Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 66 de 80

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Diário de África

Monsieur e Madame Coilard

 

Jasse voltou de novo à carga com nova exigência. Queria ele, que eu lhe pagasse e ao chefe Mutiquetera, a quem eu já havia pago com largueza.

Começou nova questão, em que de novo me prestou grande auxilio Mr. Coilard; sendo preciso para a terminar, o prometer um cobertor a cada um deles.

Mandou logo Mr. Coilard a Lexuma um portador buscar os dois cobertores, e a fazenda que ele havia tirado da sua pacotilha, para pagar à gente de Jasse.

Assim terminou finalmente aquela série não interrompida de questões, para o que concorreu poderosamente a intervenção que nelas tomou Mr. Coilard.

Disse-me ele, que ia partir para o Quisseque, a receber a resposta do rei Lobossi ao seu respeito, mas que em 10 ou 12 dias estaria de volta; e por isso me pedia, que fosse esperar o seu regresso para Lexuma, onde me esperava sua esposa Madame cristine Coilard; e só então poderíamos discutir maduramente o que convinha fazer de futuro.

Resolvi seguir para Lexuma no dia imediato; porque queria determinar a posição daquele ponto, e fazer um certo número de observações.

Durante a noite tive um violento acesso de febre, e de manhã sentia-me muito mal.

O Dr. Bradshaw não me quis deixar partir sem tomar algum alimento, e por isso só as 10 horas pude deixar a margem do Cuando. O doutor e o seu companheiro deviam abandonar aquele ponto no mesmo dia, e irem para Lexuma, porque as Cenas dos dias antecedentes aconselhavam-nos de evitar o contato com aquele gentio malévolo.

Eu parti por um calor de 40 grãos centígrados, num terreno arenoso, onde o caminhar era difícil. A febre tirava-me as forças, e mais me arrastava do que caminhava. O terreno era coberto de arvoredo, e elevava-se logo a partir da margem do rio. Depois de cinco horas de marcha lenta e penosa, encontrei um pequeno córrego, onde pude saciar uma sede ardente. Só duas horas depois cheguei a Lexuma. Eram 6 da tarde.

Num estreito vale de oitenta metros de largo, enquadrado em montes pouco elevados e de vertentes suaves, cresce uma erva grosseira e raquítica. Uma bela vegetação arbórea guarnece as montanhas que enquadram o pequeno vale, que se estende na direção N.S. Na encosta de E. algumas barracas aglomeradas formam o estabelecimento de um sertanejo Inglês, Mr. Filips.

Em frente a Oeste, duas aldeias abandonadas são a feitoria de George Westbeech.

Ao N. das aldeias de Mr. Westbeech, uma forte paliçada cerca um terreno circular de 30 metros de diâmetro, onde havia uma casinha de colmo, dois wagons, ou carretas de viagem, e uma barraca de campanha. Era o acampamento da família Coilard, era Lexuma enfim.

Entrei ali no recinto velado pela alta estacaria de madeira, com o corpo extenuado pelo cansaço e o espírito abalado pela comoção violenta que sentia.

Diante de mim, à porta da casinha de colmo, estavam sentadas duas damas, bordando a cores em grossa talagarça.

Ao ver aquelas damas ali, no centro de África, a minha comoção foi indescritível.

Acampamento da família Coilard em Lexuma

 

A receção que me fez Madame Coilard foi aquela que faria a um filho, se esse filho fora eu. Com uma delicadeza extrema, pôs-me logo perfeitamente à vontade, e disse-me, que ainda não tinham jantado, porque esperavam por mim para pôr-se à mesa. Convidou-me a entrar na barraca de campanha, onde uma mesa coberta de fina e alva toalha sustentava um serviço modesto, contendo um jantar suculento. Em frente de mim sentava-se Madame Coilard; ao meu lado Mademoiselle Elise Coilard, sobrinha dela, de olhos baixos e fisionomia rubra de pudor, por ver um estrangeiro desconhecido entrar tão de golpe na sua vida íntima e velada, espalhava em torno de si esse perfume de candura que cerca e envolve a mulher formosa aos dezoito anos.

