Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 23 de 62

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Infância perdida

6. Brinquedo — a criatividade e o risco

Ao lado da uniformização do vestir, o corte de cabelo vem completar a anulação das diferenças que o cabelo pudesse trazer ao rosto dos internos. É um ritual que desfigura parte do corpo tentando também apagar a diferença sexual entre as crianças.

 

6. Brinquedo — a criatividade e o risco

É no brincar e talvez apenas no brincar que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação e podem utilizar sua personalidade integral e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self ).

Winnicott

O brincar é uma das atividades que as crianças têm dentro da rotina diária. É planejada, tem um tempo delimitado, é uma atividade também vigiada. As crianças brincam com seus colegas de turma. Cada turma tem um espaço delimitado pela "tia". Um espaço com fronteiras invisíveis, sem muros, com uma delimitação arbitrária, ou seja, o espaço onde a "tia" julga poder dominar através de seu olhar ou voz. Espaço que não ofereça "perigo para a criança". Durante a semana, um número de internos vai à escola de manhã e outro à tarde, e as crianças se agrupam não em quatro turmas, mas em três ou em duas turmas, perdendo novamente a referência da "tia" responsável por sua turma.

O espaço mais utilizado é o "recreio interno" pois há uma delimitação clara pelos muros e, sendo de cimento, as crianças não se sujam muito. É mais fácil para a "tia", ela pode relaxar, conversar com a colega. Como já vimos, ao falar do problema da espera, as crianças não gostam deste espaço. Segundo ordens da direção, as crianças devem sempre sair deste pátio, se não está chovendo. O outro espaço usado é o do parque — um lugar amplo, com árvores frutíferas, brinquedos do tipo balanço, gangorra, escorrega. As crianças gostam muito deste lugar. Estão também perto da estrada por onde passam os ônibus e os carros que vêm às escolas. Elas gostam de observar, dar adeus, gritar pelos passantes. Os outros espaços são menos significativos, são locais que não têm nada de especial, mas fazem parte do grande espaço arborizado que rodeia o internato.

No parque, além de brincar nos brinquedos existentes, também brincam de comidinha, casinha, desenhar na terra, escolinha, bandido-mocinho, pique. Há também a televisão e o toca-discos. E, quando têm brinquedos com eles, os mais comuns são bonecos e carrinhos.

Gostam também de "brincar de tias" ou seja, de dramatizar as situações vividas no seu cotidiano do internato, passando assim da condição de passividade para a atividade, tornando-se senhores da experiência. Repetem as situações, sobretudo de disciplina, exigindo dos colegas um comportamento irrepreensível. As "tias" acham graça e parecem não entender muito bem por que as crianças as imitam.

Elas brincam muito de turma — fazem fila, mandam abaixar a

cabeça e fica todo mundo quieto. Elas obedecem mais que à

gente. Elas gostam de brincar de tias.

Inventam de sentar no chão com a cabeça no banco e fingem

que é a mesa do refeitório. Ficam quietas de braços cruzados e

cabeça baixa (ri). Fingem também que estão no dormitório. Elas

falam: "Virar de bruço! Fechar os olhos e dormir!". Elas fazem

tudo direitinho. A gente finge que não vê (Auxiliar de disciplina).

Quanto aos brinquedos, eles são escassos como nos outros internatos. Os problemas que envolvem a possibilidade de ter brinquedos, seu uso e preservação são praticamente os mesmos em todas as escolas. Há poucos brinquedos. São de qualidade ruim, se estragam facilmente, são quebráveis, de material plástico e com pouca variação. Cada criança recebe um, mas não há possibilidade de distinguir qual é de quem e todos são misturados no mesmo "saco" onde são guardados. Não há brinquedo individual, salvo raras exceções, como no caso abaixo, que a escola permite. A criança tem acesso a este de vez em quando, em horas muito mais determinadas pela disponibilidade do funcionário do que pelo desejo da criança de ter o brinquedo.

