo revés sofrido com Secúcúni. Falavam mesmo, e entre eles discutia-se a questão, de depor o presidente Burgers, elegendo para seu chefe um Böer, P. Kruger, que estava disposto a tirar a desforra do indígena Secúcúni.
Nestas circunstâncias a anexação era fácil, e Sir T. Shepstone soube aproveita-la. As cidades que não tinham nada de Böers, eram por ele, e nelas se obtiveram facilmente petições, que, digamos a verdade, eram dirigidas por Ingleses.
Também se disse, que os pretos queriam ser Ingleses; e então Sir T. Shepstone, por uma proclamação, de 12 de Abril de 1876, declarou que o Transvaal era uma província Inglesa. Sir teofilus Shepstone quando fez a proclamação estava escoltado por 25 homens apenas, que estavam acampados em barracas no jardim da casa que ele habitava.
Assim, pois, a anexação do Transvaal foi pacífica, e não interveio nela a força armada, que ele mesmo não tinha, porque o regimento 80 de infanteria, que, debaixo do comando do Major Tiler, depois entrou no Transvaal, estava a esse tempo acampado na fronteira do Natal além do Drakensberg. A anexação foi pacífica, mas os Böers só souberam dela depois de anexados.
Sir teofilus Shepstone, o homem que melhor conhece e melhor sabe viver com o indígena daquelas paragens, soube o que fez.
Os Böers, espantados de se acharem Ingleses de um dia para outro, tiveram o seu movimento instintivo e hereditário de emigrarem de novo.
Uma parte deles tomaram a vanguarda nesse movimento que se devia efeituar em massa, e já narrei no capítulo anterior como foram, pela maior parte, destruídos pela secura do Deserto.
Aquela imensa catástrofe susteve os que lhe deviam seguir os passos, e perfeitamente apertados num círculo de mosca ze-ze, que lhes era barreira insuperável, tiveram que curvar a cabeça de novo ao jugo da Inglaterra.
Acabará aqui a história do Transvaal como país autonómico?
Quem o sabe?
É preciso ter vivido entre os Böers para se avaliar quão forte é neles o desejo da liberdade, quão profundo o odio que votam aos que chamam seus opressores.
Deixemos por aqui este rápido golpe-de-vista lançado sobre a curta história do Transvaal, mas antes de reatar o fio da minha narrativa de viagem, quero ainda dizer duas palavras sobre os Böers.
Vivi entre eles, perscrutei a sua vida íntima, desci a exacerbar-lhes as paixões. Vi-os ao trabalho, cavalguei junto deles por brenhas e florestas, e apreciei a sua destreza como caçadores, a sua coragem em face do perigo.
Não me preocupa a paixão; se recebi deles as mais afetuosas provas de amizade, já por mais de uma vez neste livro tenho patenteado a minha gratidão a favores maiores recebidos de Ingleses.
Falo, pois, com a consciência de que as minhas palavras são a mais rigorosa expressão da verdade, sem que no meu espírito haja ao dita-las a menor influencia apaixonada.
Digo isto, porque mais uma vez tenho de falar dos missionários, falando dos Böers, e não desejo que nem de leve se pense, que atua no meu ânimo um acinte formado contra tão uteis instituições, que eu sou o primeiro a proteger e a aprovar; mas cujas chagas ulcerosas precisam do corte fundo do escalpelo da crítica, do cautério ardente da censura verdadeira, para cicatrizarem de uma vez para sempre.
O Transvaal não é uma nação que se possa avaliar pelas nações da Europa.
Ali há uma só classe social: o Povo. Não há distinções e todos são iguais em absoluto. Sem escolas, todos são ignorantes; trabalhadores, todos são abastados; religiosos, e bebendo na Bíblia, único livro que conhecem, as leis da moral, todos são honestos.
O princípio que estabeleceu, na idade media, as distinções na Europa, a coragem pessoal, difícil é ter cabida entre os Böers, porque todos são valorosos. Como entre todos os povos que vivem uma vida elementar, só toma ascendente sobre os outros, aquele que tem o dom da palavra.
