Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 28 de 62

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Infância perdida

4. A criança culpada e o castigo

comida que sobrou, põe tudo numa mesma panela (macarrão,

feijão e ovo) e vai pela mesa dando um pouco para cada um

que demonstre querer (demonstra oferecendo o prato, olhando

para ela e alguns, creio que ela já sabe que querem e oferece).

O mau humor da "tia" é enorme (aliás de todas as que observei

hoje). Não há conversa entre elas e as crianças. Não há comida

para dar repetição para todos e assim ela dá pouco e nem

todos ganham (os menores pouco repetiram e os que repetiram

só ganharam macarrão e feijão — alguns ganharam porque

sobrou no final de tudo). A panela tem um aspecto pouco

agradável — me parece mais uma lavagem — tudo aquilo

misturado e a "tia", com uma grande escumadeira, batendo-a

no prato da criança, o que me pareceu muito agressivo.

As crianças, em geralmente sérias, de cara amarrada, sorriem

se lhes sorrio.

Mas as "tias" estão com cara zangada, o que parece influenciar

a expressão dos meninos.

O que falamos aqui sobre a disciplina na hora da refeição espelha o que ocorre em todos os internatos. É sempre um ritual tenso, no qual a vigilância dos adultos não é abrandada. Nos Internatos I, II e VII não há mesa distinta para os funcionários fazerem suas refeições. Mas existe em todos os outros. Eles nunca comem junto com os internos. Além desta separação, o que mais humilha e revolta o interno é a diferença que existe no próprio alimento. Em geral, a comida é a mesma, porém feita de maneira distinta. Por exemplo, a galinha é frita ao invés de ser ensopada, ou tem algo a mais, como por exemplo uma salada, um suco, etc. Além do que, na maioria das escolas (com exceção do Internato VII), os funcionários comem no prato com garfo e faca e podem repetir, pois o alimento vem para a mesa, seu prato não é servido já feito. Essas pequenas diferenças exacerbam no interno o sentimento de desvalorização e discriminação, já tão acentuado nas outras atividades.

 

4. A criança culpada e o castigo Segundo a chefe de disciplina, as "infrações mais comuns" são: fazer tumulto para ver televisão, trepar nas árvores, desrespeitar o funcionário, brigar e chutar o colega e comer fruta verde. As auxiliares enfatizam que a indisciplina é: não obedecer na hora, não fazer fila direito, falar sem ordem. A diretora vê a indisciplina como um comportamento de criança "levada":

"Olha, geralmente, aquele taxado de mais levado é o que não

aceita [ri] a situação de regulamento, por exemplo: ele não

aceita ficar numa fila, então sai da fila mesmo, então esse

coitado, esse é que é o levado!..."

Sônia: "E como ele é repreendido?"

"Ah, força o bichinho a entrar na fila de qualquer maneira. Entra

na fila e pronto. Ou então diz: 'Não vou deixar você brincar

depois'. Não brinca, tira o recreio dele, deixa ele sentado um

tempo lá. Mas não tem nada assim de grave, devido à faixa

etária."

Todas essas infrações merecem castigos, e são admitidos pela chefe de disciplina: ficar em pé por 10 minutos; dormir mais cedo do que o horário previsto para se recolherem; ameaça de perder um passeio; uma palmada; ficar na hora da televisão a distância vendo ou sem ver, de costas; ver a recreação, mas não participar; e a ameaça constante de anotar o nome no papel para posterior castigo.

A diretora admite a existência de todos esses castigos e diz que frisa muito, com o novo funcionário, que não se pode bater nas crianças, mas sabe que tem uma palmada de vez em quando, na sua ausência. Afirma que "espancamento" não há, apesar de contar que presenciou uma plantonista "espancando" um menino porque ele não acordava, não se levantava para ir fazer xixi à noite. A plantonista gritava e batia no menino com um chinelo, as outras crianças ficaram muito assustadas. A diretora afirmou que imediatamente mandou a funcionária se retirar do dormitório e ficou lá com as crianças até de manhã.

Apesar de ter sido indiciada num "processo interno" 10 por espancamento, a chefe de disciplina se vangloria de que já não ocorrem castigos como acontecia há dois anos, quando ainda não era chefe e sim auxiliar de disciplina. Ela cita os castigos que aconteciam:

Bolo na mão, andar de joelhos, castigo a manhã toda. Havia

liberdade para tudo ocorrer. Não havia com eles

conscientização. Não havia atividade para eles — só castigo.

Não tinha nenhuma bola, nada, tinha muito tumulto, quebravam

muito a escola."

