Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 41 de 62

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Infância perdida

4. "Escamar" — busca de lazer e aventuras

E o diretor tem boas relações com o pessoal do padre Severino.

Ele usa isto para ameaçar os meninos. Por exemplo, se o

menino foge três ou quatro vezes vai para lá. Ele avisa à turma

toda "se fugir vai para lá". E, quando manda, ele forma e avisa

quem foi. Então isto amedronta, eles têm que andar certo. E

você sabe, lá é horrível! É uma prisão mesmo. E quem entra lá

muito macho de manhã, de tarde é mulherzinha. Eu fui lá. Não

sei como o Estado permite. Quem entra lá, tá perdido. Aquilo

não é casa de correção. O menino que sabe uma coisa ensina

para o outro e assim eles aprendem mais (Inspetor Rodrigo).

 

4. "Escamar" — busca de lazer e aventuras

Em termos da arquitetura, a Escola V é a mais fechada, cercada por grandes muros, e não permite a visão do que se passa fora. O prédio forma um retângulo com um pátio de cimento no centro. Existe um outro pátio, externo, no lado direito do prédio, mais espaçoso, usado para jogos de futebol. A ocupação deste pátio é considerada "recreação" e os alunos não têm livre acesso a ele. Nas outras escolas não há esta separação e os alunos podem com maior frequência usar o pátio como um todo. Nesta escola, o mais frequente é a utilização do recreio interno, de cimento e com poucas árvores, circundado pelo prédio.

Os alunos se sentem presos ali, o que os leva a se referir à escola como sendo "uma cadeia" ou "uma cela". Se não há uma recreação organizada (por exemplo, jogo de futebol), os internos estão sempre neste pátio fechado. Mesmo vindo de outros internatos eles se ressentem fortemente deste fechamento, sobretudo no verão, quando faz muito calor. Além disso, como no Internato IV, é comum que aos domingos os alunos não saiam deste pátio, seja porque há visita dos pais para alguns, porque há missa à tarde ou porque faltou inspetor e fica mais fácil mantê-los ali. Tudo isso favorece que o aluno queira "um pouco de ar", um pouco de liberdade, o que ele procura ao sair para dar um passeio pelas redondezas. "Escamar" é um termo usado pelos alunos de todas as escolas para se referir à saída para um passeio fora dos muros dos internatos, sem a permissão das autoridades. É um recurso menos radical do que a fuga, em busca de algumas horas de liberdade e divertimento.

Trata-se de um passeio no terreno da própria Fundação, em locais já conhecidos dos meninos — a beira do rio é um dos lugares prediletos, e gostam também de apanhar alguma fruta nas árvores. Eles sabem que, se os inspetores perceberem sua ausência, na volta haverá punição. Mas isto não os inibe de, vez por outra, "dar uma saída". É a hora do lazer verdadeiro. "Escamar" é também busca da privacidade, momento de intimidade com seus atos, sem a mediação de terceiros. Não estão sob a vigilância dos adultos, podendo descobrir situações novas e enfrentar alguns riscos. É comum que saiam acompanhados de um ou dois colegas. Vejamos no exemplo a seguir como os meninos explicam um dos principais motivos que os incentiva a "escamar" e como eles diferenciam esse ato da fuga:

O inspetor Eduardo do Internato IV traz três meninos e diz:

"Converse com ela.5 Esses três fugiram." Os meninos: "eh, seu

! Fugimos não! A gente escamou. Estávamos passeando lá em

cima, depois vimos um pouco o jogo no campão. Nós saímos

depois do bolo.6

Os meninos diferenciam a fuga do ato de "escamar", pois, ao fugir, há a intenção de não voltar mais. A fuga é considerada como um ato grave de infração e a punição é sempre mais dura. "Escamar", em geral, é entendido pelos inspetores como uma "coisa de menino querendo se divertir". Mas mesmo assim eles castigam e chamam a atenção, porque acreditam que se não o fizerem os meninos se sentirão estimulados a repetir o ato.

Os alunos não consideram "escamar" como uma infração:

Aqui, tia, eles ficam muito preso. Aqui não tem espaço. Lá em

Santa Cruz (Internato VI) era diferente. Lá tinha espaço, eles

não escamavam, só ficava dentro do recreio. Mas aqui não.

Aqui não tem espaço nenhum; aí eles querem ficar livre, ficar O problema se coloca porque são muitos os meninos e também porque não há uma preocupação legítima das autoridades responsáveis no que se refere a lazer e recreação dos internos. Os funcionários que trabalham diretamente com os internos não têm

solto. Eles saem da escola sem permissão. Lá eram poucos os

alunos que escamavam, por causa do coco, para subir no

coqueiro, essas coisas. Aqui é para pagar jaca, pegar coquinho,

coco-manga (José Carlos, 13 anos, 1ª série).

