Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 47 de 80

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Diário de África

No dia imediato, demorei-me até à tarde,…

O búfalo africano

 

No dia imediato, demorei-me até à tarde, para poder determinar aquela posição, e mudei o meu acampamento para uma milha mais a leste.

Junto do sitio onde acampei ficava a sepultura de um Português, o sertanejo Luiz Albino, morto naquele ponto por um búfalo. Na minha comitiva estava o preto de confiança de Luiz Albino, o velho António de Pungo Andongo, aquele que eu fiz alfaiate do sova Mavanda.

Luiz Albino saíra do Bihé com uma grande fartura que vinha negociar ao Zambeze, e num a das suas etapas, veio acampar no mesmo ponto onde eu estava acampado naquele dia. Saiu a caçar, e deu um tiro num búfalo, ferindo-o na articulação de um pé. Já se vê que atirava mal, porque não se fere um búfalo num pé.

Voltou ao acampamento, e chamou o velho António (que então era novo), dizendo-lhe, que tinha ferido um búfalo mortalmente, e que chamasse gente para o irem buscar.

Os Bihenos, sempre cautelosos, não quiseram ir, e ele, chamando-lhes cobardes, foi só com o preto António. Chegado ao mato, o búfalo, que, como todos os búfalos feridos, queria vingança e o esperava, correu sobre ele. Luiz Albino disparou-lhe os dois tiros da espingarda sem lhe acertar, e foi em seguida colhido pela fera, que com uma cornada lhe rasgou o baixo ventre.

António disparou contra o feroz ruminante, e o cadáver da fera foi cair sobre o cadáver do branco.

Hoje, uma forte estacada de madeira, cercando um quadrado de cinco metros de lado, fecha um recinto, onde se levanta uma cruz tosca de madeira; e lembra ao caminhante, que é preciso ter pronta a carabina e olho à mira para viajar ali.

Tinha chegado ao primeiro ponto da minha viajem onde aparecem elefantes, e por isso mandei alguns homens à descoberta, mas os exploradores voltaram tendo apenas encontrado alguns rastos antigos. Eu fui dar uma volta pelo mato, mas nada vi em que pudesse dar um tiro.

No dia imediato, segui viagem, sempre na margem direita do Ninda, sem que algum facto extraordinário viesse perturbar a marcha.

A 13 de Agosto, fui estabelecer um novo acampamento dez milhas para leste do da véspera. Um vago receio já me perturbava o espírito. Os víveres diminuíam rapidamente, e eu estava ainda longe de país de recursos. Tentei caçar, mas sem resultado percorri a floresta, ainda que vi muitos rastos frescos e cheguei mesmo a perceber caça, mas tão longe e esquiva que nada fiz.

No dia 14, tinha eu, sozinho com o meu Pépéca, tomado a dianteira à caravana, quando, ao chegar ao sitio onde resolvi terminar a marcha daquele dia, percebi um enorme búfalo que pastava tranquilamente.

Pude, ao abrigo do mato, aproximar-me dele, e atirei-lhe a trinta metros, apontando à espádua, porque me ficava atravessado. O animal caiu fulminado, com grande espanto meu, porque o sitio onde atirei era para fazer uma ferida mortal, mas não produzir morte tão rápida como a que eu vi produzir. Abeirei-me dele, e como não fiquei espantado, vendo que a bala, em lugar de ferir o ponto a que a dirigi, subiu perto de vinte centímetros na mesma vertical, indo cortar-lhe as vértebras, e produzindo a morte instantânea, pela solução de continuidade da espinal medula!

Este caso fez-me profunda impressão, porque um tal desvio da bala podia, em qualquer circunstancia, ser causa da minha perda; e logo que estabeleci o meu campo, tratei de alvejar a carabina a 25 metros.

O desvio vertical revelado no tiro ao búfalo continuava a manifestar-se.

Era a minha carabina Lepage, de grande calibre e balas de aço.

Sendo a sua trajetória muito curva, o armeiro calculou a última ranhura da alça para 80 metros; e como eu não tinha ainda com aquela arma atirado a menor distância, não tinha ainda advertido no perigo que corria fazendo um tiro de 20 a 30 metros. Assim, pois, a estas distâncias, ainda que eu pela ranhura mal percebesse o ponto culminante da mira, o desvio vertical era constante.

Cuidei logo de remediar o defeito, e por tentativas, fui profundando a ranhura da alça, até que obtive a maior precisão à pequena distância requerida.

Este episodio, que registei no meu diário e que hoje descrevo aqui, ainda que seja de interesse nulo para a maioria dos meus leitores, é uma prevenção àqueles que me seguirem em África, prevenção que lhes pode ser de subida utilidade.

