Infância perdida
3. Fuga — possibilidade de escapar aos maus-tratos
3. Fuga — possibilidade de escapar aos maus-
tratos
A reclamação mais frequente dos internos é que "se bale muito". A disciplina, como nos outros internatos, faz com que os alunos infrinjam muito as regras. Os castigos são frequentes e, mais do que isto, em relação à escola anterior, se bate com mais facilidade no aluno. Os funcionários, como sempre, não admitem que batem, mas os alunos falam disso a toda hora. Nas entrevistas e conversas foi a questão mais considerada por eles. Vejamos alguns exemplos:
"Aqui o inspetor dá porrada ao invés de avisar."
"Aqui o inspetor bate, dá banda e sai sangue. Dá soco no
estômago, nos rins."
"Sr. Martins foi expulso porque ele me deu um soco no
estômago. Foi bom ele sair, ele é ruim mesmo."
"Eles batem pra valer, batem até nos meio-doentes."
"O inspetor aqui é bom. Mas tem uns que é pior do que o outro.
Tem uns aqui que bale, dá cascudo, dá tapa. Um dia um
inspetor foi expulso por isto. Deu paulada na cabeça do garoto."
"Andam descendo a mão! Sou do 4º dormitório. Tem seu
Martins e seu Rodrigo. Todos dois balem na gente como se a
gente fosse homem. Dão tapa no pé do ouvido. O diretor pensa
que não dói. Se a gente se queixa ele não liga ou diz que se
eles dessem soco na gente de verdade eles quebravam a
gente."
"Deixa eu falar, tia. Por que agora o colégio tá bom? Porque
saiu dois inspetores daqui — Carlos e o seu Martins. Agora no
colégio tá tudo bem. Seu Carlos batia pra caramba, era
carrasco. Isto aqui dele abriu e ele operou e agora ele já está
calmo e o seu já conversou com ele para não bater estúpido; só
botar de castigo e depois avisar." (Internos de 12, 13 e 14 anos)
Conforme depoimento de internos, nesta escola e na anterior, de pouco adianta reclamar com a autoridade superior. Nunca se admite que batem, ainda que se tenha conhecimento de que os inspetores estão batendo; mesmo quando se tomam medidas para puni-las e até demiti-los, isto nunca é admitido para o aluno. O aluno não deve saber que a autoridade vê falhas no inspetor. O aluno nunca tem razão e, na falta de apoio da autoridade superior, os meninos têm que descobrir por conta própria como se livrar dos maus-tratos recebidos. E a única opção que resta é a fuga ou a tentativa de ir para casa, o que nem sempre conseguem.
Ah, ele [inspetor] é duro o tempo todo. E bate para valer! Outro
dia seu Martins me bateu e eu ia fugir, depois pensei e fiquei.
Não tenho para onde ir. Ainda não tive visita aqui. Moro no
Vidigal. Sei ir lá, mas não tenho o endereço. Já pedi à
assistente social. Ela diz que vai resolver mas até hoje nada. Se
eu não tiver visita até domingo, juro que fujo para ir em casa.
Não tenho dinheiro para a passagem e se ir vou conseguir
carona ou a pé. Não tenho mãe, só irmãos, mas não me
querem em casa. Minha tia me internou quando eu tinha sete
anos (Osimar, 14 anos)
Como o seu sucesso não é garantido a priori, a fuga, apesar de pensada, não é tentada por muitos, principalmente aqueles que não estão habituados à vida na rua. Neste caso, a única perspectiva possível é a volta para casa. E muitos sabem que não terão apoio dos seus familiares, se fugirem.
Tia, quando eu fugi para Central, aí um dos garotos lá me fez
cheirar cola à força e eu não gostei. Aí eu gritei lá. O garoto que
eu briguei chamou patotinha, aí eu quebrei o vidro das Sendas.
Peguei um canivete e fiquei rodando assim e aí veio a polícia e
me pego (Carlos, 14 anos).
