Diário de África
Montes termíticos junto ao Limpopo
O meu Stanlei, depois que se viu sem botas, não saía de dentro do vagão, e passava o tempo a comer e a dormir.
A 26, fiz, logo de manhã, uma jornada de cinco horas, subindo sempre a margem esquerda do Limpopo.
Mal tínhamos parado, Augusto veio dizer-me, que andava pastando perto um enorme chucurro (rinoceronte).
Passei rapidamente o freio ao cavalo, que ainda não tinha desaparelhado, montei e segui Augusto.
O enorme paquiderme já sentira o rumor do campo, e pusera-se ao largo.
Avistei-o a quinhentos metros, e ainda que Fli fez o seu dever, tive em breve de renunciar à perseguição da fera, que se internou em mato tão emaranhado que impossível me era segui-la.
É notável que, tendo eu atravessado de Benguela até ali, visse o primeiro rinoceronte junto ao Limpopo, onde hoje são raros, pela grande caça que lhe fazem os Böers.
Outro animal que abunda no Calaari, de que por vezes avistei bandos, e que nunca pude matar, foram as girafas.
É tão ligeiro e sustentado o seu correr, tão penetrante a sua vista, tão fino o seu ouvido, que difícil é chegar ao alcance de tiro, quando uma grande demora no país não permite ao caçador empregar a astucia.
Depois de ter desistido da perseguição do chucurro, voltei ao campo, quando encontrei Augusto que vinha no meu seguimento. Ele pôs-se ao lado do cavalo e veio conversando comigo.
De repente, junto a uns arbustos, vi-o apontar a arma e fazer fogo. Acavalo, e por isso tendo a cabeça muito mais alta do que ele, eu não vi a que tinha atirado o meu preto, quando deveria ser o primeiro a avistar a caça. Perguntei-lhe o que fora aquilo, e ele respondeu-me, entrando no mato, e arrastando um leopardo que não estava a mais de seis metros de nós.
Voltei ao vagão, em quanto Augusto ficou a esfolar o bicho.
De tarde ainda fiz uma jornada de três horas, por terreno muito acidentado e coberto de floresta densa.
Ao passar um cômoro, avistei o Zoutpansberg, que marquei a leste.
O sítio onde acampei para passar a noite é conhecido dos Böers, e tem o nome de Adicul. Não havia lua, mas o céu estava límpido, e resolvi fazer observações, para determinar aquela posição.
Esta circunstância foi causa de evitar uma grande desgraça.
Eu tinha obtido no Manguato uma lanterna para magnésio, que ali fora deixada por Mohr, ou outro, e que não servia, por falta do combustível.
A mim servia ela, porque eu tinha muito fio de magnésio.
Empregava-a eu para ler de noite os nónios dos instrumentos.
Nessa noite, tinha acabado de ler no nónio do meu sextante Casela, a altura da Canopus ([Grego: a] do Argus) no momento da sua passagem meridiana, e fazia horários pela Aldebaran ([Grego: a] do Touro), quando a dez passos de mim, rebentou um trovão medonho.
O meu Fli, preso a uma das rodas do vagão, deu tal puxão à corrente que fez mover o pesado carro, e os bois entraram de golpe no recinto onde estávamos, tremendo em convulsões de medo.
Larguei o sextante e peguei na carabina, sempre pousada junto a mim.
Augusto virou o foco da luz para a brenha donde saíra o rugido feroz, e iluminou as cabeças soberbas de dois enormes leões.
As feras fascinadas pela luz deslumbrante da combustão do magnésio, num momento de hesitação que tiveram, deram-me o tempo de apontar firme; os dois tiros sucederam-se com o intervalo de poucos segundos, e ambas caíram fulminadas.
Voltei-me para o vagão, onde senti um barulho infernal, e vi que Camutombo fazia esforços inauditos para segurar o meu Fli, que se levantava, e assustado forcejava por partir a corrente. O meu Inglês estava metido no vagão de espingarda na mão, e ameaçava matar todas as feras do continente Africano se elas se atrevessem a atacar os seus bois.
Os meus bois foram salvos
Deixei aos pretos o prazer de esfolarem os leões, e era belo ouvir o que cada um dizia de si mesmo naquela conjuntura. Não havia um só que se tivesse assustado, e para o fim creio mesmo que cada um já contava aos outros que os leões tinham sido esganados por ele. Creio que só dois homens ali não tiveram medo, e esses foram Augusto e Veríssimo.