O rio Ninda corre numa planície levemente inclinada a leste, e que me afirmam se estende ao sul até à junção do Cuando e Zambeze.

Até ao ponto em que eu estava acampado, a floresta desce espessa até à margem do rio; mas dali em diante forma apenas tufos de árvores, semeados aqui e além numa planície enorme.

Ali o Ouco é árvore corpulenta, e tão abundante, que por espaço de horas o caminhante vive numa atmosfera embalsamada pelo suave perfume das suas flores.

No dia imediato, sustentei marcha de seis horas, e desviei-me um pouco da margem do rio, cujo canavial espesso era obstáculo ao caminhar; indo acampar junto de uma lagoa de boa água, não longe da pequena povoação de Calombeu, posto avançado do régulo do Baroze.

Nada nos quiseram vender, e já começavam a escassear os mantimentos.

Não achando boa a minha posição, e não podendo seguir no dia imediato, por ter muitos doentes, mudei o campo para uma milha mais a leste, continuando a tirar água da mesma lagoa, ou antes pântano, que melhor lhe cabe este nome.

Estava na enorme planície do Nhengo, planície elevada mil e doze metros ao nível do mar, que se estende a leste até ao Zambeze, e ao sul até à confluência do Cuando.

O terreno enxuto na aparência, é encharcado e esponjoso, e cede lentamente à pressão do corpo, deixando infiltrar água do seu seio alagado.

Nas noites que ali dormi, deitei-me em leito seco de ervas cobertas de peles, para acordar num charco.

Começava ali para mim uma nova vida de tormentos, porque nem à noite um sono reparador podia vir mitigar as fadigas do corpo, e adormecer as apreensões do espírito.

A falta de víveres, que não tardaria a chegar; a dificuldade que me apresentava o país; a minha saúde que eu sentia profundamente afetada; e a minha própria comitiva que começava a dar sinais de insubordinação, traziam o meu espírito perturbado, perturbação que se traduzia por um mau-humor contínuo.

No dia 16 de Agosto, tive um momento de desespero. Estava só, completamente só.

Não havia um homem na minha comitiva que tivesse um pouco de energia.

Além das dificuldades que se erguiam diante de mim, todos me criavam dificuldades. Eu tinha de decidir, de intervir em tudo, até nas mais pequenas coisas de que nunca me deveria ocupar.

Algumas dedicações me rodeavam, não o duvidava, mas dedicações sem energia, em gente capaz de cumprir uma ordem, mas incapaz de fazer cumprir a outros as que lhe transmitia.

O Verissimo não é cobarde, mas espírito acanhadíssimo, sem vontade própria, e irresoluto, não tinha a força suficiente para se impor no comando. Além disso, aparentado com alguns dos pombeiros, era por eles desatendido.

Via-me forçado até a fazer cumprir as ordens que dava!

No meu diário escrevi então alguns períodos, que vou transcrever aqui textualmente, e que traduzem o meu sofrimento de então.

"Isto desnorteia-me, e traz-me de péssimo humor. O meu Deus! quanta vontade, quanta persistência, quanta energia é precisa a um homem que só, rodeado de dificuldades, rios próprios que o cercam as encontra, para prosseguir na missão que se impôs! Hoje sozinho no meio de África, tendo uma missão a cumprir, e tendo de sustentar a honra da bandeira da minha pátria, quanto eu sofro! e quanto eu tremo por ela! Preciso de ser um anjo ou um demónio, e chego a crer que sou ás vezes uma e outra coisa." Neste dia já tive de dar comida à ração, e só milho já havia.

Sentado à porta da minha barraca, ao cair da tarde, terminava a minha parca refeição, e olhava em roda os meus carregadores, que comiam em silencio.

Parecia que uma tristeza profunda havia caído sobre o meu campo, apossando-se de todos os espíritos.

De repente os meus cães levantaram-se e correram ao mato ladrando furiosos.

Um homem desconhecido, seguido por uma mulher e dois rapazes, saiu do mato, e sem fazer caso dos cães, entrou no acampamento, que percorreu com um rápido olhar, vindo sentar-se aos meus pés.

Era um preto coberto de andrajos. Um pano esfarrapado mal encobria a sua nudez. Um casaco completamente despedaçado pendia-lhe dos ombros nus. Na cabeça uma coisa que muito esforço de imaginação faria supor os restos de um chapéu braguês, e na mão um pau.

As suas armas eram trazidas pelos dois moleques que o seguiam.

A fisionomia enérgica, o olhar, andar e os modos decididos, do indígena, prenderam logo a minha atenção.

Perguntei-lhe quem era, e o que queria.

Ele respondeu-me em Hambundo: "Eu sou Caiumbuca, e venho procura-lo." Ao ouvir o nome de Caiumbuca, não pude conter a minha emoção.

