Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 22 de 62

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Infância perdida

5. Individualidade — privacidade e objeto particular

Como já vimos, o sistema disciplinar e institucional impede o movimento do corpo, impede a entrada do tempo, controla o espaço e controla a realidade. E agora vemos que também controla a própria fala, quando começa a surgir. A fala espontânea, quando é permitida ("Ah, ah lá a minha mãe") expressa o desejo (de estar junto da mãe e de não estar na situação em que se encontram). O que começamos a perceber é que este sistema disciplinar dos internatos, para funcionar, tem que controlar o desejo e, portanto, tem também que controlar a linguagem. O discurso é a estrutura que ordena o desejo e ele pode ser expresso, desde que dentro da lei (Cr. Foucault, 1971).

 

5. Individualidade — privacidade e objeto

particular

No Internato I, onde as crianças, ainda bebês, já iniciam a vida tendo que compartilhar com muitas outras crianças o carinho e atenção do adulto, elas já não têm qualquer referência que as individualize, que as situe como singulares no mundo em que vivem. As crianças, ainda muito pequeninas, se rebelam contra esta falta de reconhecimento de sua individualidade que tenta, com dificuldade, florescer. Neste internato, esta situação aparece com vigor. Apesar da aparência física ser menos hospitalar, o atendimento massificante, em série, é bem caracterizado em todas as dependências do estabelecimento. As crianças aqui se dão conta mais claramente do quanto lhes é tolhida qualquer possibilidade de ter um objeto que lhes dê a sensação de posse: todos os objetos são coletivos, todos os lugares são de uso comum.

A criança percebe que lhe negam essa possibilidade e muitas vezes, apesar de nunca ter experimentado uma vida diferente (se desde que nasceu passou a viver em internato), ela, mesmo assim, como as outras (que já tiveram um lar), busca e reivindica a possibilidade de um relacionamento que a diferencie das demais como, por exemplo, através da posse de algum objeto que possa ser seu, que possa ser único, particular. A privacidade é uma das possibilidades também descartadas. No Internato I a criança também não a tem, mas pode ficar só no berço sem ser

importunada por outras crianças.15 A partir desta escola nem esta possibilidade existe mais. A criança nunca está só. Ela está sob a vigilância dos adultos o tempo todo e é invadida pela presença das outras crianças. Sua intimidade é violada. Não há possibilidade de uma criança ter um momento de recolhimento sem que outro coleguinha interfira, queira se relacionar ou provocar. Vejamos o exemplo observado de uma criança de três anos, miúda, pouco entrosada ainda na sua turma e que busca uns minutos de sossego, mas que é importunada de imediato e humilhada:

16h30min — As crianças estão no recreio interno com as "tias"

e brincam sem brinquedo. No centro, há uma tábua sobre a

qual as crianças ficam sentadas ou agrupadas quando a "tia"

exige — serve para proteger da friagem dos ladrilhos. Vejo

sobre a tábua um menino bem pequeno deitado com o bumbum

para cima — tipo posição para dormir. Noto que seu macacão

está rasgado exatamente onde aparece o ânus. Ele está quieto,

só, acordado. Não demora muito e algumas crianças

descobrem o rasgo no short e juntam cinco outras para ver.

Comentam e finalmente tocam no seu ânus. De imediato ele

parece não se importar mas depois se incomoda e senta no

chão, se protegendo assim. Continua calado, só, triste e não

busca o colo ou a proteção do adulto.

As crianças, como em todos os internatos, não usam roupa de casa. Os uniformes são iguais para todos, sendo distintos se usados para ficar no internato, ir à escola ou passear. As meninas, em particular, podem ter alguns tipos de roupas diferentes quando são de passeio (ao invés de haver somente um modelo, há dois ou três). Quando a criança vai para casa, veste então a roupa de casa que a mãe traz. No internato ela veste a roupa que a "tia" lhe oferece. Em geral, a criança não faz qualquer reivindicação expressa. Tive a oportunidade de acolher pedidos das meninas maiores para trocar uma roupa por outra. A menina tinha claro discernimento de que eu acataria seu pedido e não a "tia". Mas, com a chegada desta, ela logo se explicou, possivelmente com receio de levar uma bronca por sua iniciativa. Na minha presença, a funcionária não se importou e disse achar graça que aquela menina fizesse questão de não usar roupas muito largas, como se fosse uma vaidade boba a da menina. As meninas maiores têm algumas roupas numeradas, o que permite que usem sempre a mesma roupa, apesar de ser igual à das