O que as crianças faziam? Eles não são saco de pancada,

então começamos a dar formatura, falar, cobrar, exigir o que foi

dito — controlar o que se passava dentro do refeitório.

Começamos a dar mais atividade. Para a brincadeira e dá

palestra. Conscientizar que os maiores são a elite da escola,

têm que dar exemplo.

Na fala da chefe de disciplina, percebemos que com o passar dos anos a instituição descobre técnicas mais apuradas para controlar as crianças. Já vimos antes a "técnica da conversa", que é um mecanismo de controle e poder mais sutil. O outro é considerar o internato como "casa" e se colocar no lugar da "mãe" ou "tia". É uma forma de tornar natural a relação do adulto com a criança, como se esta relação fosse familiar. Mas, como vemos ao longo dessas três escolas, a vida no internato não tem nada que se assemelhe à vida em família.

A vida da criança no internato é triste, a gente sabe que é triste.

A gente sabe que é triste, porque fica separado da mãe. Não

uso o termo internato para eles, uso só casa. Falo como se

fosse a mãe. Será que meu filho vai ser bem tratado aqui? Digo

que ele está em outro lar, aqui tem crianças, tem muita tia. Ele

fica perdido, quando recebe uma ordem, não sabe por que

estou falando aquilo. Tenho então que explicar: televisão só tem

duas, então tem que ficar quieto devido ao colega do lado.

As ameaças e os castigos ocorrem a todo instante. Pelo que pude observar, o castigo é dado por um pequeno desvio disciplinar do comportamento do interno — falar, não ficar na fila quieto, não ficar parado quando é exigido. Muitas vezes a falta cometida era tão sutil, que eu, como observadora de fora, não era capaz de perceber. Mas a cada detalhe a "tia" observa, vigia e penaliza. As próprias crianças não se dão conta da indisciplina muitas vezes, sem que, no entanto, sejam poupadas do castigo para o qual não há escapatória possível. Como diz Foucault,

todo detalhe é importante, pois aos olhos de Deus nenhuma

imensidão é maior que um detalhe, e nada há tão pequeno que

não seja querido por uma dessas vontades singulares

(Foucault, 1977, p. 128).

O que mais me surpreendeu foi descobrir que davam "castigo geral", por falta de funcionário ou simplesmente para poderem descansar após o jantar. Ao invés de recolher as crianças para o dormitório às 20 horas, conforme o regulamento, com enorme frequência recolhiam às 18h30min para escovar os dentes, colocá-los sentados de castigo no corredor e para dormir. Parece que é um exercício cotidiano de submissão e de culpa — "sempre fazem algo errado que merece castigo". Percebemos também uma certa flexibilidade do regulamento, só ocorrendo, entretanto, quando favorece os funcionários. Pude observar que algumas crianças aprendem a lidar com o castigo através do que denomino tentativa de burlar a punição dada. A criança não leva a sério a repreensão e brinca sempre que escapa da visão do adulto que a puniu. Apesar de minoritária, esta é uma forma de resistência exercida por alguns. Quando vão em grupo para o castigo, alguns vão sempre rindo e arranjando situações que possam driblar o tédio do castigo. Mas a maioria, quando é castigada, parece sofrer muito — chora, tentando não fazer barulho ou fica com o semblante muito triste de quem foi castigado, injustiçado, ou de quem está recebendo castigo sem saber por quê, só por hábito das auxiliares de disciplina. Alguns reclamam baixo ou para mim afirmando que nada fizeram para merecer castigo. Mas não ousam se rebelar. Em geral, acatam as ordens. E, de qualquer maneira, por qualquer pequeno sinal de rebeldia são ainda mais ameaçados pelas auxiliares.

18 horas: estão todos sentados no chão vendo televisão.

18h5min: a "tia" chama 32 meninos pelo nome, anotado no

papel.

Pergunto a três desses o que se passa: eles me respondem: 1.

"castigo.." (muito triste, e com cara de desolado). Pergunto: por

quê? "Não sei", responde; 2. "bagunça". Pergunto: aonde?

"Aqui na televisão" (mas não houve nada de excepcional pelo

que observei); 3. "castigo". Observo que uns riem e não ligam

quando a "tia" chama, outros estão muito magoados e tristes.

Eles entram no dormitório e ouço de fora o maior silêncio.

