Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 39 de 62

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Infância perdida

2. A rigidez disciplinar — preparação para o quartel

2. A rigidez disciplinar — preparação para o

quartel

No Internato V, os internos são mais desenvolvidos fisicamente e têm uma variação maior de idade, podendo haver vários alunos com 14 anos, sobretudo quando estão atrasados na escolaridade. Nesta faixa etária já se evidencia um significativo atraso escolar. Os inspetores dizem que os internos já são "homens" e não mais se verificam as atitudes paternalistas encontradas na escola anterior. São muito exigentes na disciplina e nos seus comandos, são econômicos na palavra, usando frases mais curtas ou somente o gesto e o apito. Falam pouco e não se explicam. Quando os alunos são vistos como passíveis de punições, o inspetor "põe a mão" no aluno, agredindo-o fisicamente.

Os funcionários, como no Internato IV, raramente admitem que batem nos alunos, a não ser por alusões ou admitindo que "às vezes é necessário dar umas palmadas" e que o farão sempre que necessário para manter a ordem e educar o aluno — justificativa dada pelos inspetores em resposta à pressão de seus superiores, informados pelos alunos. Os internos falam claramente que são "espancados". Nenhum aluno o nega. São práticas realizadas dentro dos dormitórios e preferencialmente à noite. A cumplicidade entre os inspetores ocorre aqui, como nas demais escolas. É importante não deixar marca no corpo do aluno. Caso o inspetor cometa "excesso", o que significa que "não sabe bater", o interno sente-se mais seguro em denunciá-lo, sujeitando-o, neste caso, a punição superior ou mesmo a demissão.

Aqui se supõe que o aluno já tenha incorporado as normas disciplinares próprias à instituição total. Não se vê o interno como sujeito. Desta forma, seguir a disciplina inquestionável parece ser algo tão evidente e naturalizado que a não submissão do interno a este sistema não é pensada como possível. Através do exercício disciplinar, das ordens formuladas, força-se o aprendizado da submissão e sua consequente interiorização.

A justificativa exemplar que legitima o "excesso disciplinar" é reafirmada com vigor — trata-se de preparar os internos para seguir as Forças Armadas no futuro próximo. Há um consenso entre os inspetores de que este é o caminho possível para os internos trilharem ao sair do internato.

Se não acata a ordem, chega no quartel e não vai saber. A

maioria deles aqui vai para o quartel! A disciplina para eles lá,

então, vai ser moleza em comparação com os que não

passaram em internatos. Os meninos são preparados, apesar

de não haver ordem da direção, pois que outra coisa esses

meninos podem fazer? (Inspetor Rodrigo)

Este ideal começa a ser cultivado nos alunos com seis anos de idade (Internato III) e tem aqui uma constante reafirmação. Nas vésperas de sair do internato, a maioria (90%) dos alunos diz ter como ideal seguir as Forças Armadas.

O Internato V é visto pelos internos como uma prisão, onde há muita violência por parte dos inspetores. A qualidade e a quantidade da alimentação não são satisfatórias. Falta água, a distribuição de roupas é inadequada e há poucas opções de lazer, principalmente nos domingos, dia de maior tédio. Alguns meninos dizem gostar da escola e dos inspetores, mas nos depoimentos, colhidos aleatoriamente e de maneira reservada, é transparente a representação dos atos truculentos e da violência generalizada.

A rotina diária não se modifica muito de um internato para outro. Ocorrem apenas mudanças de ênfase na rigidez disciplinar e no cumprimento das regras. A partir dos próximos depoimentos pode-se afirmar que o mais significativo é o treinamento, o exercitar dos corpos dóceis, a permanente submissão à autoridade, que os subjuga a uma disciplina rígida, onde qualquer pequeno desvio é motivo para uma "micropenalidade" (Foucault, 1977, p. 159). O interno se dá conta de que se encontra "preso numa universalidade punível - punidora" (Foucault, 1977, p. 160)

Tem vez que enseba muito na formatura. Fica demorando, ao

invés de debandar logo. O Sr. Marcelo já disse que podia vir

andando, mas tinha que ser um pouco mais rápido para não

atrasar a turma. Mas alguns não quer correr, fica num enseba,

enseba, lendo revista, andando devagarinho. Aí então, por isto,

o seu deixa em pé mais de uma hora (João Carlos, 13 anos, 1ª

série).

