Diário de África
Songue
Rasto do Songue Só muito perseguido se embrenha nas matas, ou atravessa um rio a nado.
Este antílope desaparece completamente além do curso superior do rio Ninda.
Segui no dia imediato. Á medida que ia descendo o rio, vi que a planície marginal mais e mais se alargava.
Nela pastam bandos de antílopes, predominando os songues.
Nesse dia já se sentia grande falta de víveres, e comeram-se as últimas rações de massango.
Finalmente, a 29 de Julho, depois de três horas de marcha, fui acampar em frente das povoações de Caú-eu-hue, onde reside o sova do Cuchibi.
Antes de falar dos povos Ambuelas, e de um rico país atravessado pelo Cuchibi, quero dizer duas palavras do meu modo de viajar, ou antes da minha vida em África.
É certo que todos os meus predecessores tem tido o seu sistema, e aqueles que me seguirem terão o seu, todos ótimos.
A minha vida, salvas raras exceções, foi a seguinte. Levantava-me ás 5 horas, despia-me (porque dormia sempre vestido e armado), e tomava banho em água à temperatura de 33 centígrados.
Os Ingleses tomam banho em água fria, que é muito tónica; eu por mim, lavo-me por asseio, e não uso da hidropatia; para isso tinha uma chaleira de ferro que me servia para aquecer a água. Narrando o meu viver Africano, falarei de alguns objetos que a ele estavam estreitamente ligados. O primeiro, depois da chaleira, era a minha banheira de cautchuc, fabricada pela casa Macintosh de Londres. Era um traste precioso, que, depois de tão aturado serviço, ainda se acha hoje em ótimo estado.
Coisa de borracha fabricada em Inglaterra é assim.
Depois do banho, passava ao meu toilette. A bacia era cortada num a cabaça de 50 centímetros de diâmetro. As toalhas eram de finíssimo linho de Guimarães.
Escovas, esponjas, sabonetes e perfumarias (eu em África usava muito de perfumarias), eram de primeira qualidade, fornecidas pelo Carlos Godefroy, que vende tudo muito caro, mas muito bom. Terminado o meu toilette, a que assistia o meu criado de quarto Catraio, guardava ele cuidadosamente todos os objetos de que eu me tinha servido, e vinha apresentar-me os cronómetros, termómetros e barómetro.
Dava corda, e comparava os primeiros, registrava as indicações dos segundos.
A esse tempo já o meu moleque Pépéca tinta feito o chá, e vinha apresentar-mo.
Figura aqui um objeto a que eu ligava a maior importância. Era uma chávena de porcelana, chávena que me foi oferecida pela esposa do tenente Rosa, em Quilengues.
Fina como uma folha de papel, transparente e elegante, aquela chávena fazia as minhas delicias, tornando mais saborosa a infusão das folhas do arbusto Chinês.
Depois de tomar três chávenas de chá verde, sem assucar, porque o não tinha, fechava as malas, e dava ordem de partida; partida, que raras vezes se efeituava antes das 8 horas, por ser impossível arrancar os carregadores de junto das fogueiras, onde os prendia um frio intenso.
Partíamos pelas 8 horas. Na frente da comitiva o preto Cahinga, de Silva Porto, levantava a bandeira, e logo após ele seguiam as caixas de cartuxos, a pau e corda. Iam após os outros carregadores indistintamente a um de fundo, fechando a marcha eu, o Verissimo, e os pombeiros.
O carregador que por qualquer motivo tinha de deixar o caminho, pousava a carga, e era isso sinal para junto dela parar o pombeiro a quem ele pertencia, que depois o acompanhava.
Durante o caminho observava os meus rumos, e calculava as minhas marchas, combinando o pedómetro com o relógio. As marchas regulares eram entre 8 e 10 milhas geográficas, sendo elevadas a muito mais quando as circunstancias o exigiam. A tempo acampava, e durante uma hora durava a faina de construir barracas.
Era um cortar de madeira, de ramos e de erva que durava uma hora. Se não tinha observações a fazer, estendia-me horizontalmente na erva viçosa, e dormia até me virem prevenir que estava pronta a barraca.
Geralmente a barraca estava pronta à uma hora; tinha pois de esperar algum tempo para fazer as minhas observações para o boletim meteorológico, que era feito a 0 h. 43 m. de Greenwich.
