Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 11 de 62

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Infância perdida

2. Ritual de entrada

Para muitas crianças, a primeira experiência da vida institucional ocorre com dias de nascidas ou poucos meses. Este estabelecimento denominado creche é, na verdade, um internato para crianças de ambos os sexos. Conforme documentos da época, atende à faixa etária "de zero a 2 anos". As crianças, na sua maioria, chegam através de convênio com a LBA e a Feem e algumas são de responsabilidade financeira da própria Fundação.

Uma vez satisfeitas as normas burocráticas junto aos órgãos de convênio, a criança é trazida pela mãe — poucas têm pai — com uma guia de internação e entregue a uma funcionária do internato. As internações são feitas durante todo o ano, havendo portanto uma

flutuação constante no número de crianças atendidas. 1

Quando a criança é entregue à funcionária, esta faz as anotações burocráticas devidas, tira a roupa da criança, devolvendo-a à mãe, e a veste com uma roupa do internato. A criança percebe o que se passa e, na maioria das vezes, se rebela e chora. Algumas crianças demoram um pouco para se dar conta e começam a chorar já dentro do estabelecimento, ao estranhar o local, as pessoas, e ao não serem atendidas quando chamam pela mãe. A funcionária ou a diretora dá atenção à criança de imediato, ao mesmo tempo em que tenta iniciá-la na atividade realizada pelas outras crianças. Se a criança já anda, esta atenção poderá ser maior, pois existe a possibilidade de se rebelar e correr. A mãe, muitas vezes, sai ligeiro para evitar ouvir o choro do filho e só volta no domingo seguinte, pois a visita é semanal.

Temos aí as primeiras características do ritual de entrada no internato, tanto para esta faixa etária como para todas as outras:

a) A separação da mãe ou responsável é feita de maneira abrupta e repentina. Não é proporcionado à criança e à mãe um período de transição, que possibilite uma preparação para a separação e dê oportunidade à criança de se adaptar à nova pessoa que vai dar-lhe os cuidados habitualmente prestados pela mãe.

b) A criança perde suas roupas e todas as suas referências pessoais e familiares. O único objeto que lhe é permitido manter na creche é a chupeta, que acalma o choro. Como diria Goffman, o

interno perde seu "estojo de identidade" (Goffman, 1974, p. 28). 2

Nas outras escolas da Fundação o ritual de entrada é semelhante

quando as crianças são trazidas pelos pais.3 A separação é sempre dolorosa e até a Escola III (oito anos) as crianças mostram claramente seu sofrimento por choro, rebeldia, desespero, e depois apatia e depressão. É frequente que este quadro se repita quando a criança volta ao internato, após passar dois dias com a mãe em casa (é permitida a saída dos internatos, semanalmente no Internato I e quinzenalmente nos demais).

Não há uma entrada gradual da criança no internato, como a que é feita com as famílias de classe média e alta, quando colocam seus filhos numa creche ou escola, para passar algumas horas por dia. Nestes locais a criança fica algumas horas por dia acompanhada pela mãe ou por alguém de seu relacionamento. Essas horas vão diminuindo gradativamente até que a criança, mais tranquila no novo meio ambiente, fica só. Neste internato que estudamos e nos seus similares, as crianças são entregues na primeira visita aos cuidados de pessoas que ela nunca viu antes e sem nenhuma

atendente que se ocupe dela especialmente.4 As atendentes trabalham em plantão de doze por trinta e seis horas, o que torna tudo mais confuso para a criança. Na medida em que a rotina permite, as funcionárias são cuidadosas e atentas com as crianças novatas, mas não há nenhum planejamento especial para recebê-las. Essa separação traz enorme sofrimento para a criança, que não entende o que se passou com ela e raramente encontra alguém para lhe falar sobre isto ou sobre sua mãe.

Geralmente quando eles vêm de casa assim, coitados, eles

começam a chorar, a chamar a mãe deles: mãae, mãae! Mas

ninguém responde e eles calam a boca e não choram mais não

(Funcionária abrigada).

O que se nota nestes internatos de crianças pequenas e pobres é

que ali não existe a noção de adaptação. 5 Desde a entrada, a criança é percebida como um número, criança-objeto e não uma criança com sentimentos e sofrimentos. Um ser carente de atenção, que precisa ter suas necessidades e demandas atendidas. Neste primeiro contato com a mãe e a criança, a instituição já passa a mensagem clara das regras às quais ambas terão que se submeter sem protestar. Pode-se perceber que, desde o ingresso da criança no internato, a instituição já aponta para uma direção, na qual ela se considera "'melhor mãe do que a própria mãe". É ela que acolhe a criança de que a mãe não pode cuidar, oferecendo-lhe roupa, cama e alimento. Começa desde a creche uma crença: é melhor a criança estar no internato sem o carinho da mãe, porém bem cuidada, alimentada e medicada. Esta crença se fortalece em todos os internatos no período de férias, quando as crianças voltam de casa, eventualmente, adoentadas, mais magras ou com algum ferimento.

Apesar dessa ser a tônica da mensagem passada às crianças e pais em todos os internatos, o que se observa, desde sua entrada no estabelecimento, é a situação que Bowlby chama de "privação da mãe". Ou seja, o internato não oferece "o que se acredita ser essencial à saúde mental" do bebê e da criança pequena — que elas possam ter a vivência de uma relação calorosa, íntima e contínua com a mãe (ou mãe-substituta permanente — uma pessoa que desempenha, regular e constantemente, o papel da mãe), na qual ambos encontrem satisfação e prazer" (Bowlby, 1981, p. 13). A criança ao chegar é colocada num dos setores existentes, transforma-se em um ponto numa série e deve aprender o mais rápido possível a rotina estabelecida. As funcionárias do setor atendem às crianças indiscriminadamente. As crianças mais novas entram para o setor dos bebês (recém-nascidos a 1 ano) e dos babys (1 ano a 1 ano e 8 meses) ocupando o mesmo dormitório

(vide foto 1); varia de 14 a 20 o número de internos com duas atendentes por turno. As outras, em número de 40 a 50, fazem parte do setor recreio (1 ano e 8 meses a 3 anos) e ocupam um outro dormitório, com três atendentes e uma abrigada por turno. Isto significa uma média de seis crianças para uma funcionária, no caso dos babys, e uma média de 12 crianças para uma funcionária, no

caso dos 6 recreios . O problema vai crescendo: o número de crianças aumenta nos internatos, o mesmo não acontecendo com o número de funcionários. Nessas condições é muito difícil realizar um atendimento mais humano e personalizado. Existe também uma outra agravante que é a prática de trabalho por rodízio — os funcionários dão plantão de 12/36 horas. Justamente na creche encontramos mais um problema — a constante hospitalização da criança, que contribui muito para dificultar o estabelecimento de uma relação mais significativa. A criança vive constantemente indo e vindo da creche para o hospital, justamente quando está doente e precisa de um ambiente estável, onde encontre pessoas conhecidas.