Infância perdida
5. Tensões na sala de aula
"Sr. Ademar, se eu ver ele morto, acabo de matar. Gostava de
tirar castigado todo fim de semana."
"Manda cortar cabelo baixo demais, igual ao de quartel,
cortarreco."
"Fala mal dos alunos, não sabe lidar, não sabe dar certa
regalia."
"Cuidado que o sr. Manuel cagueta, tem uns que gostam de ser
puxa-saco, vão falar com o diretor."
"Acorda a gente xingando".15
Os inspetores, em geral, consideram seu trabalho muito difícil e cansativo. Alguns defendem até a aposentadoria com 15 anos de trabalho. Às vezes, eu tinha a impressão de que, na sua maioria, estavam tão perdidos quanto os alunos. A única orientação que têm é a disciplina, e por isto eles têm que se ater a ela como um guia que mostra como deve ser sua atitude para com os internos. Eles percebem com clareza, entretanto, muitas situações institucionais que complicam a dinâmica diária da escola. Mas, como não podem reclamar, pois também têm que se ater às ordens superiores, fazem seu trabalho como podem.
Tanto os diretores (como já vimos anteriormente) como os funcionários conseguem perceber os alunos como jovens adolescentes que, como tais, cometem "faltas" características desse período de vida. Mas esse reconhecimento fica esquecido na hora de atuar junto aos alunos, pois agem preconceituosamente, julgando-os e classificando as mesmas "faltas", ditas normais em relação a qualquer adolescente, como atos de marginais.
5. Tensões na sala de aula
O funcionamento das oficinas profissionalizantes distingue esta escola das demais. Aqui, o ensino do 1º grau completo e as oficinas existem tanto no período da manhã como pela tarde, para que o maior número possível de alunos possa frequentá-los. O funcionamento das oficinas, mesmo com todas as falhas apontadas pelos alunos, torna a escola mais interessante do que as outras. Ele representa a possibilidade de um aprendizado profissional que pode lhes trazer benefícios quando saírem da escola. Resta-nos analisar como se passa este aprendizado segundo a ótica dos alunos, dos mestres, dos inspetores e da direção.
Vejamos inicialmente algumas considerações sobre o funcionamento do 1º grau. É uma escola do estado, o qual paga todo o pessoal docente e da secretaria da escola, enquanto a Fundação oferece as dependências físicas e compromete-se a receber alunos da comunidade que são em média 200 — são os chamados alunos "externos". As professoras, sendo todas daquele município, possuem um padrão cultural do "interior", o que as faz provincianas e o que muito as distingue dos padrões dos meninos internos, em sua maioria oriundos da periferia do Rio de Janeiro. Estas distinções se fazem pela linguagem e também pelos valores morais, o que gera uma quantidade enorme de problemas em sala de aula. As professoras são exigentes quanto à conduta dos alunos em sala e se estes merecem punição elas os encaminham para o inspetor, que fica a postos pelos corredores para executar a punição. A principal ligação da escola com o internato se faz através do sistema disciplinar, que é único. As professoras também enviam "ocorrências" sobre os alunos para o "prefeito" que, por sua vez, as encaminha para o assistente do diretor. Nem a escola estadual, com suas professoras que não são funcionárias da Fundação, nem as oficinas funcionam autonomamente. Elas, como todos os demais setores, relacionam-se de maneira direta com os executores do sistema disciplinar do internato, e são deles dependentes. Assim, tudo que se passa com o aluno é submetido ao olhar único da autoridade máxima da escola, o diretor, o que caracteriza a instituição total, segundo a descrição de Goffman.
Os alunos já chegam nesta escola com um atraso escolar significativo, como vimos anteriormente. Se um dos objetivos do internato, e que inclusive justifica sua existência, é oferecer o ensino formal às crianças, não se pode dizer que ele favoreça o aprendizado, pois os alunos estão tão defasados na escolaridade em relação à sua idade quanto os alunos das escolas públicas. Portanto, o internato não serve para amenizar o grave problema do ensino público no Brasil.