Eu entrei na Funabem com 12 anos mas nunca fugi do colégio
interno. Minha mãe falou que se eu fugir do colégio interno, eu
e meu irmão, ela vai bater em nós. Por isto não estou fugindo
mais. Eu não gosto muito de colégio interno não. Quero sair
daqui, porque isto aqui está ficando muito ruim (Luís, 14 anos).
Fugi desta escola aqui porque os inspetores me dava porrada
por motivo de nada. Seu Martins dava soco aqui. Ele já foi
embora agora. Por isto que eu fugi para outra escola que eu
tava — a Romão Duarte (Jaime, 12 anos de idade e interno há
doze anos).
Muitos alunos chegam ao internato por terem fugido de casa ou porque "bagunçavam" e a família então os internou. Também existem aqueles que não recebem visitas e nem saem para casa, tornando o retorno a casa através da fuga muito difícil, pois não sabem mais como localizá-la. Mas mesmo assim alguns fogem, ficam pela rua algum tempo e depois voltam para o internato. O exemplo de Jaime, menino órfão, não é raro. Órfãos ou não, mas ali esquecidos pelas famílias, os internos, sobretudo quando estão mais insatisfeitos com a vida no internato, saem para as ruas em busca de liberdade e de divertimento, mesmo que passem privações
e perseguições.1 É a única maneira que têm de se defender dos espancamentos ou da brutalidade dos inspetores, em geral impunes.
Jaílson: Eu fugi sete vez desta escola porque batia, botava de
castigo, pulinho de galo (pulando com a mão na nuca, até
cansar). Aí depois eu fugi e fui para a Central e meti a mão
nuns negócios lá porque eu tava com fome e não deu certo e a
gente voltamos para a escola de novo. Aí a gente fomos e
fugimos de novo e não deu certo e ficamos cinco meses lá na
Central, dormindo na Cinelândia, depois fomos para
Copacabana, e voltamos para a Central e passando uns meses
a gente voltou para o colégio; aí eu ganhei um soco na boca do
estômago e na barriga e não gostei e fugi outra vez. Aí, agora,
eu fugi mais de três vezes.
Sônia: Por que você apanhava muito na escola?
Jaílson: Porque eu fazia bagunça — quebrava o vidro, xingava
palavrão, jogava comida para o alto. Fazia isto porque ficava
nervoso, os outros mexia comigo. Eu quebrava cabeça dos
outros aí.
Sônia: Ficava nervoso por quê?
Jaílson: O inspetor me bateu e eu estava todo marcado, todo
dia a mesma coisa, me chamavam para o mutirão. Aí eu não
gostava. Eles davam soco na boca, soco de mão fechada,
chute e ponta-pé. Eu não gostava. Nem precisa caguetar que
não adianta nada. Só fugindo, aí adianta (Jaílson, 12 anos, 1ª
série).
Um dos motivos principais que levam à decisão da fuga (sair do internato sem intenção de voltar no mesmo dia) são, como vimos através da fala dos internos, os maus-tratos recebidos no internato — o espancamento, a disciplina muito severa ou o "mutirão", como os meninos denominam o castigo em grupo, sistemático e
exagerado.2
Um dia eu fugi daqui porque eu ficava muito no mutirão e eu
não gostava e fugi. Se a gente não ficasse certo lá ele botava
mais cruz e aí, aí eu fugi até o morrinho ali e voltei. Fui
castigado mais cinco dias. É ruim. Eu apanhei (André, 12 anos).
Lá no Internato VI tinha uma diferença. Quando o inspetor
perguntava quem estava conversando na fila, acusavam. Aqui
não, quando o inspetor pergunta, ninguém fala. Então o justo
paga pelo pecador. É castigo geral. Ninguém tem culpa disto.
Quem veio quieto paga até pelos bagunceiros (Jonas, 13 anos,
3ª série).
A fuga representa escapar aos maus-tratos, possibilidade de sair do ambiente no qual não tem qualquer liberdade, e também é a busca do lazer e da aventura. Mas a vida na rua não é fácil e a maioria dos que fogem acaba voltando ou é trazida pela polícia.
