Infância perdida
1. Introdução
1. Introdução Na sequência de escolas desta Fundação o Internato VII é o último pelo qual os alunos passam antes de retornar ao convívio familiar, à comunidade, e de ter atividade remunerada e vida própria. Neste internato, a questão disciplinar enfatiza aspectos que, até então, apenas se esboçavam. Os atos de disciplina que analisamos até a Escola VI, que têm como principais instrumentos a repetição da fila, da "formatura" e da "ordem-unida", buscando o treinamento do corpo, dos gestos e a submissão automática, aqui já são feitos sem maior insistência. A ênfase dada é quanto a cumprimento de horários e comparecimento às diversas atividades programadas. Neste internato, tem-se a preocupação de remontar a sociedade em escala microscópica e assim preparar os internos para o reingresso na vida social. Ao mesmo tempo que é uma preparação para a saída da instituição total, é também a última fase para treinar conforme os ideais institucionais. A ocupação do aluno em atividades de trabalho é perseguida com tenacidade, em oposição ao ócio quase completo a que estavam condenados até então. Ele tem uma rotina a cumprir que não lhe deixa muito tempo livre. Além da escalado 1º grau, há também o aprendizado em oficinas profissionalizantes e o trabalho em "serviços gerais". Na escola formal, como nos outros internatos, é privilegiado o bom comportamento, o comparecimento à aula, sem haver preocupação significativa com as dificuldades de aprendizagem dos internos, considerando-a sempre como uma questão do indivíduo.
O que distingue e traz alguns aspectos novos é a utilização do tempo no ensino profissionalmente e em ocupações ligadas à
manutenção do estabelecimento; os chamados "serviços gerais". 1 Pela participação nestas atividades de trabalho o interno ganha um
"estímulo" que se constitui numa remuneração mensal em dinheiro.2 As novas características institucionais se refletem na relação do interno com os funcionários e provocam o surgimento de novos focos de tensão. Um deles é a inexistência de liberdade de opção quanto à escolha de um ofício determinado. O que seria uma apresentação dos ofícios acaba por ser uma imposição, contrariando-se o modelo da vocação ideal. Um outro foco ocorre dentro da própria oficina ou nos "serviços gerais", pois os mestres ou instrutores necessitam de alguns alunos para que possam obter a produção exigida pela Fundação. A mão de obra dos alunos é necessária não só para manter o estabelecimento ("serviços gerais"), como também para produzir serviços para a Fundação como um todo, como por exemplo o trabalho na gráfica. Assim, não só os alunos não têm livre opção como o mestre tem que atender à demanda da Fundação em detrimento do ensino ao aluno iniciante. Dessa forma, acaba por impor um mundo de trabalho sob severa coerção, não oferecendo opções como ideal mente um "trabalhador livre" teria na sociedade capitalista, ao mesmo tempo que subverte o objetivo pedagógico que se propõe. As tensões se ampliam entre os funcionários e os internos, sendo, entretanto, sempre vistas pela direção como problema disciplinar. As punições impostas passam a ser econômicas desconto no "estímulo" — e não somente corporais.
O controle do indivíduo no tempo e no espaço é perseguido através das múltiplas punições. Ao longo do dia, todo aluno tem alguma atividade rigorosamente cronometrada a realizarem algum local. Portanto, não pode estar transitando livremente pela escola, sob pena de ser repreendido. O ensino profissionalizante realiza este controle concretamente, havendo cadeados nos altos portões de ferro para que nenhum aprendiz escape de onde deve estar no tempo que lhe foi determinado. A disciplina se torna mais presente dentro de cada atividade desempenhada.
A relação de convívio com os colegas, com os mestres, professores e funcionários em geral é considerada também uma questão disciplinar, quando, por exemplo, o interno falta com o respeito à autoridade, reclama ou não aceita alguma ordem. São feitos registros de diversas ordens, centralizados na secretaria sob a guarda do assistente do diretor e do diretor. Aqui a burocracia toma uma forma até então não existente nos outros internatos. A sua função se atualiza através de "relatórios", "mapas", "prontuários", "pareceres psicológicos e sociais" e registros, tais como "ficha de disciplina" e "ocorrência", registro de transgressão de regras nas oficinas e na sala de aula. Nesta escola, temos o ponto alto da exigência disciplinar aplicada ao trabalho, ao estudo e à submissão aos adultos, que se pretende irrestrita. É ao mesmo tempo uma verificação do aprendizado anterior da disciplina e uma correção do que não foi aprendido. Aqui, o aluno deve ativar sua "recuperação" e estar pronto para o convívio em sociedade. Aqui também se delineiam com maior imensidade as perspectivas futuras. Não só pela idade dos alunos, que já estão em plena adolescência, pelo aprendizado de um ofício e pelos caminhos que se delineiam para o futuro fora do internato, mas sobretudo pelo tipo de tratamento dado aos alunos, o qual marca fortemente um caminho, paradoxalmente esperado por todos os funcionários, que é o da marginalidade.