Para saber a hora consultava um relógio que o Pereira de Melo me mandara de Benguela para o Bihé, relógio de latão, puro cilindro de construção helvética, oito rubins etc., que trabalhava desembaraçadamente.
Á hora precisa, chamava o Catraio, que me trazia os instrumentos, e usando eu de um termómetro de funda, que pertencera ao infeliz Barão de Barth, quando eu fazia girar o termómetro, juntavam-se sempre a distância todos os carregadores Bihenos, que contemplavam pasmados aquela operação, que eu repetia todos os dias, e eles todos os dias vinham contemplar pasmados.
Logo que registava as observações, vinha o meu moleque Moero com os pratos, e a ração, que eu não quero chamar jantar, aquele punhado de massango cozido em água.
Depois da refeição, se a fadiga me impedia de ir caçar e percorrer os arredores, empregava o tempo passando as notas do dia para o diário, calculando as observações, desenhando, etc. A tinta que eu empreguei em todos os meus trabalhos, foi a dos pequenos tinteiros mágicos, cada um dos quais me durava de dois a três meses.
Este sistema de fazer apontamentos durante as marchas e durante o dia, que depois passava ao diário, dava em resultado, o ter eu um duplicado dos meus trabalhos, e de haver sempre a possibilidade de se salvar um, se o outro se perdesse. Os apontamentos diários eram feitos a lápis, em pequenos cadernos, que eu ia lacrando e selando à medida que os preenchia. Neles, além dos factos, estavam registradas todas as observações iniciais, já astronómicas, já meteorológicas. Estes cadernos, que ao deixar Durban enviei a Portugal por via de Inglaterra, chegaram a salvo a Lisboa, onde ainda estão por abrir, ao passo que a copia desenvolvida do que eles contem, sempre me acompanhou, e está servindo de norma ao que estou escrevendo agora.
Foi-me preciso fazer esta viagem, para saber o quanto vale o tempo, e para quanto ele chega sendo bem aproveitado.
Vinha à noite, e então crepitava na minha barraca grande fogueira, que me proporcionava calor e luz. Se eu não tinha observações a fazer durante a noite, ou, muitas vezes, se a fadiga obrigava o repouso a preterir tudo o que houvesse a fazer, ia deitar-me sobre as peles de leopardo que formavam a minha cama, tendo por travesseiro a pequena malinha em que guardava os meus papeis.
Um hábito que adquiri em viagem, de envolta com o frio da antemanhã, faziam-me regularmente acordar ás três horas. Levantava-me então e reacendia a fogueira amortecida. Vinha à porta da barraca, onde via um termómetro deixado fora, e que a essa hora me dava uma mínima muito aproximada. Eu não tinha termómetros de máxima e mínima, e são apenas aproximadas estas duas indicações termométricas que vêm nos meus boletins; sendo a temperatura máxima aproximada a que se fazia sentir à 1 h. e meia, proximamente à hora do meu boletim a 0 h. 43 m. do tempo de Greenwich.
Depois das 3 horas até ás 5, o meu tempo era passado junto ao fogo, fumando ininterrompidamente 10 ou 12 cigarros, e pensando na minha pátria e nos meus.
Quantas vezes a essa hora, hora para mim de meditação e tristeza, não cogitava eu no futuro do meu empreendimento!
Estava então no Cuchibi, 20 grãos a leste de Greenwich, e 14 e meio ao sul do equador. Estava longe de todo o socorro que carecesse, onde iria buscar recursos para seguir avante?
Do Bihé até ali ainda tive a pouca fazenda de algodão de que dispunha; mas as últimas peças estavam diante de mim. Eram o meu último dinheiro.
Em todos os povos encontrei mais ou menos facilidade de permutar o alimento pela fazenda de algodão, sendo a preferida o zuarte, o zuarte pintado e o algodão branco ordinário.
Raras vezes querem os riscados e a fazenda de lei. O buzio miúdo (caurim), que tem muito valor entre os Quimbandes, e muito pouco entre os Luchazes, recupera no Cuchibi a sua importância, para emprego bem diverso daquele que lhe dão os primeiros destes povos.
Ali é para ornamentar as cabeças, aqui é para fazer cinturões, em que há grande luxo.
A missanga Maria 2ª tem grande valor em toda a parte; mas no Cuchibi é preferida a tudo, exceto à pólvora.