Tinha diante de mim o mais audaz dos sertanejos do Bihé. Do Nyangue ao Lago Ngami é conhecido o nome de Caiumbuca, o antigo pombeiro de Silva Porto.

Em Benguela dissera-me Silva Porto: "Chame para junto de si a Caiumbuca, e terá o melhor imediato que pode encontrar em toda a África Austral." Procurei-o debalde no Bihé, onde não me souberam dar notícias dele.

"Anda no sertão, e nunca se sabe bem onde ele anda-" foi a resposta que obtive de todos.

Caiumbuca estava no Cuando abaixo da confluência do Cuchibi, e sabendo da minha passagem, viera, só com uma mulher e dois moleques, procurar-me.

Conversei a sós com ele por espaço de uma hora, li-lhe mesmo uma carta que Silva Porto me tinha dado em Benguela para ele, fiz-lhe as minhas propostas, e ao cair da noite, reuni os meus carregadores e apresentei-lhes o meu imediato.

A 17 de Agosto, forcei marcha de seis horas, porque os víveres estavam no fim, e era preciso alcançar as povoações.

Acampei na margem direita do rio Nhengo, que é o Ninda depois de receber do norte um afluente volumoso, o Loati.

O Nhengo tem de 80 a 100 metros de largo, por 4 e mais de fundo, com uma corrente quase insensível. Ás vezes parece uma comprida lagoa, onde vegetam milhares de plantas aquáticas. Nas suas margens há uma forte vegetação arbórea, vegetação que por vezes estende os seus ramos vigorosos por sobre as águas, e de uma e outra margem vêm dar um abraço fraternal a meio-rio.

Este grande afluente do Zambeze corre na enorme planície de que já disse duas palavras, a planície que dele toma o nome, planície húmida, onde não é encharcada ou verdadeiro pântano. Ali milhares de moluscos terrestres arrastam a sua casa espiral por entre a erva curta e raquítica.

Alguns cágados e muitas tartarugas de lagoa (Emydes), vivem na campina, onde já, aqui e além, algumas palmeiras, as primeiras que encontrava desde Benguela, balançam ao vento as suas copas elegantes.

Os meus pretos fizeram colheita de tartarugas (Emydes), que a fome lhes fez devorar, apesar do repugnante cheiro que rescendem estes pequenos Cheloneas carnívoros.

Tendo-me dito Caiumbuca, que, a pequena distância do acampamento, tinham algumas povoações, decidi demorar-me ali um dia, para obter víveres.

Foi debalde que, no dia imediato, enviei gente ás povoações a pedir mantimentos; o gentio muito esquivo fugia, e não atendia razão nem ofertas.

A nossa posição tornava-se muito séria, porque já nada havia que comer para esse dia, e as tentativas de caça e pesca não deram o menor resultado.

Um pequeno bando capitaneado pelo meu Augusto, entrou no campo, perseguido por um bando de leões, que só retiraram ao perceber o ruido do acampamento.

Conferenciei com Caiumbuca, e decidimos fazer, no dia seguinte, marcha grande, para alcançar umas povoações a que ele chamava Cacapa, e onde me disse que poderíamos obter víveres.

Seguimos pois no dia 19, tendo comido pela última vez a 17 de manhã.

A marcha foi sustentada por oito horas, indo acampar perto de uma lagoa, porque tínhamos deixado a margem do rio, para nos aproximarmos das povoações.

Apesar da fadiga da jornada e da fraqueza produzida pela fome, enviei gente a procurar víveres, indo entre eles o próprio Caiumbuca. Voltaram ao anoutecer com as mãos vazias. Nada, absolutamente, o gentio lhes quisera ceder, mostrando-se até hostil!

A nossa posição era grave. Tentar outra marcha, no estado de fraqueza em que estávamos, era arriscámo-nos a ficar todos mortos de inanição.

Reuni os pombeiros, a quem expus as circunstancias precárias da caravana, e de tal modo os encontrei desalentados, que nenhum alvitre me foi proposto.

Chamei alguns dos pretos que tinham ido ás povoações e perguntei-lhe, se efetivamente ali haveria mantimentos? e tendo-me eles respondido afirmativamente, eu tomei uma resolução imediata. Disse aos pombeiros, que fossem animar a sua gente, porque no dia imediato de manhã teríamos de comer em abundancia.

Ficando só com Caiumbuca, comuniquei-lhe a resolução que tinha tomado, de ir no dia imediato fazer provisão de alimentos ou por bem ou por mal.

Na madrugada de 20, mandei de novo o Augusto com alguns pretos ás povoações, pedir que me vendessem milho ou mandioca, e expor as circunstancias em que nos encontrávamos.