Augusto, que me iluminou firme, e Veríssimo, que me disse muito descansado: "Eu nem peguei na espingarda, porque o Sr. ia atirar, e eu sabia que os leões estavam mortos."
Larguei a carabina para pegar de novo no sextante, e tomar as minhas alturas da Aldebaran; ocupação de que tinha sido distraído por tão importunos hóspedes.
Ia-me deitar, quando novos rugidos de leão se fizeram ouvir.
Sem termos um campo fechado, eu receei pelo que pudesse suceder, e passei a noite velando com toda a gente junto ás fogueiras. Os rugidos duraram toda a noite, e a eles respondia com o ressonar sonoro o meu Stanlei, que estendido dentro do vagão, sonhava talvez com aquele filho pequenino de que se não podia separar, ou quiçá com as botas que não tinha.
Parti ás 6 da manhã, para parar ás 9, sempre junto à margem do rio.
Ao acampar, todos pensaram mais em dormir do que em comer, e Stanlei, que não tinha velado a noite, ofereceu-se obsequioso para vigiar pelos seus bois.
Ás 4 da tarde, depois de uma boa refeição de carne assada (a carne nesta parte da viagem ocupa o lugar do massango de alguns meses antes), partimos de novo, indo acampar, ás 8 e meia da noite, junto ao rio Marico.
O alvorecer do dia 28 veio mostrar-me que eu estava num sítio baixo e pantanoso, pouco arborizado e deserto.
Mal tinha acabado de fazer o meu toilete, quando Stanlei se acercou de mim e começou a dizer-me, que as saudades do filho pequenino e a falta de botas, o impediam de continuar ao meu serviço.
"Que daquele ponto saía um caminho transversal, que o levaria em oito dias a sua casa, e que, por isso, ele, os seus bois, e o seu vagão, deixariam de estar ás minhas ordens desde esse dia."
Declarei-lhe, que se enganava, que ele tinha feito um contrato comigo diante de Mr. Coilard, e que esse contrato era para me servir até Pretoria. O homem recusou-se terminantemente a passar dali.
Mostrei-lhe que a razão estava do meu lado, por tanto não cedia, uma vez que eu tinha a felicidade de juntar à minha justiça a força.
Este último argumento foi eficaz, e o homem viu que eu não recuaria ante o empregar a força, e por isso acomodou-se, protestando a favor dos bois e do vagão, sua propriedade.
O Augusto, que logo de madrugada tinha ido caçar, voltou pelo meio-dia, e disse-me, que perto havia encontrado um acampamento de Böers.
Disse-lhe, que me guiasse para lá, montei a cavalo e segui o meu fiel preto.
Um quarto de hora depois, entrava no campo dos Böers.
Muitos vagões colocados paralelamente, entre eles algumas cubatas de caniço e palha; montes de despojos de caça; um alpendre com um torno de tornear madeira; um cercado com bois e muitos cavalos- eis o aspeto do acampamento de Böers nómadas que encontrei.
Algumas mulheres, de vestido de chita e toucas brancas, acarretavam água de um poço. A uma porta, duas, que não tinham nada de feias, descascavam enormes cebolas. Uma porção de pequenos, sujos e esfarrapados, brincavam sobre um chão enlodado.
A minha entrada fez sensação, e uma mulher velha, e ainda mais feia do que velha, veio arengar-me. Não entendi uma só palavra das que me disse aquele estafermo, e só percebi, ao abeirar-me dela, que era ainda mais porca do que feia e velha.
Para responder à fala da mulherzinha, que tinha empregado o Holandês corrompido dos Böers, escolhi o Hambundo, e respondi em língua do Bihé.
Estávamos pagos e entendidos. Ela não percebeu uma só das minhas palavras, como eu não entendi uma só das suas.
Eu, sempre perseguido pela velha, fui-me aproximando das raparigas das cebolas, que eram ao menos novas e bonitas, e falei-lhes em Inglês, Francês, Português e Hambundo, sem poder fazer-me compreender.
Chamei o meu Augusto, que já arranhava algumas palavras de Sesuto, aprendidas no Baroze e no convívio das gentes de Mr. Coilard, e disse-lhe, que perguntasse aquelas meninas, se não tinham homens ali. Ele dirigiu-se a elas, mas foi logo interpelado pela velha. Com custo, por meio daquele intérprete, soube, que os homens andavam à caça.
