Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 15 de 62

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Infância perdida

6. Alimentação — redução à necessidade e à disciplina

A situação de humilhação que a criança viveu com a brincadeira das outras é experimentada de maneira mais intensa quando grupal, expondo seu corpo e sua intimidade ao comportamento autoritário do adulto. Como no exemplo abaixo:

Fiquei até por volta das 21 horas no estabelecimento e pude

observar a ida ao banheiro antes de ir para a cama. Todas as

crianças ficam sentadas no vaso e depois a "tia", seguindo a

fileira de vasos e com papel na mão, toca a criança ou

simplesmente diz: "Deixa eu ver, vamos! Anda!". E a criança se

levanta, se agacha, ficando de quatro no chão com o bumbum

para cima. A tia vai passando o papel e diz: "Você não fez, vá

dormir". E a criança então se levanta e vai vestindo a calça e

andando para o dormitório. Ninguém reclama. A criança que fez

cocô ela limpa com dois papéis. Ela não pergunta antes se a

criança fez cocô (inclusive a uma criança grande de cinco anos

que estava ali excepcionalmente). Mas ela olha e fiscaliza os

corpos.

A alienação do corpo vem junto com a humilhação, tornando o

indivíduo mais submetido e assujeitado.12

 

6. Alimentação — redução à necessidade e à

disciplina

Segundo Dr. K., médico da Fundação, a alimentação dada às crianças qualitativamente não é boa. Há fartura mas deveria ser mais balanceada. As crianças comem nas horas certas, fora desse horário é muito raro ver alguma criança comendo. Salvo no dia que chegam de casa ou quando a mãe vem visitar. No ritmo cotidiano nunca vi nenhuma criança requisitar algo, a não ser quando os adultos tomam café com pão, mas não é regra. Em geral, as crianças se alimentam bem, na hora. A criança não é obrigada a comer, mas o sistema opera de tal forma que ela não recusa a comida, a não ser quando está doente, triste ou deprimida. Em geral, comem com certa voracidade, rapidamente, praticamente nunca mastigam. Põem na boca e engolem — comem tudo que há no prato: arroz, carne, feijão e legumes. As crianças que deixam no prato um dos componentes não são forçadas a comer. Se alguma não come nada, então alguém sempre tenta dar-lhe na boca mas, se continua a recusar, não se insiste mais. Só os bebês têm opção de alimento — maçã ao invés de banana amassada, por exemplo.

A refeição é uma hora das mais tensas na creche. A dificuldade de dar um alimento mais individualizado gera muito choro e angústia. E mais uma vez este sofrimento é visto sob o prisma disciplinar. Diz a diretora: "na alimentação tem muita desarmonia, muita falta de disciplina".

O atendimento individualizado é difícil de ocorrer, mesmo para os bebês:

Sônia: "E os bebês comem sempre de mamadeira no colo ou

só na cama?"

Diretora: "A mamadeira deve-se dar no colo. Ainda mais à

criança pequena. Nunca deve ser dada na cama. Elas são

orientadas assim. A menos que esteja um tumulto muito grande

e não lenha quem dê atendimento, mas ela deve ficar muito

atenta aquela criança que está com a mamadeira na cama. A

criança pode sufocar, pode ficar sem mamar, a mamadeira

pode entornar sem que ela veja ou eu. Deve ser sempre no

colo, custe o que custar. Até três, quatro meses é no colo. Se

uma vez ou outra escapa..."