Tia, aqui podia ter esses negócios que lá em Santa Cruz tem.

Piscina, porque quando tem um sol quente e não tem passeio,

a gente podia ir na piscina. Aqui não tem nada disso, tia. Tem

que ficar todo mundo isolado assim. Onde quer ir, tem que ir

todo mundo a pé, senão os garotos escamam lá para o rio,

lugar onde tem muita cobra, lá no pé do morro. Fica caçando.

Aí os garotos escamam para lá para tomar banho. Quando tem

passeio e barra o garoto, ele vai e escangalha toda a roupa de

cama, e rouba se vê alguma coisa de bobeira, três assalta

negócio do garoto, pega no armário, pega tudo lá (Ubirajara, 11

anos, 1ª série).

Todos os funcionários reconhecem as falhas da escola no que se refere a recreação, passeio, lazer e esporte. Mas mesmo assim os alunos não devem ter vontade de sair e passear. A escola deve bastar no que lhes oferece. A regra de não ir para fora dos muros deve ser obedecida. Os funcionários eventualmente podem compreender que os meninos queiram passear, "escamar" e "fazem vista grossa".

Na falta do que fazer no domingo, "escamar" é uma opção, senão a única, de lazer.

A semana é mais animada, com mais atividades do que no domingo. Durante o ano somente 30% dos internos saem com os pais ou têm permissão para sair nos fins de semana. Quando tem passeio no Maracanã ou na praia, dificilmente há condições de todos irem. Se a escolha fica com o inspetor, que trabalha diretamente com o aluno, não se torna necessariamente mais fácil — entre 75, o inspetor tem que escolher uns 30 — e sempre pode haver interferência da direção.

autonomia para organizar atividades de lazer. 7 Eles têm consciência da importância da diversão no final de semana para manter a disciplina durante a semana — o clima geral da escola fica menos tenso, há menos brigas e mais facilmente os meninos se submetem à disciplina dos horários e atividades.

Nas férias a grande maioria dos alunos sai para passar um mês com os pais ou responsáveis. É comum que fiquem na escola de 80 a 100 alunos. Eventualmente as férias podem incluir passeios quinzenais feitos no ônibus da própria escola ou em ônibus da Funabem. No entanto, pode ocorrer que fiquem durante as férias sem nenhuma atividade. Ano após ano, a situação não se modifica. O discurso de melhorias existe, tal como o da falta de recursos financeiros. Os funcionários participam da venda de terrenos valiosos da Fundação, mas não há qualquer benefício para as escolas e para a melhoria do atendimento ao interno. Os funcionários fazem reivindicações antigas, tais como a reforma do ginásio de esportes, que já funcionou, a construção de uma piscina que poderia se aproveitada pelas quatro escolas, a compra de ônibus para a realização de passeios, sem qualquer sinal de

resposta das autoridades (Vide foto 12).

Foto 12: Os funcionários têm consciência da importância da

diversão no final de semana para manter a disciplina durante a

semana.

Uma das possibilidades, no domingo, de fazer algo diferente do

resto da semana, é ir à missa. 8 Esta escola é a única do conjunto que decidiu dar ao interno a opção de ir ou não à missa. Segundo informação dos inspetores, esta decisão partiu do fato de muitos internos não quererem ir e do padre perceber que a missa não deveria ser mais uma obrigação do internato. Então, no sermão, ele falou que deveria ir à missa quem quisesse. Assim, esta escola passou a seguir a orientação do padre. Mas esta liberdade de culto não durou muito, sobretudo por ser uma exceção à regra da Fundação, confessadamente católica.

Em novembro de 82, quando fazia a pesquisa num domingo, houve a seguinte ordem — "missa geral". Ou seja, todos os alunos deveriam comparecer à missa. Isto gerou um rebuliço na escola, os meninos se espantaram com a ordem e diziam que não podia ser dada aquela ordem — "já não é mais obrigatório, o padre disse que não era". Mas, como disse o chefe de disciplina, "é ordem". E, sem mais conversa, exigiu que todos tomassem banho e se arrumassem para ir à missa. E porque a missa era às 16 horas os meninos ficaram no pátio interno após o almoço. Como havia muitos, eles se chocavam uns com os outros. Segui as crianças até a missa. Todos foram em fila e comportadamente ocuparam os bancos a eles destinados. A igreja estava repleta, com outros internos das escolas vizinhas, funcionários e moradores. Na hora da comunhão o padre chamou quem estivesse preparado para comungar. E muitos foram, mesmo aqueles que ainda não haviam feito a primeira comunhão. O inspetor não esqueceu seu caderno, anotava aqueles que considerou faltosos no comportamento e mandou trocar de lugar aqueles que conversavam. Acompanhei a saída e a volta para a escola, e participei então de uma conversa entre eles.