Diário de África
Homem Luchaze de Cambuta
Nesse dia, como na véspera, o tempo que me ficou livre das observações, empreguei-o a percorrer os arredores, levantando, como costumo, uma planta grosseira dos terrenos que avisto, tendo marcado três milhas ao sul da nascente do Biceque, a nascente do rio Cuanavare, grande afluente do Cuito. Junto da nascente do Cuanavare, estive na povoação de Muenevinde, governada por uma dama, cujo marido que se chama Ungira, não tem voz ativa na governação.
Eu nunca fui amante de feijão-fradinho, mas à noite, de volta ao campo, tive um pequeno presente dele, e comi-o com devorador apetite.
Objetos fabricados pelos Luchazes
1 e 3. Machados.
2. Frecha.
4, 4. Ferros de frecha.
5. Enxada.
O sova de Cambuta estava ausente em caçada, e fizeram-me as honras da casa as suas damas, com quem conservei as mais cordiais relações, obtendo delas, não só boa provisão de massango, mas ainda 12 carregadores para ele, e dois guias para me encaminharem ás nascentes do Cuando e do Cubangui, afluente daquele, rios que me diziam no país serem os maiores do mundo.
Permitam-me aqui agora os meus leitores duas palavras, a respeito das últimas do período anterior que sublinhei.
O rio Cuando, decerto o maior afluente do Zambeze, não foi conhecido por mim pelas informações dos Luchazes de Cambuta; e eu, tendo sustentado a minha marcha do Bihé até ali, uma grande parte do caminho fora e muito ao norte do trilho das caravanas Bihenas, sabia o que fazia, e onde deveria pouco mais ou menos ir encontrar as nascentes de tão grande artéria. Devia isso ás informações de Silva Porto, que já tinha descido aquele rio do Cuchibi até Liniante, levando cargas em canoas.
Silva Porto tinha-me assinalado as nascentes daquele rio, que ele conhecia nos seus terços medio e inferior, pouco mais ou menos no ponto em que as encontrei, e isto por informações colhidas por ele do gentio.
Se Silva Porto pudesse dar aos pontos que conhece da África Austral, as posições traduzidas em longitudes e latitudes, enchiam-se facilmente os espaços em branco que ainda existem na carta daqueles países.
Assim, pois, partindo de Cambuta a buscar as nascentes do Cuando, eu cumpria o itinerário que havia traçado, e ia resolver um dos problemas que mais desejava resolver.
As notícias detalhadas ia eu colhendo em caminho, as gerais essas já as tinha aprendido de Silva Porto.
Disseram-me os meus guias, que íamos atravessar, para além do rio Cutangjo, uma região despovoada, e por isso era mister fazer provisões para o caminho. Foi essa informação que me levou a comprar mais massango, e a pedir 12 homens, ás mulheres do sova.
Parti no dia 9 de Julho ás 9 da manhã, e três horas depois passava o rio Cutangjo, e acampava na sua margem direita, junto da povoação de Chaquissengo. O Cutangjo tem ali 4 metros de largo, por 1 de fundo, e corre a N.N.E. para o Lungo-é-ungo. Vi que nas plantações havia alguma mandioca e muito massango - o terrível massango, que tanto me havia de perseguir em África!
Algodoeiros e mamona cultivam muito estes Luchazes.
De Cambuta ao Cubangué
Trabalham o ferro, que tiram das margens do Cassongo, e as suas obras são muito perfeitas.
Quase todos os Luchazes tem barba por baixo do queixo, e pequeno bigode. Vai ali desaparecendo o luxo dos penteados extraordinários que até ali faziam a minha admiração.
Mulher Luchaze do Cutangjo Os homens usam um largo cinto de couro cru, com fivelas feitas por eles; cobrem com peles a sua nudez, e abrigam-se do frio com alicondes, que extraem de árvores das florestas.
Não fabricam panelas, e as que usam vão obtê-las dos Quimbandes.
Fazem manilhas, com cobre, que ali lhes vêm permutar a cera os Lobares, sendo que estes o obtêm da Lunda.