A vida do Böer é regulada pelos preceitos Bíblicos, e é verdadeiramente patriarcal. Entre os Böers não há a mentira, o adultério é desconhecido.
O Böer casa cedo, e ou fica vivendo na casa dos seus pais, ou dos pais da sua mulher, ou unido a outro vai perto arrotear novos terrenos, e começar uma vida nova. A única distinção entre os Böers é a da idade, e o mais novo escuta sempre o mais velho. A mulher trabalha e ajuda o casal num labutar incessante. O Böer tem necessidades muito limitadas, e pode satisfaze-las.
Os emigrantes Franceses da revogação do Edito de Nantes eram, muitos deles, artífices, e transmitiram até à geração atual a arte de trabalhar a madeira e o ferro. Nas casas do Transvaal é fácil ver a um canto um torno, e um Böer torneando os pés das suas mobílias singelas.
Fora, num alpendre, em atanaria rudimentar, curtem-se os coiros de que eles mesmos fazem o seu calçado.
As outras necessidades da vida são facilmente satisfeitas por gentes que não tem outra ambição além da liberdade, e que há um século a buscam quase em vão.
Como, pois, sendo os Böers tais como eu os descrevo, se diz deles tanto mal?
A explicação do facto está em pouco para quem viveu no Transvaal, entre eles, e isento da paixão de raça que pode perturbar o espírito mais justo e sisudo. Quem tem desacreditado os Böers são os missionários. Digo-o e sustento-o. Depois que os Böers, ocupando o Transvaal, e pacificando pela força as aguerridas tribos que lhes disputaram a posse, deram uma certa segurança ao país, dezenas de missionários correram a estabelecer-se ali.
Destes uns eram bons, muitos maus. Preciso dizer aqui o que é o bom e o que o mau missionário.
Bons são aqueles que, inteligentes e ilustrados, possuindo as qualidades que se requerem nos ministros de Deus, caminham para o seu fim desassombradamente; edificando com paciência, com paciência sofrendo o revés de hoje na esperança do triunfo de amanhã; ensinando a moral com o exemplo e com a palavra; indo devagar sem a agitação da paixão que cega, possuídos da responsabilidade da sua missão augusta.
Bons são aqueles que à inteligência e ilustração reúnem aquelas flores de alma de que falei.
Estes existem, mas infelizmente são em pequeno número.
Mãos são os missionários que, pouco inteligentes e quase ignaros, pensando que a ciência da vida consiste em saber mal e interpretar pior algumas passagens dos Livros Santos, empregam todos os meios, mais ou menos dignos, para alcançar um fim fictício; e corroídos do veneno da vaidade, ou movidos pelo interesse pessoal, querem apresentar ás sociedades que os enviam, resultados extraordinários, alcançados por meios que não se avaliam na Europa, e que são a causa principal da prolongação da luta travada em África entre a civilização e a barbária.
Para estes, o fim principal é insinuar-se no ânimo do indígena, e na falta de qualidades que lhe ensinem o caminho a seguir, usam um meio fácil para obter o seu fim, meio que lhes dá sempre bom resultado.
É ele o de pregar a revolta.
Para os ouvidos do indígena é sempre música harmoniosa a frase que o ensina a revoltar-se contra o branco.
Os missionários que tem pouco saber e pouca inteligência começam por gritar-lhe, a cada hora, a cada momento, no púlpito sagrado, que só deve ouvir a linguagem da verdade; que eles são iguais ao branco, são iguais ao homem civilizado; quando só lhes deveriam dizer o contrário, quando só lhes deveriam dizer:-"Entre ti e o Europeu há uma diferença enorme, e eu venho ensinar-te a vence-la."
"Regenera-te, deixa os teus hábitos de indolência, e trabalha; deixa o crime, e pratica a virtude que eu te ensinar; aprende e deixa a ignorância; e então, e só então, poderás alcançar um lugar junto ao branco; poderás ser seu igual."
Esta é a verdade que lhe ensinam os missionários bons, esta é a verdade que lhe não sabem dizer os maus.
Dizer ao selvagem ignaro, que ele é igual ao homem civilizado, é mentir, é cometer um crime, é faltar a todos os deveres que lhe impôs aquele que o mandou à África, é atraiçoar a sua missão sagrada.
