Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 36 de 62

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Infância perdida

5. "A cabeça não pensa, o corpo sofre"

Eles vêm se proteger aqui. Outro dia eles vieram. Quatro

queriam pegar um menino mas o inspetor mandou sair todo

mundo e disse: 'Se querem bater nele é porque fez algo que

não devia'. E tivemos que soltar. Não sei o que houve depois.

Este sentimento de desproteção e abandono marca todo o cotidiano de diferentes formas nos diversos internatos. No lugar da atenção do adulto, de que a criança necessita, ela encontra a disciplina, a "formatura", a "ordem-unida", o castigo, o aprisionamento de seu corpo e dos próprios gestos. A relação pessoal e individualizada, salvo exceções, não ocorre nem nos internatos das crianças pequenas nem nos dos meninos maiores ou dos adolescentes. O sistema institucional, ao contrário, parece estar sempre atento para desfazer esta possibilidade quando ela surge.

 

5. "A cabeça não pensa, o corpo sofre"

As crianças, aqui em maior número, perdem, mais do que nos internatos anteriores, seu referencial de identidade. São vistas e denominadas pelos inspetores com frequência como uma "massa" que é preciso "dominar e controlar". Além da "formatura", realizada com uma frequência impressionante, observam-se outros tipos de punição:

a) o castigo oficial, que consiste em ficar em pé por minutos ou horas seguidas, em exclusão das atividades, em não permissão para ver os pais no dia de visita, ou para sair com eles:

19h40min: eles saíram do dormitório onde estavam em pé e

agora estão formados no pátio de castigo. São 72 alunos. Faz

frio e eles ainda estão sem camisa. Uns cruzam os braços pelo

frio. Estão no sereno. Os meninos falam para mim: "tia, coloca

aí Escola mendiga. No almoço só dá uma colher de arroz". "É

mentira, tia." E o inspetor escuta e diz: "Ô rapazinho, pare com

essa conversa aí." Mas eles continuam: "O feijão é azedo, a

cama é de pedra, o vaso está quebrado".

b) o castigo não oficial, mas usado com frequência segundo os alunos, é a malha, como também o uso da força física do inspetor para bater no menino com correia ou com a mão. Essas punições são geralmente negadas pelos funcionários, que acobertam uns aos outros, mas são reveladas pelos meninos, mais assustados com tais práticas, ou por confiança no seu interlocutor (por exemplo, funcionários da escola anterior). Veremos mais adiante alguns exemplos.

Nesta escola encontramos uma situação particular que se enquadra também dentro das práticas de controle, submissão e constrangimento das crianças. É o uso da sala de televisão. Esta sala fica do lado esquerdo do refeitório e tem um aparelho de televisão no alto. Não há nenhuma cadeira ou qualquer conforto. As crianças sentam no chão para ver os programas, segundo as determinações dos inspetores. É sobretudo usada como sala de castigo ou, sempre que acham necessário, para conter a "massa" de crianças e controlá-la com um ou dois inspetores.

Justificam o uso da sala em situações não justificáveis como, por exemplo: confinar todas as crianças ali para separar quem vai almoçar, passear, etc. O habitual, entretanto, dentro do funcionamento da escola, é fazer esta separação colocando os meninos em forma no pátio. Constrangê-los dentro de um espaço tão pequeno me parecia um castigo a mais para todos, houvesse ou não motivo. Outra justificativa alegada pelos inspetores é que "facilita o seu trabalho", eliminando qualquer possibilidade de descontrole. A "massa" comprimida no menor espaço possível, com vigilância e coerção severa, é mantida quieta em situações ou dias em que os inspetores preveem que possa ocorrer qualquer tumulto. A observação a seguir ocorreu num domingo em que os meninos recebiam visita dos pais. Segundo os inspetores, eles recebem ordens para manter os meninos comprimidos na sala pois a direção

do internato considera que, como só alguns recebem visita, 12 é melhor que não vejam e não participem da visita os que não as recebem. Não só estes ficam chateados e tristes como podem "aprontar" algum tumulto junto ao portão, na frente dos visitantes.