colegas.16 A funcionária justificou que as maiores sabem ver seu número, o que facilita a tarefa de distribuição e uso das roupas. A outra justificativa para os menores não terem roupas individuais é a escassez de roupa e o atraso, a cada início de ano, para o envio de

nova remessa de uniformes por parte da administração geral. 17

As crianças, vestindo roupas uniformizadas, não se distinguem umas das outras e seu agrupamento parece mais uma massa humana indiferenciada. Elas, entretanto, mesmo quando nunca tiveram a oportunidade de ter a vivência de uma relação individualizada, descobrem esta possibilidade e lutam por ela. Lutam pela diferenciação, mesmo que o funcionamento institucional faça tudo para anular este seu esforço. É admirável esta expressão de resistência das crianças. E é impressionante como as funcionárias, mesmo as mais delicadas e sensíveis no trato com a criança, naquele ambiente, não conseguem perceber a importância que esta possibilidade de individuação tem para os internos. O único pensamento parece ser — "todos têm que ser iguais a todos" — ou ainda — "não é possível nenhuma criança ter necessidade de posse de objeto que a distinga das outras". Vejamos o exemplo seguinte:

No final do rápido banho — são trinta e uma crianças que

tomaram banho em 20 minutos —, quando a turma acabou de

sair para a varanda, a "tia" trouxe Paulo de volta da varanda

pelo braço: "Olha só!", mostra para mim e para a outra "tia" —

ele calçava uma meia velha e suja, num só pé, e usava também

a sandália de dedo. Parecia orgulhoso de sua meia. "Imagine,

ele quer ir assim para o recreio, veja só!" "Êta menino!" — diz a

outra.

Paulo, zangado, cara de choro, não quer tirar a meia e o corpo tenso, curvo, tenta passivamente não deixar que ela a tire. A "tia" tira a meia sem procurar, por um instante sequer, entender o que se passa com ele, olhando a questão só enquanto disciplina. "Está imunda, não sei onde foi conseguir isto!" E joga no monte de roupa suja. Ele, zangado, humilhado, anda de costas até o fundo do vestiário sem mudar de expressão. A "tia" parece ver isto como pirraça: "sai daí menino! Você vai para o castigo, hein!". Ele fica lá, magoado, não se mexe. Finalmente a "tia" que cuida do banho puxa-o pela mão e ele sai sem oferecer resistência. Ele não disse uma palavra o tempo todo.

Antes deste acontecimento ocorreu o seguinte: este menino,

considerado "impossível", 18 estava pulando muito no banho quando eu fui lá observar. A "tia" pedia que ele parasse e ele continuava. Ela dizia que ele precisava assoar o nariz e por isto ela não o mandava sair, porque estava ocupada com outra criança e ele não assoava só. Finalmente acabei interferindo, ajudando-o a assoar o nariz e levando-o para o vestuário. Ele então indicou que tinha algo no Box — era a meia. Disse-lhe que se vestisse primeiro e depois me pedisse que eu daria a ele a meia. Eu vi que era um pano, não sabia que era meia. Ele, sem dizer nada, foi se secar e se vestir, não mais me pediu a meia e eu me esqueci. Mas de alguma forma ele teve sua meia e apareceu vestido com ela. Ele a tinha trazido do parque. Mais tarde conversei com Paulo, à mesa do refeitório, sobre a meia: "Você queria guardar a meia para você e a tia não deixou". Olhou-me e sorriu (em geral ele tinha um comportamento esquivo e gostava de bancar o bagunceiro. Era difícil falar com ele). Ele comia bem. Digo: "A tia não deixa você guardar nada com você?". Ele: "Não!". Fico ao seu lado mais um pouco e depois pergunto se quer mais comida. Diz que sim e dou. Ele come algumas colheradas, mas deixa muita comida no prato.

