Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 30 de 62

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Infância perdida

6. Recreação vigiada

Isso mostra mais uma vez como numa instituição total não há lugar para perguntas e indagações, mas tão somente para "cumprir ordens" e seguir a tradição. Não há mobilidade na dinâmica institucional. E mais uma vez a maneira de lidar com a questão não é a favor da criança, mas para discriminá-la e humilhá-la perante os outros.

 

6. Recreação vigiada

Ao jogo não é possível impor modelos, em nome dos quais a ordem se legitima e aperfeiçoa seus meios de influência e produção. O jogo é uma via e no seu percurso se constituem as significações do sujeito. O jogante, mesmo seguindo regras e estando referido a algo externo — o brinquedo — se dispõe à incerteza, à possibilidade e ao risco.

(Navarro, Vital Brazil, 1987, p, 79)

No internato toda hora é hora da criança estar atenta a alguma ordem dada. Na recreação, que pode ser "dirigida" (as "tias" orientam alguns jogos ou alguma atividade) ou "livre", as crianças têm sua hora de maior relaxamento. Mesmo assim, como veremos a seguir, elas estão o tempo todo sob o olhar da "Lia". Não há chance da criança estar só, ter seus segredos, ou escapar da vigilância dos funcionários. A recreação, como talvez não possa deixar de ser num ambiente deste tipo, tem suas regras e condições. Não é livre. Livre só se é na fuga, atividade impossível para as crianças dessa idade. Elas começam a fugir a partir de 8-10 anos, no Internato IV.

Durante a semana o horário de recreação é pela manhã, para as crianças que vão para a escola à tarde, e à tarde, para aquelas que

vão de manhã.14 A recreação tem a duração aproximada de três horas com um lanche no meio. O espaço pode ser: o pátio de cimento ligado ao estabelecimento, mais utilizado para jogos dirigidos; o parque, atrás dos dormitórios, que tem alguns brinquedos do tipo gangorra, escorrega, balanço, para a chamada "recreação livre"; o pátio da "escolinha", um espaço fechado como muitos; e o chamado "campão" ou "grêmio", onde há um campo de futebol. Este é um local inteiramente aberto, sem qualquer cerca e muito amplo. Os lugares mais usados são a "escolinha" e o parque. Aparentemente dão menos trabalho para as "tias", pois elas não dão brinquedos para as crianças. Eles brincam com o que encontram — folha de árvore, papel do chão, pau, etc. Em geral, sempre há brinquedos guardados, o que ocorre em todos os internatos, mas que não são usados, sob a alegação de que são logo quebrados. Os brinquedos são de baixa qualidade, frágeis e de plástico, como em todos os internatos desse tipo. A escolha do local da brincadeira é feita pela "tia". Não é dada chance às crianças de escolheram o local, o que determina as brincadeiras possíveis. A vontade da "tia" é todo-poderosa e aparentemente aceita pelas crianças como algo natural. Se há resistência, só a notei expressa de maneira passiva, sem reivindicar claramente um pedido, como por exemplo todos têm que ver televisão se assim é determinado, mas aqueles que não têm vontade se distraem conversando, quando a "tia" relaxa sua vigilância, apesar de permanecerem sentados nos seus lugares.

Veremos a seguir algumas observações comentadas dos diferentes tipos de recreação nos locais de que falamos acima.

"Recreação Dirigida"

7 horas: as 100 crianças que não foram à escola formam em

fila, na quadra e, sob as ordens da "tia", fazem "ordem-unida".

Depois então estão livres para brincar. A "tia" conversa com

todos e o resultado é a separação em turmas para jogar bola.

Outro grupo bem maior prefere pular corda com a "tia". Um

terceiro grupo pega um boliche e logo joga animadamente —

eles me pedem para ajudar a separar o time (mas eu não o

faço, creio que o pedido foi só por pedir, eles já estavam

organizados).

Corda: a "tia" segura de um lado e outro menino do outro,

muitos querendo pular. Toda hora a "tia" faz uma repreensão:

"espere, não vá agora", "um de cada vez ou dois", "bate direito",

"assim não" — sempre com cara zangada, querendo pôr

ordem. Os meninos, por sua vez, pareciam não se divertir

muito, com cara triste.

Esta "tia" larga a corda e vai até o gol (não vi ninguém

chamando) e organiza como "deve ser" o jogo — uma fila para

chutar e um goleiro. Briga com um que está no gol e não

deveria estar.

Noto que há maior relaxamento entre as "tias", mais

descontração, estão mais soltas. Conversam com um e outro

nos pequenos grupos. A maior parte de suas intervenções é no

sentido de organizar algo ou resolver um problema para as

crianças. Uma "tia" pega giz e marca a área do gol; outra faz

uma "amarelinha" no chão.

Moisés vem toda hora subir no meu colo, me agarrar. Zango

com ele. Pergunto de que brincou. Ele diz "de nada". Estimulei-

o a brincar e ele se foi, mas não brincava, vagava entre uma e

outra turma, olhando, mexendo com algum colega mas sempre

disperso, sem conseguir brincar, e ninguém lhe dava

confiança.15

Olho de novo para o pessoal da corda. A "tia", que voltou para

lá, manda o tempo todo ou zanga porque alguns atrapalham. As

crianças me parecem mais descontraídas e riem mais. Eu me

chego e digo que vou pular. Eles riem muito e torcem por mim,

até que erro. Hoje não havia nenhuma "tia" brincando com eles,

o que pode eventualmente ocorrer. Fico olhando e começo a

contar alto quantas vezes cada criança é capaz de pular. Eles

logo se animam: uns contam errado, mas o coro aumenta

rapidamente. A "tia" também conta com todos: "um, dois, três..".