Domingo — 17 de outubro de 82 — 13h45min: estou sentada

junto aos meninos, no fundo da sala. Chega mais um inspetor.

Agora há dois. Eles recolhem aos poucos os pedaços de pau

que os meninos têm na mão. Põem de castigo dez alunos,

alguns em pé, de frente para a parede, só escutando a

televisão, sem poder ver as imagens. Abaixam o som para fazer

isto e, depois que põem "tudo em ordem", aumentam

novamente. Vez por outra, o inspetor manda outro interno para

a parede: "Vá para a parede! Você não quer ver televisão". Isto

quando o menino está inquieto ou mexendo com o colega, nada

de importante para mim, coisa que ele poderia chamar a

atenção e pronto; ou então diz: "você estava colocando alguma

coisa no colega". O menino insiste que não fez nada, mas o seu

manda para a parede, sem conversar, sem apurar o que

ocorria. O seu, que está perto da televisão, tem uma vara

grande na mão e, com a vara, empurra o menino deitado no

chão e bate em outros para se comportarem. Não podem deitar,

nem dormir ali. É um menino que me mostra: "olha lá,

batendo!". Eu não percebi, estava atenta ao outro lado. Faz um

calor horrível. A sala é cheia demais. É muito estranha esta

atitude de prendê-los aqui com o pátio grande lá fora. Alguns

querem ir ao banheiro e esperam sentados na porta. O seu

libera aos poucos, quando alguns voltam ele libera outros. Isto

pode ser um recurso dos meninos para sair da sala. O banheiro O castigo se acentua nesta escola. Há um marco que vai se repetir nas próximas escolas — a rigidez da disciplina com a consequente repetição incansável da ordem-unida. Isto não é considerado pelos inspetores como castigo, mas assim é vivido pelos internos (Entrevista com três internos: Wagner – W, Perereca – P, Carlos – C).

é do outro lado do pátio. O seu foi colocando mais meninos de

castigo. Futuca a criança com a vara e manda ir para a parede.

Já há 16 de castigo!

2h10min: finalmente o inspetor diz: "quem não quiser ver

televisão, pode sair". É o maior tumulto, a maioria sai para o

pátio. No final, conto uns trinta que ficam vendo televisão e

mais os que estão de castigo. O seu separa oito meninos

porque considera que "estão querendo fugir". Vejo dois que

chupam o dedo.

2h15min: O seu organiza os de castigo tocando-os com a vara:

todos de frente para a parede bem perto uns dos outros — é

assim que ele quer que fiquem.

No mesmo dia observo às 7h30min e também mais tarde, às

17h20min: os meninos são recebidos por um inspetor, que

coloca todos na sala de televisão; ficam absolutamente

comprimidos e logo faz um calor infernal. Cheiro de suor,

"murrinha", como dizem. Parece uma sauna. Com os que não

querem entrar, o inspetor insiste. Apesar de firme, sorri e é

simpático. Pergunto por que os coloca assim comprimidos. Diz:

"quem apitou é que mandou entrar; é para separar os que

querem jantar [sopa e pão]". O que poderia ter sido feito fora.

Separar é o maior tumulto, falta espaço e eles saem aos

grupos. A grande maioria vai jantar.

Quando pergunto ao inspetor por que comprime os meninos na

sala de televisão, ele parece se dar conta do absurdo que exige

dos meninos. E, como não é possível justificar o injustificável,

diz então que "cumpre ordens". Assim se exime de

responsabilidade ao executar esta prática de coerção, de cuja

insensatez ele se dá conta. E tal prática vai além da ordem,

porque é desnecessária para mantê-la. É o que poderíamos

denominar tortura branca.

a. "Lei do oeste"

Eu: Faz muita fila aqui?

Eles (em coro): Faz. Na hora do almoço, no banho.

Eu: E vocês acham bom?

