Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 21 de 62

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Infância perdida

4. Espera: tempo de morte, de morte lenta

gente ia formando um atrás do outro. Depois dali ia para o

recreio, para a televisão. Para ver televisão tinha que formar

sentado um atrás do outro, braços cruzados, não podia falar.

Tinha hora de dormir — era 6 horas. A hora de dormir certo.

Não podia passar de 6 horas (Luiz, 17 anos, Internato VII, 7a

série. Foi internado na creche e passou por todos os internatos

desta Fundação).

 

4. Espera: tempo de morte, de morte lenta

Na realização de todas as atividades, há sempre um período de espera antes e depois. Sendo o grupo de crianças sempre grande, essa espera pode ser de 15 ou 30 minutos. A espera entre uma atividade e outra é um momento de passagem, quando algo poderia escapar ao controle, onde alguma coisa poderia ser inventada. E por isto, "pra que não haja tumulto", os internos devem sempre aguardar a sua vez em fila, em pé, encostados na parede, ou

sentados no chão (vide foto 7).

 

Foto 7: "Pra que não haja tumulto" os internos devem sempre aguardar a sua vez em fila, em pé, encostados na parede, ou

sentados, no chão.

As crianças mais novas, aqui como nos outros internatos, são sempre as primeiras a serem atendidas. A espera é feita, em geral, no "recreio interno", que é um pátio coberto. Deste local, as crianças vão para o refeitório, o dormitório, o banheiro ou a recreação externa. É um espaço usado com frequência e as crianças aprendem a não gostar de permanecer ali, pois mesmo quando podem estar soltas, brincando, elas não têm brinquedos e se sentem presas, tendo à sua volta um enorme parque com árvores. É mais uma situação cotidiana de esvaziamento do significado, pois o "recreio" é mais um local de punição do que de recreação. É mais uma expressão do princípio da organização do espaço institucional nos internatos da Fundação — ele é o sujeito e não a criança. Ela, como já vimos no Internato I e veremos nos seguintes, é o objeto.

Em nenhum momento o interno é sujeito. 12

Todos devem se locomover de uma só vez, o que implica que, quando um interno termina a sua atividade, deve esperar pelos outros. Ninguém pode fugir do olhar da "tia". Até para fazer curativo na enfermaria, as crianças (até o Internato V) enfrentam fila e

espera. A enfermeira vê uma a uma (vide foto 8).

 

Foto 8: Ninguém pode fugir do olhar da "tia". Até para fazer curativo

na enfermaria, as crianças enfrentam fila e espera.

Todo mundo faz curativo todo dia. Vêm todas as crianças

pequenas — elas sempre têm um machucadinho e assim vejo

todas logo (Enfermeira)

A regra de todos serem atendidos igualmente e sem distinção é um dos aspectos que justifica a fila e a consequente espera.

Uma das consequências importantes de tantas esperas é o ócio. Essa falta do que fazer existe nesta hora como na maior parte do tempo. A imposição do ócio na vida institucionalizada do interno é o vazio, puro adiamento, é a imposição da morte. A adaptação da criança ao internato implica em nada poder desenvolver-se nela,

muito menos a inteligência pois, como diria Piaget,13 a inteligência se constrói pela ação, por uma abstração a partir da ação. Vejamos 30 minutos de rotina diária das crianças neste internato:

18 horas — Os meninos saem do recreio em fila indo em

silêncio ao vestiário do banheiro e lá dentro, em fila, aguardam

a "tia". Cada um tira sua roupa e fica nu. A "tia" recolhe a roupa

e depois passa dando o macacão de dormir. Tem criança que

ainda chora pela mãe que foi embora. Foi domingo de visita dos

pais. Alguns não sabem se vestir sozinhos e a "tia" ajuda.

Dormitórios 1 e 3 ainda estão no recreio interno.

18h10min — A "tia" manda que todos saiam de braços

cruzados, em fila, para ir para o dormitório. Lá ela manda

guardar a sandália na sapateira.

18h15min — Todos estão no maior silêncio, sentados no chão,

em fila dupla.

Ela diz: "Essa fila aqui de pé. Essa não, essa senta. Vão para o

banheiro, a turma de pé." Logo chama a outra fila para o

banheiro — reina o silêncio. A "tia" é severa agora. Dentro do

banheiro aguardam em fila, em silêncio, com os braços

cruzados. Ela vai chamando pelo nome para escovar os dentes.

A "tia" chama a atenção: "É assim que fica na fila? Psiu!" A "tia"

chama alguns nomes e as crianças dizem: "foi embora", ou "foi

para o Internato III". Muitos não foram mas não estão ali

presentes, talvez em casa ("saída"), mas eles também

respondem que se foram. A impressão que me causou foi que

eles queriam que muito mais crianças tivessem mesmo ido

embora, talvez seu desejo também. Os que estão no dormitório

brincam nas camas. A "tia" vai lá e dá a maior bronca.

18h30min — Todos estão deitados em silêncio. Devem dormir.

O castigo nesta escola se dá, como nas outras, sobretudo, pelas faltas cometidas na disciplina. A diferença é a acentuação do castigo em cada escola de faixa etária maior que pode se expressar pela duração do mesmo ou pela agressão ao corpo. Nesta escola foi difícil obter dados sobre os castigos ou punição corporal. Tanto as funcionárias não falavam sobre o assunto como as meninas, como vemos abaixo. Mas o que posso afirmar é que, provavelmente, ainda na escola, isto não passa de algo esporádico e mais usado com as meninas maiores.

