Infância perdida
6. "Estórias de sacanagem e saliência"
no atendimento a essas crianças. 11 E eles ficam nos internatos ano após ano, como que perambulando até que se crie alguma situação considerada intolerável ou que algum responsável resolva desligá-lo. Segue outra observação:
Um menino, do meu lado, mostra outro que chorava antes do
almoço: Ele rasgou a camisa porque os meninos bateram nele,
porque ele é pinel. Olha, ele come papel!
A agressão não se limita a ataques aos meninos "malucos". Entre eles a tensão é grande e as brigas no pátio interno são frequentes. E a briga pode ser tão feia que o índice de "acidentes" é significativo nesta escola, segundo dados da enfermeira. Não foi possível, entretanto, aferir se esses acidentes só ocorrem por brigas entre os colegas ou se também se devem a agressão dos inspetores. Segundo o médico e a enfermeira "há épocas em que não tem nenhum e semanas com três a quatro fraturas". Certamente a dinâmica institucional colabora para que exista este nível de tensão e agressão, concorda comigo o médico, mas evita qualquer esclarecimento.
Mesmo no jogo surge a agressão entre eles. Os meninos narram que uma das regras do jogo pode ser a seguinte: "o perdedor é malhado pelos outros". Tive oportunidade de observar esta situação diversas vezes. Ao comentá-la com os inspetores, me disseram que isto deveria ser proibido, mas nada é feito nesse sentido. Entendi que eles me falavam da proibição por se darem conta de que não deveriam fomentar a agressão entre os alunos, mas na verdade parece que isto está em concordância com todo o sistema ali existente.
6. "Estórias de sacanagem e saliência"
Aqui vamos encontrar o mesmo sentimento de desproteção e de abandono que abordamos no Internato IV, não só em relação aos meninos com problemas psicológicos acentuados ou retardo mental. Aqui também, como vimos no Internato IV, eles ficam à mercê dos atos arbitrários dos funcionários, da violência física dos inspetores, sem que nada possam fazer para defender-se. Se tentam denunciar os maus-tratos, são ainda mais castigados.
Uma questão que começa a existir no Internato IV e ganha vigor no V é a sexual. Os funcionários se referem como "pederasta" ao menino que mantém relações sexuais com os colegas. Na Escola V a repressão é intensa e este problema é considerado de difícil solução. Mas, antes de abordá-lo, é importante considerar uma situação criada na época da pesquisa, que revelou esta mesma
situação entre funcionário e alunos, no Internato IV. 12
A situação se revelou no Internato IV porque um menino novato falou para o pai que estava sendo abusado sexualmente por um inspetor. O pai, segundo a diretora, era alcoólatra e "fez o maior escândalo" num dia de visita, exigindo esclarecimentos da direção. A secretaria central tomou conhecimento do fato e despediu o
inspetor. 13 Inicialmente fui informada pela nova diretora que estava muito preocupada com a descoberta da situação, embora esta já fosse do conhecimento do anterior diretor, como também do diretor-geral das quatro escolas, sem que tivessem tomado qualquer atitude.
O abuso sexual é uma dessas situações de violência contra a criança que todos conhecem, mas ninguém menciona. Só um fato novo pode revelá-la, mas mesmo assim poucos funcionários admitiam falar a respeito. Quando perguntados indiretamente por que o colega fora demitido, os inspetores negavam saber o motivo. O silêncio possivelmente se explica por estarem todos implicados na mesma situação e, como já vimos anteriormente, a cumplicidade esconde sempre outros fatos cometidos por eles. Os internos, entretanto, abordaram esta questão sem tantos rodeios, apesar do
aparente constrangimento por falarem a uma mulher. 14
Um dos meninos se aproximou de mim no pátio e insistiu para que falasse com ele. Sentamos no chão para conversar e mais 15 nos rodearam. Começaram a contar estórias da escola e da vida deles — eles sempre tinham o maior interesse em que alguém os escutasse — e logo um grupo diz que queria contar "estórias de sacanagem e saliência". E falaram de várias estórias que se passaram entre os alunos e o inspetor demitido. Falaram o nome dos meninos que eram abusados sexualmente e descreveram como alguns deles iam até a sala de televisão, onde tudo se passava, olhar a cena pelo buraco da porta. Vejamos um dos relatos anotados:
Se o menino não desse, tia, ele deixava de castigo e ameaçava
bater. Ele só fazia isto com branco, tia. Ele dizia: fique de
quatro. E ele ficou fazendo aquele movimento... Saliência, tia.