Eles (em coro): Não!

P: Ainda mais no sol.

W: Na quadra.

P: Na quadra, quando tá quente mesmo a gente está descalço

e fica queimando nosso pé.

C: Nossa pele.

P: Ele faz tudo isto.

Eu: Ele faz isto de propósito?

Eles (em coro): Faz.

P: Ele não faz de propósito não — é que a gente não consegue

formar. Quando a gente forma ele também tem que ficar

descalço lá na quadra. Ele fica calçado e a gente fica descalço.

W: A quadra lá quente e ele forma, ele fica de sapato. Seu Edir

é de fazer isto, mas os inspetores têm pena de fazer isto. Seu

Edir é um inspetor.

C: Aquele que me deu um chute aqui.

P: Todo banguela, chato pra caramba.

Os meninos narram a nova-velha forma de castigo baseado na busca da disciplina pelo cansaço e repetição contando com o humor-negro do inspetor.

W: Dá licença — para os caras que bagunçam na escola agora

sabe o que tem para eles? Lei do oeste. É para o pessoal que

bagunça. Recolhe e fica até a noite.

P: Seu Gama que inventou tudo isto. Falou: vai ter uma lei do

oeste agora.

W: É, sempre teve, agora este ano vai ter. A lei do oeste é para

o pessoal que bagunça a escola toda e bota de castigo de

manhã, começando de manhã até a noite, até 9 horas.

P: Em qualquer lugar.

Narram também outros castigos mais severos, de que os inspetores não falam:

Aviãozinho, de costa [os dois braços para cima e uma perna

encolhida, de pé].13 Tem de cócoras também. Ajoelhados de

braço para cima.

P: Deixa em lugar que tem terra e fica a marca aqui [no joelho].

W: Deixa de pé, braço para trás. Onde que fica assim? Na sala

de televisão em qualquer lugar!

P: O seu Carlos José um dia botou todo mundo de castigo.

Escolheu uma turma, botou de joelho e braço para cima.

C: O motivo é bagunça.

W: Motivo é que eles bagunçam e depois eles pagam. O seu

mesmo fala, quando eles estão correndo: galinha de casa não Os movimentos de resistência dos meninos são sutis, segundo o inspetor, mas perceptíveis, entretanto, a todos eles que fazem parte do sistema.

se corre atrás... a cabeça não pensa, o corpo sofre. O seu

mesmo diz.

O inspetor, mesmo o mais inexperiente, percebe que para manter as crianças dentro da disciplina exigida pela escola é importante ter ascendência sobre elas, ter "domínio". Assim se justifica o castigo:

Se a gente não dominar eles agora, eles tomam conta da gente.

Eles se juntam, por exemplo, para não fazer formatura, fazem

mais bagunça. Uns falam para os outros e todos falam. A gente

pode dar uma hora de castigo que eles não ligam. Outra

bagunça é no refeitório — sujam tudo, jogam comida no chão.

Mas eu não sou rígido com a disciplina. Eles já não têm nada e

se ficar só castigando eles se viciam também; depois temos

que castigar todo dia.

O inspetor percebe aqui a resistência das crianças ao controle rígido a que são submetidas. Os inspetores, por sua vez, são vigiados por seus superiores e percebem a atitude dos meninos como falta de cooperação.

Para atrapalhar o serviço da gente eles mijam no pijama,

andam devagar para atrasar. Sabem que o chefe de disciplina

vai chamar a atenção da gente.

Os meninos não têm culpa, mas a gente se atrapalha. Aquele

ali é difícil. Já quebrou a cabeça de dois, com a vassoura.

Estavam de briga com ele. A gente faz o que pode com eles,

mas eles não cooperam com a gente. Fazem pirraça, não se

comportam. Se é passeio, eles formam rápido, e abaixam a

cabeça. Esses meninos só fazem o que é do interesse deles.

