Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 46 de 62

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Infância perdida

2. Teoria do castigo crescente

Com este componente, algumas questões, que já se delineavam nos internatos anteriormente analisados, ganham realce aqui e revelam de maneira diáfana o sujeito que a Fundação forma. Além de adolescentes com grande atraso escolar, constata-se o enfraquecimento marcante ou a perda total dos laços familiares preexistentes, assim como uma representação de trabalho que consiste na negação do indivíduo e dos direitos individuais. Pode-se alinhar ainda o predomínio de práticas que burlam sistematicamente as regras instituídas, desenhando um quadro deveras sombrio.

 

2. Teoria do castigo crescente

Este internato não difere dos outros no que concerne à estrutura básica de atendimento da Fundação. A disciplina também obedece aos mesmos princípios de "regime militar", como diz um coadjuvante.

O que sempre me pareceu muito positivo nesta escola é a área belíssima que a cerca, com amplo gramado e coqueiros muito altos. Esta aparência sugere que o funcionamento deste internato não é da mesma natureza que os demais e, ao observador desatento, pode impedir de perceber o que se passa de fato. A construção, em formato de cruz, não transmite a mesma impressão de enclausuramento perceptível nas escolas anteriores, ainda que a utilização do espaço seja tão restrita quando nas demais, com seus limites invisíveis sendo acionados a cada momento da vida cotidiana:

Tem jardim, mas a gente não pode ficar ali na sombra. O coco, se a gente pegar, tem castigo. Aqui na quadra, podemos ficar, no campo e sala de jogos. Não pode passar da sala de pingue-pongue. A sala de pingue-pongue lá de enfeite, só tem rede (Carlos, 12 anos) (Vide foto 13).

As outras escolas são cercadas por muros altos, apesar do terreno da Fundação continuar para além deles. Nesta escola, a fuga é relativamente fácil, pois os limites reais são mais distantes do estabelecimento, e a cerca alta fácil de ser transposta. Situada muito perto da estrada, com muitas moradias e transporte fácil, favorece também a saída ou "fuga". Sendo uma escola com espaço mais amplo e diversificado e tendo, na época da pesquisa, quase a metade (250) dos alunos a que atendia anteriormente (400), tornava-se possível aos internos se agruparem de acordo com sua preferência, não havendo grande concentração num espaço único, como nas duas últimas escolas observadas. Nas anteriores — Escolas I, II e III — o espaço também é mais variado, mas, como as crianças são menores, é para elas mais difícil escapar da vigilância da inspetora. Assim, a organização espacial da Escola VI nunca me pareceu tão aprisionadora como as outras, onde as crianças pareciam estar sempre amontoadas. Foi possível observar que antes também não havia falta de espaço real, mas, não sendo ele diversificado, os internos eram obrigados a estar uns com os outros, ou pelo menos sob a vista de alguém e, de alguma maneira, se agrupavam com mais frequência, parecendo amontoados. Apesar da sensação mais agradável, a disciplina nesta escola tem todas as características apontadas nas anteriores, sendo considerada, na opinião dos alunos, ainda mais rígida — tanto pelos alunos que estavam na escola, quanto por aqueles que já estavam na Escola VII ou tinham voltado para a Escola V, por ocasião do fechamento da Escola VI. Na Escola VII os alunos entrevistados sugeriram que uma das minhas perguntas fosse: "qual a escola que você menos gostou". E a resposta mais frequente se referia à Escola VI, devido ao rigor disciplinar. Alguns alunos, entretanto, defendiam a escola como sendo "a melhor" e, com referência à disciplina, mencionavam a maior organização entre os alunos e sobretudo os poucos

"roubos" lá ocorridos.1

Nas outras escolas, a disposição das dependências obedece claramente aos princípios da arquitetura típica das instituições totais. Nesta, a desconsideração destes princípios é compensada pela eficácia na imposição da disciplina. Os efeitos imobilizantes estão mais claramente colocados no nível da hierarquia. O rigor disciplinar pressupõe menor tolerância, e a disposição de aplicar castigos sucessivos aos internos é levada ao extremo. O controle do tempo também atinge o auge. Após o primeiro apito imobilizador, a ordem é dada e os internos devem fazer a formatura em um ou dois minutos, conforme a vontade do inspetor.

O castigo mais frequente nesta escola é aplicado aos que conversam no refeitório. Não se admite qualquer conversa e, por isto, o "castigo geral" é frequente. Alguns alunos, já na Escola VII, lembram que, quando ali passaram, a disciplina era tão rígida que o inspetor não admitia ouvir sequer o raspar de uma colher na bandeja, aplicando imediatamente um castigo. Trata-se de um mecanismo de controle do som, não bastando para tanto impedir a conversa. Dentro das normas repressivas da instituição total, qualquer ruído é interpretado como indisciplina.