A chefe de disciplina trouxe duas bonecas para duas irmãs e

disse: "a gente guarda, pois elas só têm a tia e temos pena.

Elas têm essas duas bonecas há tempos". Outras crianças

querem e ela explica: "elas têm porque a tia delas trouxe. Olha,

é para brincar com as colegas também, hein! E não é para

quebrar, hein!".

Durante a semana o tempo é muito dividido, pois são muitas as atividades e muitas as crianças. Assim, considera-se pouco conveniente distribuir brinquedos mesmo nas horas de recreação. Isto sempre implica em trabalho para as "tias" — ter que trazê-las, tomar conta, evitar disputas e recolhê-los no final. Então eles são distribuídos praticamente só nos fins de semana, sobretudo no domingo entre 8 e 9 horas da manhã ou 9 e 10 horas. Há mais tempo disponível, menos atividades a serem cumpridas e, devido às saídas dos internos, há menos crianças na recreação.

Domingo, 10h15min — Observo crianças brincando de boneca

no chão de terra. Daí a pouco passa uma boiada — as crianças

correm para ver os bois, gritam com eles, acompanham do lado

de cá da cerca o movimento. As crianças têm brinquedos na

mão. Pergunto à "tia" sobre os brinquedos: "Eles ganham

brinquedos no Natal e no dia da criança, mas durante o ano

todo não temos brinquedos, só os pedaços. É que eles ganham

e no outro dia eles quebram. Quebram muito por curiosidade

para ver como é feito. Sobretudo os carros, os meninos tiram

logo as rodas". "Eles brincam com pedaços de brinquedos no

máximo entre 9 e 10 horas. Durante a semana é difícil. Nos

domingos eu sempre dou. Eles não têm brinquedos, só esses

pedaços aí, e nem todo mundo tem brinquedos, é pouco".

Umas crianças vêm me trazer flores — fazem isso com

frequência, tanto para mim como para a "tia". Vejo uma menina

penteando outra com carinho e a outra gostando. Observo outra

turma de meninos que brinca com carrinhos, de "cavalo na

árvore", de fazer "bolo de areia". Acontecem algumas brigas por

disputa de brinquedo. Vejo também as meninas maiores que

brincam de casamento.

O uso dos brinquedos é limitado mas, quando permitido, as crianças gostam muito e não querem devolvê-los, pois sabem que, em seguida, a "tia" não os dará de volta. Por exemplo, as crianças estão brincando durante uma hora com os brinquedos e em seguida vão lanchar, voltam para o recreio e depois vão tomar banho. Quando termina a primeira parte da recreação, a "tia" recolhe os brinquedos — as crianças protestam, tentam esconder os brinquedos. Algumas são bem sucedidas ou, por serem consideradas "difíceis", a "tia" permite que os conservem. Promete a todos que vai dar de volta depois do lanche para que eles guardem no saco. Mas não os devolve e eles ficam muito frustrados. Alguns internos fazem "pirraça", não comem o lanche. Ouço dois falando:

"Então vou fugir, vou para minha casa". Eles pedem de volta os brinquedos inúmeras vezes e os que sabem melhor se virar conseguem pegar escondido quando estão em lugar acessível. Mas a maioria fica sem ter o brinquedo. No final do dia a chefe de disciplina deu-lhes uma bronca dizendo: "Isto não se faz. Não quero nenhum de vocês pegando brinquedo! Quando quiserem peçam à tia que ela dá". Mas as crianças tinham acabado de viver uma situação que tornava esta afirmação falsa. Como as crianças podem lidar com isto? A verdade é que através dessas pequenas coisas elas descobrem, desde cedo, que o adulto lhes nega o prazer de brincar com objetos que lhes dão satisfação e têm a experiência de não poder confiar na palavra do adulto. Essas atitudes se passam cotidianamente em pequenos acontecimentos como esse que, para as crianças, são de grande significação — não se estabelece uma base de confiança com o adulto, pelo contrário, cria-se uma incerteza total. Além disso, as crianças vivem uma experiência de máximo autoritarismo e infantilização. Na mentira, como vimos no exemplo acima, os adultos exercem um controle também sobre a verdade. Eles são a lei, eles não se submetem à lei. Isto ocorre na medida em que a criança não pode dizer nada que confronte o que o adulto fala, mesmo sabendo que ele fala uma mentira. É como se dissesse: você é tão idiota que eu posso mentir, mesmo sabendo que você sabe que é mentira.