A velha, sabendo pelo Augusto que eu não era Inglês, mudou de modos para comigo, e creio que começou a tratar-me melhor.
As raparigas metiam as cebolas num panelão enorme, e punham-nas ao fogo nadando em água.
Pouco depois, chegavam uns sete homens a cavalo.
Havia um velho de longa barba branca, cinco entre trinta e quarenta anos, e um rapazola de dezoito ou dezanove. Apearam-se e vieram cercar-me.
O velho falava bem Inglês, e um dos outros falava um pouco.
Pudemos entender-nos. Expliquei-lhe quem era e donde vinha, duas coisas que eles não entenderam muito bem, e disse-lhes, que era Português, e não Inglês, porque já tinha percebido que eles não gostavam dos Ingleses. Contei-lhes o caso do meu Stanlei me querer deixar, e o velho disse-me logo, que mandasse descarregar o vagão e despedisse o homem, porque eles me dariam meios de continuar a viagem.
Não quis ouvir aquilo duas vezes, e mandei logo o Augusto buscar o vagão para ali.
No entanto, os Böers recebiam-me com franca hospitalidade, e até a velha já se sorria para mim. Que hediondo sorriso! Pouco depois comia cebolas cosidas e carne assada. Aqueles Böers, em quanto a provisões, só tinham mais do que eu cebolas.
Chegou o vagão que mandei descarregar, despedindo logo o seu dono, que se retirou satisfeito, como eu fiquei satisfeito por me ver livre dele.
Falei aos Böers, mostrando-lhes a necessidade que tinha de seguir o mais depressa possível, e eles prometeram-me, que no dia imediato teria um vagão e bois.
Á noite, eles contaram-me, que tinham feito parte dessa imensa leva de emigrantes, que, logo depois da anexação do Transvaal, tinham fugido ao jugo estrangeiro, e caminhado ao norte, inconscientes do que faziam, e ignorantes dos perigos do Calaari. Seiscentas famílias que se internaram no inóspito deserto viram os seus gados mortos ou dispersos pela sede, e foram vítimas do passo precipitado e inconsciente que deram. A vanguarda, em número de vinte-e-três pessoas, ponderam alcançar o Ngami, mas os seus gados iam esgotando os pequenos charcos, e aqueles que os seguiam encontravam a morte junto ás lagoas dessecadas. Ao número dos poucos que ainda conseguiram voltar, pertenciam aqueles que me davam a hospitalidade franca dos Böers. Encontraram, ali junto ao Limpopo, tanta caça, que decidiram ficar naquele sítio, e viviam uma vida nómada, acampando nos lugares mais próprios ás suas explorações venatórias.
No dia seguinte, em quanto as raparigas me serviam um almoço de carne e cebolas, regado com ótimo leite, os homens preparavam um vagão ao qual jungiam apenas quatro juntas de bois.
O velho disse-me, que iria para tomar conta do vagão seu neto, um rapaz de 16 anos chamado Low, levando consigo um seu irmão, pequeno de 12 anos, de nome cristofe.
Os bois dos Böers foram-me passar o vagão para além do Marico, o que foi difícil, por o rio ir bastante cheio; e depois das melhores despedidas, fiz a primeira jornada em caminho de Pretoria.
Os Böers sabiam que havia Pretoria, mas nunca la tinham ido, e por isso o meu Low ignorava o caminho.
Eu incumbi-me de lho ensinar, e para isso deixei o único caminho seguido, aquele de Marico e Rustemberg; e dando um traço com uma régua na carta de Marenski, tirei um rumo em perfeita linha reta, e segui nele através da planície.
Desde que passámos o rio Ntuani andávamos cobertos de carrapatos, e bastava passarmos um pouco entre a erva para ficarmos cheios dos repugnantes insetos.
Quatro pessoas na minha gente apareceram com uma febre que se apresentou logo de mau carater. As duas mulheres, Moero e Pépéca.
Tive de lhes preparar o vagão a modo de as poder deitar nele, porque era impossível caminharem.
Todos nós estávamos extenuados pelas fadigas de uma tão longa jornada qual a de Benguela até ali; e sempre mal alimentados, sentíamos a fadiga a degenerar em doença, e exaustos de forças sentíamos a doença a terminar na morte.
A insalubridade das margens do Limpopo, e sobre tudo a do rio Marico, veio profundamente afetar as nossas saúdes, já vacilantes em corpos derrancados, e todos em geral nos sentimos doentes.