Dizer ao selvagem ignaro, que ele é igual ao homem civilizado, é abrir a jaula à fera diante do povo descuidoso que tranquilo está confiado em que a chave está em mão segura.
Não! O indígena, tal como o missionário o encontra na África, não é igual ao homem civilizado, está muito longe disso.
Nele estão adormecidos os instintos bons, para só se revelarem os maus.
Nele há a indolência e o horror ao trabalho; nele há a ignorância absoluta: e bastam estas qualidades más, além de outras, para cavarem um abismo entre ele e o branco.
O sistema seguido pelos missionários maus é o estabelecimento da desordem; é a maior barreira levantada ao progresso da África Austral.
Os Böers, tendo conquistado um país de há pouco, em breve perceberam que, se alguns missionários eram auxilio poderoso à sua dominação, outros lhe criavam conflitos e obstáculos.
Começaram, pois, a fazer guerra a estes, que procuraram logo desconceitua-los aos olhos da Europa.
Daí nasce o exagero da ma fama dos Böers. Esta é uma verdade que eu tenho a coragem de dizer num livro destes, e que ninguém ainda disse antes de mim.
Vivi entre os Böers, ouvi a muitos exaltar as qualidades de tal ou tal missionário, e deprimir os atos de outros e outros. Vivi em Pretoria, e ali, num meio muito superior, ouvi a mesma coisa, de Holandeses e Ingleses. Vivi com missionários, e encontrei neles mesmos as verdades que afirmo.
Não tem disso culpa as bem-intencionadas sociedades que os subsidiam; não tem disso culpa as autoridades que os apoiam, e que são deles muitas vezes as primeiras vítimas.
O missionário deve ser um dos primeiros elementos da futura civilização, e deles devemos esperar muito; mas, tais como muitos são, só dão resultados contraproducentes.
O mau missionário pregou a revolta, e o Böer foi atacado. Houve guerra cruenta, e para a Europa foram relatados os factos horrorosos praticados pelos Böers, contra os bons, inocentes, e pacíficos indígenas!!
Não nos ceguemos, nos nossos bem intencionados sentimentos, a ponto de admitirmos absurdos, de sonharmos quimeras!
Eu já li em alguma parte, que o Böer era muito inferior ao negro!!
Outra asserção que já ouvi afirmar também, foi, que o Böer era refratário ao progresso!
Outro absurdo, outra aleivosia, saída da mesma fonte!
Não é o missionário o homem que há de levar o adiantamento ao Böer, e a razão disso é o meu principal argumento contra a obra de muitas missões, contra o caminho errado que seguem em África.
Já tive ocasião de falar em missionários bem intencionados, mas que erravam na sua missão querendo ensinar as abstrações da teologia aos pretos. Esta verdade revela-se no nada que eles obtém junto aos Böers.
O Böer sabe tanta teologia como o missionário, se não sabe mais do que muitos, bebida na Bíblia, único livro que ele lê e estuda.
O missionário que julga o seu trabalho ser ensinar a Bíblia, nada tem que ensinar ao Böer, e deixa-o no estado em que o encontrou.
Depois grita, que o Böer é refratário ao progresso!
Sim! Ele não adiantou um passo, porque o não souberam fazer avançar. A culpa não está no discípulo, está no mestre.
Outra aleivosia levantada contra os fazendeiros do Transvaal, é o ferrete de cobardes que lhes querem imprimir na cara altiva.
Eu tive ocasião de avaliar a coragem dos Böers; mas, se a não tivesse, bastava-me a história das guerras vencidas por eles contra Zulos, Cafres e Basutos, para os sopor bravos.
Deus queira que eles não mostrem ainda o seu valor, de modo a fazer calar os aleivosos.
Hoje que escrevo estas linhas, chegam à Europa rumores de uma tentativa de sublevação Böer; será ela uma calamidade à África Austral, que toda a Europa deve lastimar; será esmagada, como ninguém o pode duvidar; mas virá trazer um desmentido formal àqueles que chamam cobardes aos Böers.