Diário de África
Homem de Cabango
Este soba, que se chama Chaquiunde, é um pouco falto de probidade, o que não admira muito. Veio, depois de larga conversa, fazer-me exigências, alegando ter-me dado um boi. Vi-me na necessidade de o por fora do acampamento; mas ele, vendo a aspersa com que eu o tratava, mostrou-se contente, e explicou a sua impertinencia, desculpando-se com os seus macotas, que o tinham aconselhado a fazer grandes exigências, e que o que pedia era para eles, pois que a ele eu tinha dado um presente superior ao valor do boi.
Tendo chegado os dois Quimbandes com o meu barco, resolvi seguir no dia imediato.
O dia 28 amanheceu frigidíssimo, pois que o termómetro, ás 6 horas marcava apenas dois grãos acima de zero; e por isso pude só levantar campo ás 8 horas, indo acampar ás 10 e 40 junto da margem do Onda, tendo andado a E.S.E.
Precisava fazer pequenas marchas, porque os meus carregadores iam muito pesados.
O terreno desde o rio Varea até ali é coberto de uma camada arenosa, sendo o subsolo formado por uma argila de cor cinzenta, variando desde o branco sujo até ao azul acinzentado.
Junto ao leito do Onda o solo é formado por uma forte camada de humos, que ainda assim assenta sobre o subsolo da mesma argila acinzentada. Junto ao rio vi alguns montes termíticos, apresentando a cor azul cobalto.
O terreno das clareiras é habitado por uma espécie de termites diferente daquela que habita as florestas. As termites das clareiras construem montes mamelados, apresentando o aspeto de cones truncados cobertos por cúpulas hemisféricas, tendo de 80 centímetros a um metro de diâmetro na base, por igual altura. Nas florestas formam elas verdadeiros cones, tendo de 4 a 6 centímetros de diâmetro na base, por 25 a 30 centímetros de altura.
Sam muito aproximados, e semelham um eriçado de espinhos que parecem brotar da terra.
Estas termites das florestas vão buscar os materiais das suas construções muito perto da superfície da terra, porque nas suas arquiteturas figura como matéria prima a terra vegetal que forma o solo dos matos, e estas, apesar do cimento empregado, não tem a ligação e dureza das termites das clareiras, que, empregando uma argila consistente, formam verdadeiras petrificações. Nas habitações das termites das clareiras, apesar do seu interior ser formado de células como as de um favo de abelhas, a bala Snider não penetra nelas a mais de 10 centímetros.
Como já disse, nas encostas que abeiram o Onda, estas formigas acumulam as suas habitações em limitados espaços, figurando, a quem de longe as vê, verdadeiras povoações Quimbandes.
Por espaço de uma hora, depois que deixei o acampamento, caminhei na margem do rio em terreno descoberto; mas depois entrei num a esplêndida floresta, cortada de riachos afluentes do Onda.
O Lago Liguri
Por vezes, a floresta tomava o aspeto de um desses grandes parques do norte da Europa, onde uma viçosa relva cobria completamente o solo. No meio da mata os meus passos foram suspensos para contemplar uma das mais pitorescas paisagens que tenho visto.
Uma vasta clareira era ocupada por uma lagoa de água cristalina e fundo arenoso. Árvores enormes assombravam o pequeno lago, que refletia os seus ramos de um belo verde-escuro, onde chilravam mil pássaros.
A relva descia dos lados até à água, e só desaparecia para deixar lugar a uma área alva e fina. Os pretos deste país, que não são muito poetas, acham encanto neste pequeno lago, a que chamam Lago Liguri, e em que já me tinham falado.
Todos os riachos deste país tem as margens apauladas, e na água estagnada há um depósito de cor vermelha, que ao princípio atribui à presença de ferro; o que conheci ser engano, porque o chá verde feito com aquela água não a denunciava férrea, pela formação do tanato de ferro. Só, talvez, por uma acumulação de animálculos infusórios se produzam aqueles depósitos vermelhos.
Desde o Bihé, observei, que em todos os pontos onde há águas estagnadas abundam sanguessugas, mas nestes córregos afluentes do Onda são elas em maior número.