Depois a "tia" dá pijama novo e eles fazem a maior festa —

vestem roupas que dariam em mim e comentam rindo muito:

"parece saia", "é roupa de capoeira" e jogam capoeira. Soube

pela roupeira que esta roupa veio pronta do Internato VII, feita

pelas aprendizes de costura. "As que faço são menores, são do

tamanho deles", diz ela. Conversei mais tarde com a "tia" que

levou os 32 meninos de castigo para o dormitório — ficaram

sentados lá dentro no corredor e mais tarde foram dormir.

Perguntei a ela por que eles entraram cedo e falei que muitos

me disseram que isso era castigo. Ela explicou que havia falado

em castigo para eles entrarem, mas que não era não. É que

havia poucos funcionários e então elas preferem colocar uma

turma para dormir cedo. Perguntei por que ela simplesmente

não dizia isto para eles. Ela respondeu: "mas se eu disser isto

eles não entram e vão fazer a maior reclamação e confusão. Se

digo que é castigo eles obedecem, porque sempre fazem algo

errado mesmo". Então pergunto, claramente, se ela usa o

castigo para contornar a falta de funcionárias. Ela admite que

fazem isto com frequência, do contrário não o faria.

No pátio da televisão a "tia" chama a atenção toda hora por

causa da conversa. A meu ver ela é de uma intolerância

totalmente exagerada e despropositada. É severa demais e não

para de ameaçar e de dizer "psiu". A ameaça é colocar de

castigo e para dormir.

Um comportamento que me pareceu comum, sobretudo nesta faixa etária de crianças internas, como temos no exemplo acima, é a capacidade de brincar e se divertir com pequenas coisas. Mesmo na situação de repreensão e castigo em que se encontram, caso ocorra algo que alivie aquela tensão, eles brincam e riem. Isto me fazia pensar que essas crianças ainda guardavam uma possibilidade de expressão frente às situações frequentes de repressão e angústia.

Vejamos um raro exemplo, no qual a criança não se cala frente a uma ameaça de violência do adulto.

18h40min: dormitório. Quando entro, vejo os pequenos com a

"tia" Magda e estão todos sentados no chão de um lado e de

outro, encostados na parede. A "tia" está zangada e quer que

todos fiquem quietos e sentados. Há muito pouca conversa ou

bagunça. A "tia" diz: "não fiquem pensando que é porque a tia

Sonia está aí que eu não vou dar uma palmada ou chineladas

em vocês. Se for preciso eu vou dar.". Logo depois ela diz

ainda: "quem falou duvido, quando eu disse que dava uma

chinelada mesmo na frente da tia Sonia'?". Ela ameaça e logo

um pequenino diz alto e todos escutam: "duvido". Então ela ri e

diz: "sabia, é logo você Pedro, não vou te bater porque é

pequeno, mas não me diga mais duvido que eu te dou uma

chinelada.". Ela ri e todos riem descontraídos. Mas certamente

foi um ato de coragem do menino — não me lembro de

conhecê-lo anteriormente. Mas os meninos se aproveitam do

momento de descontração e começam a fazer "mais bagunça".

Pergunto a ela se é minha presença que os deixa assim, se

quer que me retire. Mas ela diz que posso ficar, "que é todo dia

assim", não é devido à minha presença.

Ela ameaça não dar merenda se continuarem a fazer bagunça

e a conversar.

E exige que fiquem quietos, encostados na parede. Logo

começa a distribuição de biscoito e vai dizendo que aquele que

não tiver de cabeça baixa não ganha, mas permite que eles

abaixem quase na sua vez de ganhar. A alguns ela não dá.

Pula sua vez dizendo que ainda não ficaram quietos. Mas no

final volta a eles, que então abaixam a cabeça e ganham. Todos

querem e parece que gostam muito do biscoito à noite. Um dos

pequenos, bem gordo, não ganhou, e ela, ao voltar a ele,

pergunta se quer. Ele diz que sim e ela pega três biscoitos e lhe

oferece. Mas, quando ele vai pegar, ela desvia a mão e ele faz

várias tentativas sempre olhando para os biscoitos. Ela fica

alguns minutos nesta brincadeira e todos passam a olhar e

achar graça. Mas é uma brincadeira terrível! Às vezes quando

ele tenta, sempre com a mão esticada, ela lhe dá o dedo

indicador, falando: "toma, pegue!". Ele, sem rir, não desiste,

apesar de não segurar seu dedo, ele continua querendo os

biscoitos. Finalmente, ela os enfia todos na sua boca, que

ficava aberta, ao tentar pegar os biscoitos, e diz: "toma logo

menino!". E ri e se afasta. O menino retira os biscoitos da boca

e os come devagar. Ele é um menino exageradamente gordo

para sua idade, tido como "aquele que come muito".

