Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 52 de 62

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Infância perdida

8. Brincadeiras, jogos e passeios

qual menino fuma ou pratica pederastia. Conhece a maneira de

mentir. Aquele que não é ex-aluno muitas vezes não sabe

conversar, não sabe como resolver os problemas. Os ex-alunos

que são funcionários são, em geral, os que se destacaram, os

mais disciplinados, que davam mais cooperação e melhor

desempenho como monitores. Esses demonstravam vocação.

(Diretor do Internato VII)

A partir dos dados disponíveis neste estudo podem-se reconhecer alguns pontos que permitem e estimulam a identificação da criança

ou do adolescente com o inspetor.21 Não se pode esquecer que, neste estudo, o sujeito que se identifica é uma criança em crescimento e formação, portanto em fase propícia para que as identificações ocorram. Estas vão acontecer certamente com as pessoas com as quais convive. Vejamos alguns pontos que podem favorecer esta identificação: o inspetor, ou inspetora, é a pessoa adulta que lhes assegura os cuidados básicos de que necessitam para a sua sobrevivência — alimentação, roupa, sono. É com essas pessoas que eles têm um contato íntimo, frequente, e com quem algum relacionamento afetivo se dá. Na posição de monitor, o interno desfruta de algumas vantagens e liberdade, como também de uma relação privilegiada e de cumplicidade com o inspetor. E, por último, dentro do confinamento do internato, ser monitor é a única possibilidade de escapar das arbitrariedades do inspetor e do castigo.

 

8. Brincadeiras, jogos e passeios

Como já vimos, o horário rotineiro dos internatos não prevê muito tempo para divertimento, brincadeiras ou jogos. Há muito tempo livre, ocioso, de espera, não utilizado para recreação. Os alunos conversam entre si, brigam, divertem-se com alguma brincadeira, mas nada é feito com o incentivo do internato. Não há falta de local adequado; quanto aos recreadores, ainda que seu número seja pequeno em alguns internatos, há pelo menos um ou dois, mas que pouco fazem e não se dizem em condições de fazer. Por parte dos recreadores, há uma reclamação justa de falta de material adequado, como bolas, rede, etc. Mas há também um desânimo, característico do funcionamento institucional, que prega que não é possível fazer nada. Não há praticamente nenhum esporte organizado. Somente na Escola VII há alguns times de futebol, organizados pelos próprios alunos ou por um coadjuvante que se interessa em fazê-lo. Eles chegam a realizar algumas disputas com times de fora, mas jogam sobretudo entre eles próprios.

A disciplina referente ao esporte não é utilizada neste ambiente de internato. E por quê? Além de causar mais despesas — "os meninos teriam mais fome e comeriam mais", como ouvi muitas vezes — não interessa ao internato uma disciplina que forme o sujeito, que lhe dê capacidade de liderança, de decisão, de competitividade, na qual ele descubra suas potencialidades. É assim também em relação a toda atividade recreativa. Não há qualquer incentivo. E, como dizem alguns funcionários ex-alunos, esta atitude parece fazer parte de uma estratégia mais ampla:

Eles nunca gostaram que o aluno se saísse bem. Não podia ser

esperto para não saber seus direitos. Eu era bom no futebol e

comecei a jogar num clube e me saí bem lá, aí logo me

proibiram de ir. (Inspetor do Internato VII, ex-aluno da

Fundação)

Os funcionários muitas vezes tentam tomar iniciativas, mas seus esforços são em geral insuficientes e impotentes frente ao descaso da direção. Não sei se há uma estratégia premeditada por parte da direção central, mas certamente há uma consciência dos efeitos multiplicadores que ocorreriam, se houvesse alguma atenção ao esporte e ao lazer. A infantilização e a submissão quase total dos internos não seria viável.