Chegando ao Cuchibi, cheguei ao primeiro ponto em que nesta viagem me pediram manilhas de cobre e arame para elas.
Logo depois de ter estabelecido o meu campo, apareceu nele um homem que veio falar-me, dizendo ser Biheno e ter ficado ali doente, deixado por uma comitiva, havia três anos.
Foi reconhecido por muitos dos meus carregadores, e engajou-se ao meu serviço.
Eu estava no caminho das comitivas do Bihé, e como tencionava demorar-me alguns dias, mandei um pequeno presente ao sova, e participar-lhe a minha resolução.
Soube pelo Biheno que me apareceu, que corria a notícia de ter havido uma revolução no Baroze, tendo sido expulso o régulo Manáuino, e aclamado um outro de que não se conhecia por agora o caracter.
Não me foi agradável esta notícia, porque eu sabia que Manáuino era feroz e sanguinário com os seus, mas hospitaleiro para com estranhos.
Estes Ambuelas, entre os quais estava, são a pura raça Ambuela, porque as do Cubangui estão muito misturadas com a raça Luchaze.
Sam os habitantes do Cuchibi inimigos dos Ambuelas de Oeste, e muitas vezes vêm ás mãos.
A raça Ambuela ocupa todo o país banhado pelo Cuando superior, e está aglomerada, sobre tudo na parte em que este rio recebe os seus confluentes, Queimbo, Cubangui, Cuchibi, e Chicului.
As povoações no rio Cubangui são construídas, já nas ilhas do rio, já no mesmo rio sobre estacaria. Sendo estes povos os únicos que possuem canoas, dormem de noite descansados nas suas habitações aquáticas, sem receio de serem atacados.
O sova mandou-me logo provisões e bastante milho. Com que prazer eu comi um prato de milho cozido!
Estava por algum tempo livre do fatal massango!
Mandou ele dizer, que viria visitar-me no dia imediato.
Nesse dia, logo de manhã, saí a dar um passeio.
O emaranhado da brenha espinhosa tornava difícil o caminhar na floresta.
Ainda assim, afastei-me uns três quilómetros do acampamento, e fui deparar com uma enorme armadilha de apanhar caça.
Era ela formada por uma sebe que devia ter alguns quilómetros de extensão, fechando um espaço proximamente circular. Este cercado enorme tinha de 20 em 20 metros, proximamente, umas aberturas, em cada uma das quais estava armado um Urivi, armadilha em que a caça, lebres e antílopes pequenos, são esmagados por um pesado cepo. Reunida muita gente fazem uma grande batida no mato, e então a caça foge espavorida, e não podendo saltar o cercado, investe com as aberturas, onde vítima é dos Urivis ali colocados.
De volta ao meu campo, encontrei no mato um acampamento de Mucassequeres, abandonado de há pouco.
Muene-Caú-eu-hue, Chefe dos Ambuelas
Recebi a visita do sova, homem de idade avançada, de tipo simpático, com um perfil judaico. Vinha bem vestido, trazendo sobre uma farda um casaco de linho branco, e ao pescoço um grande e vistoso lenço.
Cobria-lhe a cabeça um barrete de listas pretas e encarnadas. Na mão trazia uma concertina de que tirava sons desordenados.
Deu-me novo presente, de milho, mandioca, feijão e galinhas, que eu retribui dando-lhe algumas cargas de pólvora, o mais estimado presente que se pode fazer no Cuchibi.
Retirou-se o velho muito satisfeito, prometendo avistar-nos mais vezes.
Disse-me ele nesta primeira visita, que os reis do Baroze, mandam ali receber tributos, e que ele, para evitar guerra, lhos manda pagar, estando assim estabelecida uma espécie de vassalagem; que, havia pouco, soubera da revolução do Zambeze, mas não conhecia o novo potentado, e nenhumas informações me podia dar dele.
Nessa tarde, os meus pretos prenderam no mato dois Mucassequeres que trouxeram à minha presença.
Os dois pobres selvagens tremiam de medo e julgavam-se perdidos.
Falavam um pouco a língua Ambuela, e por meio de um intérprete pudemos entender-nos. Eles julgavam que uma sentença de morte os ia fulminar, ou ao menos que a escravidão iria sujeitar o resto dos seus dias.
Mandei que os desamarrassem, e lhes entregassem as suas armas. Disse-lhes que estavam livres, e que voltariam para a sua tribo, e dei-lhes alguns fios de missanga para as suas mulheres.