O bom funcionamento da refeição depende, em parte, das "tias" e do seu bom humor. Às vezes, mais pacientes, dão na boca de uma criança se esta se recusa a comer. Outras horas, a "tia" zanga: "Tem que comer. Se não quiser comer então vai para o pátio! Só pode ficar sentada se for comer". É uma medida, muitas vezes, eficaz. A criança para de chorar e começa a comer. Se a criança chora a "lia" grila: "É para parar o choro! Pare de chorar e coma já". Certamente as "lias" fazem isto pois percebem a eficácia. No código disciplinar a execução de uma ordem é entendida e feita por sinais, não são necessárias muitas palavras". Parar o choro!" "Comer já!" são sinais que tornam a ordem mais eficaz. E o importante, elas sabem, é que a criança coma para que não fique doente. Se apesar disso a "tia" está mais nervosa ou com pressa, pode retirar o prato da criança que come muito lentamente. A criança é surpreendida e não reage; às vezes, entretanto, chora e o prato pode ser devolvido. Jamais vi alguém brincando com as crianças, distraindo-as para comerem.

A hora da refeição é uma hora de concentração, de atenção no alimento. Não é muito frequente a briga durante a refeição mas, caso ocorra, a criança é imediatamente repreendida — alguém lhe grila que pare, em tom de ameaça. Mesmo as crianças que não sabem segurar bem a colher começam a fazê-lo. Nesta hora, ninguém se importa com a sujeira de comida na mesa ou no chão.

O serviço das "tias" é realizado porque há uma tarefa a ser cumprida, sem que elas tenham tempo de ver o que se passa com a criança individualmente. Há dias em que essa possibilidade é maior, mas o serviço é encarado como uma tarefa. E há sempre outras a cumprir, portanto não se podem deter muito. A meta constante, ao atender a criança, é fazer a tarefa. Vejamos uma observação que evidencia a falta de atenção individual à criança, a falta de paciência dos funcionários, o ambiente pesado e pouco amistoso na hora da refeição:

Às 10 horas e 15 minutos todas as crianças entram para o

almoço. Os babys tomaram banho, foram ao vaso e sentaram

para comer à mesa. As crianças recebiam comida na boca.

Uma delas batia de leve com a colher no prato, a "tia" logo se

irritou e chamou ,a atenção: "Pare de gracinha! Você sempre

come bem, por que hoje faz assim? Trate de comer direitinho,

senão lhe tiro o prato!". O menino, de 1 ano e 7 meses

aproximadamente, continuou a não comer e a bater de leve no

prato. Ela avisou mais duas vezes, muito irritada e, na terceira,

retirou o prato. Ela dava comida a outras duas crianças ao

mesmo tempo. Ele comia, em geral, só. Com a retirada do

prato, começou a chorar. Ela se irritou mais. "Você pensa que

eu vou ter esta paciência com você outro dia? Não vou, não!".13

Foi lá, pegou-o, colocou-o mais perto com gestos bruscos e

devolveu-lhe o prato. Deu a primeira colherada, ele ainda

chorava e recusou. A "tia" largou a colher reclamando e

continuou a dar alimento aos outros. Enquanto isto, no pátio

interno, os maiores assistiam televisão. Todos muito sujos,

melados de doce, ainda não haviam tomado banho. Fazia muito

calor. Todos muito irritados. Brigavam à toa. Ouviu-se uma

criança chorando. Uma delas deitou no banco, chamando pela

mãe, inconsolável, e chorando sem que ninguém chegasse

perto. Um outro brincava com um cobertor — cobria os colegas

e eles morriam de rir, neste jogo ele sumia e aparecia (vide foto

5). O cobertor, entretanto, foi logo recolhido pela funcionária,

pois não é permitido o seu uso no recreio.

 

Foto 5: Um brincava com um cobertor — cobria os colegas e eles

morriam de rir. O cobertor, entretanto, foi logo recolhido, pois não é

permitido o seu uso no recreio.

No almoço dos maiores o Carlinhos, após comer um pedaço de

mamão — dado na mão —, pedia, com um gesto, mais um

pedaço. A funcionária tinha um prato com vários pedaços, mas

quando entendeu que o menino queria mamão não sei por que

recusou e resmungou algo que não entendi, devolvendo o prato

com mamão à cozinha. Ela estava muito irritada. O período

antes e durante o almoço sempre tem choro e criança brigando

— um clima horrível de tensão e elas duas também já tensas.

