Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 20 de 62

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Infância perdida

3. A condição humana

Isto é um comércio! Não há ninguém interessado na criança. É

igual a boi! Põe no carro e vão se batendo e alguém ganha

dinheiro com isto (Inspetor do Internato VII)

Para concluir, a transferência tal como é realizada não permite que os internos construam uma história pessoal, pois esta se perde a cada mudança. E como seus dados familiares, quando existem nos prontuários, além do dado de identificação, ficam em poder do técnico, não é possível ao funcionário ou à criança ter acesso a eles. Muitas vezes ficam ainda nos arquivos dos órgãos de convênio por medida de "proteção e sigilo de informação das crianças". Assim, a cada mudança, é sempre um novo início, não há passado. Não há fatos, nem pessoas a serem lembrados, não há história possível de ser construída. Tudo é presente despojado de qualquer individualidade, de qualquer apego, de qualquer lembrança. (Altoé, S., Rizzini, I., 1985)

 

3. A condição humana

A primeira adaptação da criança à vida institucionalizada é no Internato I. Quando a criança com dois anos é transferida para o Internato II, mudanças importantes ocorrem. Em termos físicos, o estabelecimento é muito maior e a área livre e de recreação é muito ampla. Este e os Internatos III, IV e V se situam dentro de uma grande extensão de terra. Nesta escola, particularmente, os espaços são pouco delimitados e os muros fáceis de serem transpostos. A criança já anda com desenvoltura quando chega e se supõe que seja capaz de atender a ordens simples. Elas entram num regime de internato que vai se assemelhar aos outros dos quais possivelmente participarão. A importância de entrar no "grupo" e pertencer a este é uma exigência que ela terá que cumprir o mais rápido possível. É o que se espera dela.

As crianças que vêm da creche paradoxalmente oferecem uma dificuldade a mais para as funcionárias, em relação àquelas que chegam de casa. Elas não têm a autonomia que é esperada da criança de dois ou três anos. Sentem-se perdidas no local estranho, em meio a tanta gente, sem as pessoas de sua referência, que lhes dão segurança, tendo que fazer parte de uma turma que lhes é desconhecida, com a qual terão que disputar para conseguir o que querem, sobretudo a atenção do adulto. Como vimos no Internato I, o sistema de atendimento ali não favorece o desenvolvimento geral da criança. Assim, aquelas que vêm de casa chegam também com dois ou três anos de idade, porém são mais desenvolvidas; apesar de não estarem habituadas ao atendimento institucionalizado e vivendo o sofrimento da primeira separação dos pais, dão menos trabalho do que as que vêm diretamente do Internato I. Estas, apesar da experiência de internato, saem de lá muito pequenas, quando estão apenas iniciando a linguagem, adquirindo ainda a possibilidade de entender ordens e de serem aculturadas. O grupo que vem da creche tende a ficar unido no início, pois se reconhece. Os que vêm de casa, quando vêm com um irmão, também tendem a ficar juntos, e os outros ficam sós no meio de todos. Todo ano, ao longo do primeiro semestre, o funcionamento é muito tenso e difícil, pois a cada semana entra criança nova. Elas têm que se adaptar à dinâmica da instituição e as funcionárias têm que se adaptar às novas crianças, que ainda não conhecem e sobre as quais não têm domínio. O clima geral é de tensão, muito choro e angústia.

As crianças, quando vêm da creche, não sabem pedir para ir ao

banheiro e então muitas fazem nas calças. A gente tem que

ensinar. Só no final do ano é que as crianças estão sabendo

pedir e estão mais adaptadas e a gente também com elas. Elas

já fazem tudo conforme o regime (Chefe de disciplina).

Estar "conforme o regime" quer dizer entrar no funcionamento da casa sem dar problemas, ter autonomia para se vestir, comer, ir ao banheiro. Cada um dos quatro dormitórios tem 50 crianças para uma funcionária atender. Assim, é necessário que a disciplina funcione para que todos sejam atendidos dentro de horários regulamentados, dispostos de tal maneira que o funcionamento institucional seja organizado e eficiente.

Se, por um lado, neste internato, a criança é incentivada a adquirir logo autonomia para realizar algumas tarefas sozinha (comer, ir ao vaso, se vestir), ela aprende simultaneamente que só pode ter autonomia quando lhe for dada ordem para tal. A noção de autonomia é um paradoxo importante que a criança pequena enfrenta neste internato. A confusão que isto gera vai estar presente em todos os outros internatos. Se o interno decide realizar uma atividade, sem que a ordem tenha sido dada, é repreendido ou castigado.