Eles caminhavam de surpresa em surpresa, e não podiam crer na verdade das minhas palavras. Dei-lhes de comer, e pedi-lhes que me levassem a ver o seu bivac.
Depois de discutirem acaloradamente um com o outro, numa língua desconhecida a todos os que ouviam, e completamente diferente na intonação a tudo o que em línguas Africanas eu tinha ouvido até ali, decidiram que me levariam à sua tribo se eu quisesse ir só. Aceitei, e parti com os dois horrorosos selvagens.
Apesar do meu muito hábito da floresta, era-me difícil acompanhar os ágeis guias, que mais de uma vez tiveram de esperar por mim.
Ao cabo de uma hora de caminho, deparámos, no meio de uma pequena clareira, com o acampamento da tribo.
Tinham ali mais três homens, sete mulheres e cinco crianças.
Alguns ramos de árvore derreados, com outros encostados na frente, são os seus únicos abrigos.
Não tem o menor apresto de cozinha. Sustentam-se de raízes, e de carne que assam em espetos de pau. Não conhecem o sal.
Homens e mulheres mal cobriam a sua nudez com pequenas peles de macacos.
Arcos e frechas são as únicas armas de que se servem. Eu estava muito embaraçado, porque não os entendia nem podia fazer-me entender deles. Dirigi-me ás mulheres, a quem dei alguns fios de missangas que tinha levado para isso. Elas receberam-nos sem darem mostra de nenhum sentimento de agrado.
A miséria daqueles desgraçados compungia-me. O seu rosto é feíssimo, olhos pequenos e um pouco inclinados nas órbitas, ossos molares muito distanciados e salientes, nariz achatado, com as fossas nasais desmesuradas.
Têm o cabelo encarapinhado e pouco, crescendo em montões separados, mais basto no alto da cabeça.
Alguns bocados de pele de animais atados nos pulsos e nos artelhos são o seu ornamento, ou talvez amuleto milagroso.
Procurei fazer compreender aos meus guias que ia voltar, e eles precederam-me no caminho, deixando-me, já noite, na orla do bosque donde eu ouvia o vozear do meu campo e alegres cantares. Durante a minha permanência no Cuchibi, pude recolher algumas informações, ainda que escassas, a respeito de tão estranhas gentes.
Os Mucassequeres partilham com os Ambuelas os territórios de entre Cubango e Cuando, sendo que estes vivem sobre os rios e aqueles nas florestas, estes são bárbaros, aqueles selvagens.
Não convivem, mas não se hostilizam.
Se a fome os obriga, os Mucassequeres vêm aos Ambuelas permutar marfim e cera por alimentos.
As tribos Mucassequeres são independentes, e não obedecem a chefe comum.
Guerreiam-se mesmo e os escravos que fazem uns aos outros vêm eles vender aos Ambuelas, que os permutam depois ás comitivas do Bihé.
Os Mucassequeres são os verdadeiros selvagens da África tropical do sul, os outros povos podem ser chamados bárbaros.
O Mucassequer nunca teve casa ou simulacro dela. Nasceu sob a árvore da floresta, viveu e morreu sob a árvore da floresta.
Despreza a chuva e o sol, e suporta as intempéries como qualquer fera dos matagais.
Ainda o leão e o tigre tem um antro onde se escondem; o Mucassequer precisa que pelo corpo despido lhe sopre a briza do mato.
Não conhece a enxada, porque nunca cultivou a terra. Raízes, mel e caça são o seu alimento, e cada tribo vagueia sem cessar em busca de raízes, mel e caça.
Nunca dormem hoje onde ficaram ontem. A frecha é a sua arma, e tão destros são no seu manejo, que caça apontada é caça morta.
O próprio elefante caí traspassado pelas suas setas lançadas por musculosos braços.
As duas raças que habitam este país, são tão diferentes no corpo como nos hábitos.
O Ambuela é preto e tem o tipo da raça caucásica; o Mucassequer é branco e tem o tipo da raça hotentótica em toda a sua hediondez.
O nosso marinheiro crestado pelo sol e pelo vento dos temporais é mais escuro do que o Mucassequer. Há contudo naquela cor branca alguma coisa de amarelo terroso, que os torna hediondos.
Tive o maior pesar de não poder recolher dados mais precisos sobre esta curiosa raça, que me parece dever merecer atenção especial dos antropologistas e dos etnógrafos.
