Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 34 de 62

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Infância perdida

3. Sentimento de desproteção e abandono

Com um número elevado de crianças para cada inspetor,10 a atenção que ele pode dispensar a cada criança é pequena e, em geral, inexistente. Só na hora de maior quietude é que os inspetores dão alguma atenção individual à criança como, por exemplo, atendendo a uma reivindicação, ajudando a vestir uma roupa apertada, fazendo um afago para que a dor de cabeça passe, ouvindo alguma estória familiar. O que se observa no contexto geral, entretanto, são as crianças abandonadas à sua própria sorte. Nos horários livres em que os internos estão no pálio, é frequente encontrarmos uma ou mais crianças chorando sem que ninguém delas se aproxime para perguntar o que se passa. Os motivos mais frequentes que as crianças apontaram quando lhes perguntei foi: briga com outro colega, privação de alguma coisa pelo inspetor (tal como o lanche), que um colega "arrasa" (pega) o pão ou biscoito de outro ou qualquer outra coisa que lhe pertença. A impressão que essas crianças transmitem é de forte sentimento de abandono e desproteção. O número excessivo de crianças ao seu lado, o tempo todo, não facilita a amizade. Além disso, o funcionamento desumano de que falamos no decorrer de todo este trabalho não favorece que a criança estabeleça relações de confiança, a não ser em raras exceções. A instituição atende esses meninos "carentes" ou "abandonados" com o objetivo de minimizar, com a internação, a situação em que se encontravam, mas isso não ocorre. O sentimento de desproteção e abandono os invade de diversas formas, como podemos ver no depoimento contundente de um menino de nove anos.

Há um menino no castigo que chora e outro, no fundo da sala,

que chora muito. Pergunto a este o que se passa e ele diz: "Um

menino me bateu, me deu um chutão aqui. Eles me balem e o

tio nem esquenta". Fala isso várias vezes. "Meu pai não vem

mais me ver. Não saí nas férias. Minha mãe não gosta de vir

aqui. Não gosto daqui, é muito ruim. Eles [os colegas] me

batem".