Ainda assim, eu, dotado de uma organização especial, era quem mais resistia à extraordinária canseira que nos acabrunhava. E felizmente para todos, que eu resistia mais do que eles!
A noite do último de Janeiro foi tormentosa de chuva e trovoada.
Eu não me entendia com as duas crianças Böers que me acompanhavam, e que só falavam o Holandês; mas ainda assim, fazia-lhes dirigir o vagão à minha vontade.
No primeiro de Fevereiro, toda a gente estava pior, e sobre tudo o estado das duas mulheres e dos dois pequenos assustava-me. Eu mesmo ardia em febre.
Resolvi forçar as marchas o quanto possível, para no mais curto espaço alcançar o país habitado e alguns recursos.
Apesar do meu estado, logo que pus o vagão a caminho, afastei-me dele e fui caçar, conseguindo matar um sebseb. Fui encontrar o vagão, e fiz com Augusto, Veríssimo e Camutombo fossem buscar o antílope morto.
Em seguida forcei a marcha até ás cinco e meia da tarde.
Parei até ás 9 da noite para descansar os bois, fazer observações, e determinar o meu ponto, e sobre tudo para tratar dos doentes.
Ainda nessa noite jornadeei das 9 ás 10 horas.
O estado do Pépéca e de Mariana era muito grave. Estavam em delírio, e tinha-se-lhes declarado o tifo.
Os cáusticos, que eu lhes tinha aberto com água a ferver (por não ter outra coisa), eram continuamente pulverizados de sulfato de quinino, e durante a noite dei-lhes três injeções hipodérmicas com uma grama de sulfato cada uma.
Moero e Marcolina, a mulher de Augusto, não apresentavam sintomas de tanta gravidade como os outros dois, mas ainda assim estavam sujeitos ao mesmo tratamento.
Na manhã seguinte o estado dos doentes era o mesmo. Depois de lhes curar os cáusticos, resolvi partir, e não me apareciam os dois pequenos Böers. Fui na sua busca, e não longe, junto a um extenso pântano, a que eles chamavam a Cornucópia, me pareceu que eles estavam pastando, porque os vi apanharem erva e come-la com sofreguidão. Aproximei-me para ver o que faziam, e conheci não me enganar. Os rapazes comiam erva. Ao abeira-los, eles estenderam para mim as mãos cheias de uma gramínea, espécie de caniço fino e de um verde muito claro. Por curiosidade peguei num de aqueles caniços, e provei. A minha admiração foi extraordinária ao encontrar naquela gramínea o mesmo gosto da cana de assucar.
Percebi então porque pastavam os rapazes. Era pura guloseima.
Fiz com que viessem ao vagão e pus-me a caminho.
Naquela planície apareciam muitas aranhas parecidas com a tarântula, cuja mordedura (me fizeram compreender os rapazes) é mortal. Isto creio que deve carecer de demonstração, porque em África se diz o mesmo dos escorpiões, e eu afirmo não ser verdade.
Depois de cinco horas de boa jornada, parei, e logo que tratei dos meus doentes, que continuavam mal, fui caçar, a fim de arranjar de comer para eles e para mim.
Só voltei ao vagão ás 6 horas, trazendo atravessado no arção um soberbo antílope. Parte do caminho notei que o meu cavalo, sempre fiel, vinha inquieto, e fazendo curvetas que não eram de uso.
Ao chegar ao campo pude explicar a razão do caso. O antílope (Cervicapra bohor) com o pescoço pendido, veio, com um dos agudos cornos, fazendo uma larga ferida ao meu pobre Fli.
Depois de medicar os enfermos e a mim, e de comer alguma coisa, ainda jornadeei nessa noite por duas horas.
A 3 de Fevereiro, parti ás 4 da manhã, e parei ás 9.
Logo que acampei, avistei dois vagões de Böers que caminhavam para mim. Tive esperanças de obter deles alguns víveres, porque só tinha para comer os restos do antílope da véspera.
Baldada foi a minha esperança. Eram duas famílias de emigrantes que caminhavam, só escudados na caça, e com quem tive de repartir a pouca carne que já tinha.
Disse-me um, que falava Inglês, que eu ia entrar em país sem caça, mas que, se força-se as marchas, poderia, seguindo o trilho dos vagões deles, alcançar nessa noite a missão do Pilands Berg.
O país contínua, sendo uma planície enorme, da qual se erguem aqui e além ex-abruto algumas serras.