Cachimbo Luchaze
Fui ver a povoação de Chaquicengo, que, como todas do país, é muito bonita e de um grande asseio. As casas são feitas de troncos de árvores, de 1 metro e 20 centímetros de altura, que tanto é a altura das paredes. O intervalo da madeira, que é encostada uma à outra, é cheio, num as de barro, em outras de palha. Os tetos são de colmo, e como as armações são feitas de varas muito finas, fazem uma curva, tomando um aspeto de tetos Chineses. Os celeiros são colocados muito altos sobre uma armação de madeira, todos de palha, e de cobertura móvel; pois é preciso levanta-la para ir dentro buscar os mantimentos. Têm acesso por uma escada de mão, e não são mais do que um cesto gigantesco à prova de água, em que é tampa um teto cónico.
Capoeira dos Luchazes
As capoeiras são umas pirâmides quadrangulares de varas de árvore, assentes em quatro pés ou estacas muito altas, para as por ao abrigo dos pequenos carnívoros.
No centro da povoação há, como no Huambo, uma espécie de quiosque para conversa.
Ali, em torno de uma fogueira, alguns homens preparavam arcos e frechas. Receberam-me muito bem, e vieram-me oferecer uma bebida preparada com água, mel e farinha de Lúpulo, que misturam num a cabaça onde a deixam fermentar. Chamam-lhe Bingundo, e é a mais alcoólica que tenho encontrado.
Estes Luchazes usam uma armadilha para apanhar pequenos antílopes e lebres, que é engenhosa, e bem só compreende em vista do desenho. Chama-se Urivi.
Urivi, Armadilha para caça
Depois de um passeio até ás nascentes do Cutangjo, voltei ao meu campo, acompanhado por grande número de homens e mulheres que não cessavam de me admirar.
Entre esta gente das margens do Cutangjo vi muitos tipos masculinos de uma fealdade repugnante.
Estes povos, não só apanham muita cera nas florestas, mas ainda colocam nas árvores inúmeras colmeias que fabricam com uma grossa casca de árvore ligada com pinos de pau.
Luchaze do Cutandjo.
Objetos Luchazes
1. Bainha de faca.
2. Cesto.
3. Travesseiro de pau.
4. Cortiço de abelhas.
No dia 10 de Julho, parti ás 8 da manhã, e meia hora depois, apesar dos guias, andava perdido num a floresta impassável, donde pudemos a muito custo sair ás 10 horas. Então encontrámos terreno limpo de arbustos, mas coberto de árvores gigantes, que nos abrigavam do sol; prazer que durou pouco, porque, meia hora depois, já andávamos outra vez metidos em mato tão emaranhado que nos deu verdadeiro trabalho a transpor. Enfim, ás 11 e 20 minutos, descia eu a vertente suave de um cômoro, em cujo sopé a água limosa de uma pequena lagoa era cercada por um tapete de verdejantes gramíneas.
Ao chegar ali, dei um tiro num animal que creio se chama Leopardus jubatus, cuja pele veio aumentar a minha cama felina. Esta pele, que foi minha cama até Pretoria, ofereci eu ao Doutor Bocage.
Este leopardo jubatus bastante raro, porque em toda a minha viagem vi apenas dois, vê muito pouco de dia, suponho eu, e suponho isto por ter notado em ambos, que, ao deparar com eles, fitavam as orelhas para o meu lado, em que sentiam rumor, como querendo perceber o perigo mais pelos órgãos auditivos do que pelos visuais. Abeirei-me da lagoa, e determinei a sua posição, tendo mandado construir o meu campo uns 100 metros ao sul, sobre a encosta, ficando uns 30 metros sobranceiro ao pântano, que mais pântano do que lagoa é o charco onde nasce o grande afluente do Zambeze.