Durante minha pesquisa, 22 pouca coisa pôde ser observada no que se refere ao esporte e ao lazer. O que se verifica, em geral, nos

internatos, é a falta de organização para promovê-los. 23 Normalmente as crianças jogam bola, boleba, brincam de pique, soltam pipa, jogam marimba (uma pedra amarrada num fio é jogada em cima de uma árvore), jogam bola de papel, leem revistas, tocam pandeiro, desenham no chão, brincam de "agarramento", polícia-ladrão, de dirigir carro, de piquenique, de "conversas sobre as coisas de casa". Uma das brincadeiras que observei no Internato IV uma única vez foi a roda de capoeira. Os meninos que entravam na roda pareciam estar bem treinados, e havia um grupo animado de admiradores, onde se ouviam comentários sobre quais eram os melhores. O fato de nunca ter observado este jogo antes me leva a crer que, se não há uma proibição explícita, não se permite que ocorra com frequência. É um jogo e, ao mesmo tempo, uma luta, na qual se afirmam os melhores. Um dos grupos me contou os apelidos que os internos colocam como sendo algo que faz parte do humor e da brincadeira:

"Boneca, Grilo, Peteca, Frankstein, Gabalão, Belas-Coxas, Baleia, Pai-Herói, Lampião, Neguinho do Morro, Boi Neguinho, Bicudinho, Palito, Viva o Gordo, Boião 81, Cocudo, Kung-Fu, Perereca, Leopardo, Olho de Boi, Pelé, Coelho, Zé-Galo, Cavalo, Cocho, Stop". Os internos contaram também estórias que circulam entre eles. Primeiro contaram "estórias de saliência e sacanagem" e em seguida muitas estórias sobre "bandido e polícia". Depois uma estória sobre "disco voador" e uma brincadeira que o inspetor fez com eles — colocou uma bala sob o travesseiro de cada interno para que a encontrassem na hora de acordar, o que lhes proporcionou muita alegria.

Ao falarem sobre as coisas "engraçadas" que ocorrem no internato, me relataram:

Teve um menino que o marimbondo mordeu no piru e ficou

muito inchado; outro foi chupar o mel de abelha e inchou o

lábio; tem menino que finge desmaio para ficar internado uma

semana no hospital.

Através desses relatos, eles falam de suas vidas no internato, e uma das coisas mais interessantes que incluíram nesses depoimentos foi a da "marca de amigo". Eles explicam: "a gente corta o braço e fica a marca; para ficar a marca tem que raspar com vidro ou esfregar com cuspe e água". Disseram que, no ano anterior, mais de 100 alunos se marcaram desta forma, e me mostraram as marcas no corpo. É muito significativo que a "a marca de amigo" se inscreva no corpo. Como temos visto ao longo deste estudo, a dinâmica institucional funciona de maneira a impedir o interno de criar vínculos afetivos, quaisquer que sejam. Eles descobriram, então, uma maneira de expressar um vínculo que conseguiam estabelecer no internato, cujo significado nos dá Pellegrino:

Ao invés de haver uma inscrição psíquica dessas referências

básicas, o que havia era uma inscrição a nível corporal

(Pellegrino, 1985, p. 147).24

No Internato V os jogos e brincadeiras sofrem as mesmas restrições que no IV. O futebol é o jogo predileto, e sempre que conseguem uma bola se mobilizam para jogar, seja no pátio ligado ao prédio, o que é mais frequente, ou no "campão". Nesta escola há um recreador que organiza estas atividades, sobretudo quando se passam fora do internato. Mas a sistemática falta de material esportivo dificulta enormemente a prática de esporte com os

internos. 25

Uma das atividades que o recreador ajuda a organizar são os passeios aos domingos, sobretudo nas férias. E, mesmo na brincadeira, se expressa a introjeção de uma punição que implica na agressão ao colega, prática que se inicia no internato anterior. Um dos jogos que observei aqui consistia em rodar, ao nível do chão, uma corda com um pau ou sapato amarrado na ponta. Os alunos pulam; aqueles que erram o pulo são "malhados" pelos colegas. Eles me contaram que, também em outras brincadeiras, usam a "malha" como punição.

No Internato VI a novidade é a sala de jogos com quatro totós e quatro sinucas que, segundo o chefe de disciplina, é aberta aos sábados, domingos e feriados, além de alguns dias da semana após o jantar, quando algum inspetor está disponível para tomar conta das crianças. No Internato V também há uma sala de jogos, mas dificilmente é aberta, devido à falta de manutenção. Aqui, entretanto, é bastante usada e disputada pelos meninos. Segundo o inspetor, nunca sai briga ali dentro, desde que um funcionário esteja presente para intermediar os conflitos. Pergunto ao chefe de disciplina se, entre os meninos, há uma escolha daqueles que são os melhores em determinado jogo. Ele me esclarece que eles só escolhem "os melhores na disciplina". A televisão aqui, como no Internato VII, fica no mesmo local onde é rezada a missa e por isso, para ver televisão, os alunos sentam-se nos bancos de madeira, típicos de igreja. Sempre está presente um inspetor para vigiar seu comportamento e postura, uma vez que, segundo o regulamento, ninguém pode se deitar ou colocar o pé sobre o banco.