Além da recreação livre, sem brinquedos ou com brinquedos, as crianças participam de "passeios", que podem ser fora do estabelecimento; quando há transporte disponível vão à Quinta da Boa Vista, ao Tivoli Park, etc. Estes passeios ocorrem raramente durante o ano letivo (como o transporte é escasso, é dada preferência aos meninos maiores dos Internatos IV e V) e algumas vezes durante as férias, quando as crianças podem ser levadas à praia. Mas, durante a semana, as crianças "passeiam" no terreno da Fundação, por exemplo: vão em fila, ou à vontade, até o portão de saída do estabelecimento (distância de uns 300 metros). Passeiam também de uma escola para outra, quando o tempo é maior, nos fins de semana — passeiam então em fila, mesmo que esta não seja de muito rigor disciplinar. O espaço é sempre demarcado, delimitado, restrito à vontade do adulto — sair dali implica em desobediência à ordem e é considerado falta grave. As crianças, nessas idades, quase não cometem esse tipo de desobediência. São muito ameaçadas também quando dizem que vão fazer isso.

Domingo, 8 horas. Quando chego, os maiores já estão

brincando no recreio interno e os menores brincam na frente da

casa 23. Outros brincam de casinha na areia. Os meninos

receberam uma folha de papel para brincar. Às 9 horas os

meninos vêm me mostrar o que fizeram com os papéis: balões,

aviõezinhos pequenos, papel dobrado e vejo muito papel picado

pelo chão. As crianças que ficaram no recreio até agora

ganham biscoito e, após comerem, saem para "passear até o

portão". Os maiores, que estavam fora, entram em fila e

sentam, bem comportados, para receber o biscoito. E as

meninas maiores entram em fila, sentam no banco, comem

biscoito sentadas e fazem fila para sair. Agora os grupos se

separam mais, indo para lugares mais distantes uns dos outros.

17h10min — Os internos do dormitório 3 estão vendo televisão

dentro da casa 23. Todos sentados no chão com as pernas

cruzadas, numa organização quase de fila (alguns ficam meio

de lado para poder enxergar). A "tia", a pouca distância, está

sentada na cadeira. Só se escuta o barulho da televisão. Duas

crianças encostadas na parede do fundo, sentadas como as

outras, estão distantes porque ficaram de castigo. A "tia",

sentada, chama a atenção deles para a televisão. Ela só abre a

boca para dizer "psiu", "olhe", "preste atenção", "oh, depois eu

vou perguntar, hein". Uma das crianças, colocada de castigo

naquele instante que eu presenciava porque "mexeu" com o

colega (algo de insignificante), é trazida para perto dela e cruza

as pernas, que se recusava a cruzar. Observo que a certa hora

uma criança bate na outra ligeiro, dá um tapa e a outra reage.

Na mesma hora a "tia" as separa e ajeita-as para que fiquem de

braços e pernas cruzados. Logo em seguida, ocorre o mesmo

com outra criança. A "tia" explica: "Temos que ficar atentas

porque se brigam e se machucam, lá dentro querem saber da

gente como é que foi. E dá uma confusão! E já aconteceu deles

brigarem muito e se machucarem." Quando a "tia" vê uma

criança se mexendo no lugar (creio que com o cansaço

começam a se mexer, mas é muito pouco), pede: "Fique quieto,

senão você outro dia não vê". (Eles começam a se mexer em

torno das 18 horas e só falam sem fazer som para a "tia" não

zangar). Observo uma criança, já com dificuldade de prestar

atenção à televisão, achar um bichinho. Ela o pega contente e o

examina. A "tia" vê, imediatamente zanga e retira o bicho.