Assim que eles acabam de comer o biscoito, vão ao banheiro,

fazem fila e rezam dentro do banheiro em fila. Ela interrompe a

reza, pois diz que tem gente conversando várias vezes. Às 19

horas eles se deitam, às 19h15min está tudo muito calmo e

silencioso. Quando os coloca para deitar, há um menino que

canta (baixo, pois nem escutei!) e ela logo diz: "se tem cantor

aqui, vá cantar lá fora, hein!". E um fica de castigo em pé, não

se deitando com os outros. Mas, depois de 10 minutos, ela o

manda dormir (creio que mandou logo devido à minha

presença): "volte para a cama mas, se não ficar quieto, você vai

ficar de pé até eu sair!".

Conversando comigo, ela diz que na hora de deitar "é sempre

assim, esse tumulto para dormir.". Ela me fala que "às vezes

realmente dá uma palmada numa criança" e que Rita

(responsável pelos grandes no turno da tarde) também dá

palmada.

O que parece ocorrer aqui é uma contraposição entre a humilhação e o desejo da criança mostrar que ainda tem dignidade. E a isto a "tia" responde com nova humilhação mostrando sua superioridade (de força física).

Obter dados sobre castigos e repreensões não é muito fácil. Trata-se sempre de um assunto delicado, sobre o qual o entrevistado se recusa a dar informação, muitas vezes negando o que ocorre. Nesta escola, entretanto, acabei obtendo um número importante de dados fornecidos pelos funcionários. Nas escolas seguintes isto foi mais difícil, apesar de conseguir informações através dos internos.

A funcionária, ao bater, tem que estar atenta se bate na frente de colegas de sua confiança. Em geral, uma não "dedura" a outra, pois também sabe de coisas que a outra fez, proibidas pelo regulamento oficial. Uma "acoberta a outra". Este funcionamento torna muito difícil qualquer busca de melhoria no padrão de atendimento às crianças, pois quase todos acreditam que é preciso usar certas técnicas de castigo para manter as crianças sob controle. Assim, uma funcionária me disse que, quando eu fazia reunião de psicologia, era muito difícil falar qualquer coisa, pois abrir uma conversa implicava em todo mundo ter que se expor e expor o colega.

Apesar das ameaças de maior castigo para as crianças que porventura ousem falar do castigo que lhes foi infligido, sempre existe algum novato, ainda sem conhecimento das regras, que denuncia ou acha um jeito da diretora ver o machucado no seu corpo e tomar providências. Os meninos que denunciam os maus-tratos são considerados pelas funcionárias como aqueles que "entregam" e por isto é preciso tomar cuidado com eles. São discriminados e "desprezados" por elas. Esta atitude muitas vezes não deixa alternativa para a criança, que se vê discriminada e tenta descobrir como sobreviver ali, muitas vezes se tornando, aos olhos dos funcionários, "uma criança levada". As próprias funcionárias tomam cuidado com as outras, pois podem ser acusadas de algo que não fizeram. Assim, na mudança de turno, as crianças que estão machucadas devem ser mostradas para a colega com explicação do que houve.

À noite também se observam muitos castigos, mas há a preocupação dos funcionários em se explicar quando alguma criança amanhece machucada, como veremos nos exemplos retirados do "caderno de plantão noturno".

Domingo, 18 de abril de 1982.

O menor JCM não deixou ninguém dormir. Não estava sentindo

nada. Só pirraça, pois não queria botar as calças, parecia até

que eu estava matando ele (Plantonista).

21-04-80.

Encontramos o menor NKO com hematoma na altura dos olhos,

levamos ao conhecimento da coordenadora, foi às 21h40min,

quando verificamos as crianças (Plantonista).

Quando este tipo de ocorrência não é registrado no "caderno de plantão noturno", a plantonista é chamada à atenção e se pede um esclarecimento. Este caderno diariamente recebe o visto e a assinatura da diretora.

15-04-80.

O menor LCS amanheceu com o olho direito roxo e sangue

pisado na vista direita também. Não houve observação no

caderno de plantão. Por favor, não deixe de fazê-la num caso

deste (Assinatura da Diretora).

A diretora, apesar de parecer ter conhecimento de maus-tratos feitos às crianças, se diz impotente frente a esta situação, pois explica e pede, mas tudo continua ocorrendo. Entretanto, se ela toma conhecimento, pode adotar algumas medidas, que vão desde a repreensão (o mais comum) à demissão. As funcionárias então temem e, na sua presença, não fazem o que sabem que não deve ser feito.