Infância perdida
5. Asseio e higiene — o controle do corpo
É notória, no funcionamento institucional, a enorme preocupação com o asseio. Devido à importância do aspecto médico, no sentido de evitar doenças que se disseminam com facilidade no ambiente de internato, a preocupação com a higiene do corpo é uma marca importante na relação do adulto com a criança.
A preocupação com a higiene dá um aspecto hospitalar às instalações, sempre muito limpas; porém, mais do que isto, o que chama a atenção é o pouco aconchego, a falta de cores que alegrem o ambiente e a eliminação de tudo que seja considerado dispensável. A decoração do ambiente é mínima e não chega a
modificar seu aspecto hospitalar (vide foto 4). Não há nada que lembre a casa, a mãe ou a família.
Foto 4: Chama a atenção o pouco aconchego, a falta de cores e a
eliminação de tudo o que seja considerado dispensável.
A importância do asseio para evitar doenças e contágios transforma todas as tarefas de atendimento à criança em atividades obrigatórias, que devem ser executadas com eficiência. Aliado a isto, o fato de haver um número grande de crianças realizando a mesma atividade ao mesmo tempo favorece que a tarefa seja feita de maneira mecânica pelas funcionárias. O banho, por exemplo, que pode ser uma experiência prazerosa para o bebê, é um momento de muita tensão, pois a criança é manipulada rapidamente com movimentos bruscos debaixo da água fria. Observei isto não só ao olhar como também ao dar banho em alguns bebês. Percebi como ficavam temerosos de qualquer movimento meu; o corpo enrijecia e eles choravam, como se temessem uma ameaça física. Não há prazer nesta atividade. E, na "linha de produção" do banho, a funcionária não percebe o que se passa com a criança. O importante é cumprir a tarefa.
O fato das tarefas serem sempre feitas em grupo faz com que as atividades rotineiras demorem muito. É fantástica a quantidade de horas que as crianças permanecem dentro do recinto do banheiro para ir ao vaso ou para tomar banho — são 4 horas e 40 minutos no total de horas por dia. Entretanto, o tempo para brincar é de somente 2 horas e 50 minutos. Aí também se pode ver a prioridade dada ao asseio que, em situação de coletividade, é muito mais importante do que o brincar.
O que se observa é que há, desde a creche, uma tentativa de disciplinarização e controle do corpo. Um dos rituais importantes é a ida ao vaso ou "nonol". As crianças têm horas estabelecidas para ir ao vaso fazer xixi ou cocô. Espera-se que a criança não tenha vontade fora dessas horas, mas o aprendizado é pouco eficaz, pois é comum a criança se urinar ou evacuar nas calças "fora dos horários". Isto irrita os adultos obrigados a limpar a criança. E, segundo uma funcionária antiga, "é uma hora em que elas dão beliscão ou tapa na criança". A "tia" muitas vezes considera que a criança "faz sujeira de propósito", sendo capaz de pedir ou de se controlar.
Há uma pressão enorme para que a criança entre na ordem. Parecem não considerar que a ineficácia do aprendizado se deve ao fato das crianças serem ainda muito pequenas, à situação de tensão no convívio da creche e, creio, sobretudo, ao fato do ensino destas atividades se fazer muito mais por tentativa de "condicionamento" do que por treinamento, que leva em consideração as necessidades individuais, ajudando a criança a perceber a si mesma e a conhecer seu corpo. O que normalmente seria um início de conhecimento do próprio corpo e sentimento de si mesmo se torna uma atividade de alienação, dificultando a relação com o mundo. Quando a criança quer ir ao banheiro fora de hora, nem sempre é dada atenção ao fato, e ela permanece mijada, apesar da ordem da direção de que as crianças devem sempre ser trocadas. Enfim, o que quero dizer é que não é reconhecida a necessidade da criança ir ao banheiro fora de hora. Isto é visto como algo que vem incomodar a atividade que se realiza. Não se conversa com a criança a respeito, ela é repreendida. Assim, tudo isto aliena a criança de seu corpo e a paralisa, como se o cocô e o xixi saíssem de seu corpo sem que ela pudesse ter qualquer controle, sem ela se dar conta. E a atitude das crianças, não só as urinadas como as cagadas, é de ignorar que estão naquele estado. É como se nada tivesse ocorrido, continuam a fazer o que faziam ou ficam paradas sem reação. Vejamos um exemplo:
Uma criança fez cocô nas calças (diarreia) no pátio e ficou
parada sem se mexer chorando. Uma outra lhe gritou: "cagão!"
e a empurrou. Como nenhum adulto atendeu logo, ela ficou ali,
em pé, sem se mexer. As crianças começaram a brincar
aproveitando a linha que o xixi e o cocô faziam no chão ao
escorrer pelo cimento. Abrindo as pernas, brincavam, fingiam
que estavam num cavalinho.
Veio então a coadjuvante e lavou a criança com a mangueira.
Fiquei impressionada com a cena e pensei que este tipo de
brincadeira surge como uma tentativa de lidar com a situação
de humilhação do colega. Uma situação que, em outras horas,
também é vivida por elas.