Às 18h30min "a tia" desliga a televisão e eles saem.

A "tia" me explica todo o seu esforço para oferecer este programa de televisão às crianças. O aparelho é seu (pois o do internato ainda está encaixotado); também coloca música para as crianças no seu toca-discos. Certamente é uma preocupação carinhosa para com as crianças no sentido de que "não fiquem só no pátio". Mas, como vimos, lhe é impossível abrandar o rigor disciplinar. E o divertimento especial de ver televisão, ao invés de representar alguns momentos de prazer e de informação, acaba sendo uma tortura, porque a disciplina ali vai além da ordem, de se querer que o interno seja disciplinado.

Recreação livre é assim chamada pelo fato das crianças estarem num campo aberto e não na recreação do "recreio", onde ficam num espaço delimitado por muros. Mas a liberdade das crianças é, na verdade, muito pequena — não é possível sair de certo espaço delimitado pela" tia", que marca com pontos de referência, por exemplo, uma árvore. Não é permitido subir em árvore ou fazer qualquer coisa que seja novidade, ou seja, que escape ao hábito da "tia", da rotina — brincar sem fazer muita algazarra, brincar com folhas e paus pequenos, conversar entre eles. Por qualquer atitude fora do habitual a criança é chamada à atenção e, se não obedecer, todo o grupo pode sofrer um castigo. Vejamos o exemplo a seguir, onde isto ocorre e a criança tenta se rebelar do jugo da "'tia".

8h30min — Vejo a "'tia" de uma turma segurando um menino

que esperneia e tenta mordê-la.24 Minha aproximação

certamente incomoda. Ela logo solta o menino, que corre em

direção à casa 23. Ela chama-o de volta, mas ele não atende.

Fico ali e vejo os meninos brincando com pequenos aviões de

papel. Ela me diz que ele queria fugir e que ela teve que

segurá-lo — noto que ambos estavam sujos de barro. Digo-lhe

que, se ela quiser ir atrás dele, eu fico com a turma. Ela vai. E

mais dois vão junto, disfarçando. À medida que ela se afastava

da turma, eles pisaram na grama e subiram na árvore. Quando

ela voltou, chamou a turma: "para o recreio, todo mundo". Eles

logo começaram a resmungar: "não quero ir pro recreio". Ela

grita firme sua ordem. Dois corriam para fora da cerca que

separa o terreno do internato e o do jardim. Na medida que ela

se aproximava, eles se afastavam mais. Ele esperou então

perto de mim. Eles ficaram do outro lado da cerca — alguns,

ambivalentes, voltavam e outros seguiam. Finalmente veio a

turma toda e passaram dando volta longe dela. Nisso tudo, eles

riam e se divertiam muito. Ela estava muito nervosa. Eles

passaram pela grama, atrás da árvore, correndo para o

"recreio". Ela, mais descontraída comigo, ri e explica: "Eles

gostam de fazer gracinha e também gostam de correr, então

aproveitam a rua (a de fora). Mas então tenho que castigá-los e

os coloco sentados no recreio. Eles não gostam do 'recreio'".

Mais tarde a "tia", mais calma, me contou uma nova versão

para o fato:

"Você viu o buraco que tem lá. Os meninos queriam só ficar lá e

não pode. Então, acabei mandando todo mundo sentar (no

meio-fio) e ele não quis (o que esperneou) de jeito algum, quis

correr e eu segurei ele."

O brinquedo é, por excelência, o espaço de liberdade, de criatividade, do sonho, do prazer, do uso da imaginação, da possibilidade da criança investir afetivamente em determinado objeto. Tudo isto vai permitir o surgimento da individuação e a descoberta do eu, como diz Winnicott (1975).