A fuga é vivida pelos inspetores como uma questão pessoal. É uma insubordinação sobre a qual, uma vez realizada, eles não têm controle. Mas, quando os internos retornam, tomam suas medidas repressoras aplicando castigos severos, como por exemplo "pagar" (ficar) uma semana de castigo em pé, o dia todo, na sala dos inspetores, só podendo sair para as atividades como aula, banho e refeição.
Um dos cuidados que os inspetores tomam para evitar a fuga é a proibição do uso da roupa trazida de casa, que é individual. Se o interno foge com o uniforme do internato é mais fácil sua identificação e prisão.
Os meninos que fogem aprendem a burlar a vigilância e acabam sempre levando outros colegas consigo. Para os inspetores e funcionários que ocupam posição hierarquicamente superior, a prática da fuga não levanta questões sobre o tipo de atendimento institucional oferecido, mas se trata simplesmente de uma expressão de rebeldia do interno. Os funcionários não gostam dos que fogem e consideram que aqueles que fogem com frequência devem mudar de internato, pois a escola não é capaz de submetê-los, visto que dominam os esquemas criados para mantê-los disciplinados no seu interior. E se há fugas, há burla das regras de vigilância — sinal grave de desobediência e desacato à autoridade local. Quem recorre às fugas deve portanto ser afastado. Tal indisciplina também pode contaminar vários internos e inviabilizar o sistema de internatos. Fugir é recusar-se claramente a aceitar as regras de convivência e disciplina, é negá-las. E isto não pode ser permitido, sob pena de desorganização geral.
Não sei como a polícia não o matou [Cláudio, 10 anos] ainda. O
juiz tirou ele daqui. Ele liderou a fuga de quatro crianças.
Menino que foge mais de três vezes não pode voltar para a
mesma escola (Inspetor).
A fuga não deixa de ser uma busca do lazer, mas é sobretudo uma recusa, que se pretende definitiva ou temporária (às vezes, eles
voltam por livre vontade) à vida no internato. É no Internato IV 3 que se inicia a prática da fuga sem ser ainda tão significativa como no Internato V e nos internatos seguintes, de faixa etária acima de 12 anos.
A fuga de internos é uma questão importante não só porque é
realizada em grande número e pode virar notícia de jornal4 tornando transparentes os maus-tratos, mas também porque é motivo para que o Juiz de Menores se comunique com a direção-geral para pedir esclarecimentos, o equivalente a uma "repreensão" da autoridade jurídica sobre as autoridades da Fundação. Nota-se aí que o Judiciário goza de um relacionamento íntimo com as autoridades da Fundação (o contato é feito por telefone), usando esta possibilidade para enrijecer a disciplina.
Com mudanças ocorridas no quadro de direção do conjunto dos quatro internatos, algumas técnicas novas foram sendo inseridas durante os anos de 1981 e 82, para melhor reprimir as fugas. O novo diretor havia trabalhado por 20 anos em diversos internatos da Funabem, sendo considerado um profissional muito experiente pela direção central. Este diretor começou a aplicar novas técnicas, utilizando suas "boas relações" com as autoridades dos Juizados de Menores, dos internatos da Funabem e da Polícia Militar. Uma das novidades, criticada em voz baixa pelos diretores e funcionários em geral, se referiu à presença de carro da polícia perto das escolas, inclusive nos dias de visita dos pais, "para maior segurança" de todos. Começavam então a se intensificar as relações com a polícia, prática mais comum nos internatos da Funabem e da Feem. Com o conhecimento dos recursos da Funabem, este diretor também começou a fazer uso dessas possibilidades, sobretudo devido ao seu relacionamento pessoal e direto com os funcionários da Funabem. Trata-se de enviar os internos para a "casa de correção" da Funabem, internato para acolher "menores infratores". Trata-se de fazer uso de recursos externos, antes não utilizados, para resolver situações de conflito neste conjunto de quatro internatos.