É minha opinião, que este ramo da raça Etíope, pode ser colocado no grupo da divisão Hotentótia. Tem na forma muito dos seus caracteres, e nós vemos nessa raça uma variação sensível na cor da pele. O bushman do sul do Calaári é de cor muito clara, e alguns tenho visto quase brancos. Sam de estatura pequena, e de corpo franzino, mas tem todos os caracteres do tipo Hotentótio. No norte do mesmo deserto, sobre tudo junto aos lagos salgados, formiga outra raça nómada, os Massaruas, fortes e de estatura elevada, de cor negra carregada, possuindo o mesmo tipo Hotentote, e indubitavelmente pertencendo ao mesmo grupo. Disseram-me no Cuchibi, que ainda entre o Cubango e Cuando, mas muito ao sul, existia outra raça em tudo semelhante aos Mucassequeres, em tipo e hábitos, mas muito pretos.
Assim, pois, em vista da afinidade dos caracteres, não me repugna admitir, que o grupo Hotentótico da raça Etíope, se estenda ao N. do Cabo até entre Cubango e Cuando, passando por diversas modificações de cor e de estatura, devidas quiçá aos meios em que vivem, à altitude, à grande diferença de latitudes, ou ainda a outras causas menos apreciáveis.
Por muito tempo as subdivisões da raça Etíope na África tropical, serão mal conhecidas na Europa, por não ser fácil coligir os dados para o seu estudo.
Qual é o indígena dessas tribos bárbaras que deixa moldar o seu corpo?
Caso deixasse, como pode o antropologista levar a matéria para fazer os moldes, e reconduzir depois esses moldes até à costa?
Como colecionar esqueletos, crânios mesmo somente, em países onde a profanação de uma sepultura pode ser caso da perda de uma expedição?
Como ocultar da sua própria comitiva, dos seus próprios carregadores, esses despojos humanos, que seriam olhados como uma fonte de malefícios?
A fotografia, de todos o meio mais incompleto de fazer esses estudos, apresenta, ainda assim, dificuldades insuperáveis.
Em primeiro lugar, é difícil emprega-la em viagem de exploração, onde nem sempre dá os resultados que dela se esperam; sendo quase impossível o transporte de um laboratório, em frascos de vidro à cabeça de um carregador, que tropeça e caí dez vezes por dia. Eu sei-o de experiencia própria, e que o digam Capelo e Ivens.
Supondo porém que se podiam mais ou menos facilmente empregar os meios fotográficos, qual era o indígena do interior que deixava apontar uma máquina, e estava um momento firme diante da objetiva da câmara escura?
No correr da minha narrativa terei ocasião de narrar uma anedota acontecida comigo e com o fotógrafo Suíço M. Gross, em que eu consegui obter um grupo de Betjuanas, já meio-civilizadas, com uma paciência e uma despesa incalculáveis.
Com os Mucassequeres, aconteceu-me, de nem mesmo lhes poder apanhar o tipo com o lápis e papel!
Voltemos à minha narrativa.
Ao deixarem-me na orla da floresta, já noite, os meus Mucassequeres disseram-me umas palavras, que provavelmente queriam dizer boa noite, e foram-se. A claridade espalhada na atmosfera pelas fogueiras do meu campo, e o som de alegres cantares guiavam meus passos, e pouco depois entrava eu no recinto do acampamento, onde, ao som da música bárbara dos Ambuelas, havia um dançar frenético.
Mulher Ambuela
Muitas raparigas Ambuelas dançavam com os meus carregadores, fazendo soar as manilhas dos braços em compassado tinir.
Impressionou-me o tipo daquelas raparigas, que era perfeitamente Europeu, e algumas vi que, com a mudança de cor, fariam inveja a muitas formosas Europeias, a quem igualariam em beleza, e excederiam em formas e elegâncias naturais.
Ali soube um caso novo para mim.
Estes Ambuelas, quando chega ao país uma comitiva, vêm tocar e dançar ao seu campo, e à medida que a noite se adianta, vão pouco a pouco retirando, e deixando ali mulheres, irmãs e filhas. É costume de hospitalidade desta gente, oferecerem companheiras aos foragidos que aparecem. No dia seguinte, muito cedo, elas retiram para as suas povoações, e pouco depois voltam, a trazer presentes ao amante de uma noite.