Aí eu joguei uma pedra nas costas dele e corri.
Os outros escutavam atentamente as estórias. Falaram que os meninos não podiam reclamar senão apanhavam. Comentei com eles a minha surpresa, pois me parecia que aquele inspetor era bom para os alunos. Eles riram e disseram:
É bom na frente dos adultos! A senhora achava que ele era
bom? Pois batia na gente e não dava moleza não. Com os
adultos ele era legal, simpático. É assim que eles são!
No relato fiquei sabendo que um dos meninos, abusado sistematicamente pelo inspetor, era um interno que eu havia entrevistado e que sempre me procurava para conversar. Ele tem outros irmãos nesse mesmo conjunto de escolas. Falei em particular com ele sobre o assunto e, após breve resistência, me relatou que a situação perdurara, pois não sabia o que fazer. Inicialmente, falou com o diretor-geral da época, que lhe disse que tomaria providências e não tomou. Falou com sua mãe, mas os dois chegaram à conclusão de que ele poderia ser expulso, como também seus irmãos, e tiveram medo de fazer a denúncia. Disse que, quando entrou um colega novato que passou a fazer parte dos meninos escolhidos do inspetor, ele lhe confidenciou que deveria "caguetar" logo pois, com o passar do tempo, tudo ficaria mais difícil. Falamos nessa ocasião sobre a questão da pederastia entre os meninos nos internatos, distinguindo funcionários e internos. a."Aqueles que dão tem uma fila querendo"
A "transa" sexual entre os meninos se inicia no Internato IV (meninos de oito a dez anos), se intensifica no V e VI e no Internato
VII ganha alguns aspectos novos e violentos.15 A pederastia é um assunto pouco falado. Os funcionários admitem que existe com frequência e atribuem, em grande parte, à ociosidade dos meninos. Na falta de lazer, de jogos, sobretudo nas férias, "o único divertimento acaba sendo a pederastia", me disse um inspetor antigo. Não ter o que fazer é uma constante em todos os internatos mas, segundo os funcionários, se torna especialmente crítico depois dos 10 anos de idade. Se não se ocupa o interno ele "apronta": "escama", foge, arranja briga, cria hábitos homossexuais. Tudo isto torna mais difícil manter a ordem diária e a disciplina rotineira que lhes é cobrada.
A pederastia é um problema de difícil abordagem e muitos funcionários não sabem o que fazer. A solução frequentemente encontrada é bater no aluno. Eles também são "barrados" (impedidos) nos passeios, não só como castigo, mas também para preservar o conceito público da escola. Vejamos como os inspetores lidam com a situação:
"Eu aviso para eles: se eu pegar vocês vão apanhar, e muito
[ri]. E nunca peguei nenhum até hoje!"
"Veja se estou certo: eu não bato não; se pego em flagrante,
como já peguei, eu deixo eles terminarem, não interrompo e
depois chamo-os e digo que não devem fazer isto. Se pego eles
se masturbando, deixo terminar e digo que isto não faz bem,
que eles têm um desgaste de energia enorme e que não leva a
nada e que isto faz mal ao futuro deles."
Os funcionários tratam a questão segundo seu ponto de vista, e a atitude mais comum é a repressão e o castigo. Mesmo assim os meninos falam com frequência que são importunados de noite por colegas. Alguns dizem que permitem "para se verem livres" dos colegas que ficam insistindo. Outros tentam algum jeito de se defender:
Tem aluno que tem no pavilhão, coisa assim canivete, para se
algum aluno tentar fazer alguma coisa com ele na noite,
maldade, ir na cama do outro fazer safadeza (Jocenir, 12 anos).