Não cooperam com a gente. Tem alguns que são bons, a gente

tem confiança. A única coisa que posso fazer é recolher após a

janta. Ficam de pé aqui. Falo com eles que a gente não tira eles

da cama para dar castigo. Eles é que procuram. A gente só

castiga porque fizeram algo.

Você, de fora, acha que não é bagunça. Mas a gente vê. E se a

gente não der uma tranca de vez em quando eles tomam conta

da gente14 (Inspetor).

A obediência à disciplina deve ser cega. Quando não é, os inspetores dizem que os internos "buscam" o castigo, que são culpados de serem castigados. A situação é invertida. Como se os inspetores não fossem os algozes. Vejamos o que diz um inspetor aos internos formados para retirar os castigados:

Na hora de cobrar todo mundo esquece. Ninguém lembra o que

fez. Seu Jair (chefe de disciplina) ainda tem gente para tirar de

ontem! A gente avisa duas ou três vezes. Não vejo inspetor

falar para vocês ficarem errados e depois cobrar de vocês.

Vocês poderiam estar brincando e agora estão aqui na

formatura (Inspetor).

Entretanto, para o espectador de fora como eu, o que se observa é que as crianças têm um cotidiano constrangedor o tempo todo, como se delas só se esperassem gestos e movimentos suspeitos. Estar conforme a regra implica em funcionar dentro de uma faixa tão estreita que facilmente os meninos são considerados "infratores". Para os inspetores, entretanto, esta obediência cega à disciplina é como se fosse natural; se as crianças não obedecem, é porque "querem ser castigadas".

Dentro desta lógica a culpa é do interno que busca o castigo. O tempo todo o inspetor lhe diz isso. E a outra face desta mesma moeda é que o inspetor "prevê" que a criança vai cometer uma infração. A previsão marca nos meninos a certeza de que seu comportamento é "infrator" por intenção, pois foram avisados. Mesmo que se encontrem alguns críticos em relação a esta colocação do inspetor, a maioria parece não conseguir se safar da previsão, como se só restasse ser realmente infrator, sem poder escapar da faixa extremamente estreita onde lhe é facultado viver.

b. Malha — uma prática covarde de punição

A malha é a prática mais covarde de punição. O principal é que os inspetores não "colocam as mãos" no menino para bater. Eles usam os próprios garotos. Como foi dito anteriormente, os meninos não têm sentimento de proteção e conforto no internato, pelo contrário. A prática de malha é um incentivo à violência entre eles, incentivo à identificação com o inspetor, aquele que castiga. Ajuda a esfacelar qualquer sentimento de solidariedade entre colegas. Fortalece o conceito de disciplina, do certo ou errado e de que aqueles que erram devem ser punidos. A malha é uma prática comum e antiga mas, em geral, feita de maneira discreta. Quando trabalhei como psicóloga, nunca percebi sua existência. Nas observações de pesquisa, entretanto, pude constatá-la diversas vezes e tive informações de seu funcionamento pelos internos. Quando perguntei a um inspetor conhecido meu, ele admitiu sua existência, mas tentou disfarçar e desculpar os colegas, como se isso ocorresse só por gosto e agressividade dos meninos. Disse que não concordava com esta prática. Apesar de se eximir de qualquer responsabilidade, os meninos deram exemplos citando esse mesmo inspetor. E, quando o inspetor fica constrangido com a pergunta e diz que não gosta desta prática, fica muito claro o quanto ele tem consciência de seu ato.

Descobri a existência da malha ao perguntar a um aluno o que se passava com um menino que segurava um galho de árvore no meio do pátio das 18h30min até às 20h30min. Muitas vezes eu não perguntava ao funcionário e preferia pedir informação aos alunos, pois notava que ficavam muito perseguidos com qualquer pergunta sobre a situação de castigo ou punição. Vejamos na observação feita:

20h30min: o menino de castigo segurando um galho de árvore

no meio do pátio continua lá (desde as 18h30min). Os meninos

implicam com ele e me mostram: "Hi, depois o seu manda

malhar quando tira galho da amendoeira. Todo mundo bate na

cara, dá soco, machuca ele." Depois pergunto ao menino o que

ocorreu e ele me diz que estava brincando e foi pegar algo que

caiu na árvore e o galho cedeu. Não foi de propósito, mas foi

castigado. Ele teve que ficar segurando o galho, como se fosse

ele a árvore, para dar exemplo aos outros. Os coadjuvantes

dizem que se não cuidarem bem não cresce nenhuma árvore

no pátio.