Se o mundo onde a criança vive lhe dá a oportunidade de brincar, então lhe está oferecendo a oportunidade de individuação, de se tornar sujeito. Mas no internato, como estamos vendo, a individualidade é equalizada, é homogeneizada, então o brincar é perigoso, tem que ser limitado, impedido, barrado.

Já no Internato I isto é uma evidência. Nos berços os bebês não têm brinquedo, porque "jogam no chão e não há ninguém para pegar". "Não se pode amarrar o brinquedo com um barbante, pois eles

podem se enforcar acidentalmente".25 No recreio externo, onde há muito espaço, também dá muito trabalho porque eles jogam no terreno abaixo (pátio do hospital) e alguém tem que recolher.

Outra justificativa é que eles brigam muito, não sabem dividir o brinquedo, não se contentam com o que têm e ficam querendo tomar o do colega. No recreio interno os motivos são os mesmos e por isto as crianças só têm os brinquedos uma vez ou outra, quando uma "tia" se dispõe a oferecê-los. As "tias" são muito pouco hábeis para resolver uma situação de conflito que possa surgir no brinquedo. Em geral, sua intervenção é para dar uma bronca ou terminar a brincadeira.

Ainda no recreio externo, onde as crianças têm oportunidade de formar pequenos grupos ou brincar a sós, além de diversificar a brincadeira, isto pouco ocorre. Como as "tias" ficam na parte cimentada perto das mesas conversando entre si, as crianças ficam ali por perto. É verdade que às vezes elas ousam ir mais longe, brincar na grama ou no espaço que tem labirinto, mas são repreendidas, pois não estão imediatamente sob o olhar da "tia" e podem se machucar. Mesmo brincar de rolar na grama é impedido porque "podem ficar com coceira depois". Um dos grandes acontecimentos, na época, foi a colocação de alguns pneus. As funcionárias acharam uma "péssima ideia porque é perigoso". Na verdade, não considerando tarefa sua brincar com as crianças, elas conversam entre si e só vigiam. Estar com as crianças e se interessar pelo que fazem não ocorre. Os internos, sempre que em grande número, precisam que o adulto se interesse por eles para poder brincar. Observei que somente quando em pequenos grupos ou quando estavam a sós na presença de um adulto podiam organizar seu brinquedo.

Além do espaço cimentado e da grama, há um outro com areia que tem um balanço formado de duas cadeiras, uma de frente para a outra. As crianças gostam muito deste local mas, como se sujam de areia, quando as funcionárias deixam brincar, só o fazem à tarde, pois tomam banho em seguida. O que me deixava perplexa é que, muitas vezes, devido à insistência das crianças para irem a este local, a "tia", querendo evitar qualquer trabalho, colocava o maior número delas sentadas no balanço e ficava ali balançando-as, comprimidas umas contra as outras, sem poderem se mexer. Em oposição à contenção corporal que já se inicia aqui, quando algum brinquedo era oferecido elas sempre preferiam aquele que fizesse qualquer movimento, que oferecesse uma possibilidade de vida.

Nos internatos de "menores" as crianças não podem usar o brinquedo, porque, segundo os adultos, eles sempre fazem algo de ruim, algo negativo. Isto é uma regra praticamente sem exceção. As desculpas mais corriqueiras e frequentes para não permitir seu uso são que eles brigam, se machucam, destroem os brinquedos. Na realidade, como se sabe, o brinquedo é criativo, logo tem que ser proibido nestes ambientes. A imagem do mundo sério, que é a do mundo adulto, se sobrepõe o tempo todo ao mundo da criança, da brincadeira, da imaginação, da curiosidade, de experimentar os possíveis no "faz de conta", de arriscar a descobrir o novo. O grande trabalho que as "tias" parecem evitar é se confrontar com a riqueza, a complexidade e a imprevisibilidade das produções lúdicas. É como se assim elas pudessem evitar entrar em relação com as crianças. Essa parece ser a grande ausência de disponibilidade das "tias". Ver uma criança brincando é vê-la em sua alteridade. É ver a criança no exercício pleno de ser-humana, possuidora de um mundo próprio, cuja significação escapa à modelagem institucional.