Neste Internato V os pederastas, que também passaram a ser chamados de "gays" pelos colegas, sempre foram discretos, temerosos de se exibir; mas, durante a pesquisa, observei que havia um grupo de cinco ou seis que claramente assumiam a sua condição através de gestos e voz. Segundo os inspetores, eles eram em número de dez no ano de 1982. Era frequente vê-los cantando e dançando com muito rebolado ao som do rádio no pátio e, liderados por Pedro, ensaiavam números de dança. Essa expressão aberta, através da dança, foi uma novidade que surgiu com a vinda de maior número de alunos e a situação de certa
confusão que se colocou naquele semestre. 16 A expressão "descarada" dos internos na dança gerou reação de outros internos do Internato VII que por ali passavam:
Que pouca-vergonha! Veja aquele pirralho! Só matando esses
caras. Ah, se esses caras fossem para... (Internato VII) eles
entravam no cacete. Eles aprendiam rapidinho!
Pedro, 13 anos, nascido no hospital psiquiátrico onde vive sua mãe, doente mental, é o líder do grupo de dança. Vejamos como ele defende sua posição e preferência sexual:
Eu tenho problemas. Eu mantendo relações sexuais com outro
homem, sabe? E eu sou contra a mulher, não gosto de manter
minha relação sexual com mulher. Prefiro manter com homem
porque quando fui criança fiquei internado numa escola que
tinha garota e lá comecei a aprender a dançar, rebolar. Essas
coisas todas. Mas eu fiquei acostumado com garota
aprendendo a cozinhar, de panelinha, a fazer aquilo, sabe?, e
acostumei com aquilo. Muita gente olha para mim e diz: 'ih,
aquele garoto está imitando viado, que coisa feia'. E eu falava: Consideravam muito difícil vigiar, pois com apenas dois vigias noturnos (Internato VI) os meninos se "aproveitavam" quando eles não estavam por perto. Aqueles que dão tem uma fila querendo", me disse um deles.
'toma conta de você, é o melhor que você faz. Deixa a minha
vida que eu sei o que estou seguindo'. E eles não gostavam
que eu falasse isto. Preferiam que eu virasse homem. Está
certo, Deus me colocou no mundo para eu virar homem. Mas
acontece que a mania que eu peguei ninguém vai tirar, a não
ser meu pai, Deus. Aqui no colégio eu rebolo, danço e nenhum
funcionário tem nada a ver com isto que eu já falei. Eles me
ajudam, gostam de mim. Eu não sou um garoto que demonstro
muito o que sou. Gosto. Tem muita gente que gosta de mim.
Tem uns garotos que não gosta, o problema é deles. Não estou
me oferecendo para ele gostar e quero ficar assim mesmo.
Para mim esta vida está boa. Ninguém está me perturbando.
Não ando levando esporro. Para quem não sabe ser o que eu
sou, sempre tem que sofrer, porque eu sei ser e entendo muito
bem o que estou fazendo. Quando eu era daqui, eu apanhava
muito dos inspetores, sabe? Mas eu apanhava porque eu era
assim, tipo isto que eu estou falando, sabe? Mas eles queriam
me bater para eu ser homem, mas não adiantava nada.
Apanhava muito. Mas chegou num próximo dia que eu fui para
o (Internato VI) e quando voltei nenhum deles mais está me
batendo. E nem vai me bater. Porque se me bater agora eu sei
falar. Antes eu não sabia falar nada (Ele segue falando dos
colegas que são barrados no passeio por serem pederastas).
No Internato VI, bem como no Internato VII, a prática da pederastia é intensificada entre os garotos, segundo informações dos funcionários. Alguns conversam com os internos, mas o castigo é a atitude mais frequente para punir aqueles que são pegos em flagrante. No Internato VI consideram que o problema diminuiu com a lotação mais reduzida da escola nos últimos anos. Os meninos não falam abertamente nesta questão, mas quando ali trabalhei como psicóloga em 1980-81, durante o atendimento, alguns reclamavam de que eram importunados à noite. O funcionário que mais conversou comigo sobre a questão disse, justificando: "até no Exército tem, aqui também tem".