Devido à ação individual de um recreador esta escola era a que mais passeios oferecia aos meninos. Sair do internato é uma das coisas que os internos mais apreciam como forma de lazer e o diretor sabia disto. A posse de um ônibus possibilitaria que os passeios fossem feitos com frequência. Entretanto, quando surgiu a oportunidade de um ônibus ser doado pela Funabem, as autoridades superiores da Fundação preferiram a construção de

uma piscina. 26 Vejamos o que o diretor disse sobre isto:

Os meninos, os mais rebeldes, ficam bons durante a semana se

no fim de semana eles tem uma hora de esporte, se saem um

pouco da escola. Quando se construiu a piscina eu preferi o

ônibus — com a mesma despesa poderia ter comprado um

ônibus que poderia passear todo domingo com os meninos.

Mas o diretor da escola nunca é ouvido! No inverno a gente não

usa a piscina e a sua manutenção é bastante cara. Por tudo

isto, o ônibus era melhor.

Aqui, como em todos os internatos, é a vontade do inspetor que orienta o local e os jogos possíveis. Mesmo uma ida ao Maracanã só é oferecida se o time de futebol agrada ao recreador. Tudo funciona como numa instituição total — o que existe e que poderia oferecer distração e prazer aos internos serve muito mais para ser exibido aos visitantes do que para a satisfação dos internos. Muitos meninos percebem isto com clareza:

Ligam a televisão de vez em quando, quando tem inspetor

sobrando. A sala de jogos só abre à noite. De dia, quando está

chovendo. Abriram hoje, tia, porque tem visita. Aí eles abrem

para mostrar que a escola tem tudo. A piscina também é assim.

(José, 12 anos, Internato VI)

Ontem gente via um filme e os inspetores mudaram o canal.

Mudaram de propósito. E a gente gritou, e então ficamos 45

minutos de castigo, em pé. Eles é que escolhem o canal.

Garoto não tem vez! (Jorge, 14 anos, Internato VI)

O Internato VII é o que melhores possibilidades oferece para a prática de esportes — há um campo de futebol, uma quadra de futebol de salão, uma quadra coberta para vôlei e uma piscina. Os rapazes se organizam e jogam. O futebol é o jogo predileto, seguido do vôlei. Apesar de existirem recreadores e professores de ginástica, eles não aprendem nenhum esporte. O futebol é o único em que times foram organizados, pois é um esporte que os rapazes conhecem muito e os inspetores se interessam ensinando e organizando jogos. É a única escola que tem uma discoteca, controlada por internos. Eles controlam seu funcionamento e a música é ouvida na quadra coberta.

Conversando com um grupo de adolescentes, fui apresentada ao "campeão de jazz". Os colegas pareciam ter orgulho, apesar do "campeão" desmentir envergonhado. Para confirmar, disseram: "Todo mundo para para ver no baile". Em outra oportunidade me apresentaram um colega que era um bom flautista. O que notei neste internato de adolescentes é que, apesar dos esforços institucionais, alguns jovens conseguiam se sobressair, exercitando suas aptidões e criatividade para admiração e orgulho dos colegas. A música é uma atividade valorizada pela escola, havendo uma banda que se apresenta sempre nas festas comemorativas da fundação. Devido a esta valorização e à dedicação de alguns funcionários, foi organizado um grupo musical que toca músicas populares e carnavalescas. Nas melhores fases desse grupo, eles se apresentam em festas e bailes da redondeza.

Uma outra curiosidade que só foi observada nesta escola é a criação de animais. Em um feriado, observei um grupo de seis adolescentes conversando entre si, em roda, e observando seus pássaros, que pegam nos ninhos das árvores. Eles trocavam ideias sobre os pássaros e sobre os cuidados de que necessitavam. Depois que crescem, eles os vendem para apurar algum dinheiro. Eles explicam que, oficialmente, é proibida esta atividade, mas que nem sempre há muito rigor. Criam também cachorros, apesar de haver um controle maior da direção:

Esses são para caçar tatu, ouriço e lagarto. Depois a gente faz

uma gororoba para comer no mato. A gente também faz bolinho

com trigo, açúcar e água (Internos da Escola VII)

Fazer comida no mato é uma diversão importante que, segundo os funcionários ex-alunos, sempre foi muito apreciada pelos internos.