Assim era o Pilands Berg, que eu marcava ao sul.
Resolvi pois forçar as marchas, para alcançar a missão de que me falaram os Böers; mas, quando dei ordem à partida, apareceu-me Low consternado, dizendo muita coisa que eu não entendia, mas fazendo compreender, que o seu irmão cristofe faltava. A mim é que me não faltava mais nada, senão aturar o endiabrado rapaz.
Montei a cavalo, e larguei-me por matos e charnecas a procurar meninos perdidos. Chamei, dei tiros, corri em todas as direções, descrevendo círculos em torno do vagão, mas nenhum resultado tirei disso; e depois de seis horas de buscas inúteis, voltei ao carro, extenuado de fadiga, e tendo de balde cansado o meu pobre cavalo. Nesse dia já se não jantou, por não haver que comer.
Low chorava e arrepelava os cabelos, dizendo muita coisa em Holandês, e se ás vezes imaginava que eu queria partir dali vinha deitar-se de joelhos aos meus pês, pronunciando o nome do irmão.
Eu estava verdadeiramente perplexo, e ora me enfurecia contra os Böers, ora tinha por o estado de Low a maior compaixão.
Os meus doentes não melhoravam, mas medicamentos e dieta não lhes faltava.
Resolvi passar ali a noite, e confesso que não deixava de entrar em furor, ao lembrar-me do tempo precioso que perdia em circunstâncias tão graves como aquelas em que estávamos.
Ás 9 da noite, senti grande alarido, e percebi que o cristofe tinha chegado.
Não me entendendo com eles, só dias depois, por um intérprete, pude ter a explicação do facto.
Christofe, logo que o vagão parou naquela manhã, foi para o mato apanhar pássaros com visco. Entreteve-se por la até que eu o fui procurar.
Vendo-me gritar por ele e dar tiros, teve medo de que eu lhe batesse ou o matasse; escondeu-se no matagal o melhor que pode, e la se deixou ficar todo o dia.
Veio a noite, e o medo dos bichos foi superior ao medo de mim, e o pequeno voltou ao vagão.
Não me faltava, na minha viagem, senão aturar uma criança.
Ás quatro horas da manhã; segui viagem, e parei ás 8, porque o nosso estado não nos permitia grandes esforços.
A leste de mim, corria N.N.O. um sistema de montanhas que marginam o Limpopo.
Descansei até ás 11 horas, seguindo a essa hora, alcancei Souls Port, a missão do Pilands Berg, ás 4 da tarde.
Estabeleci-me numas ruinas, a duzentos metros da casa do missionário, a quem mandei um bilhete de visita.
Pouco tempo depois, entrava nas ruinas uma dama acompanhada de um criado, que trazia uma grande bandeja de pêssegos e figos. Era Madame Gonin, a esposa do missionário. O seu marido estava ausente, e só chegaria no dia imediato.
Ao passo que escutava Madame Gonin, comia pêssegos e figos com fome de trinta e duas horas! Dei-lhe escusa do que fazia, dizendo-lhe, que tinha fome.
A dama retirou-se, e algum tempo depois, enviava-me uma ótima ceia.
Dois pretos vinham carregados de comida para a minha gente.
Fui agradecer-lhe, e voltei ás minhas ruinas.
No dia seguinte, julguei livres de perigo os meus dois doentes mais graves, Mariana e Pépéca.
Logo de manhã, fui a uma fazenda de Böers, a ver se obtinha víveres.
O país em torno de Pilands Berg é muito cultivado, e aqui e além alvejam no sopé da serra algumas casas de Böers.
Dirigi-me a uma delas.
Fizeram-me entrar numa sala, que em todas as casas dos habitantes do Transvaal desempenha o duplo fim de casa de mesa e sala de visitas.
Aquela tinha suficiente pé direito, era espaçosa e alegre. As paredes, pintadas a fresco, representavam cupidos vendados, despedindo traiçoeiras frechas contra corações enormes engrinaldados de rosas, isto sobre um fundo azul celeste, dado em aguada pouco nítida.
O pintor não fora nenhum Rubens ou Van Dick, mas preciso declarar, que ainda assim, me surpreendeu o trabalho artístico daquela sala; superior ao de umas certas salas de mesa, de muitas casas de Lisboa, que figuram no primeiro plano um boneco pequenino, pescando à linha num rio, onde ao longe navegam dois namorados enormes tocando bandolim; ao passo que numa árvore encarnada e azul, muito distante, pousa uma arara vermelha, maior ainda do que a árvore, do que os namorados e do que o pescador.