Carlinhos começou a chorar quando entendeu a recusa.

Esfregava o olho com a mão suja e chorava muito. Ela se

ocupava de outras crianças. Depois de alguns minutos, não

aguentando mais seu choro forte, perguntei a ela se não

poderia dar-lhe um pedaço de mamão. Quando dei, ele se

acalmou e começou a comer. Tentei acalmá-lo antes fazendo

carinho, mas de nada adiantou.

A espera para que uma atividade seja realizada é frequente em todos os internatos. Para as crianças da creche, a espera da refeição é um momento particularmente tenso. Não deixam que permaneçam com brinquedos no pátio interno, contíguo ao refeitório. Elas esperam ali, sem ter nada para fazer, ou sentam-se à mesa.

Logo após as refeições, as crianças vão ao vaso e depois vão dormir. Muitas vezes, a tensão se prolonga até que durmam. No dormitório dos babys ficam uma ou duas "tias" que aquietam o bebê que quer receber atenção, brincar ou chorar. Dizem: "Psiu! Fique quieto". O que se nota na hora da alimentação, na higiene, na troca de roupa ou no momento de dormir é que a criança é tratada como um objeto. Estas atividades, quando realizadas pela mãe ou sua substituta, são momentos importantes no relacionamento com o bebê, momentos de troca afetiva e prazer. Neste internato, os cuidados dados à criança são feitos sem praticamente qualquer troca afetiva, sem ninguém que lhes explique o que ocorre ou vai ocorrer, e sem levar em conta suas reações, que não são sequer notadas.

Nos internatos estudados, observei as características mais

importantes que se repetem em quase todo 14 atendimento institucional: a criança é tratada como um objeto, sua individualidade não é respeitada, não é dada importância ao estabelecimento de relações afetivas significativas, não é notado seu sofrimento ou desejo de se sentir amada. Junta-se a todos esses fatores a transferência constante da criança para lugares novos, o que torna mais difícil o estabelecimento de relações afetivas significativas e a continuidade desses vínculos. Ao ser transferida, a criança perde todos os vínculos feitos com adultos e crianças e já começa a aprender que, nesta trajetória de vida institucional, as relações serão sempre desfeitas, não havendo condições de se sentir segura, de ser amada, e nem de continuidade deste amor.

As funcionárias também sofrem e percebem o sofrimento que a transferência traz às crianças.

Este negócio de mudança... a criança, coitadinha, se acostuma

aqui, sai para outro lugar, eu acho que isso influi muito na vida

da criança, né. Ah, eu acho ruim para eles. Porque você vê, ele

já está acostumado, aí vê tudo diferente, outras pessoas, outras

crianças... Eu acho que deveria ser assim: ter uma creche, uma

creche que eles viessem para cá pequenininhos e ficassem

aqui até chegar a uma idade que eles entendessem as coisas;

uns 9, 10 anos para eles poderem entender, saber o porquê das

coisas, o porquê de ter que sair daqui para outro lugar, porque

uma criança de 10 anos, ele já entende as coisas. Mas uma

criança até três, quatro anos, ela não entende nada. Ela tem um

pouco de inteligência, mas ela não entende as coisas ainda

não. Ah, sofre muito mais! (Atendente)

Neste sistema de internatos para "menores" observa-se que há um consenso geral, que podemos definir como "crença de que não se devem estabelecer relações afetivas entre funcionários e

crianças". 15

...se a gente se apegar à criança da creche é ruim; quando eles

vão embora a gente sofre demais, a gente não quer que eles

vão embora. Não se deve dar carinho demais à criança, senão

dá problemas para a criança e para a gente (Atendente).

Há também um consenso entre as funcionárias de que se deve tratar as crianças de maneira igual e que se uma delas dá "dengo demais", a criança chora muito e pensa que a "'tia" só deve cuidar dela. Então, toda funcionária novata é advertida pelas outras para não se apegar muito às crianças.