O despojamento dos objetos, dos bichos, das árvores e o confinamento à área vazia de cimento representa aí não pobreza ou singeleza de material, mas um verdadeiro cerceamento à produção simbólica, com todas as implicações que isso coloca para o sujeito humano.

1 Ver nota 14, referente ao INTERNATO I.

2 Assim como as da creche, só que neste conjunto de internatos elas têm mais chances de rever a criança.

3 Ver INTERNATO VI, item: "Família — laços que se perdem".

4 "Elas reconhecem que este apego ocorre e a criança passa a ter, de alguma maneira, uma atenção especial que acaba por distingui-la das outras" (Altoé, S., Rizzini, L 1985). Isto ocorre nos Internatos I e II. Quando esta relação privilegiada e espontânea ocorre nos outros internatos, o mais comum é que as crianças considerem os adultos como seus "'padrinhos".

5 No Internato I não há cama fixa; são todas iguais e cada dia as crianças ocupam uma. A partir do Internato II o adulto determina a cama da criança e troca quando considera conveniente. No Internato III, as crianças não usam sua cama ao fazer a "sesta" à tarde. Como o número de crianças é pequeno, elas são agrupadas em camas contíguas para que a "tia" possa descansar e vigiar ao mesmo tempo.

6 Neste internato se inicia a preocupação com o atendimento misto. Considera-se que, devido ao desenvolvimento e à curiosidade sexual das crianças, elas só podem permanecer juntas até os seis anos. Assim, os meninos nesta idade são transferidos para o Internato III.

7 "Tem um aqui que desde que eu era pequeno ele vem acompanhando minha idade. Desde quando eu era nenê. Todo colégio que eu vou ele vai atrás. Ele é o Antonio. Ele não gosta de falar assim não, porque ele é vergonhoso. Ele é muito tímido." (João, interno) (E como você o considera?)

"Como o melhor amigo do colégio. O melhor, né! Todos os colégios eu considero ele como o melhor, pode ter outro, mas sempre é ele. É, porque a mãe dele é assim, quando a minha mãe não ia me visitar e a mãe dele ia, aí visitava nós dois juntos. Quando a dele não ia, ela (a minha) visitava nós dois juntos. Eu já levei ele na minha casa e já fui na casa dele. Ele é da minha idade e está na 8º série também. Ele repetiu a mesma série. Inclusive a mãe dele trabalha no abrigo. Ela é cozinheira das irmãs." (Internato VII, João, 17 anos).

8 É importante que se leve em consideração que o fato da escola estar sendo fechada, quando todos os funcionários queriam a sua manutenção, possibilitou que esta questão fosse tratada por eles com discrição, porém com clareza, sem o silêncio habitual em relação às decisões da Funabem.

9 Durante o ano de 1987 fiz várias conferências em Minas Gerais, organizadas pela Febem, e tive informações de que só recentemente tinham conseguido organizar o local de pern1anêneiado interno segundo o critério do internato ser, sempre que possível, na mesma cidade de origem da criança. Lá, como no Rio de Janeiro, não havia o cuidado de se internar a criança em estabelecimento o mais perto possível de sua casa. Quando trabalhei na Feem, em 1985/86, tive oportunidade de fazer esta constatação.

10 Como de costume, os internos do Internato V foram para o VI, e os do IV foram para o V. Com a volta, esta transferência se fez ao inverso.

11 Há nos internatos um caderno de "ocorrências diurnas" e outro de "ocorrências noturnas". Neles são descritos todos os fatos que ocorrem no internato — visita de autoridade, chegada de crianças, pequenos eventos diários sobre as crianças e sobre os funcionários.