Sônia : "Para ir ao banheiro tem que pedir à 'tia'?"

"Tem. A gente tem que avisar à tia porque uma hora a tia

procura a gente e não sabe onde tá, ela fica como uma doida

procurando para lá e para cá. Se a gente faz sem ordem dela

fica de castigo. Porque não pode ficar sem ordem dela não.

Tudo aqui tem que ser na ordem da tia. Tudo! Pegar toalha,

pegar perfume, ir lá no banheiro, beber água. Às vezes ela não

deixa pegar xampu que a gente traz de casa. Às vezes a tia

nem deixa beber água, ela pensa que a gente lá com frescura."

(Carmen, nove anos)

As crianças pequenas, como as maiores, sofrem o mesmo tipo de coerção da autonomia de seus atos. Não há nada que escape à vigilância da "tia" tanto as necessidades do corpo (beber água, ir ao banheiro, estar com calor ou frio), como a vontade de brincar ou de usar um perfume que é seu. A menina recém-chegada de casa expressa com clareza a diferença que encontra entre sua casa e o internato.

Em casa pergunto, mãe, posso brincar? Ela diz — 'brinque à

vontade'. Eu brinco, brinco, até de noite e de noite eu vejo

televisão. É bom na minha casa. Aqui não, aqui a gente não

pode viver solto, a gente não pode brincar até a hora que a

gente quiser. Aqui tem que depender das tias. O que a tia

quiser que a gente faça, tem que fazer. Se a gente não quiser

fazer uma coisa, a gente não quer, a tia diz: castigo, então

(Maria, 10 anos).

Um ponto importante sobre as consequências do sistema disciplinar se explicita aqui com clareza: não favorecer o desenvolvimento da autonomia do interno e sua capacidade de ter iniciativa. Este sistema favorece, sim, a infantilização do sujeito. Apesar de causar algum prejuízo ao funcionamento rotineiro, em contrapartida é melhor que a criança fique dependente e não cresça, pois pode-se mantê-la dentro de um controle planejado.

Os procedimentos disciplinares começam a tomar uma forma que deverá ser seguida nos outros internatos. Toda locomoção das crianças em grupo é feita em fila — esta exigência vai até a Escola VI, faixa etária de 12 a 14 anos. Não importa se a distância é curta ou longa. Eles saem formados dos dormitórios e entram formados no banheiro e saem deste formados novamente. Assim é feita qualquer locomoção para o refeitório, para o pátio, para o grupo escolar, para o passeio, etc. Aqui já há exigência do bom ordenamento da fila, que não existia no Internato I. Quando fazem fila, antes de se movimentar é feita a "forma": o perfeito alinhamento da fila, a ordem pelo tamanho, a posição do corpo ereto e em certas

ocasiões, o braço cruzado atrás das costas (ver foto 6).

 

Foto 6: Se não andam calados, em perfeito alinhamento, a fila pode

ser refeita.

Se, ao se locomoverem, infringem o regulamento de andar calados, em perfeito alinhamento, a fila pode ser refeita novamente e exigida a "forma". Todos assumem uma expressão de concentração e o rosto expressa seriedade, tristeza e tensão. Inicia-se aí, como diz Foucault,

uma verdadeira técnica para a apropriação do tempo das

existências singulares para reger as relações do tempo, dos

corpos e das forças, para realizar uma acumulação da duração;

e para inverter em lucro ou utilidade, sempre aumentados, os

movimentos do tempo que passa. Como capitalizar o tempo dos

indivíduos, acumulá-lo em cada um deles em seus corpos, em

suas forças ou capacidades e de uma maneira que seja

susceptível de utilização e de controle? Como organizar

operações rentáveis? As disciplinas que analisam o espaço,

que decompõem as atividades, devem ser também

compreendidas como aparelhos para adicionar e capitalizar o

tempo (Foucault, 1977).

O que nos resta saber aqui é para quê essas disciplinas capitalizam o tempo dos indivíduos. Uma coisa que se percebe desde este internato é que, além de se manter maior controle sobre o indivíduo, ao passar o tempo fazendo fila e "forma" é a vida que está passando. Constata-se então que a disciplina também é um "aparelho" (Foucault, 1977) para matar o tempo, ou seja, ocupa e mata o sujeito no tempo. Um exemplo, que já vimos no Internato I, neste sentido, é que o tempo gasto para permanecer no banheiro, aprendendo a disciplina do asseio, é muito maior do que o tempo livre para brincar. Ao longo deste trabalho veremos como a disciplina é o fator preponderante nestes internatos e como sua prática se transforma atingindo seu objetivo final no Internato VII.

