Infância perdida
4. Inspetor — sua função na manutenção da ordem
4. Inspetor — sua função na manutenção da
ordem
Da mesma forma que os alunos, os funcionários também não têm direito à voz. Há uma hierarquia rígida à qual todos devem obedecer sem reclamar. Assim como os internos, os funcionários frequentemente me falam de mudanças que gostariam de sugerir à direção. Quando pergunto por que não o fazem, entretanto, mostram-se surpresos: "Falar? A gente não pode falar nada. Só escutar!".
Os inspetores se referem a mudanças que vêm ocorrendo nos últimos anos na organização da disciplina. Dizem que, cada vez mais, o "inspetor atua como uma espécie de para-raios", cabendo a ele executar todas as punições determinadas por outros setores dos internatos, como as escolas, oficinas, etc.
Eles consideram que os outros funcionários podem manter mais preservada sua relação com os alunos, enquanto eles, cada vez mais, assumem o papel dos que castigam. São eles, por exemplo, que obrigam o menino a cumprir o castigo à noite, quando os que determinaram o castigo já foram descansar. E nem sempre eles concordam com o castigo dado ou com seu motivo.
Provocam o menino e mandam chamar a gente. E na frente
arrasam com o menino, e se ele reage, temos que puni-lo.
Detesto isto. Então só tiro o menino e não fico escutando.
Fazem isto muito e a gente fica só para imprensar o aluno.
(Inspetor)
É com o inspetor que o aluno trava uma relação mais próxima, porque ele é o adulto que mais o acompanha durante as atividades do dia. Portanto, é com ele que o interno teria maiores chances de desenvolver uma relação mais próxima e positiva com a figura da autoridade e do adulto. Entretanto, esta possibilidade praticamente desaparece na medida em que seu papel principal é punir. E o mais curioso é que, sendo sua função punir, ele não pode, entretanto, castigar diretamente o menino quando este o desacata. O inspetor tem que respeitar a burocracia dos papéis, das "ocorrências":
Os inspetores estão muito sem autoridade. Tudo tem que
passar pela secretaria agora. Depois que burocratizou, a gente
perdeu a autoridade. Eu não posso punir mais, tenho que fazer
ocorrência e mandar para a secretária. Agora, se faço a
ocorrência, o menino fica zangado comigo porque fiz. E não me
obedece. Sou chamado na secretaria para explicar o que
houve. Então não faço ocorrência, deixo correr a coisa. Por
exemplo: antes, se o menino não cumpria suas obrigações, e
eu é que sei, que estou com eles, eu tirava a televisão, o
passeio, dava castigo. Escrevia o nome. Agora tenho que
mandar o nome e eu mesmo castigar. Antes outro que ficava
com os castigos. Agora como eu vou ver os castigados se
tenho também que acompanhar a turma nas atividades? Não
dá! Então não castigo. Se castigo eles têm que andar atrás de
mim o dia todo. Outro dia recebi uma lista de 26 alunos para
castigo à noite. Mas eu sumi a lista. Como vou castigar e olhar
eles mudarem de roupa, tomar banho, ver televisão? Não
castigo mais. (Inspetor)
O problema da autoridade dos inspetores sobre os alunos se expressa a cada instante. Se a relação com os internos está deteriorada, isto se torna mais evidente em público, na frente dos outros colegas e dos outros inspetores. A ocasião em que melhor se percebe a crise de autoridade dos inspetores é a "formatura":
Quando o inspetor dá voz de comando o aluno tem que
respeitar, tem que fazer o que foi dito. Se não faz é porque você
está desmoralizado. Os outros inspetores ficam no meio
(formatura) mas não ajudam e então quem está no comando
fica nervoso e às vezes chamo a atenção logo do menino que
está fazendo tudo certo. E dá a maior confusão. Ele sai
chutando, me xingando e fico desmoralizado. Se me ocorre isto,
já sei, seguro o menino de meu lado e peço desculpas, mostro
meu erro e só deixo ele sair quando tiver esfriado.
A disciplina vem piorando muito nestes cinco anos de trabalho.
Um vai encostando no outro [funcionário] e ninguém quer
assumir muito. Eu era pedreiro e quis ser da disciplina pois
achava que era moleza. Agora volto correndo se me quiserem
de pedreiro [na própria escola]. (Inspetor)
É interessante também notar que, quando sua autoridade é questionada perante outras pessoas, o inspetor pode perceber que ele também é passível de ficar nervoso, que ele também é capaz de tomar atitudes erradas. Neste caso, não só percebe seu erro, como é capaz de pedir desculpas ao menino. É um momento em que relações mais humanas podem ser estabelecidas, onde se reconhecem a raiva, os erros e se pode pedir desculpas, que é comum em relações humanas onde se reconhece o outro, não estigmatizando-oa priori, como um marginal.
Os alunos também reconhecem a possibilidade de ter um convívio mais próximo e humano com o inspetor:
"Ele me ajuda, me orienta — é como pai para mim."
"Zé — explica a realidade, dá apoio, prepara para a vida militar.
Reclama quando a comida está ruim."
"Se interessa pela gente."
"Brinca, dá conselho."
"Sabe tratar com carinho, não sai logo pagando."
"Sr. Wilson tira título, ajuda na documentação."
"Aquele que conversa, bate papo antes de agir, ajuda o aluno
nas horas de desespero, sabe aconselhar quando o aluno está
em dificuldade, aquele que ensina."
"Dialoga, brinca, nem quando nervoso ele não bate, conta a
vida dele na escola, fala do exército."
"Sabe brincar, manter amizade, compreende os alunos,
empresta dinheiro para ir para casa. Aluno apanha dele e
depois a amizade é normal, outros ficam com picuinha. Ele vai
junto fazer gororoba."
"A maioria não deixa os maiores bater nos menores."
"Aquele que exige, é duro com o aluno."
"Obriga a ir para aula."
Quer dizer, o "'bom inspetor" é aquele que proporciona uma relação marcada pela troca, pelo carinho, onde dois sujeitos podem existir. O aluno é visto como pessoa e assim é tratado.
Já o "inspetor ruim" é aquele que comanda autoritariamente, pontuando sua relação com os alunos pelo código disciplinar. Assim os alunos definem o "inspetor ruim":
"Aquele que só bate em pequeno."
"Aquele que tem pinimba, na marcação com aluno."
"Não sabe levar o aluno na conversa, espanca a gente, Ivan me
deu soco no olho."
"Inspetor que não tem paciência, vem logo agredindo, pondo de
castigo, sai logo batendo — pancada não conserta ninguém.
Coloca todo mundo de castigo, mesmo sabendo que não fez
nada."
"No passeio só deixa ir os peixinhos."