12 A porta e o portão de entrada principal dos internatos só devem ser usados pelos internos quando são em pequeno número, do contrário devem sempre sair e entrar pelo portão dos fundos. É uma regra.

13 Cf. Piaget, J., 1975.

14 Nos outros internatos a leitura de livros também não é incentivada, mas é permitida. Há severo controle, entretanto, da leitura de jornais (com exceção da parte dos esportes) e das revistas consideradas pornográficas.

15 A privacidade do berço é também uma prisão — os bebês mais crescidos, quando irritados, se rebelam segurando as grades do berço e balançando com o movimento de seu corpo, fazendo o berço se levantar num forte e barulhento movimento de balanço.

16 Por proibição dos órgãos de convênio, o internato não deve aceitar roupas que os pais tragam. A escola deve prover tudo. Mesmo assim, os Internatos I e H aceitam que a criança traga blusa de frio e sapatos, pois sempre faltam no internato. Nos Internatos IV e VI os uniformes dos internos são numerados. Nos outros, não há numeração. No Internato VI a roupeira é orgulhosa de sua boa organização e explica: "A roupa sempre fica na escola com o mesmo número. O aluno é que muda de número. Quando ele muda de pavilhão, muda também de conjunto de roupa.".

17 No início do ano, com frequência, a escola ainda não recebeu do almoxarifado as roupas e congas novos. No ano em que realizei a pesquisa, o novo provimento só chegou à Escola III, por exemplo, em julho. Isto significa que a criança, ao entrar no internato, além de perder sua vestimenta, não ganha roupas adequadas — são surradas, rasgadas e não são individuais.

18 Este menino é o mesmo que veio do Internato I com a irmã e depois a irmã foi transferida, sem que ninguém soubesse informar para onde.

19 Quando os internos trocam de roupa, o inspetor dá ordens do tipo: "Todos só de short" ou "Todos de short e camisa", etc. Nos Internatos IV e V é frequente que algum menino tente burlar a regra, saindo com uma camisa escondida dentro do short para vesti-la no pátio. Assim se distingue dos demais e é imediatamente repreendido. Outras vezes, com satisfação, me mostraram sob a camisa, uma outra, de casa, sendo assim possível vestir uma peça de roupa que é deles.

20 A partir do Internato IV alguns dormitórios têm armário de metal ou madeira para que o interno guarde suas coisas. Isto não modifica a situação, entretanto, pois ele só guarda ali as roupas do internato. Os objetos pessoais também são carregados com ele ou guardados com o inspetor.

21 Durante a pesquisa observei uma exceção a esta regra. Uma "tia" teve a iniciativa de confeccionar travesseiros individuais e não foi barrada pela direção. Não há travesseiros nos internatos. Ela conseguiu retalhos e na hora de folga costurava. Os meninos podiam escolher a combinação de retalhos que preferiam. Eles ficaram muito satisfeitos e respeitavam o travesseiro do outro, aguardando a sua vez, aqueles que ainda não tinham.

22 Um dos argumentos institucionais para a não permissão de objetos individuais é que as crianças não respeitam os objetos do outro, brigam e destroem. Mas o que observei nos Internatos II e III é que há muita briga e destruição quando o objeto é de uso coletivo. Quando o objeto tem dono (roupa, brinquedo), os colegas respeitam.

23 As crianças notavam e comentavam sempre que eu aparecia com pintura no rosto e algum adorno como brinco ou pulseira. Era um contraste com sua "nudez" e igualdade de vestimenta.

24 Uma atitude de rebeldia que raramente ocorre neste internato.

25 Às vezes, o brinquedo era amarrado com um barbante curto, para evitar acidentes, o que não permitia à criança manuseá-lo e ela acabava rapidamente jogando-o para fora, sem conseguir reavê-lo, pois ficava pendurado na cama.