A disciplina, neste internato e em todos os outros, é mantida pelas coadjuvantes, controladas pelas pessoas de cargo superior a elas — a "chefe de disciplina" e a "assistente de direção". A disciplina é uma exigência "da casa". Todos os funcionários que entram devem aprender como exigi-la. Não há curso, a pessoa deve aprender olhando os antigos fazerem. Assim, não sabem porque utilizam a "disciplina", nem a sua origem, mas têm que exigi-la, pois assim são considerados "bons funcionários".

Sempre foi assim. Trabalho aqui há quatro anos e sempre foi

assim.

Dizem que é para a disciplina . Senão as crianças fazem muita

bagunça. Eu não gosto, mas se só eu não fizer fila, eles vêm

me chamar atenção. Os superiores. Se não formar, por

exemplo, para entrar no refeitório as crianças vão para o pátio,

dispersam, ao invés de entrarem. E dizem que a gente não está

dando conta das crianças, do serviço. Dizem que a gente dá

conta se as crianças formam bem quietas e não fazem bagunça

na fila. Então a gente é boa funcionária (Coadjuvante de

disciplina) (Grifo meu).

Vemos então que as funcionárias também têm que ser disciplinadas, ou seja, seguir as instruções de seus superiores. Elas não podem questionar o que fazem. Elas só são capazes de disciplinar porque elas próprias já estão disciplinadas.

O número muito grande de internos para uma só funcionária tomar conta faz com que a disciplina seja um aparelho importante para o controle das crianças.

Cinquenta são muitas crianças. Não é que a gente não dê para

ficar, mas seria melhor se fosse menos. A gente poderia dar

mais atenção. Dar recreação, por exemplo, é difícil, porque tem

muita gente querendo brincar de coisas diferentes. Se a gente

tem menos crianças é mais fácil controlar . Se tem mais criança

a gente tem que tê-los todos juntos para controlar porque senão

elas se espalham, vão para a rua, etc. Se acontecer algo com a

criança, a gente é responsável. Está anotado no caderno que a

gente é responsável. Por isto é mais fácil para controlar fazendo

fila. Se fosse menos podia andar mais à vontade. Vindo na fila

elas se acalmam mais. Esse número grande, se vêm soltos

fazem muita bagunça. Quando eu cheguei já faziam fila e eu

aprendi. Quando tem pouquinha criança acontece de eu

chamar para o lanche, sendo poucas, elas ficam mais junto da

gente e mando entrar sem fazer fila (Coadjuvante) (Grifo meu).

A funcionária, ao falar da possibilidade das crianças se relacionarem de maneira mais individualizada, não consegue deixar de usar o termo "controle", tão presente para expressar sua função junto às crianças. Quando há muita criança, ela fica impossibilitada de dar atenção e só pode mantê-los junto de si sob uma rígida disciplina. Sem a sua atenção, as crianças não têm interesse ele permanecer ao seu lado e se afastam à procura de algo mais interessante. Apesar de perceber o que se passa, ela sabe de sua impossibilidade para modificar as normas disciplinares pelas duas razões que menciona: 1) com muitas crianças só é possível mantê-las juntas sob rígida disciplina; 2) ela própria está inserida dentro de uma hierarquia disciplinar, da qual não pode fugir. A disciplina perpassa todas as relações dentro do internato, sendo utilizada de modo silencioso. Não se fala muito a respeito, mas se controlam todos os indivíduos pelos olhares e pelas anotações escritas nos

cadernos.11

As crianças com frequência se alinham sobre a linha dos ladrilhos para facilitar o aprendizado da fila em linha reta. E, se alguém se descuidar, o auxiliar de disciplina pode empurrar com seu pé o pé da criança para que fique bem alinhada. A exigência com a disciplina nesta escola e nas outras data de sua fundação. Os alunos que entram na creche têm oportunidade de passar pelas diversas escolas da Fundação. Um deles, já adolescente, morando na Escola VII, lembra de sua passagem por esta escola:

Lá a pessoa não podia andar fora da linha. Se andasse,

apanhava. Se errasse, se a pessoa sujasse na calça, pegava o

chinelo e batia. Tinha que aprender onde era o vaso. Para

tomar banho lá a gente ia formado para dentro do chuveiro. Aí a

D. Maria pegava a bucha esfregava sabão e esfregava a gente.

Outro aluno já ia botando a gente debaixo do chuveiro e o outro

maiorzinho já ia enxaguando e outro já ia botando short e a