Ao menos, nas pinturas mitológicas da sala Böer havia uma significação, e aquelas rosas engrinaldando os corações feridos, vinham lembrar, que as chagas de amor, como as rosas, tem perfumes e tem abrolhos.
Eu, se algum dia, depois de longa vivenda em Lisboa, por esse poder de imitação, que me faz admitir as teorias de Darwin, chegar ao requinte de mandar pintar a minha sala de jantar por artista indígena, dar-lhe-ei as indicações da escola Transvaliana.
A sala da casa Böer, além das pinturas das paredes, pouco mais tinha de notável. Uma grande mesa, algumas cadeiras, uns vasos com plantas floridas nos vãos das janelas. Cortinas pendentes de guarnições de pau despolido, feitas de caça branca, com um recorte encarnado, e cujas extremidades inferiores, muito longe do chão, davam ás janelas esse ar desastrado de uma menina de quatorze anos, que, trajando vestido nem curto nem comprido, nos deixa perplexos, sem saber se devemos cortejar uma dama, ou beijar uma criança.
A um canto, sobre uma pequena mesa, o livro dos Böers, uma Bíblia enorme, com fechos de prata, sobre uma encadernação outrora vermelha e hoje de cor indefinida, pelo uso das mãos sebentas, de três gerações de Böers.
Faziam-me as honras da casa duas damas Transvalianas, vestidas, como todas as do país, de chita, e trazendo na cabeça toucas brancas. Uns poucos de pequenos, quase todos do mesmo tamanho, agarravam-se aos vestidos delas e trepavam-lhes aos joelhos. O modo porque eram recebidos, parecia mostrar-me que eram todos filhos de ambas as damas; o que me causava o maior espanto, e me fazia entrever uma coisa nova para mim.
Veríssimo servia-me de intérprete, empregando a língua Sezuto. Antes de lhe dizer o que queria, perguntei-lhes de quem eram filhos aqueles meninos? Ambas, ao mesmo tempo, com esse orgulho de todas as mães (em quanto os filhos são pequeninos, e não vem, pelo seu tamanho, revelar segredos de idades que se devem ocultar), responderam: "Sam nossos."
O caso complicava-se com aquela resposta, e eu cada vez entendia menos.
Entrei em explicações e soube afinal, que os pequenos eram uns de uma, outros de outra; mas, como elas seguiam o costume Böer, de viverem dois casais na mesma vida doméstica, todos eles eram reputados filhos de cada uma.
O paradoxo fisiológico tinha desaparecido, mas erguia-se aos meus olhos outro psicológico não menos extraordinário.
No Transvaal dois casais podem viver sob o mesmo teto, e comerem da mesma panela; e dois amigos combinam casar no mesmo dia e irem viver juntos com as suas mulheres; e depois com filhos e netos, para sempre. E vivem, e são felizes, e não há ali intrigas e desgostos entre eles! Ainda, entre eles, compreende-se; mas entre elas! É admirável.
A vida patriarcal dos Böers revela-se neste traço.
Depois de me explicarem estas coisas, eu disse ao que ia. Precisava de provisões. As boas raparigas ofereceram-me logo dois enormes pães, e disseram-me, que não podiam vender-me galinhas ou patos sem estarem presentes os seus maridos, que tinham ido para a labutação dos campos; mas pediram-me para esperar um pouco, porque eles não tardariam a voltar para o almoço.
Uma desapareceu, e provavelmente foi para a cozinha, em quanto a outra trouxe para a sala uma máquina de costura, e pôs-se a trabalhar.
Eu fui dar uma volta no quintal, onde me ficaram os olhos na hortaliça, que ali crescia cuidadosamente tratada.
Que fome eu tinha de alimento vegetal!
Algum tempo depois, chegaram os Böers, que me encontraram em flagrante delito de colher feijões que comia crus.
Voltei com eles a casa.
Logo que entrámos na sala dos Cupidos, reuniu-se a família toda, e todos se sentaram nas cadeiras junto ás paredes.
Veio, em seguida, uma preta com uma pequena banheira, e o mais velho dos homens descalçou as botas, e lavou os pês; seguiu-se o outro, as damas e os pequenos, e a preta correu à roda da casa com a banheira.