Porque aqui (V) se eles deixa de castigo, não é mais de um dia.

Lá (VI) eles encaminha um dia, dois, três e assim por diante. Lá

o castigo era como o daqui: fica de pé olhando para a parede

ou então de joelhos, essas coisas assim (Renato, 13 anos).

O castigo após o jantar é tão frequente que passa a não ser mais associado à conversa proibida. Observo os alunos rezando uma Ave-Maria após o jantar. Um ajudante de cozinha me explica que ele não precisa rezar porque trabalha, mas que os demais rezam todo dia.

Mas de que adianta rezar, se depois todo mundo vai para

castigo? Nem tem graça rezar. Você vai ver como vão para o

castigo se conversar (Pergunto: "quantos?") Se todo mundo

conversar vão todos para o pavilhão logo depois da janta. Dia

sim dia não, pelo menos, tem castigo (José, 13 anos).

Apesar de haver repressão igual para todos, há uma maneira diferente desta afetar o indivíduo. O aniquilamento do sujeito não se dá com a mesma intensidade. Os internos vão percebendo, através da prática cotidiana, as diferenças que ocorrem nas relações entre eles e os funcionários. Isto permite, em certa medida, uma percepção crítica desta realidade.

O castigo que se prolonga exageradamente afeta muitos deles, de maneira que não se importam com o fechamento da escola. Um grupinho, em conversa comigo após o almoço, falava sobre o castigo, sendo que um deles afirmava:

Ah, é bom esta escola acabar mesmo.

Ele falava seriamente, com certa tristeza e desânimo. Perguntei-lhe o motivo. Ele e outros mais próximos atribuíram esse desejo às punições severas. Há muitos castigos e, muitas vezes, se ocorre uma bagunça, a turma toda é punida: é o "castigo geral". O castigo mais prolongado é aquele dos sábados, quando não há atividades obrigatórias:

Deixa das 13 às 19 horas e não pode se mexer. Se a gente se

mexe, às vezes porque se coça, então o inspetor bate. Eles não

batem com pau porque não pode, mas batem dando soco. Aqui

[na barriga] e nas costas. Dão chute também no aluno. E, às

vezes, a gente tem que repetir o castigo (Carlos, 14 anos).

Dizem também que há muitos mosquitos à noite, que deixam umas feridinhas nas pernas e que, quando estão de castigo, não podem coçá-las. O tom da conversa é calmo, e a expressão do rosto é de sofrimento e resignação, de quem está acostumado a que as coisas sejam assim. Indaguei sobre o que poderia acontecer caso mudassem de internato. Eles disseram que não sabiam, mas que não queriam ficar ali. A impressão que ficou é que, embora soubessem que provavelmente não encontrariam nada melhor, também não tinham razões para ficar ali, e que talvez fosse preferível mudar mais uma vez, para ver o que poderiam encontrar pela frente, porque sabiam que dali nada tinham a esperar.

A diferença mais importante que pude perceber entre este internato e os anteriores é que aqui já não se repetem a forma e a "ordem-unida" até o acerto. A disciplina implementada não pressupõe a repetição indefinida até levar ao acatamento da norma, mas sim à

punição pura e simples.2 O castigo é o instrumento saneador. Poderíamos dizer que aqui se evidencia uma teoria do castigo crescente, que é o castigo dentro do castigo, implementada pelos inspetores.

Nesta teoria, o castigo qualitativamente é o mesmo, mas aumenta em quantidade e intensidade. É a lei de eficácia do internato, percebida aqui com maior clareza, mas que está disseminada por

toda a vida da criança no internato. 3 O inspetor, entretanto, como nos Internatos IV e V, vê a repetição do castigo, ou o castigo crescente, como um desejo dos internos:

Se os que estiverem de castigo hoje repetirem [a bagunça] vão

para o castigo amanhã o dia inteiro. É o que nós não queremos,

mas é o que vocês querem (Inspetor)

De acordo com esta teoria do castigo crescente, qual seria o limite possível? O inspetor que pune é prisioneiro desta teoria, pois sua "autoridade moral" (Moore, 1987, p. 144) fica por um fio, ou seja, a ponto de romper-se, se ele leva o mecanismo de punição ao máximo. Aqui, no Internato VI, os internos parecem viver a repressão no seu limite e, quando chegam no Internato VII, desorganizam o sistema disciplinar.

Os meninos que vêm da Escola VI são péssimos, não

obedecem. Sabe o que ocorre? É que lá o cacete come pra