A preocupação do recreador era: "quando os meninos crescerem, se casarem e tiverem filhos, como vão explicar para estes sua prática de pederastia no internato?". Apesar de acreditar ser uma fase pela qual o menino passa, ele não é tolerante e seu "método de lidar" é dar uma bronca, falando em grupo, induzindo os colegas a dedurarem os "namoradinhos" e dando um "sacolejão" no menino. Diz que "antes" batia, mas agora todo adulto tem medo, de pôr a mão no menino, então ele não bate, "só dá uns tapas e
sacolejões".17 Falava também que "imprensava" muito mais os negros que começavam a "ser bichas" do que os brancos — "preto por natureza é todo macho, grosso; não tem lábios, tem beiço; não tem nariz, tem narinas e o cabelo é horrível". E, rindo, me disse: "não vai pensar que sou racista!". Para melhor justificar sua perseguição aos negros "bichas", ele explicou:
afinal já são nego e ser bicha é o fim do mundo! Branco ainda
pode ter jeito de mulher, é mais delicado, tem a pele fina. Os
homossexuais que os garotos mais gostam são os que dão, são
os que têm a bunda lisa.
No Internato VII os funcionários quase não falaram de questões sexuais e os adolescentes riam e desconversavam quando eu tocava no assunto. Um dos comentários foi: "faz bem para a saúde, dona!". Pelos comentários que ouvi de funcionários e de internos, tive a impressão que não se considera, nesta escola, o homossexualismo como um problema a ser combatido expressamente. Parece ser aceito como parte daquele ambiente de convívio masculino. Os adolescentes que demonstram pelos gestos ou voz que são "viados" — como os internos os denominam — têm uma vida difícil. São frequentemente provocados e humilhados com brincadeiras. Em geral são discretos. Jamais se verificam cenas de exibicionismo como as do Internato V. Uma outra expressão que se observa, à noite, quando eles veem televisão, é a troca de carinho entre um aluno mais novo e outro mais velho — ficam juntos, de braços dados e não são importunados. Pelas informações obtidas, os mais velhos protegem algum menino mais novo de sua escolha da violência de outros internos, em troca de uma relação afetuosa. Ninguém admitiu que nesses casos houvesse relação sexual entre
eles.18
b. Curra
É no Internato VII que se encontram situações de violência sexual entre colegas. Os funcionários falam sobre esta questão, sobretudo o diretor; ao consultar os documentos, detectei o termo "curra". A "curra", muitas vezes acompanhada de "sevícia", ocorre nos arredores do estabelecimento, não havendo uma caracterização do tipo de menino que comete estes atos. Tanto pode ser um que já cometeu outros "atos antissociais" como roubo, furto ou um interno que até então era considerado como de ótimo comportamento, não tendo praticado nenhum ato que merecesse registro. O procedimento da direção do internato em relação aos adolescentes que têm a "ficha disciplinar" sem "ocorrências" é chamar à atenção, comunicar à família e castigar. A título de ilustração, vejamos um desses casos narrados em documento oficial — trata-se de um "sumário social" escrito pela assistente social do internato.
(..)
SUMÁRIO SOCIAL
"Caso do menor com 17 anos de idade filho de família
legalmente constituída porém desagregada pelo falecimento do
genitor" (sic). É uma informação que contradiz o sumário social
enviado pelo Juizado de Menores da comarca da capital do
Estado do Rio de Janeiro e no qual consta ter sido a família
abandonada pelo genitor do menor.
É um aluno que pela primeira vez se envolve em violência
sexual como também com más companhias dentro deste
educandário. Segundo informações colhidas através de
técnicos e funcionários deste estabelecimento, foi-nos colocado
possuir o aluno ótimo comportamento disciplinar, tendo
inclusive autorização de sua mãe para saídas regularmente.
A responsável pelo menor foi notificada através de seu irmão
(..), também interno neste estabelecimento de ensino, do fato
ocorrido com o menor em questão, o que deixou-a muito
preocupada fazendo com que a mesma procurasse a
administração da escola no domingo próximo passado
(11/04/1982).
Declarou-nos o menor que fora severamente repreendido por
sua mãe com alegações de que a mesma não esperava tal
comportamento desabonador por parte do filho.
Declarou-nos o menor que está arrependido e envergonhado
pela atitude impensada e preocupado com a decisão que será
tomada pela MM Juíza desta comarca.
13 de abril de 1982.