 

Interior do campo de Monsieur Coilard em Lexuma

 

Madame Coilard multiplicava-se em cuidados extremosos, e pelo fim do jantar eu comecei a provar uma sensação estranha. Aquelas damas, o jantar, o serviço, o chá, o assucar, o pão, tudo enfim se me baralhava na mente com traços mal definidos. Cheguei a não poder formular uma só ideia, e a recear, que a cabeça enfraquecida não pudesse suportar as impressões daquele momento.

Não tenho a consciência de ter terminado aquele jantar, sei apenas que me achei só na barraca. Então um abalo violento sacudiu todo o meu corpo; um soluço tolheu-me o ar na garganta, e as lágrimas saltaram ardentes dos meus olhos desvairados, banhando-me as faces que queimavam de febre. Chorei e chorei muito, não me envergonho de o dizer, e creio que aquelas lágrimas foram a minha salvação.

Se eu não tivesse chorado, teria talvez enlouquecido.

Que se riam aqueles que acharem ridículas as lágrimas num homem; pouco me importa o seu motejar estólido. Infeliz de quem não encontra nos sentimentos do coração o choro que vem marejar nos olhos, e o soluço que estrangula a fala, mais verdadeiras provas da gratidão sentida, do que as frases mais eloquentes em protestos fervorosos.

Eu, por mim, não me envergonho de ter chorado, e feliz serei se poder ainda chorar em iguais trances.

Quanto tempo estive naquele estado de excitação não o sei eu; mas, muito tempo depois, entravam as damas na barraca e preparavam-me uma cama com cuidados extremos.

A aparição das duas carinhosas senhoras veio trazer nova perturbação ao meu espírito. Eu não sabia que dizer-lhes, e creio que só lhes dizia disparates.

Foi mesmo sem consciência do que fazia que eu lhes narrei um boato ouvido de manhã em Embarira, que apregoava ter havido um grande incendio no Quisseque, nas casas do chefe Carimuque, e terem sido ali presa das chamas as bagagens do missionário.

Deitei-me e creio que dormi.

Ao alvorecer da manhã seguinte, as Cenas da véspera desenhavam-se confusamente na minha imaginação enfraquecida.

Parecia-me um sonho tudo o que se passava naquele sertão longínquo.

Levantei-me, e ao ver que era realidade o que me cercava, o meu espírito volveu de novo a um deplorável estado de perturbação.

Maquinalmente, sem a menor consciência dos meus atos, por um poder filho do hábito, dei corda e comparei os cronómetros, fiz as observações meteorológicas, e registei tudo no meu diário.

Pouco depois, Mademoiselle Elisa, com a sua touca e avental branco, entrava risonha na barraca, e vinha cuidar dos aprestes da mesa para o almoço.

Madame Coilard continuou envolvendo-me dos maiores desvelos.

Não posso ainda hoje explicar porque produziam em mim, espírito forte, uma tal impressão aquelas damas; mas é certo que a sua aparição produzia-me logo uma espécie de delírio.

Passaram dois dias que eu não sei como foram passados; no fim deles sucumbi. A febre apossou-se de mim com violência assustadora, e com ela veio o delírio. O meu estado era grave, mas dois anjos velavam à minha cabeceira.

A 30 de Outubro, o delírio deixou-me um momento de lucidez. Conheci que a vida estava apenas presa por um fio a um corpo despedaçado pelas fadigas e fomes da jornada, e pensei que não me levantaria mais.

Nesse dia entreguei a Madame Coilard os meus papéis, pedindo-lhe que os fizesse chegar com segurança ás mãos do Governo de Portugal.

O Dr. Bradshaw fizera-me repetidas visitas durante os dias antecedentes, e empregara toda a sua ciência médica para me salvar.

Contudo a febre não cedia, e o estômago não suportava medicamento algum. Decidi eu mesmo tentar um último esforço, e comecei a dar repetidas injeções hipodérmicas com fortes doses de quinino.

A 31 fiquei espantado de ainda estar vivo, e redobrei a dose do quinino pela absorção hipodérmica. O Dr. Bradshaw aconselhou-me e fez-me tomar uma forte dose de laudanum. A 1 de Novembro, começaram a manifestar-se as primeiras melhoras.

Nunca estive cercado de tão extremosos cuidados como ali.

As melhoras continuaram rápidas no dia seguinte, em que já me pude levantar um pouco. Pareceu-me perceber que não sobravam muito os víveres, e isso tirou-me um pouco o sono durante a noite. Na madrugada seguinte, quando ainda tudo dormia no campo, levantei-me cauto e fui chamar os meus pretos.