Em seguida, fomos para a mesa.
Veio então a Bíblia, e o mais velho leu, com profundo recolhimento, alguns versículos do Livro dos Números, o quarto Livro de Moisés. Começou o almoço; eu, com o estômago cheio de couves cruas e feijões colhidos do pé, não podia comer nada, o que contrariava os meus hospedeiros; mas tomei uma chávena de péssimo café com ótimo leite. Depois de almoço, os bons dos fazendeiros ofereceram-me seis galinhas e dois patos, e nada quiseram receber por isso.
Levei de hortaliças quanto pude carregar no meu cavalo.
Logo que cheguei a Souls Port, soube do regresso do missionário, por um convite para jantar, escrito por ele, que encontrei nas mãos de Augusto.
Fui ver logo os meus doentes, que achei melhores, sobre tudo o pequeno Moero, que já se tinha levantado.
Dali segui para a casa do missionário, onde fui cordialmente recebido.
Mr. Gonin, Francês e amigo de Mr. Coilard, exultou com as boas notícias que lhe dei dos amigos que tinha deixado em Shoshong.
Tive um jantar magnífico, e tanto mais agradável, que a ele assistiam três damas, Madame Gonin e duas jovens e formosas Inglesas do Cabo, hóspedes da casa.
Depois de jantar voltei ás ruinas onde tinha acampado, para fazer observações, e determinar a minha partida para o dia seguinte. Ao chegar ao vagão, uma má nova me esperava.
Low veio dizer-me, que tinham desaparecido dois bois, e não tinha sido possível encontra-los. Os seis bois que restavam não poderiam arrastar o vagão dali a Pretoria.
Decidi ficar ali a procurar os bois, e dei-as precisas ordens, para que toda a gente semi-válida logo de madrugada se pusesse em campo.
Foram baldados todos os esforços, e os bois não apareceram.
Comuniquei ao missionário Gonin o meu grande embaraço, e fui logo tranquilizado por ele, que pôs à minha disposição uma das suas juntas de bois.
Além disso, ordenou a um dos seus criados, um Btjuana chamado Farelan, para me acompanhar até Pretoria; servindo-me ao mesmo tempo de guia e de intérprete, já para com o gentio, já para com os Böers, porque falava bem o Holandês.
Dispostas assim as coisas, determinei seguir no dia 7, e depois de agradecer a Mr. e Madame Gonin tantos favores, parti ás 6 horas da manhã, indo parar, ás 10, junto a uma casa de Böers, que me receberam muito bem, dando-me abundantes provisões.
Ainda nesse dia fiz duas grandes jornadas. Dos meus doentes, a Mariana e o Pépéca, apresentavam sensíveis melhoras, ainda que prometiam uma demorada convalescença; Moero estava em via de restabelecimento, mas Marcolina, a mulher de Augusto, dava-me cuidados, porque se achava num estado adinâmico, com febre constante, que não cedia ao tratamento.
No dia 8, o estado de Marcolina era muito grave.
Parti ás 4 da manhã, e ás 5 encontrava o rio Quetei, próximo da sua confluência com o Machucubiani.
A dificuldade da passagem foi grande, por serem muito apicadas as margens e levarem os rios muita água.
Depois de três horas de trabalho violento, conseguimos transpô-lo, e acampámos na margem oposta.
Marcava meia milha a O.N.O. o Pico Bote, onde foi pelejada a última batalha entre Böers e Matebeles, sendo estes completamente batidos e forçados a recuar para além do Limpopo.
Depois de um descanso de três horas, segui avante e jornadeei por oito horas, em duas marchas.
O sítio onde acampei, junto a um riacho que corre ao Limpopo, era coberto de rochas, massas enormes de granito, o primeiro que encontrava depois do Bihé.
A disposição geológica do terreno mostrava-se-me, tal qual, a parte do planalto da Costa de Oeste entre Quilengues e Bihé.
A flora é que ali é muito diferente. No planalto, costa de oeste, aparece uma vegetação arbórea opulenta; ao passo que, nesta parte do Transvaal, apenas se vê um ou outro arbusto raquítico; mas a vegetação herbácea é rica, e sobre tudo as gramíneas tem desenvolvimento grande.
No dia 9 de Fevereiro, o estado de Marcolina era tão grave, que decidi não continuar viagem até ver se ela obtinha melhoras. Baldados foram os esforços empregados para a salvar, e ao meio-dia expirou.