Assinatura da Assistente Social
Os adolescentes reincidentes em atos de violência sexual ou que já cometeram outros atos considerado, "graves" são levados à secretaria do diretor do Departamento de Assistência ao Menor para que seja formalizado seu encaminhamento, através da Funabem, a uma de suas escolas de "regime fechado". Considera-se que esses alunos não podem permanecer no internato. Devem ser isolados e reeducados na escola para adolescentes "infratores". Vejamos abaixo dois documentos que descrevem situações deste tipo. No primeiro, temos os dados principais do interno, com a solicitação de encaminhamento feita pelo diretor através de um ofício. No segundo temos uma ocorrência, redigida pelo assistente do diretor, narrando com detalhes a situação de envolvimento de três alunos na "curra" de um interno. Esta "ocorrência", juntamente com outros documentos pessoais dos alunos, é enviada à Funabem com solicitação de transferência desses alunos.
(INTERNATO VII)
"10/05/82
Of. nº 343/82
Do Diretor da Escola (...)
Sr. Diretor do Departamento de Assistência ao Menor
Assunto: Menor — encaminhamento
De acordo com a orientação recebida do Juizado da Comarca
(...), através da Dra (...), estamos encaminhando a Vª. Sª. o
menor JLB, RG. 89.495, estando cursando a 5ª série, tutelado
da Funabem, para as providências cabíveis, com relação à sua
remoção para uma escola de regime fechado, por motivo de
conduta antissocial, conforme relatórios apresentados pela
equipe técnica, em anexo.
Os documentos pessoais seguirão 4ª feira, dia 12 próximo.
O citado menor constou da relação dos alunos que foram
enviados a MM, Dra (...), no dia 24 pp. conforme Of. Nº 292/82
encaminhado a esse Departamento por ter participado da curra
ao menor JML.
Atenciosamente, (carimbo e assinatura do diretor)"
"(...) OCORRÊNCIA
Os alunos supracitados participaram de espancamento e curra
do menor O. de S. L., RG. 78556, hoje no horário compreendido
entre 11 e 13 horas. O aluno R. agrediu O. a socos e pontapés
amarrando-o a seguir, sob ameaça de um facão com o qual
causou-lhe vários ferimentos, conforme comprova o exame
médico da Dra (..) (anexo). O. ficou amarrado no mato durante
mais ou menos três horas, sempre vigiado por R., que não
parava de ameaçá-lo com o facão. O. foi impedido de vir para o
local onde R. os aguardava, R. exigiu de O. uma quantia em
dinheiro, para não voltar a agredi-lo e até mesmo matá-lo como
confirmam O. e os dois parceiros de R.
Acontece que o caso se agrava, porque não ficou só nas
agressões físicas (ferimentos corporais), O. foi barbaramente
seviciado pelos três, conforme informações do próprio, embora
A. negue haver participado deste ato (sexo). O. ao ser
examinado pela Dra (..), teve confirmadas as suas denúncias,
quanto à prática de sexo a que foi submetido.
Segundo informações colhidas pelo Coadjuvante de Disciplina
Sr (..) (sendo informantes A. e B) R. queria matar O., só não o
fazendo graças à recusa dos parceiros que ainda tiveram de
impor sua força física para impedir maiores violências sobre sua
vítima.
Acareados que foram por nós, o único que negou ter
participado sexualmente deste caso foi A., porém, O. alega ter
sido vítima de todos, sempre sob a ameaça do facão do R.
Acusa, ainda, O. que R. o soltou condicionado a uma
indenização de três mil cruzeiros (Cr$ 3.000,00), dentro de um
prazo de dez dias.
Durante nossa participação de apuração dos fatos, neste caso,
tomamos conhecimento de que R. já praticou ato idêntico com
outro aluno fisicamente menor no dia 24.04.82, ocasião em que
serviu-se do mesmo facão e praticou todos os atos de violência
corporais no aluno N. S .S., RG. 88543, e que por medo não
nos procurou para as devidas providências que o caso exige.
Da mesma forma que O., N. também se viu ameaçado de morte
(por facadas) se não lhe apresentasse os Cr$ 3.000,00 (três mil
cruzeiros), ao retornar da primeira saída que tivesse para casa.
Procuramos N. para a apuração e ele relatou-nos que foi vítima
de espancamento, foi amarrado e ferido (na mão) com o facão,
porém nega ter sido seviciado, apesar de ter chegado ao nosso
conhecimento que houve sevícia, realmente (supomos que o
menor se sinta envergonhado em confirmar).