Para concluir, posso dizer que, se o jogo e o esporte não são incentivados no internato, isto não ocorre por questões materiais, mas pela estrutura da instituição, que não pode permitir e incentivar atividades como o jogo, uma vez que esta é "uma atividade descompromissada, em que o indivíduo se empenha numa criação particular, aberta ao possível" (Navarro, Vital Brazil, 1987, p. 90). Nada pode ocorrer no internato que escape ao controle institucional. Como diz Navarro,

fora do jogo, os homens pretendem que o sujeito esteja

determinado pela história de sua vida, numa situação que não é

mais objeto de sua escolha. Aí o caminho é estreito em termos

de novas possibilidades. A norma espreita, a lei preside, o

social produz (Navarro, Vital Brazil, 987, p. 90).

1 Esta opinião pode significar que estes meninos já internalizaram a violência e a rigidez disciplinar. É importante ressaltar também que eles admitem a possibilidade de que a ordem disciplinar possa organizar seu convívio e permitir menos agressão entre eles.

2 Um exemplo desta punição quase automática me foi relatado por um aluno, quando lhe perguntei por que estava com a mão machucada. Ele disse que no dormitório o inspetor ordenou "cobrir" e, como ele não escutou, o inspetor derrubou-o deixando-o nervoso; como ele não podia bater no inspetor, deu murros na parede e machucou a mão.

3 Poderíamos dizer que os primeiros indícios de fatos que confirmam esta teoria aparecem desde o Internato II, pelo registro de várias cruzes no nome do interno, indicando a intensidade do castigo.

4 Nos Internatos IV e V, a repetição se dá entre 5 e 30 vezes.

5 Para evitar confusões, sempre que me referir neste texto à escola estarei falando do grupo escolar, e nunca do internato.

6 Justamente por serem contratadas da Fundação, não se negaram a realizar um trabalho com uma psicóloga, como ocorreu nas outras escolas após algumas reuniões iniciais, quando ficou claro que eu não compartilhava da ideia de que todos os problemas estavam colocados nos meninos.

7 Alunos que moram na comunidade.

8 O internato não minimiza o alto grau de repetência existente nas escolas públicas, cuja clientela é da mesma origem social.

9 Numa pesquisa realizada por várias entidades (Inplan, Ipea, Unicef, Sudene) percebe-se claramente que o atraso escolar é uma constante no funcionamento do sistema educacional. Pois, em 1986,45,4% das crianças da 1ª série do 1º grau tinham sete anos; 8,6% das que cursavam a 8ª série do mesmo grau tinham 14 anos de idade. Isto mostra, além do ingresso tardio, que as crianças acumulam muitas repetências, não conseguindo progredir regularmente através das séries.

10 Em 1978 ainda havia o convênio com o município e a escola recebia alunos externos. A clientela da escola era considerada regular, e não "o refugo da Funabem", como depois de 1980.

11 Em documento com dados coletados somente entre os alunos da Funabem (a pedido desta), selecionei 32 alunos — todos com mais de 10 anos de internação na Fundação — e verifiquei que o atraso escolar é de três a cinco anos.

12 Os livros de registro de "visitas e saídas" do Internato I mostram este quadro. Vejamos a título de ilustração o mês de outubro de 1981 do total de 76 crianças internadas, 25% recebeu visitas semanais, 65% saiu com os responsáveis nos finais de semana e somente 9% não recebeu visita ou teve saída.

13 Os dados se invertem nas férias de verão — somente ¼ dos alunos não sai para passar pelo menos uma semana na casa dos familiares.

14 "Atribuir-se-á ao tenho abandono neste artigo um sentido social e psicológico mais amplo que engloba situações comuns na prática; sentido este que é capaz de expressar o estudo de abandono no qual vive uma criança. Assim sendo, uma criança que é internada num estabelecimento de menores e não é assistida pela família, ou seja, não tenha uma relação de continuidade com a família, será considerada abandonada, ainda que não o seja em termos jurídicos" (Rizzini, 1985, p. 25).

15"Uma proposta de Mudança", FEEM, 1985, p. 23.