Segundo o assistente do diretor, 40% dos internos não têm interesse em aprender, "o que equivale a pelo menos 40% de reprovação este ano" (1982). O índice de reprovação é maior entre os internos de 16 e 17 anos, os quais já chegam com um atraso escolar mais significativo, ele explica. Para o assistente do diretor, o desinteresse do aluno é realmente grande, o que ficou mais uma vez comprovado pela tentativa de se reorganizar um grupo de estudos fora do horário escolar, uma vez que a frequência foi muito baixa. Mais uma vez, parte-se do pressuposto de que o que a escola oferece é benéfico, mas os alunos não sabem aproveitar. O exemplo mais flagrante ocorreu numa ocasião em que uma Kombi da Funabem esteve na escola para tirar documentos dos alunos e um deles, apesar de estar na 3º série, não sabia assinar o nome. Quando o funcionário relatou a situação ao diretor, este mandou ordens à professora para que lhe desse como castigo a tarefa de escrever seu nome muitas vezes, até que aprendesse. O tom da conversa é sempre de zombaria com relação ao aluno e, em nenhum momento, alguém se pergunta sobre a qualidade do ensino e como seria possível um aluno estar na 3º série sem que soubesse assinar o nome. Este exemplo evidencia uma situação que ocorre com certa frequência: o aluno estar cursando uma determinada série escolar mas não ter o domínio do conhecimento correspondente à mesma. Dentro do internato, a maior repercussão acontece no aprendizado profissional, uma vez que nas aulas teóricas são exigidos alguns conhecimentos que o aluno não possui, o que diminui o interesse e dificulta o aprendizado.
Que lugar os adolescentes ocupam nesses internatos?
A direção não parece questionar-se muito sobre isto, mas os inspetores percebem o quanto a dinâmica institucional influencia o interesse dos alunos que se encontram nos internatos, jogados à sua própria sorte. Percebem o quanto é importante a relação que estabelecem com os alunos: "somos como pais para eles". Sabem também que devem aconselhá-los, incentivá-las e cobrar deles que estudem "se a gente não falar eles não estudam" — diz um inspetor. Ele complementa dizendo que este ano, devido às mudanças e dificuldades na dinâmica institucional, quase não foi possível dialogar com os alunos sobre o estudo e a oficina e, por isso, há tanta reprovação. O que me parece importante é a sua percepção de que o aluno não é o resultado de uma produção em série do internato e que não depende somente dele ser "bom" ou "ruim" para aproveitar o que lhe é oferecido. Mas, como diz um inspetor:
Aqui também é esquisito porque eles (na oficina e escola) só
dão força aos que querem aprender. Os que não querem ficam
de lado. Quando eu estudei no Senai, três anos, eu era dos
bons alunos. E os mestres quase não falavam com a gente. A
gente ficava danado. No final ele disse que era porque a gente
já ia bem sozinho, então eles se dedicavam aos mais fracos. Na
escola também era assim. Eu era dos mais fracos e tinha
atenção. Aqui é o contrário. Não entendo isto! (Inspetor)
Portanto, no internato partem do pressuposto de que há internos "bons" que querem aprender e aos quais vale a pena ensinar, e que há uma grande maioria que não quer nada com o estudo ou o aprendizado nas oficinas. No seu entender, não há nada a fazer com estes, pois eles não são sensíveis aos bons ensinamentos.
Tanto os alunos como os inspetores falam dos preconceitos que as professoras nutrem para com os alunos internos. Castigam-nos com frequência e põem-nos para fora de aula. Não há tolerância e elas nem sequer se responsabilizam por punir o aluno, que é punido pelo inspetor.
Todas as relações no internato são marcadas pela discriminação, pelo preconceito, por favoritismos, típicos das relações em instituições totais. A cerimônia de fim de ano se passa tal como Goffman descreve em seu livro, como pude observar, e como é narrado pelos alunos e funcionários. É uma festa feita para a direção e para as autoridades, onde mais uma vez os internos são objetos e não sujeitos da festa. Os prêmios de bom comportamento, os passeios, ganham-nos aqueles que "são assim como os homens", atestam alunos e funcionários. A direção assim o determina, segundo sua ótica, sem consultar funcionários ou inspetores, os quais se ressentem de não participar deste processo. Os alunos reprovados não podem participar da festa de fim de ano e devem ir para suas casas, de férias estes alunos são chamados de "chumbados".