(Carimbo e assinatura do assistente do diretor)"
Os funcionários do internato não dão qualquer explicação para a prática de violência sexual, considerada simplesmente como uma "conduta antissocial" do interno, que não é admissível naquele local. Nestes casos os "técnicos" — psicóloga e assistente social — são chamados para falar da personalidade e da situação social do adolescente, com a finalidade de reunir um conjunto de dados que reforcem o encaminhamento do interno para outro estabelecimento. Esses "técnicos" não são chamados a atuar diretamente junto ao adolescente, no sentido de lhe oferecer um atendimento. A violência sexual entre os internos, bem como os outros atos "antissociais" são sempre considerados como atos individuais, praticados pelos indivíduos, sem qualquer ligação com a situação de violência que esses indivíduos vivem dentro do internato.
Nosso estudo não se propõe analisar a personalidade desses jovens que permanecem muitos anos no internato, mas busca analisar as situações institucionais existentes e que repercutem na socialização do indivíduo. Como temos visto neste estudo, os internos vivem uma ruptura entre o mundo do internato e o mundo real. Suas possibilidades de relacionamento, portanto, são restritas às relações institucionais, que por sua vez não possibilitam a troca afetiva e o estabelecimento de relações de confiança. As interdições são inumeráveis e, particularmente após oito anos de idade, os internos são submetidos a situações de violência física das quais não têm como escapar — como espancamento, malha e inclusive situações de violência sexual por parte de funcionários. Esperar que todo este sistema de violência não repercuta nos indivíduos, tornando-os violentos contra os próprios colegas mais frágeis que eles, é fechar os olhos à realidade institucional e se eximir de qualquer responsabilidade, preferindo como sempre qualificar e catalogar o indivíduo.
1 "Se você abrir a porta da gaiola de seu passarinho preferido, aquele mais bonitinho e fofinho, ele não ficará nela nem mais dois minutos. Vai procurar fugir. Você não o deixava passar fome nem frio, mas ele fugiu. Sabe por quê? Porque estava à procura de liberdade. Veja o Daniel: tinha família, um lar, pai e mãe, mesmo assim fugiu. Estava cansado de só ouvir e também queria ser ouvido e entendido. O que eu via nos olhos de cada criança era revolta, angústia e vontade de sair dali. Cada cabeça, ali dentro, só ficava fazendo planos de fuga. Os funcionários só faziam espancar" (Collen, 1987, pp. 50 e 123).
2 "Pelo menos, na rua, há uma possibilidade de fuga ao castigo imoderado, à sevícia, à corrupção. Entre as paredes do internato, não há fuga possível" (Cavallieri, 1987, p. 64). Este comentário se torna mais interessante e significativo por ter sido feito por um dos mais conhecidos juiz de menores do Rio de Janeiro. Como se sabe, os juízes de menores são as autoridades que mais têm responsabilidade pela internação de crianças.
3 O Internato IV sofreu mudança de direção em 1981 e, pela primeira vez, uma mulher assumiu o posto de assistente de diretor. Isto gerou muitos conflitos e mal-entendidos entre os funcionários, sobretudo os inspetores, que são todos homens. O diretor anterior era muito estimado e estava no cargo há muitos anos. Esta mudança desorganizou o funcionamento, gerando situações de conflito entre os funcionários e a diretora, o que se refletia no aumento de tensão entre funcionários e alunos, ocorrendo com mais frequência situações de maus-tratos e fuga de alunos.
4 Reunimos alguns exemplos de fugas que ganham destaque na imprensa diária: "Menores fizeram armas para fugir da Funabem" (O Globo — 10/07/85); "Internas da Feem fogem por buraco na Ilha do Governador" (Jornal do Brasil — 19/1 1/85); "Total da fuga da Febem foi de 124 menores" (Folha de São Paulo — 03/04/85); "Funabem culpa juízes por fuga em massa de menores" (O Globo — 14/01/86).
5 Sou chamada a intervir na situação pelo inspetor como um pedido de auxílio profissional. Esse pedido, aliás, foi feito em outras situações durante a pesquisa. Isto me pareceu revelar confiança na minha pessoa e também expressar como os inspetores estão sós para resolver situações que gostariam de ver resolvidas sem ser por disciplina ou castigo.