Paulo, que durante todo este acontecimento não teve qualquer atenção do adulto, a não ser para repreendê-lo, não consegue falar e nada faz a não ser protestar com seu corpo. Quando lhe dou um pouco de atenção e reconheço seu desejo de posse de um objeto particular, ele consegue responder e "pedir mais". A "fome" era de atenção e não de comida, por isto deixou no prato.

Ainda com referência à roupa, a troca desta e todo o seu controle é feito pelos adultos. Se a possibilidade de permitir a opção à criança não ocorre devido a problemas do funcionamento administrativo-burocrático, como dizem (falta de roupas, falta de espaço para arrumá-las, falta de pessoal para fazer esta organização), o que se nota é que o funcionamento institucional vai além. Tem um motor próprio e razões só justificadas pela regra básica de não permitir o

surgimento de qualquer desejo ou diferenciação.19 Nesta escola, como em todas as demais, com exceção da dos adolescentes, as funcionárias decidem pelas crianças se estas estão com frio ou com calor. Elas não podem sequer aprender a perceber, no corpo, a sensação de frio ou de calor e o conforto ou desconforto de se agasalhar.

Quase no final do almoço uma menina, das maiores, diz com a

voz meio infantilizada de quem reclama "'Tô com calor!" e olha

para mim. Ela já havia falado isto olhando para a "tia". Digo:

"Tire o casaco!". Mas ela sabia que não podia e diz para a "tia":

"Tô com calor e vou tirar o casaco.". A "tia" a olha com olhar

severo — "Por que só você vai tirar se todo mundo está com a

blusa?". Não dá conversa e a menina fica com o casaco. Noto

que as "tias" estão sem casaco de frio.

Um aspecto que caracteriza a impossibilidade da criança ter algo pessoal e individual é a denominação "lixo", nos Internatos II e III para qualquer pequeno objeto que ela tenha em mãos, seja dado pela mãe ou achado no pátio. Essa tentativa de burlar a vigilância é vista pelas pessoas que encarnam o funcionamento institucional com total desprezo. Não podem ser caracterizadas a guarda e a

posse de qualquer objeto.20 O controle é feito sistematicamente na entrada para o refeitório e para o dormitório. No Internato III, as crianças chegam a guardar pequenos objetos — pauzinhos, linha, pedrinha, caco de vidro — na boca para burlar a vigilância. As razões institucionais para este cuidado são a higiene e o receio de que possam se machucar com os objetos. Em suma, agem assim para proteção e suposto bem-estar das crianças. Vejamos o exemplo a seguir:

Antes de deitar para dormir, a "tia" alerta que deixem o "lixo"

sobre a sapateira. Chama a irmã de Roberta (elas choraram

muito quando a mãe se foi — hoje é dia de visita) e pergunta

"Você está com lixo?". Ela levanta as mãos abertas, como se

fosse um assalto, para mostrar que não. Diz que a irmã é que

tem. A "tia" manda que ela guarde o "lixo" sobre a sapateira.

Ela guarda a bonequinha que a mãe deu. A "tia" diz: "Amanhã

você pega, tá?" (Mas no dia seguinte não havia mais boneca,

como pude observar).

As crianças, portanto, não têm roupa, nem qualquer objeto que seja

de seu uso particular21 — nem colher ou prato, lugar à mesa, roupa

de cama ou brinquedo. 22

A toalha de banho é colocada num cabide coletivo numerado e seu uso é exclusivo, enquanto em uso, para evitar doenças ou contágios. Eventualmente uma criança pode ter um brinquedo guardado com a "tia", brinquedo que a mãe trouxe. Este brinquedo lhe será dado, quando pedido em horas adequadas. Os funcionários não estimulam que os pais deixem brinquedos mas aceitam se houver um motivo especial e se acharem que isto fará bem à criança. Estas situações são raras. O comum é o desestímulo e o não cuidado com o objeto que a criança guarda após a visita dos pais.