Saí com eles cambaleando ainda nas pernas debilitadas, e internei-me na floresta, sem que alguém desse fé da minha escápula. Pela tarde voltei com os meus homens curvados ao peso da caça que tinha morto. Madame Coilard estava aflita, pensando que eu havia abandonado o campo para sempre, e fui recebido com a maternal censura de quem ralha em família.

Como em todas as minhas doenças graves, não tive convalescença, e a minha forte organização fez-me passar do estado valetudinário ao perfeito estado de saúde, em transição rápida.

Com a robustez do corpo veio o sossego do espírito, e só então pude encarar refletidamente a posição em que o destino me colocara. Pela conversa repetida com Madame Coilard, pude perceber que não sobravam recursos ao missionário. O meu marfim, bem pago, mas pago em fazendas a que os agentes da casa Westbeech and Filips deram subido e exageradíssimo valor, pouco produziu. Madame Coilard só via um meio de sairmos do apuro em que estávamos, e esse era, o de nos não separarmos, por não ser possível dividirem comigo os poucos recursos que tinham.

Contudo, esperávamos a volta do missionário, do Quisseque, para tomar uma resolução definitiva.

A ideia de ficar com eles aterrava-me.

Havia ali uma formosa criança, que impressionava a cada momento a minha imaginação ardente de Português.

Ser-me-ia possível, num viver tão íntimo, num isolamento tão grande, impedir que uma fala escapada num momento de loucura, um olhar vibrado num lampejo de delírio, fossem ofender a casta menina, descuidosa na sua inocência cândida?

Tremia por mim e por ela.

Decidi, pois, fazer um estudo de mim mesmo até à volta do missionário, e calcular bem até que ponto eu seria capaz de ser honrado.

Passei três dias atribulados no estudo que fazia do meu espírito. Poderia eu namorar-me daquela meiga criança? Decerto não; e a lembrança sempre viva de uma esposa idolatrada, era segura garantia aos meus sentimentos.

Mas, se o coração estava defendido, não o estava a imaginação férvida, e podia, num momento de desvario, com uma frase imprudente, cometer uma infâmia-porque infâmia seria fazer subir o pejo ao rosto daquela em cuja casa eu tinha sido recebido com a intimidade de um filho.

Além disso, o meu dever era ainda maior. Era preciso evitar a todo o custo, que a fama das proezas que os meus de mim apregoavam; que a posição, um pouco romântica, em que eu me achava entre aquela família; não fossem impressionar a novel imaginação dos dezoito anos de uma mulher.

Poderia eu sustentar durante meses o papel de uma reserva absoluta, na grande intimidade da vida que ia levar?

Um dia pensei que era capaz de o fazer, e desde esse dia tracei a minha conduta futura, de que não arredei um só passo.

Muitos meses depois eu tinha sido compreendido por uma mulher, que soube ler no meu íntimo com essa fina perspicácia que só elas possuem para ler nos arcanos da alma os mais recônditos sentimentos; e não hesito em dizer, que fui compreendido por Madame Coilard, porque, na véspera da nossa separação, ela escreveu no meu diário um versículo do Salmo 37, que me revelou o seu pensamento.

Estava resolvido a ficar com eles, quando más novas chegaram do Quisseque.

Mr. Coilard confirmava, numa longa carta escrita a sua esposa, o boato do incendio a que já me referi.

Tudo quanto ele tinha em casa do chefe Carimuque fora presa das chamas, e isso vinha ainda complicar a situação, diminuindo o seu haver.

Além desta, outra notícia veio consternar mais a bondosa esposa do missionário. Dizia ele que Eliazar, o homem que estava em Quisseque e de quem já falei, fora atacado de um acesso de febre de mau carater, e estava em perigo.

Madame Coilard muito afeiçoada aquele Catequista, que fora outrora seu servidor, ficou desde esse momento em cuidados extremos.

Dois dias depois, a 6 de Novembro, uma nova carta do missionário veio aumentar a tristeza que reinava no acampamento de Leshuma. Eliazar estava pior e receava-se que não pudesse salvar-se.