Fiquei então atenta à questão que me passara despercebida até aquele momento.

Numa rodinha espontânea que se formou no pátio com três meninos de 10 anos e 11 anos obtive informações mais detalhadas, sem qualquer demonstração de constrangimento.

Eles: Malhar é dar na cara.

Outro: É dar pontapé, dar soco na boca, dar qualquer tipo de

soco nos olhos.

Eu: Quem é que dá?

Eles: Nós mesmo! A turma faz aquele túnel, aí manda o garoto

entrar... Às vezes ele manda a gente formar assim em duas filas

e separa, aí manda o cara correr e vai malhando.

Eu: E todo mundo malha?

Eles (em coro): Malha! Alguns... Seu Antonio Luís fez isso esse

ano. Ele pegou, disse: Sá Carreto vem cá. Aí ele não veio, ficou

demorando. Disse: 'Quando eu apitar o pessoal que estiver no

pátio pode malhar ele'. Chegou, piiii, apitou e todo mundo ficou

brincando e depois malhou ele, aí todo mundo ficou malhando

aí depois ele mandou largar.

Eu: E machuca?

Eles (em coro): Machuca! É para valer. Tira sangue. Tiraram

sangue do Sá Carreta.

Eu acho que esses alunos que são tão bagunceiros poderiam

passar para outra escola e ficar aqui só aqueles que sabem

mesmo brincar. Os quietos.

Eu: E vocês acham certo esse negócio de malhar?

Eles (em coro): Não. Não podia existir isso na escola não.

Eu: E por que o inspetor manda fazer isso?

Eles: É porque eles fizeram coisa errada. Quando um garoto faz

uma coisa errada. E ele manda. Qualquer coisa. Quando está lá

em cima no pátio, manda descer e não desce. Chama e bota de

castigo.

Eu: Se vocês não acham certo, como é que vocês também

batem?

Eles: Porque o inspetor manda! É, ele manda. Mas para mim

isto é covardia. Acho também.

W: Mas você bate (ri).

C: Eu malho.

W: Eu malho. Mas eu tenho pena de malhar; aqueles dias eu

não malhei nenhuma vez.

C De noite eu choro. Eu sinto pena deles.

W: Eu mesmo peço perdão. Xingo eu mesmo.

Alguns depoimentos são dramáticos e mostram o sofrimento agudo vivido pelos meninos nos internatos. Aliadas ao sentimento de desproteção, de não ter a quem recorrer, abatem-se sobre eles a ameaça constante e a impossibilidade de se livrar desta situação ou das pessoas que os perseguem, colocando em questão a sua própria vida. Vejamos o depoimento a seguir:

Eu: E o que tem de bom aqui?

Ele: Só tem é... Não tem nada! Hum...

Eu: E a escola?

Ele: A escola é boa, o inspetor é que é ruim. [Chora.] Mas eu

quero sair daqui! Eu sei, o Sr. João fica falando aí que ele vai

ficar aqui para sempre. Eu quero sair daqui!

Eu: O Sr. João disse que não vai sair daí não?

Ele: Não. Ele nunca vai sair daí não. Ele vai ficar de vez aí.