A única resposta que obtiveram os meus enviados foi uma agressão insólita.

Então reuni todos aqueles a quem a fome não tinha completamente prostrado, e pude ter oitenta homens, semi-válidos.

Pus-me à sua frente, e assaltei a povoação do chefe, que, depois de um curto tiroteio sem consequências, se rendeu à discrição.

Corri logo aos celeiros, que estavam cheios de batata doce, e tirei tanta quanta me era precisa para matar a fome da minha gente, regressando ao campo, com o chefe e mais alguns pretos prisioneiros. Dei a estes o valor das batatas em missanga e pólvora, e pu-los em liberdade, fazendo-lhes ver, que era melhor tratar as coisas por bem dali em diante. Eles agradeceram muito a minha generosidade, e prometeram fornecer-me aquilo que tivessem logo que eu lho mandasse pedir.

Nesse dia, à 1 hora e meia, estando o céu limpo, apenas com espessa barra no horizonte, caiu um tufão vindo do N., que, depois correu a S.O., o foco passou um quilómetro a O. de mim, arrancando árvores e destruindo tudo na sua passagem.

No meu campo, o vento soprou tão rijo, que tivemos de nos deitar por terra em quanto durou a sua maior intensidade.

O termómetro subiu de 20 a 32 grãos, e o barómetro desceu de 667 m. a 663. Foi esta a mais violenta oscilação barométrica que observei na África tropical.

Ás duas horas e meia, o vento acalmou de repente, ficando a atmosfera completamente coberta de um nevoeiro denso.

As povoações que me ficavam um quilómetro ao sul chamam-se Lutué; mas Caiumbuca disse-me, que entre os Bihenos são conhecidas apenas pelo nome de Cacápa, por serem ricas em batata doce, que na língua Hambunda se chama écápa.

As gentes destas povoações, como a de todas da planície do Nhengo, são de raça Ganguela, submetidas pela força aos Luinas ou Barozes. Sam povos miseráveis e intratáveis.

Pela tarde, chegou ao meu campo uma tropa de Luinas, que andavam rondando no país, e que, sabendo que eu chegara ali na véspera, me vieram ver.

Era comandada por três chefes, dos quais o maioral se chamava Cicóta.

Os chefes vieram cumprimentar-me e oferecer-me os seus serviços, e pedindo-lhes eu logo, que me obtivessem de comer, eles responderam, que também estavam lutando com falta de víveres, mas que no dia seguinte me acompanhariam até umas povoações onde acharíamos recursos. Disseram-me, que me iriam conduzir até junto do rei do Lui, e que nada me faltaria pelo caminho logo que chegássemos ás povoações Luinas, já pouco distantes.

 

Escudo dos Luinas

Estes Luinas tem uma boa presença, são altos e robustos. Uma pele de antílope primorosamente curtida, passada entre as pernas e presa no cinto de couro na frente e nas costas, e um amplo capote de peles, é o seu vestuário. Os três chefes traziam carabinas raiadas de grande calibre, de fábrica Inglesa. Os outros sobraçavam grandes escudos de forma ogival, de um metro e 40 cent. de comprido por 60 cent. de largo, e estavam armados de um feixe de azagaias de arremesso. O peito e os braços cheios de amuletos. Os pulsos são ornados de manilhas de cobre, latão e marfim, e por baixo dos joelhos trazem de 3 a 5 manilhas muito finas de latão. O que neles e admirável são as cabeças, não pelo cabelo, que é cortado curto, mas pelos enfeites que lhe põem.

 

A do chefe Cicóta está coberta de uma enorme cabeleira, feita da juba de um leão. Os outros traziam penachos de plumas multicolores verdadeiramente assombrosos.

Durante a noite apareceram entre nós inúmeros escorpiões, sendo mordidos por eles alguns dos meus homens.

O Chefe Cicóta

 

 

O terreno continua esponjoso e húmido, sendo um tormento viver em tal país.

Multiplicam-se ali as palmeiras, e já vão aparecendo algumas árvores no campo.

As termites apresentam aqui já um novo aspeto nas suas curiosas construções.

A 22 de Agosto, levantei campo, e cinco horas depois, ia de novo acampar junto da povoação de Canhete, a primeira povoação de raça Luina. Durante a manhã houve um denso nevoeiro.

Algumas matas que passei eram formadas de árvores enormes, e limpas de arbustos, sendo fácil o caminhar ali.

Logo que acampei, por prevenção de Cicóta, vieram muitas raparigas ao campo trazer-me galinhas, mandioca, massambala e ginguba.

Durante toda a tarde continuaram a trazer-me presentes, que eu retribuía o melhor que podia. Tinha já que comer em abundancia!