No dia 7, eu tinha ficado levantado até tarde da noite, por ter a fazer observações astronómicas; ficando comigo as duas senhoras, em conversa cujo assunto era o missionário e a doença de Eliazar. Madame Coilard disse-me, que tinha um forte pressentimento de que o seu marido chegaria naquela noite. Propôs-lhe irmos ao seu encontro, e tendo sido aceite o alvitre pelas duas corajosas damas, posemo-nos a caminho de Embarira.

A um quilómetro do acampamento, eu que caminhava adiante delas, preveni-as de que sentia rumor de gente na floresta; mas julgaram ser engano, porque ainda um quilómetro além ninguém encontrámos. Contudo, eu sabia não me enganar, porque mais de uma vez um rumor mal definido e só percetível a ouvidos de sertanejo, tinha chegado até mim. Sem isso não teria animado aquelas damas a esperar numa floresta povoada de feras, e onde me sentia pouco à vontade pela responsabilidade que tomava.

Pelas onze e meia, o rumor que por vezes percebi tornou-se distinto para os meus ouvidos, e não duvidei afirmar que gente calçada caminhava no trilho que seguíamos. Pouco depois alguns vultos apareceram na sombra, e o missionário, acompanhado de dois ou três pretos, estava diante de nós.

Madame Coilard procurava em vão alguém junto do seu marido. Esse alguém faltava. Mais uma sepultura tinha sido cavada no alto Zambeze, mais uma lição estava dada aos imprudentes que se arriscam naquele país da morte.

Voltámos tristes e silenciosos ao campo de Lexuma.

No dia imediato tive uma larga conversa com Mr. Coilard. O que eu previa já era realidade. O missionário, falto de recursos, não me podia dar o suficiente para eu fazer a viagem até ao Zumbo.

Discutimos largamente todos os alvitres, e a única possibilidade de êxito era não nos separarmos e seguirmos juntos até ao Bamanguato, onde eu poderia obter meios de seguir avante. Ele tinha pressa de partir, porque além de não serem fartos os meios para uma espera qualquer, Lexuma era-lhes fatal. Duas sepulturas de dois dos seus mais fiéis servidores tinham sido abertas ali.

Contudo, eu queria ir visitar a grande catarata do Zambeze, e ficou combinado que ele me esperaria até ao regresso, o que importava uma demora de 12 a 15 dias.

Ficou decidido que eu partisse para Mozioatunia no dia 11, e Madame Coilard, com maternal solicitude, começou logo a tratar dos meus aprestes de viagem.

No dia 10, uma forte tempestade caiu sobre nós, e sobreveio-me um acesso de febre. Veríssimo também adoeceu com febre. Este estado de tempo e de doença continuou no dia 11, impedindo-me de realizar o projeto de seguir nesse dia para as cataratas.

No dia 12 eu estava melhor, mas o Veríssimo tinha piorado, sendo necessário renunciar à partida ainda nesse dia.

Então o missionário propôs-me seguirmos todos a 13 para o kraal de Guejuma, e dali seguir eu ao destino projetado.

Efetivamente, ás 10 h. e 20 m. da noite de 13, deixámos o campo de Leshuma. Era difícil o jornadear por entre a floresta com os pesados wagons. A cada passo um tronco de árvore ou um penedo travava as rodas, e era preciso cortar o tronco ou remover a pedra. O meu Augusto, usando da sua força atlética, fazia verdadeiros prodígios.

Só ás 6 horas da tarde do dia 15 podemos alcançar o kraal de Guejuma, tendo jornadeado noite e dia apenas com pequenos descansos, para os bois pastarem e nós repousarmos. Não há água entre estes dois pontos, e ainda que tínhamos uma escassa provisão para nós, os pobres bois passaram três dias sem beber. Por isso, logo que chegámos a Guejuma, eles faziam esforços inauditos para se libertarem dos jugos e correrem ás lagoas de péssima água, que abastecem aquele kraal, estabelecido pelos sertanejos Ingleses para repousar e terem os gados, que não podem guardar em Leshuma por haver ali a terrível mosca ze-ze.

O nosso caminho foi por uma planície arenosa e húmida, onde os wagons se enterravam dando grande canseira aos bois.

Apesar do mau estado da minha saúde, determinei seguir no dia imediato para as cataratas, e Madame Coilard não deixou um momento de se ocupar das minhas provisões de viagem.

Não me foi possível encontrar um guia, mas apesar disso, não vacilei um instante em partir.