Na observação acima, a "tia" não permite que a boneca fique na cama com a criança. Ela dá ordens expressas para que esta seja guardada no local apropriado. A criança tenta esconder mas as "tias" estão sempre alertas. O fato se repete e as crianças desalentadas acabam sempre entregando o objeto guardado. A funcionária promete que no dia seguinte a criança terá de novo seu biscoito mas, como pude observar, isto raramente acontece. As coisas somem durante a noite e a "tia" que coloca as crianças para dormir é diferente da que fica à noite e da outra que pega o turno da manhã. E, assim, ninguém dá conta daqueles objetos. Pode-se dizer que isto é um descuido fabricado dentro do funcionamento institucional, pois quando se trata do sumiço de um objeto que pertence à escola como a sandália, crianças e funcionários têm que dar conta a cada mudança de turno. As "tias" fazem as anotações adequadas sobre a questão para que a funcionária seguinte saiba do que se passou e crianças e funcionárias são responsabilizadas pela perda. Esse descuido passa também por uma total falta de respeito à criança e seus objetos.

As meninas maiores, já escaladas neste sentido, carregam para todo lado "seus pertences", dentro de uma sacola, para que não se percam. No Internato III, algumas crianças carregam seus objetos dentro de um embornal. Aqueles que não têm disputam os shorts que têm bolso, pois assim, pelo menos durante o dia, podem guardar ali algum objeto seu. Carregar seus objetos para que não desapareçam é uma regra em todos os internatos. Não há lugar seguro para guardar "seus pertences" sem o receio de que estes não sejam mais encontrados.

Vemos aí, mais uma vez, o esforço institucional para apagar qualquer diferenciação que possa existir entre os internos. Se um objeto é propriedade particular, ele é diferente. Poder se reconhecer num objeto particular que tenha sua marca, seu cheiro, sua história, é construir sua identidade. E uma forma de você se reconhecer dentro de um espaço que não lhe dá qualquer reconhecimento. Assim, no internato também se inviabiliza que a criança possa investir num objeto de significação afetiva. Winnicott denomina "objeto transicional" a posse de um objeto que se torna de estimação pelo bebê ou criança pequena. Este objeto "se torna vitalmente importante, para seu uso no momento de ir dormir, constituindo-se numa defesa contra a ansiedade, especialmente a ansiedade do tipo depressivo" (Winnicott, 1975). Ele estuda a importância do uso destes "objetos" em relação à saúde mental do adulto. No Internato I (com exceção da chupeta), como nos outros, nunca é permitida a posse de qualquer objeto. Vemos aí mais uma característica institucional que dificulta o desenvolvimento mental saudável da criança, a construção de sua identidade e sua possibilidade de se constituir enquanto sujeito.

Às meninas maiores é feita alguma concessão quanto à possibilidade de guardar alguns objetos de perfumaria — sabonete,

lavanda, pente, etc. 23 Mas se cuidados higiênicos ou atenção à vaidade feminina que surge são permitidos, esta é a única brecha possível. Não há outra. Uma coisa que marca muito as crianças, tanto os meninos quanto as meninas, é o corte de cabelo — um ritual do qual ninguém escapa. As crianças têm o cabelo tão curto que, se vestidas igualmente, não se podem distinguir os meninos das meninas. A razão institucional para o corte é a higiene, o combate aos piolhos, ameaça constante nos internatos. O ritual do corte nesta escola pode ser considerado ameno e cuidadoso. É feito pelas "tias" que estão diariamente com as crianças e as conhecem bem. As "tias" podem ser pacientes e gentis mas as crianças não podem fugir à regra do cabelo curto. Vejamos o exemplo abaixo:

A "tia" tenta explicar a uma menina, relutante em cortar o

cabelo, que precisa tratar de seus piolhos. Ela vem sem falar,

sem protesto, com o rosto triste. Senta-se resignada. As

colegas dizem coisas do tipo: "não fique chateada Sílvia", "ela

vai chorar", "ela não quer cortar". E, de fato, silenciosamente, à

medida que a tia corta o cabelo, suas lágrimas rolam em

silêncio e ela tenta manter uma cara digna. Está muito triste

mas não soluça. O corte demora muito, inclusive porque a tia

tem que parar umas duas vezes para atender a pais e a

meninas. Mas a "tia" capricha, corta devagar, diz que não é

cabeleireira mas capricha nos arremates! "Não gosto é de

deixar caminho de rato". Fala também do cuidado que tem, do

uso do sabão apropriado, mas que mesmo assim há muito

piolho. A menina que cortou o cabelo volta com o cabelo

molhado, a "tia" passa o sabão e ela vai brincar com o cabelo

assim.