Quando trabalhava fui acometido de um repentino e violento acesso de febre que me prostrou por três horas. Quando voltei a mim, não pude deixar de sorrir. Estava coberto de amuletos, tendo ao pescoço um sem-número de cornos de pequenos antílopes, cheios das mais virtuosas medicinas. Uma pulseira de dentes de crocodilo enlaçava-me o braço direito, e dois enormes cornos de malanca pendiam de dois paus espetados dentro da barraca.
Os meus pretos, durante a febre, não se tinham poupado a cuidados, e ouvido o doutor Chacaiombe, tinham posto tudo aquilo sobre mim, com a mais inteira fé no resultado.
Uma forte dose de quinino, que tomei, determinando o meu pronto restabelecimento, veio corrobar mais as virtudes dos amuletos, que tudo a eles foi atribuído.
Os meus pretos Augusto e Miguel, tinham ido caçar; mas voltaram sem nada, tendo encontrado alguns leopardos. Viram contudo muitos rastos de caça grossa.
No dia seguinte de manhã, levantei uma grosseira planta do pântano, retifiquei a minha posição, e levantei um pequeno padrão, construído de barro, dentro da barraca das observações, onde enterrei um frasco que fora de quinino, perfeitamente rolhado, contendo um papel, onde, de um lado, por baixo do nome d’el-rei, escrevi os nomes dos membros da comissão central permanente de geografia, e do outro, as coordenadas do ponto, e a data.
Depois do meio-dia, os guias Luchazes foram mostrar-me a nascente do rio Queimbo, afluente do Cuando por oeste. Marquei estas nascentes, 6 milhas geográficas a S.O. do pântano da nascente do Cuando.
Os doze carregadores Luchazes estavam muito saudosos das suas casas, e queixavam-se muito do frio. O país é despovoado, e deve ter muita caça, porque dela tinham rastos, continuando a aparecer leopardos, que dela são também indício certo. Nós não vimos nenhuma. Era preciso seguir avante, porque os mantimentos desapareciam rapidamente, e precisávamos alcançar as povoações Ambuelas, para escapar à fome.
Na manhã de 12 de Julho, por um frio de dois grãos acima de zero, mandei levantar campo e preparar para partir; não conseguindo deixar o acampamento antes das 8 horas.
Pântano da nascente do Cuando
Milhares de periquitos esvoaçavam nas matas e faziam uma chiada infernal.
Segui a margem direita do Cuando por duas horas, e em seguida, por indicação dos guias, passei à margem esquerda sobre uma ponte que improvisámos de troncos de árvore.
Ali já o rio tinha dois metros de largo por dois de fundo, e violenta corrente.
Ao passar o rio, avistei uma manada de gnous, a que não pude atirar.
Acampei ali. As margens do Cuando são montanhosas, e desde a nascente até àquele ponto tem uma faixa apaulada de 30 a 40 metros, que deita em toda a extensão muita água, que vai engrossar o rio.
Este facto dá-se com quase todos os rios daquelas regiões, que recebem por aquele meio enorme quantidade de águas, de modo que, sem a eles afluírem outros, são navegáveis a algumas milhas das pequenas nascentes.
Na margem direita do rio vi aqui e além algumas barreiras verticais estratificadas, apresentando faixas cor-de-rosa, brancas e azuis.
No dia seguinte, levantei ás 8, e caminhei até ao meio-dia, indo acampar junto de um córrego afluente do Cuando.
Adoeceram-me alguns homens, com papeira, e outros com inflamações nas pernas.
Felizmente, as cargas das provisões tinham diminuído sensivelmente, e tinha carregadores de sobrexcelente. Nas margens apauladas do Cuando abundavam sanguessugas, que mandei apanhar, para aplicar a alguns doentes que delas careciam.
As matas que atravessei, e aquela em que estava acampado, eram quase exclusivamente formadas de umas árvores enormes, a que os Bihenos chamam Cuchibi, árvores prestadias ao viajante faminto.
O seu fruto semelha um feijão, onde só um grão de vivo escarlate está encerrado na casca verde-escura. Este fruto, depois de uma demorada cocção, separa os invólucros escarlates dos cotilédones brancos. Sam aqueles invólucros escarlates a parte comestível desta semente.