Infância perdida
Introdução
1. Objetivo de estudo
Este estudo tem por objetivo proceder a uma análise institucional de um conjunto de sete internatos que integram uma determinada Fundação filantrópica, localizada na área periférica da cidade do Rio de Janeiro. Estes internatos se propõem a dar atendimento a
crianças "menores carentes e abandonadas",2 desde recém-nascidas até atingir 18 anos.
O termo "menor" é usado para dialogar com a literatura de referência sobre a questão. Entretanto, considero no decorrer do trabalho que esta categoria é produto de estigma mesmo nos
Códigos de Menores de 1927 a 1979.3 Devido a isto não usei o termo como categoria para o meu trabalho e adotei o procedimento de relativizá-lo, consoante o texto "Infância e Sociedade no Brasil", que aponta para a incorporação não crítica da categoria "menor" pelas Ciências Sociais.
Gostaria de esclarecer o que me motivou a empreender este estudo. Ele se iniciou quando, a convite da direção da Fundação, ocupei o cargo de psicóloga atendendo a todos os internatos. Depois de 13 meses de trabalho fui demitida através de uma carta que recebi em minha casa, alegando falta de verbas. Resolvi depois de seis meses voltar à Fundação e pedir autorização para realizar a pesquisa. Ela me foi concedida, para minha surpresa, de imediato e sem restrição de qualquer ordem. Assim, comecei a pesquisa de campo, buscando estudar a Fundação de outro ângulo que não o de funcionária da mesma, compreender melhor seu funcionamento e voltar a ter um contato com as crianças, aliviando, assim, a súbita interrupção que ocorreu.
Além de meu interesse específico de conhecer melhor o funcionamento dos internatos, na época só havia a publicação de Guirado (1980) sobre crianças institucionalizadas. Uma das razões que dificulta este tipo de estudo são os obstáculos que estas instituições criam uma sua realização. Outra é a dificuldade inerente a tal tipo de pesquisa — o pesquisador precisa ter grande respaldo ou liberdade, por parte da direção, para realizar seu trabalho de campo sem constrangimento e desenvolver uma relação de confiabilidade com os funcionários e as crianças internas que permita realização de entrevistas e obtenção dos dados. Sou grata à diretoria da Fundação que permitiu a realização deste estudo. Agradeço em particular aos diretores e funcionários das escolas que foram solidários e colaboraram na pesquisa de campo e na coleta de dados.
Na tese, como parte da metodologia, faço uma análise do trabalho de psicóloga desenvolvido nos internatos; e há uma parte dedicada às referências históricas da Fundação. Por uma questão de necessidade de redução do volume de páginas para a publicação do livro, considerou-se primordial manter o mais integral possível o texto sobre os internatos, reduzir as duas partes citadas e também suprimir os anexos. Estes capítulos permitem situar melhor a análise da estrutura dos internatos, porém não são imprescindíveis à sua
compreensão.4
Pretendo fazer um estudo detalhado da vida cotidiana das crianças nos internatos, buscando explicitar o percurso que um interno faz desde recém-nascido até alcançar a maioridade quando é desligado do internato. Pretendo desenvolver uma análise acurada, sobretudo dos "procedimentos disciplinares" (Foucault, 1977), que são um dos aspectos mais importantes nestes internatos com organização que se assemelha a uma caserna. O que perpassa todos os internatos indiferentemente é a disciplina, a mesmice, o determinismo, o massacre, o não reconhecimento, a vitória da morte psicológica. As escolas são analisadas por ordem de faixa etária das crianças atendidas, tentando tematizar suas questões dominantes.
Durante a pesquisa optei por percorrer as escolas segundo a crescente faixa etária das crianças, acreditando que assim poderia melhor perceber suas características e como estas poderiam afetar
os internos. 5
Esta é a única fundação filantrópica de meu conhecimento que oferece atendimento a todas as faixas etárias, desde recém-nascidos até 18 anos. Esta característica me pareceu ser de particular interesse, pois as pesquisas até então publicadas sobre crianças internadas sempre se limitam a uma faixa etária restrita. Ou seja, um dos interesses deste trabalho é tentar ir além das características básicas do funcionamento dos internatos. Busco analisar as diferentes características dos estabelecimentos que atendem a uma faixa etária restrita e como estas características afetam as crianças de diferentes idades.
O atendimento oferecido pela Fundação é considerado pela
Funabem, órgão oficial, como "modelar". 6 A exemplaridade desta instituição realça o interesse e ampara a pesquisa científica. É uma instituição que fornece as etapas completas de atendimento ao "menor", permitindo assim maior acesso à lógica deste tipo de instituição, fundamentada em rígidos métodos disciplinares e em procedimentos de inculcação pedagógica marcados por mecanismos coercitivos. O padrão de atendimento no que diz respeito ao aspecto material é considerado "muito bom" em relação aos demais existentes. Pude constatar este fato quando trabalhei na
Feem,7 cujo padrão de atendimento é muito inferior, sobretudo no que se refere a condições materiais e espaço físico.
As instituições filantrópicas, em geral, se assemelham à Feem quanto ao atendimento precário. Este é mais um dos elementos que favorece o estudo aqui feito. A precariedade de atendimento material existente nos outros internatos, no meu entender, seria um elemento por demais perturbador na análise do funcionamento institucional.