Suando, saio dali e o grupo continua se amontoando, sendo

difícil a entrada na corda. A "tia" finalmente para e exige fila.

Ando pelo pátio. Uns vêm orgulhosos mostrar que têm pião e

como sabem fazê-lo rodar. Converso com eles.

Três crianças continuam ao meu lado. Seguram na minha roupa

e, quando estou parada, um passa a mão no meu cabelo,

acariciando-o suavemente. É um gesto que as crianças

internadas gostam muito de fazer. Ando até três crianças que

estão sentadas na quadra. Uma tem um astronauta de plástico

com balas dentro. Logo alguém se dispõe a explicar que "o

astronauta é de Marco" e tem balas dentro. Um menino

interfere: "Marco me pediu para tomar conta, não é meu".

Ninguém mexe no boneco, mas explicam que tem bala. E vão

chamar o dono para me apresentar. O dono então pega, come

algumas balas e distribui com os outros. Os que me

acompanhavam oferecem bala e fazem questão de me dar na

boca. Mas não ficam em cima do colega pedindo, eles são

muito "educados". Ando e paro em outros cantos. Outros vêm

conversar. Estou sentada no chão, um tenta me levantar e diz:

"vou morrer com você". Este menino, pouco antes, havia dito

que queria se casar comigo e perguntou se podia. Eu disse que

sim, todos em volta riram, falando que nós dois iríamos nos

casar. Outro disse: "mas ele é muito pequeno e quando ele tiver

grande, você já será muito velha". Eu brinquei então dizendo

que estava velha e triste, pois meu namorado, por quem tinha

esperado tanto tempo, não mais queria se casar comigo. Eu

estava feia, com rugas, etc. Eles riram muito. Mas o menino

disse: "eu quero me casar sim, mesmo com você velha!". Eu

disse: "você quer? Pode ser, mas é mais certo que você

conheça muitas mocinhas, novinhas, bonitas e se apaixone por

elas. E nem queira saber de mim". Ele riu como se

vislumbrasse a possibilidade e eles se olhavam rindo muito.

Era muito comum que as crianças viessem me perguntar se eu

era a mãe de fulana porque me parecia muito com ela. Outros

diziam: "ela é minha mãe" ou "t-i-a" ou "irmã". E me

perguntavam de novo para confirmar para os colegas que não

haviam dado crédito. Em geral, eu dizia que era sim, entrando

na brincadeira, e as crianças ficavam muito satisfeitas. Os

outros no fundo achavam que era mentira, mas ficavam na

dúvida. Essa era a maneira mais comum das crianças, nesta

escola, falarem da mãe ou perguntarem sobre ela. A busca da

mãe é muito presente e insistente nas crianças internas.

Temos aí um exemplo no qual o brincar é a expressão do desejo, sem entretanto a ameaça da realização do desejo. O importante, como diz Winnicott (1975), é que o indivíduo crie e vivencie o espaço da ilusão como ilusório.

Outra coisa importante e muito frequente nos dois primeiros dias de observação: muitas crianças vinham me perguntar se eu sabia o nome delas; se não sabia, me diziam seus nomes completos e o dos colegas em volta. O nome é muito importante para elas. É o que as diferencia e as nomeia como únicas.

9h55min, no refeitório: a televisão está ligada para os mais

novos (os maiores veem televisão no pátio). Eles estão de

casaco, sentados nas duas mesas em frente à televisão. Passa

um desenho com Popeye. Todos se interessam, o silêncio é

total. Mas quando há um comercial eles falam. Muitos falam,

fazendo aquele burburinho de crianças. São 10h10min. A "tia"

acha que "é bagunça demais", abaixa o som da televisão e fala

com eles para se calarem. Só depois então ela alimenta o

volume. Mas não é desenho e eles voltam a conversar. Ela

volta a abaixar o som e a falar com eles: "vocês não estão

ouvindo nada. Assim é melhor abaixar mesmo". Assim que se

calam, ela aumenta de novo. 10h12min: ela abaixa de novo:

"como podem saber uma estória assim. Ninguém ouve!

Comentar é uma coisa. Falar é outra!". E novamente volta o

som.

É importante a discriminação que as crianças fazem entre o filme que lhes interessa e os comerciais, ao invés de assistirem passivamente a tudo que aparece. Mas a não passividade das crianças incomoda muito a "tia" que considera qualquer expressão das crianças uma questão disciplinar — mau comportamento. Ela é incansável na tentativa de aquietá-los e enquadrá-los no ideal disciplinar da instituição.

Comentar com os colegas o que veem é uma forma de se relacionar ativamente com a televisão. Como é possível comentar sem falar? Mais uma vez predomina a incongruência autoritária do adulto. E como vimos nos Internatos I e II esta atitude não é particular das "tias" deste internato. Nem nesses nem nos demais se permite a conversa na sala de televisão. Todos devem receber as mensagens televisivas sem reagir, seja dançando, cantando, se mexendo ou conversando, sob pena de serem castigados. Em todo funcionamento institucional, mesmo na hora da recreação, as crianças parecem viver sob ameaça, como diz Navarro Vital Brazil (1987):