Pobre mulher! Depois de tão aturadas fadigas, depois de tão árduos trabalhos, veio perder a vida quando estava próxima a encontrar o descanso e o conforto!
Marcolina era a legítima mulher de Augusto. Viera com ele de Benguela até ali, e mesmo no tempo das aventuras galantes do marido, nunca o abandonou, apesar dos maus tratos que dele recebia.
Augusto chorava como uma criança junto ao cadáver da sua companheira fiel.
Na madrugada seguinte, Camutombo e o Betjuana Farelan, abriam uma profunda cova, onde se enterrava a mesquinha.
Eu, de cabeça descoberta e comovido, vi cair a terra sobre o cadáver frio.
Ali, na margem do ribeiro, junto a Betania, deixava eu a última vítima da expedição Portuguesa através de África. Dali levava uma saudade pungente. Ainda bem que aquele devia ser o último túmulo!
O último enterro
Voltando ao vagão, perguntava a mim mesmo, se a ciência tem direito a tais sacrifícios; se o homem, no orgulho de juntar mais um átomo de saber ao pouco que sabe, pode dispor para isso da vida do seu semelhante, e imola-lo cruamente a um ídolo tão vão como os outros?
No meu espírito não podia formular uma resposta à pergunta que fazia, e hoje digo que isto é uma questão a debater entre o homem e a sua consciência.
Logo que cheguei ao vagão, dei ordem de partida, e segui adiante, para ir visitar a missão de Betania.
Betania é uma aldeia de quatro mil habitantes de raça Betjuana, formada de casas bem construídas, e muitas de janelas envidraçadas.
O missionário que ali encontrei, Holandês ou Alemão, chamava-se Mr. Behrens.
Apareceu-me fumando num enorme cachimbo de louça, e uma das primeiras coisas que me perguntou foi, se eu lhe tinha trazido umas pás que me emprestara para abrir a cova de Marcolina?
Um quarto de hora depois, eu deixava a casa do missionário, e seguia caminho, indo parar, ás 11 horas, junto de uma aldeia de Böers.
Vieram eles logo buscar-me para suas casas, e tive de entrar em casa de todos. Em todas fui obrigado a tomar alguma coisa, e em todas recebi presentes de batatas, frutas, hortaliças e galinhas. A custo me pude desembaraçar daquela boa gente, e pude partir ás 3 da tarde.
Encontrei outra vez a margem esquerda do Limpopo, que subi por três horas, para chegar a um vau conhecido do meu guia Farelan.
Junto ao vau estava grande porção de vagões Böers. O rio trasbordava, e não dava passagem, diziam eles.
Como Farelan conhecia o vau, disse-lhe, que se metesse à água e fosse até onde pudesse. O Betjuana passou o rio com água pelo pescoço. Mandei logo tanger os bois, e fiz entrar o cavalo na água, passando o rio num momento. Eu e os meus já sabíamos lidar com um vagão e com os rios da África.
Os Böers ficaram pasmados, mas pasmados ficaram na outra margem, debaixo de uma chuva torrencial que caía.
Acampei ali. No dia imediato, os alvores da manhã vieram mostrar-nos o rio que tinha saído do seu leito, e que deveria levar mais três a quatro metros de água.
Os Böers que recearam na véspera arriscar os vagões, tinham que esperar muitos dias para o passarem.
Eu segui viagem, e ás onze horas e meia, passava a enorme serra que divide o Transvaal no sentido este-oeste, o Magalies-Berg.
Foi dificílima a passagem da alta serra, e sobre tudo a descida na vertente do sul perigosa. O vagão, sem travão, precipitava-se sobre os bois e ameaçava despedaçar-se. Tive de por os doentes a pé, com receio de um acidente.
Low caiu, e uma roda do vagão esmigalhou-lhe as falanges da mão esquerda.
Fiz-lhe um primeiro curativo, e tratei de forçar as marchas, para alcançar Pretoria, onde ele podia ser cuidadosamente tratado. O Betjuana Farelan previne-me de que façamos provisão de lenha numa mata no sopé da serra; porque dali a Pretoria só encontraríamos planícies desarborizadas. Assim fizemos, continuando a jornadear dia e noite, apenas com o descanso necessário para os bois.
Finalmente, no dia 12 de Fevereiro, ás 8 da manhã, acampava uma milha a N.N.O. de Pretoria, e deixando ali o vagão e os meus, entrava sozinho na capital do Transvaal.