Numa conversa com as meninas no parque, elas falam do castigo que levaram pela manhã porque conversaram no dormitório, no refeitório e outras duas porque brigaram. Dizem que ficam de castigo quando fazem "essas coisas". Hoje ficaram 30 minutos.

"Tem dia que a tia anota o nome e o castigo é de noite — em pé

no banheiro com o pé junto e o braço cruzado, E ainda de cara

para a parede. E de cara para as baratas a tia disse" (Márcia,

oito anos)

Às 11h15min — As meninas dos dormitórios 1 e 2 formam em

fila no parque e, depois que estão bem formadas, andam. As

meninas continuam a falar que foram castigadas. A "tia" parece

não gostar muito e diz: "Teve razão para isto!". Aí uma menina

começa a falar que a outra é bagunceira. A que é acusada não

gosta e diz que não é. Uma outra diz que a "fulana" fugiu e a

acusada protesta muito. Finalmente diz que é porque a "tia

tábua" batia nelas por isto teria fugido: "Ela, tia, disse que se a

outra tia matasse a gente, que ela nem ligava. Aí eu fugi". As

meninas explicam que o apelido da tia é tábua. Riem. Falo,

"tábua porque ela bate?" Ninguém responde. Ela continua

contando que a tia soco (seu nome começa com S) tem esse

apelido".Um dia ela disse que a tia devia era bater na tia tábua!

As que saem do parque saem em total silêncio. Andam um

pedaço e param para ficarem bem formadas. Erram e formam

de novo na frente do banheiro antes de lavar as mãos. Entram

aos poucos no banheiro.

O castigo mais comum é a exclusão da criança de alguma atividade, ou ficar em pé por um determinado tempo. O castigo é dado em geral por desobediência à disciplina ou por briga entre as crianças, como veremos nos exemplos abaixo:

Observo cinco meninas fora do dormitório e pergunto o que fazem ali. Elas explicam: "Estamos de castigo porque duas saíram da fila e três conversaram no refeitório. A tia avisa uma vez e na segunda ou terceira ela diz que não precisa mais entrar na fila". Elas aguardavam ali, enquanto a "tia" cuidava dos outros dentro do dormitório. Vejo 18 meninas sentadas com a "tia" no meio-fio do parque, todas em silêncio. O restante da turma brinca. Pergunto à "'tia" o que fazem ali e ela explica: "Estão de castigo por meia hora porque estão muito desobedientes, brigando, xingando a mãe da outra hoje cedo. Então, vão deixar de brincar, coisa que elas gostam muito".

Há algumas justificativas para que o castigo seja dado, mas nem sempre a regra colocada pela "tia" é por ela própria respeitada e as meninas são castigadas assim mesmo.

6h20min — As internas do dormitório 1 entram para ver

televisão. Quatro meninas ficam na varanda, de castigo. Elas

me explicam: "É porque viemos correndo" — "e nós, porque

viemos arrastando o pé". "Não se pode fazer isto porque tem

gente dormindo". Interfere outra: "Mas agora não tem não". Era

verdade, o resto das crianças ainda não tinha entrado para o

dormitório. Elas estavam do lado de fora mas não pareciam dar

muita importância ao castigo, conversavam e pareciam se

divertir.

A ameaça de fugir também é um motivo para castigo. Nesta escola, essa situação não passa de uma ameaça por parte das meninas maiores. Nas outras escolas, sobretudo a partir da Escola IV, esta ameaça dos meninos se concretiza e são duramente castigados. Neste internato o castigo já se inicia como uma punição para os pequenos desvios disciplinares. A criança, como vimos nos exemplos acima, não pode demonstrar qualquer expressão de liberdade e autonomia. Se se revela como sujeito, é castigada para aprender que ali não há lugar para esses pequenos atos de autonomia. Os adultos são todo-poderosos e devem ser obedecidos cegamente. Apesar de assimilar este sistema, as crianças acabam sempre "se esquecendo" e fazendo "coisas de criança" como correr, que é um prazer e um divertimento. O castigo exemplar se inicia aqui "a bem da disciplina".

Do Internato II ao VI, a fala, fora da hora de recreação, é submetida a um controle rígido. As crianças só podem falar quando lhes é dada permissão. Na forma é exigido o perfeito silêncio. A "tia" responsável pelo grupo é severa nesta hora e pode ser dura no trato com as crianças. Em geral, as "tias" não gritam, sabem falar em tom baixo, mas com tonalidade que não deixa as crianças terem dúvidas de que devem obedecer. Certamente, nem sempre as crianças ficam caladas ou permanecem na fila de bom grado, mas se habituam e a rebeldia expressa individualmente é controlada sem muitas dificuldades. Há, entretanto, algumas manifestações espontâneas que não são tolhidas. Por exemplo, quando muitas delas gritam alegremente no parque sempre que o ônibus passa: "Ah, ah lá a minha mãe".

Devido à faixa etária, é aqui que a criança começa a falar com mais desenvoltura. Não há, entretanto, qualquer estímulo por parte dos adultos. Na recreação, as crianças falam entre si e com a "tia", na medida do possível, o que significa atender a alguma reclamação ou pedido da criança, pois não há tempo para muita conversa, uma vez que tem que estar atenta a todas. As crianças adoram ouvir estórias infantis, mas só têm acesso aos livros quando ficam doentes na

enfermaria;14 a "tia" não conta estórias para elas. Se não há qualquer estímulo à leitura, há por outro lado grande repressão e controle. Este controle vai ocorrer em todos os outros internatos, como teremos oportunidade de ver.