Os garotos saem da escola sem permissão, fica de briga no

recreio, desobedece... o chefe de disciplina, automaticamente,

ele forma e deixa de castigo. Deixa formado e só assim não dá

jeito de ninguém sair do recreio e de ninguém brigar. Por isso

que eles deixam formados a maioria das vezes (Jerônimo, 15

anos, não estuda, está internado há 6 anos) (Vide foto 11).

 

Foto 11: "Os garotos saem da escola sem permissão, fica de briga

no recreio, desobedece... o chefe de disciplina, automaticamente,

ele forma e deixa de castigo."

Há determinação, no regulamento dos horários, de que se deve fazer "formatura", mas os inspetores usam-na como instrumento de expressão de sua autoridade a qualquer momento que considerem necessário. Não há impedimento superior neste sentido. É uma maneira do inspetor mostrar, para os alunos, para si mesmo e para os colegas, que ele tem domínio sobre a sua turma e que pode exercer este domínio por qualquer motivo que achar justificado. O exercício da "formatura" tem seu ponto mais alto aqui. Os alunos já estão bastante treinados e ao mesmo tempo têm uma idade que ainda permite ao inspetor usar seu poder sem ameaça de ser desobedecido. Vejamos um exemplo:

Seu Rodrigo, quando ele manda fazer formatura e os caras vêm

conversando, aí ele manda formar no outro lado, só fica

fazendo isto: forma ali, forma ali, ali, toda hora. Fica trocando de

lugar até os outros fazer certo (Ricardo, 14 anos, 2ª série, foi

internado com nove anos, já passou por três escolas).

Eu não gosto muito de colégio interno não. Quero sair porque

isto aqui está ficando muito ruim. Porque os inspetores estão

batendo, estão ensebando muito na formatura. Fica toda hora

pondo a gente para cobrir, firme e a gente nem pode coçar a

perna senão bota de castigo, bate. Eu fico muito nervoso

quando ele tá formando assim só para tirar castigo, fica batendo

na gente. E também fica ensebando para tirar a turma de setor

(Marco Antonio —13 anos, 2ª série, foi internado com 10 anos,

passou por cinco escolas).

Já no Internato I, como vimos, os internos são unidades numa "série". A vigilância permanente e o controle sobre a vida dos internos, não permitindo que se constituam enquanto sujeitos, impedem também a formação de "grupos". O que temos nos internatos é a "serialidade", a massificação, que dificulta atos de resistência ou contestação às normas impostas do exterior.

Algumas "brincadeiras" frequentes no cotidiano acentuam características específicas nos internos capazes de diferenciá-los dos outros colegas, mas sob a forma de humilhação, depreciação e de maneira preconceituosa:

O chefe de disciplina chama um menino no pátio: "Magrela,

magrela! O puro osso! Vê se o barbeiro está lá!". E o menino

não atende, creio que de propósito. Ele fez cara feia e se

afastou.

Os meninos me pediam para que tirasse uma foto deles e a

enfermeira disse: "É vou tirar uma foto sua e levar lá para casa,

pendurar na parede. Tá dando muito mosquito. Só assim vai

espantá-los [ri]". O menino bem negro, que se aproxima,

inicialmente sorri e depois, visivelmente aborrecido, diz para

enfermeira: "Ih, dona".

O recreador olha o jogo de futebol enquanto um aluno fica de

juiz. Os meninos comentam a arbitragem e o recreador critica:

"Levo vocês no Maracanã e mesmo assim vocês não

aprendem. Não adianta, vocês nunca vão aprender mesmo

não!".

Nos depoimentos dos internos se nota ressentimento pelo que consideram injusto, excessivo, mas não parecem considerar que o inspetor está abusando de sua autoridade ou que não deveria agir como age. Eles explicam a repetição excessiva da "formatura", por exemplo, pelos desvios disciplinares cometidos por eles mesmos. Isto me leva a pensar que o interno vai, ao longo do tempo, percebendo a disciplina como "natural", algo inevitável, parte da vida institucional. Sua longa aprendizagem lhe ensinou que não há como vencer esse poder, que paira como algo dado, contra o qual ele é impotente. "Aquilo que é ou parece ser inevitável para os seres humanos deve também de alguma forma ser justo" (Moore, 1987, p. 101).

Viver dentro do internato é submeter-se. A fuga surge, neste momento, como uma resposta e como expressão da não aceitação do sistema institucional. É a única opção possível como recusa à submissão às regras disciplinares da instituição. Mas se constitui sobretudo num ato isolado.