O rio continua a ter entre 10 e 12 metros de largo, por 4 a 5 de fundo, tem corrente muito insensível. Abunda a caça.
No dia seguinte, caminhei a S.E., sempre na margem direita do Onda, por espaço de três horas, sendo difícil a passagem de uma emaranhada floresta, e mais difícil ainda o vadear o ribeiro Cobongo, de 4 metros de largo por 1 de fundo, e cujo leito lodoso embaraçava o andar.
Depois de três horas de caminho, afastei-me do Onda, seguindo a margem do ribeiro Cangombo, que passei indo acampar na margem esquerda do ribeiro Bitovo.
A 30 de Junho, segui a leste, aproveitando toda a margem do Bitovo, para caminhar livre de floresta, e dali passei ao vale do ribeiro Chiconde, cujo curso segui até ao Cuito, onde acampei. Fez-me profunda impressão o contemplar as águas do ribeiro Chiconde, correndo velozes para o Cuito. Até ali tinha encontrado águas correndo ao oceano Atlântico, e essas águas, cujo murmúrio acalentava o meu sono, eram como um laço que me prendia à minha pátria, indo cair no mesmo mar que banhava o meu Portugal. Se elas pudessem converter o seu murmúrio em falas, que de saudades, que de angústias que viram, podiam ir contar aos meus!
Ao deixar o Bitovo partiu-se esse laço que me ligava à costa do Oeste. Que pungente saudade não foi a minha!
Fazia um ano naquele dia que eu fora dar o abraço de despedida ao meu velho pai, e recordou-me mais do que nunca que ele me deixara com o pressentimento de não mais me ver.
Naquele dia já assentava o meu campo no país dos Luchazes, tendo deixado o dos Quimbandes com o ribeiro Bitovo.
Vieram alguns homens e mulheres das povoações da margem direita do Cuito ao meu campo; mas nada trouxeram que vender, e nós precisávamos de comida. Prometeram contudo que no dia seguinte traziam algum Massango, porque não cultivam milho nem mesmo Massambala.
Nos seus arimbos cultivam o Massango, alguma mandioca, feijão fradinho, ginguba, mamona e algodão, tudo em pequena escala, apenas o necessário para o consumo do cultivador.
Colhem bastante cera, já apanhada nas florestas, e já de colmeias que colocam sobre as árvores, e onde os enxames vêm habitar.
A cera é um género, que eles permutam por peixe seco do Cuanza, que os Quimbandes ali vão levar. O rio Cuito ali não tem peixe.
Os povos Luchazes são pouco viajantes, e apenas deixam as suas povoações para fazerem pequenas caçadas aos antílopes, a fim de obterem peles para se vestirem.
A pequena cultura é feita por homens e mulheres.
O soveta que governa as poucas povoações da margem do rio Cuito é o Muene-Calengo, que paga tributo a outro sova Muene-Mutemba, cuja povoação não pude precisar bem onde fica.
Luchaze das margens do rio Cuito
Estes Luchazes trabalham em ferro e fazem todas as obras de que precisam. O ferro é encontrado no país.
Uma coisa única que vi entre os povos bárbaros que visitei, é usarem os Luchazes de isqueiros para fazerem fogo, com fuzil e pederneira. As pederneiras são trazidas pelos Quibocos, ou Quiocos, que as vêm trocar a cera; e os fuzis fabricados por eles são de ferro forjado e temperados em água fria, onde os lançam estando o ferro rubro. A isca é preparada com algodão misturado com a amêndoa, pisada, contida no endocárpio de um fruto chamado Micha.
As mulheres Luchazes usam cestos diferentes dos empregados pelas Quimbandes, e diferentemente os trazem, porque são suspensos da cabeça por uma larga tira de casca de árvore, e caem sobre as costas.
Este modo de trazer os cestos impede-as de trazerem os filhos, como é uso geral em África, sobre os rins, trazendo-os ao lado.
No dia seguinte, vieram de manhã algumas mulheres trazer massango; mas em tão pequena quantidade, que mais fez sentir a fome que já tínhamos.