Dalí, ele manda Roberto José ajuntar uma turminha aí e ele fala

assim: 'quem tiver falando assim dá malha! Não precisa falar

mais, por mim pode dar malha até morrer. Pode falar com quem

for'. E eu fui e falei agora com a senhora para ele ser expulso.15

Eu quero que esse homem sai daqui [chorando].O cara aí só

vive batendo uns nos outros. Eu não aguento! Só sofrendo aqui

mesmo que eu fico, daqui a pouco, desses inspetores aí, dá um

soco assim no peito de um menino pequeno, nem aguento! Vai

morrer direto. Ainda manda, o Sr. João falar mesmo assim: 'o

último a correr pode dar malha'. Aí eu tava correndo e os caras

me deram tapa no meio das costas [chorando]. Não pode nem

correr para a escola para chegar primeiro para a recreação que

ele manda malhar. Então quero sair daqui!

Eu: Você reclama com o diretor que o seu João bate em você e

ele não faz nada?

Ele: Ainda o diretor não resolve nada. Se falta com a disciplina

então é malhado. Ainda mais que eu sou doente da cabeça. Os

doentes não fica lá no hospital? Então, eu sou doente também,

que nem o Jorge, ele é doente. Ele também tem que ficar lá.

Essa doença aqui, se eu ficar e os caras me malhar, a crise vai

aumentando e eu vou morrendo, e dali a crise fica muito difícil

para sarar! Dali quem vai pagar o caixão? Quem vai pagar o

caixão?

1 Num dos dias em que fiquei até a noite no internato, a diretora passou e comentou com os 28 meninos, que estavam de pijama, formados de castigo no pátio: "Vocês estão de vigia junto com os inspetores?" Eles nada responderam à ironia da diretora.

2 Um antigo inspetor do Internato VI, ao saber que eu iria defender a tese na França, encomendou-me um apito por considerar que lá se fabricam os melhores.

3 O aprendizado da "formatura" e da "ordem-unida" ocorre no Internato III. Ver INTERNATO III, item "Obediência e repetição".

4 A diretora da Escola III já havia comentado comigo sobre os castigos em dias consecutivos como sendo uma prática comum neste internato, não aprovada por ela.

5 Os internos podem chamar os inspetores de "tios", mas o mais frequente é chamá-los de seu, uma abreviação de senhor.

6 Em cada dormitório há um inspetor responsável por turno de 8 horas de trabalho mas, no domingo, eles dobram, isto é, trabalham de 5 horas às 21 horas, para substituir o colega e assim todos poderem ter uma folga quinzenal aos domingos.

7 O inspetor informa que só tem 6 meses de trabalho. É cunhado de um chefe de disciplina. Tem 20 anos.

8 Aos domingos, de 15 em 15 dias, todos são obrigados a ir à missa.

9 São objetos pessoais que eles fazem de um material plástico ao qual dão muito valor.

10 No dormitório 1 há 50 meninos; no 2, 100; no 3, 95; e no 4, 95. Em cada dormitório há um inspetor responsável pelos internos. Dados coletados em setembro de 1982.

11 Ao comentar esta história com o chefe de disciplina, ele me disse que este menino é "maluco", perturba muito a rotina e deveria ir para uma escola especializada.

12 Somente ¼ dos meninos recebe visitas ou sai quinzenalmente.

13 Segundo depoimento de um ex-aluno da Funabem — dado às minhas alunas da Universidade Santa Úrsula — ele também foi castigado com o "aviãozinho", com a seguinte diferença: em cada mão tinha que segurar um tijolo e se deixasse cair ou abaixasse o braço aumentava o castigo. A chamada "malha" ele conheceu como "corredor polonês". E falou também de outro castigo chamado de "agulhinha", que consiste em ficar apoiado na parede com a ponta do dedo indicador durante um longo tempo. Se se apoiasse com a mão toda, apanhava.

14 Este comentário do inspetor pode ser uma justificativa por se sentir constrangido, vigiado ou desaprovado por mim, que tudo observo e anoto. Como pesquisadora, meu comportamento se assemelhava ao que ali acontecia diariamente — um vigia o outro que vigia o outro, etc.

15 Eu própria presenciei cenas como esta narrada por ele, na observação do dormitório 1 como também em outro pavilhão — meninos dando malha no colega.