6 Devido à festa de aniversário do mês, ninguém pôde sair da escola naquele dia, ficaram o dia todo trancados no pátio interno, fazia muito calor e não tinham nada que fazer ali. Aliás, é comum que não saiam aos domingos. Há menos funcionários e maior movimento de gente de fora, o que torna mais difícil tomar conta deles. Por isto muitas vezes ficam trancados dentro do pátio do internato, conforme observei e me foi relatado pelo chefe de disciplina.
7 Funcionários dos internatos conseguem, através de contato feito por sua própria iniciativa, ônibus ou ingressos para levar os internos para se divertir e, com frequência, são impedidos pelas autoridades superiores.
8 No Internato VII a missa é obrigatória duas vezes por semana.
9 Vemos no quadro abaixo como se distribuem 22 alunos escolhidos aleatoriamente:
Série/idade 10 11 12 13 14 Total
anos anos anos anos anos
1ª 1 - 4 2 - 7 2ª - - 2 1 2 5 3ª - 1 3 1 1 6 4ª - - 2 1 1 4
Total 1 1 11 5 4 22
Obs.: Estes dados foram retirados de entrevistas com alunos.
10 Referências aos nomes de um hospital psiquiátrico e de um remédio, respectivamente.
11 Quando trabalhei na Feem, em 1985, encontrei uma situação ainda pior. No estabelecimento que funciona como recepção e triagem, havia cem crianças consideradas excepcionais (retardadas) misturadas com outras trezentas na faixa etária de 4 a 16 anos, de ambos os sexos. Algumas delas tinham atendimento especializado fora do estabelecimento, mas ali dentro não havia qualquer cuidado especial, o que significava muito mais abandono do que não segregação. O próprio órgão estadual não tinha, na época, atendimento adequado para as crianças ditas excepcionais e por isto eles acabavam ficando no local de triagem, sem ter que para onde ser encaminhados.
12 Quando trabalhei no educandário de meninas "infratoras" da Feem, tomei conhecimento de que esta situação também ocorria ali. As funcionárias, entretanto, consideravam difícil a apuração de fatos, pois para que o funcionário fosse acusado deveria haver um flagrante, a denúncia da menor não sendo suficiente para a incriminação.
13 O inspetor foi despedido sem que fosse indiciado criminalmente. Tudo se resolveu dentro da Fundação. O pai dele é antigo funcionário e mora com a família nos terrenos da Fundação.
14 Creio que a condição feminina dificultou a obtenção de informações sobre questões sexuais, tanto junto aos funcionários como aos internos.
15 Antigo funcionário da Funabem, que ocupou o cargo de diretor por alguns meses, me contou que isto também ocorre com frequência nas escolas da Funabem, e deu exemplo de uma escola, que na época tinha 800 internos de 14 a 18 anos. Um dos funcionários antigos dessa escola lhe teria dito: "Bom, professor, aqui o negócio é o seguinte, metade da escola dá e automaticamente metade come".
16 Com o fechamento do Internato VI, no início do 2º semestre de 1982, os meninos foram acolhidos sobretudo pelo Internato V, havendo superlotação.
17 Quando ali trabalhava como psicóloga, certa vez, flagrei este funcionário, que é ex-aluno da Fundação, mandando um menino tirar a roupa na sala onde é guardado o material esportivo. Este menino estava jogando bola numa hora que ele considerou inadequada e, aos tapas, mandou o menino entrar para sua sala. Ele não percebeu que eu observava e lá dentro ameaçava bater no menino e mandava tirar a roupa. Entrei e perguntei o que ocorria. Ele ficou muito assustado e disse que só fazia isto para intimidar o menino.
18 No internato de meninas infratoras da Feem é comum a organização de "famílias", onde algumas adolescentes com maior liderança assumem o papel de "pai" e "mãe" e outras, suas protegidas, são as "filhas". Pode haver troca de carinho e sexo entre elas, mas não necessariamente com todas as que participam da "família". Constituem assim um grupo que se protege contra outras "famílias" ou lideranças. Herzer também narra no seu livro a organização de "famílias" nos internatos da FEBEM-SP (Herzer, 1982. p. 90).