16 Campos também fala destas questões no seu estudo sobre "A Visão da Família" pelos internos (Campos, 1984 p. 82).

17 Estas informações coincidem com os dados que obtive quando ali trabalhei como psicóloga. Durante as entrevistas feitas podia ouvi-los com calma e individualmente. Surgia, então, toda a angústia por estarem ali, abandonados, ou pela relação conflitiva com a mãe.

18 Altoé e Rizzini analisam esta questão no artigo "Sobre as Relações Afetivas nos Internatos para Menores" (1985, p. 111).

19 A monitora aprende com os funcionários a controlar o sono dos internos. Este controle é realizado com os internos de todas as faixas etárias. Collen nos fala de um internato de adolescentes da Febem-SP: "Era uma vida difícil. Num lugar assim esquecemos até que Deus existe. Com todos os meninos dormindo os inspetores ficavam a noite inteira assistindo tevê e ouvindo rádio, e de meia em meia hora passavam com as lanternas, para ver se tinha alguém acordado. Era esquisito isso, pois depois que entrávamos no quarto não podíamos mais falar e éramos obrigados a fechar os olhos para dormir. Eles tinham poder até sobre nosso sono" (Collen, 1987, p. 82).

20 É comum que se encontre também, nas outras instituições que atendem a "menores", funcionários que foram internos daquele mesmo internato ou de outro.

21 Moore, no seu estudo sobre campos ele concentração, analisa a "aceitação aparentemente estranha e paradoxal da autoridade moral do opressor" nos casos dos prisioneiros que se identificavam com os SS (Moore, 1987, p. 114).

22 Não me preocupei especificamente em estudar jogos e brincadeiras. Este assunto me parece, entretanto, merecer um estudo mais aprofundado.

23 Dentro de minha experiência de trabalho e inúmeras visitas a internatos, nunca conheci algum que tivesse um funcionamento melhor, em termos de esporte. O mais frequente é que tenham ainda menos atividades, e um pátio muito mais reduzido, onde os internos são obrigados a permanecer.

24 Este tipo de marca no corpo existe também em outros internatos. Pellegrino fala sobre o internato Santos Dumont, que atende a adolescentes "infratoras" no Rio de Janeiro: "...acredito que, nessas escolas, praticamente o que sobra para as crianças é o próprio corpo, porque tudo o mais lhes é tirado. O eixo básico sobre o qual a instituição trabalha é o tempo. O que eu quero dizer com isso? Por exemplo, a criança, quando é internada, nunca tem uma referência, perde o contato com a família, ficando sem passado, nem futuro. Na instituição em que trabalhei, as meninas viviam um eterno presente. O tempo só existia a partir da instituição, com sua palavra ordenadora. Como é que as internas exprimiam isto? Elas quebravam os vidros e começavam a inscrever no próprio corpo o nome do pai, da mãe. Porque elas sabiam que não podiam perder essas referências fundamentais, pois, se perdessem a memória, elas estariam definitivamente impossibilitadas de ser. Então o espaço onde elas mareavam as memórias fundamentais que as constituíam enquanto sujeito era o próprio corpo, elas o cortavam, mareavam, faziam cicatrizes" (Pellegrino, 1985, p. 153).

25 No verão de 84 estive na escola, e tudo continuava como antes, como me disseram os alunos e funcionários. Um funcionário, que foi muito tempo recreador, contou que pediu para ser inspetor, pois se cansou de não ter o que fazer com os alunos por falta de material. Seu tom é de resignação quando fala da situação da escola nestas férias. Não houve nenhum passeio, a televisão esteve quebrada por muitas semanas, a sala de jogos fechada por falta de material e também não houve esporte, por falta de bola. Se o número de alunos fosse bem reduzido, entorno de 121, facilitaria, dizem eles; o relacionamento entre eles se acalmaria. Os alunos também parecem resignados com a situação. O desânimo é da parte de todos. A esperança de que as coisas mudem parece se esvair a cada ano que passa. O inspetor falou também da "ociosidade completa" em que os alunos se encontravam diariamente, concluindo que isto facilitava o surgimento da pederastia (esta é uma opinião geral), que alcançara um índice muito alto, jamais visto antes. Mostrou-me os meninos brincando no pátio, uns com os outros, sem qualquer brinquedo ou bola, e disse-me que eles passaram as férias de verão assim.

26 E o mais curioso é que há muito tempo já se falava na possibilidade de fechamento deste internato, cujas terras já tinham sido vendidas — mesmo assim se construiu a piscina e, dois anos após suas obras estarem concluídas, o internato foi fechado.